Pensamento do dia

O senso comum é o menos comum de todos os sensos.

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Aviso aos navegantes

Pois é, meus caros.

Neste ano atípico de 2022, senti-me na obrigação de adiar o tradicional recesso quaresmal do Blog para apresentar, semana passada, a série especial do Blog sobre a guerra entre Rússia e Ucrânia.

Cumprida esta missão, e prestada ontem a sempre justa homenagem às nossas queridas e guerreiras mulheres – que, fora tudo, ainda têm de aturar as “homenagens” que lhe são oferecidas por determinadas autoridades -, sinto-me livre, leve e solto para recolher-me ao período de contemplação que se inicia no carnaval e vai até a Semana Santa. E, mais do que nunca, estarei orando pela paz no mundo.

Porque, convenhamos, é exatamente disso que estamos precisando neste momento.

Até breve.

Cordialmente,

O Autor

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Trilha sonora do momento

Dizem que a mulher é o sexo frágil

Mas que mentira absurda

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Pensamento do dia

Lugar de mulher é onde ela quiser.

#ProntoFalei

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Dando a cara a tapa – Série especial “A guerra Rússia x Ucrânia”: O panorama político brasileiro

Chegando ao final desta curta semana especial no Dando a cara a tapa, o leitor amigo deverá estar se perguntando: “E o Brasil no meio disso tudo? Como é que fica?”

Deixando propositalmente para o final, a análise sob os efeitos da guerra sobre o panorama político brasileiro envolve talvez o aspecto mais irrelevante quando se leva em consideração tudo que está envolvido na crise. Afinal, no meio de um conflito que pode eventualmente levar a uma apocalíptica troca de mísseis nucleares, quem no mundo irá se importar com o que acontece neste recanto esquecido do planeta? Mas, como somos brasileiros e temos que conviver, ao lado das crises internacionais, com as crises nossas de todos os dias, parece óbvio que a análise conjuntural revela alguma forma de interesse para o leitor amigo.

Do ponto de vista prático, a história ensina que as guerras têm pouco ou nenhum impacto no cenário político brasileiro. Com exceção da II Guerra Mundial, que, por conta do esforço de guerra norte-americano, alterou a matriz industrial brasileira e acabou resultando, após o seu final, na queda do Estado Novo, todas as demais não foram sequer dignas de nota por aqui. A I Guerra Mundial começou e terminou sem que nada de relevante se alterasse nestas terras onde canta o sabiá. Idem para as guerras da Coréia, do Vietnã e para todas as outras que se seguiram à queda do muro de Berlim (Iraque I e II, balcãs, Afeganistão e etc). Por que imaginar, então, que o conflito de agora será diferente?

Em primeiro lugar, há de se considerar que o presidente do Brasil é Jair Bolsonaro. Ele, que se elegeu prometendo a “desideologização” da política externa brasileira, acabou praticando o maior esforço de doutrinação ideológica jamais visto por estas bandas. Depois de se abraçar a Donald Trump e Benjamin Netanyahu (e ficar órfão dos dois), Bolsonaro parece ter enxergado em Vladimir Putin o “modelo de masculinidade” que ele próprio quer imprimir à presidência do país. Só isso pode explicar o fato de que o presidente tenha resolvido literalmente atravessar o mundo para escorregar numa casca de banana no outro lado do planeta. Ou quem iria registrar uma visita tão desimportante se não estivéssemos a menos de uma semana de uma guerra conflagrada?

Ao “prestar solidariedade” ao ditador russo, Bolsonaro deu curto-circuito na sua rede de apoiadores. Ele, que construiu sua plataforma política denunciando o “comunismo”, agora via-se gostosamente ao lado de um ex-agente da famigerada KGB, líder da nação que foi berço da Revolução Bolchevique. É sintomático, portanto, que Bolsonaro tenha tentado vender Putin como um “conservador”(risos). Trata-se claramente de uma estratégia de contenção de danos perante a sua base mais radical e ideologizada.

Isso, contudo, não deve ter lá grandes efeitos práticos. A uma, porque as pessoas que vociferam contra o “comunismo” continuarão a seguir o seu líder para onde ele for, simplesmente pela falta de alguma alternativa imediata à mão. A duas, porque, do lado da esquerda, o cenário nesse particular não é exatamente muito auspicioso. Vide, por exemplo, as declarações desenxabidas de Lula e outros líderes da esquerda brasileira pedindo pela paz, mas sem em momento algum condenar Putin ou a Rússia pelo conflito.

O ponto em que a guerra deve provocar algum alvoroço e causar impacto relevante no cenário político nacional é justamente aquele que mais chama a atenção em época de eleições: a economia. Flagelado pela pandemia, abatido pelo desemprego e corroído pela inflação, o bolso do brasileiro encontra-se em petição de miséria. Às voltas com a maior inflação desde o período Dilma e mal saindo do baque provocado pelo coronavírus, a economia brasileira está cambaleante e não dá mostras de que vá se sustentar em um cenário tão desafiador por muito tempo.

Para começar, a literatura econômica ensina que as guerras possuem um intrínseco efeito inflacionário. De modo a financiar o esforço de batalha, as nações envolvidas costumam gastar desmedidamente as suas fazendas, para poder fazer frente ao inimigo externo. Em tempos passados, esse efeito acabava ficando de certo modo restrito aos países conflagrados. Hoje, numa economia globalizada e com a cadeia de produção espalhada pelo mundo, é mais do que natural que esse efeito inflacionário se espalhe por todo o globo.

A fim de comprovar essa tese, nem é necessário citar o exemplo óbvio do petróleo e do gás. Basta lembrar do trigo, aquele cereal responsável pelo pão nosso de cada dia, pelas massas, pelo biscoitos. Embora o Brasil importe quase todo o trigo que consome da Argentina, é evidente que o seu preço será afetado pelo virtual alijamento da Ucrânia e da Rússia do mercado, responsáveis que são por quase 30% da produção mundial. Isso, claro, para não falar de outras commodities agrícolas, como a soja (que alimenta o gado) e o milho (que alimenta as aves), cujos aumentos certamente detonarão uma verdadeira reação em cadeia na grade alimentar brasileira.

Como desgraça pouca é bobagem, a guerra ainda promove um natural efeito recessivo na economia global. Em tempos de guerra, todo mundo instintivamente segura os gastos, porque ninguém sabe como estará o dia de amanhã. Para piorar, o conflito chega em um momento econômico criticamente delicado, com uma concertação de aumento dos juros por parte dos maiores bancos centrais do planeta, depois de um longo período de juros negativos e impressão de dinheiro como jamais vistos na história da humanidade. A combinação de aumento de juros com redução de liquidez tende a funcionar como verdadeiro torniquete financeiro nas economias centrais, sendo o aperto sentido quase como um estrangulamento de jibóia nas economias periféricas (nas quais se encontra o Brasil).

Sem alternativas à mão e com uma economia mundial entrando em franco terreno contracionista, nada leva a crer que Paulo Guedes vá poder fazer muita coisa para alavancar as chances eleitorais de Jair Bolsonaro neste ano. Muito pelo contrário. O mais provável é que se comecem a desenhar medidas ainda mais heterodoxas no campo fiscal para poder fazer frente às vicissitudes que se avizinham. Não custa lembrar que o último aumento da gasolina data de quase dois meses atrás, quando o barril estava a U$ 80,00. Nesta semana, o preço do óleo bateu os US$ 120,00 (50% a mais). Nesse caso, o salseiro tende a azedar de vez as relações do governo com a galera do dinheiro grosso (o tal do “mercado”). Basta ver o que aconteceu com a PEC dos precatórios. Uma nova PEC do tipo “kamikaze” potencializaria em dobro o estrago que sua antecedente provocou.

Com inflação em alta e economia em baixa (nenhum economista sério projeta mais do que 0,5% de crescimento para o PIB neste ano), tem-se um caldo que pode se revelar fatal para a reeleição do presidente da República. Querendo ou não, é sobre ele que recaem todos os louros e todas as culpas sobre o que acontece no cenário econômico. Na maratona reeleitoral, portanto, Bolsonaro parece condenado a correr com somente uma das pernas (a ideológica), porque a outra (a economia) estará fora de combate.

Resta saber, contudo, como seus adversários irão se aproveitar desse cenário.

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Dando a cara a tapa – Série especial “A guerra Rússia x Ucrânia”: O panorama geopolítico

Dando sequência a esta curta semana especial no Dando a cara a tapa, vamos analisar o contexto do conflito russo-ucraniano sob o aspecto talvez mais relevante: o geopolítico. Se ontem a guerra foi analisada sob uma perspectiva puramente econômica, hoje vamos tentar descer às minúcias das conturbadas relações diplomáticas no leste europeu e de como o conflito pode se desenrolar conforme os interesses das maiores nações envolvidas no problema, direta ou indiretamente.

Para poder alcançar tal objetivo, o primeiro passo por certo é afastar o que há de barulho e o que há de torcida na análise é centrarmo-nos na análise dos fatos propriamente ditos. Somente isso pode garantir que não nos contaminemos pela palavra mais maldita em qualquer tipo de observação, aqui e alhures: as “narrativas” (argh!). Afinal, como diria Ésquilo, numa guerra, a primeira vítima é a verdade.

De um lado do espectro político, a direita mais radical verá em Vladimir Putin um ex-espião da KGB sedento de poder, isolado e paranóico, com tendências megalomaníacas de restauração da União Soviética ou mesmo da Rússia Czarista. Do lado da esquerda, a tendência míope de querer enxergar tudo sob o prisma enviesado do “anti-imperialismo ianque” acaba por denunciar o desejo incontido de ressurreição da “Grande Mãe Rússia”, como se a derrota inequívoca e acachapante de 1989 pudesse d’algum modo ser vingada pelo ditador “soviético” de turno. Aliás, voltar ao último ano da década de 80 é condição sine qua non para poder compreender como chegamos até aqui.

Com a queda do muro de Berlim, consagrou-se a vitória incontestável do chamado “mundo livre” contra os países integrantes da “cortina de ferro”. As cenas de alemães em festa em cima da outrora inexpugnável barreira que dividia a capital alemã traduziam de modo incontestável o abismo a separar esses dois mundos. Como disse John Kennedy no seu célebre discurso Ich bin ein berliner, “Freedom has many difficulties and democracy is not perfect, but we have never had to put a wall up to keep our people in, to prevent them from leaving us“ (“A liberdade tem muitas dificuldades e a democracia não é perfeita, mas nós nunca tivemos de erguer um muro para manter nosso povo nele, para impedi-los de nos deixar“). Esse acontecimento histórico, contudo, deixou feridas ainda não inteiramente cicatrizadas no mundo oriental, como a crise de agora está a demonstrar.

É fato que os americanos haviam se comprometido em limitar sua expansão ao leste à anexação da então Deutsche Demokratische Republik (“República Democrática Alemã”, ou simplesmente DDR). É fato, também, que os Estados Unidos e seus aliados quebraram essa promessa ao expandir a OTAN para além de Dresden. Isso, contudo, não apaga os seguintes fatos:

1 – A Ucrânia é uma nação independente, que abriu voluntariamente mão das armas nucleares sediadas em seu território para separar-se da Federação Russa, com a promessa de que sua integridade territorial jamais viria a ser violada por qualquer das então superpotências mundiais;

2 – A Rússia iniciou a guerra sem ter sido em momento algum atacada ou sequer ameaçada pela Ucrânia;

Qualquer ponto de vista que relativize esses dois fatos já começa errado, portanto. Como nação independente, a Ucrânia deveria poder se aliar ou se unir a quem quiser. Aqueles que enchem a boca para denunciar o “imperialismo norte-americano” parecem não se dar conta de que, ao fazê-lo, estão a legitimar o imperialismo russo. Ou não seria imperialismo querer obrigar uma nação vizinha a ficar sob a sua “zona de influência”, independentemente do que queira o seu povo?

Querer culpar os Estados Unidos ou a Ucrânia pelo que está acontecendo é, mal comparando, o mesmo que culpar a vítima pelo estupro que sofreu. É como se a Ucrânia tivesse saído na noite com roupas sumárias, exibindo seus dotes físicos por aí, “convidando” o agressor a tomá-la à força. Qualquer um familiarizado com a estultice desse raciocínio saberá identificar as semelhanças entre a argumentação da “vítima responsável pelo estupro” com a argumentação das “provocações da Ucrânia deram início à guerra”. No estupro, o culpado é o estuprador, ponto. Na guerra de agora, o culpado é o Estado agressor (no caso, a Rússia), ponto.

Estabelecida essa premissa, é possível identificar a razão pela qual as coisas parecem estar indo de mal a pior para Putin nessa parada, pelo menos até o momento. Sun Tzu já ensinava há mais de 2.500 anos que a guerra é um combate moral que é vencido nos templos antes mesmo de ser disputada. O ditador russo, esse “grande estrategista geopolítico” (risos), perdeu a batalha antes mesmo de dar as ordens a seu exército. Putin imaginava que seus movimentos devolveriam à Rússia o status de superpotência mundial e interromperiam o avanço ocidental sobre a outrora inacessível zona de influência soviética. Ao contrário do imaginado, contudo, os resultados foram os seguintes:

1 – Deu novo sentido existencial à OTAN, que tinha perdido a razão de ser com a queda da União Soviética;

2 – Reunificou a Europa, imersa em conflitos e dilemas hamletianos sobre ser ou não ser uma grande federação unificada;

3 – Colheu a maior crise econômica de sua história.

É um erro, porém, pensar que, por ter pedido a batalha por corações e mentes, Putin venha efetivamente a perder a guerra. Por mais erros que o Exército Vermelho tenha cometido desde o início dos embates, sendo subestimar a defesa ucraniana o maior deles, não passa pela cabeça de ninguém que a Ucrânia possa vencer militarmente o conflito. A desproporção de forças é evidente. E, dada a impossibilidade de contar com a ajuda de tropas externas, sob o risco de conflagração nuclear, o mais provável é que em determinado momento a Rússia consiga subjugar as forças ucranianas.

E aí?

Como já nos ensinaram as guerras do Vietnã (EUA), Afeganistão (URSS), Iraque (EUA) e Afeganistão II (EUA), vencer militarmente é uma coisa; vencer de fato é outra, bem diferente e mais complexa. Numa guerra de conquista, não basta destronar o governo inimigo. É necessário saber como se vai governar a nação que se erguerá dos escombros. Nesse sentido, há basicamente dois meios de fazê-lo: 1 – governar por meios próprios, reprimindo pela força a população conquistada; ou 2 – organizando um governo fantoche, formado por nacionais adesistas que se submetam aos ditames da nação invasora.

Descarte-se, por impraticável, a primeira hipótese. Já faz mais de um século que a história ensina que guerras de conquista não podem ser vencidas por nações invasoras. O volume de pessoal e de dinheiro necessários para manter uma força de ocupação indefinidamente em território alheio tornam política e economicamente inviável qualquer projeto de conquista. E há de se lembrar que a Rússia não é exatamente uma nação rica, muito pelo contrário, ainda mais agora, depois de depenada financeiramente pelas sanções ocidentais.

A segunda hipótese tem mais chances de prosperar, é fato. Contudo, para que o plano de ocupação funcione, é indispensável organizar um governo que conte com um mínimo de legitimidade perante a população vencida. Dado o desastre de propaganda protagonizado por Putin e o renovado sentimento nacionalista ucraniano despertado pela invasão, é difícil imaginar que os russos consigam organizar semelhante esquema. Os Estados Unidos, que são os Estados Unidos, tentaram fazer o mesmo no Iraque e no Afeganistão. Os resultados estão aí, para quem quiser ver.

O que se desenha para o conflito Rússia e Ucrânia, portanto, parece ser um cenário de verdadeiro atoleiro. A essa altura do campeonato, Putin não pode simplesmente voltar atrás na empreitada, sob pena de colocar sua própria posição pessoal em risco internamente. Por outro lado, ainda que tome Kiev e as principais cidades ucranianas, vai ser difícil imaginar que a Ucrânia simplesmente se renda e aceite passivamente ser reintegrada ao novo velho Império Russo. O que se desenha, portanto, é uma reprise da invasão da Chechênia, só que com um território e uma população quarenta vezes maiores.

Enquanto se atola na Ucrânia, Putin terá que se virar para enfrentar um isolamento internacional que nem a União Soviética nos seus piores momentos conheceu. Na votação realizada pela Assembléia Geral da ONU, os russos só colheram as simpatias da Coréia do Norte, da Eritréia, da Bielorússia e da Síria. Nem a aliada China e nem mesmo a outrora apadrinhada Cuba se animaram a votar a favor do ditador russo. Isso significa que a oligarquia russa, tão acostumada aos gostos e aos luxos ocidentais, terá de se acostumar com novos roteiros turísticos e dar adeus aos seus apartamentos em Paris.

Ironicamente, Vladimir Putin poderá enfim alcançar um objetivo perseguido pelos Estados Unidos desde pelo menos os primeiros atritos da Guerra Fria: isolar a Rússia dentro de si, apartando-a literalmente do mundo.

Por quanto tempo isso durará e como o mundo funcionará sem contar com a Rússia dentro dele?

Bem, aí só Deus sabe…

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Dando a cara a tapa – Série especial “A guerra Rússia x Ucrânia”: O panorama econômico

Quem acompanha o Blog há algum tempo já está familiarizado com o tradicional recesso quaresmal do Dando a cara a tapa. No entanto, com a eclosão do conflito entre Rússia e Ucrânia na semana passada, sinto que estaria a desapontar-vos se simplesmente partisse para o meu retiro sem deitar um ou duas linhas mais aprofundadas sobre o assunto.

Isto posto, para poder recolher-me em paz de espírito e com a consciência limpa, tomarei os primeiros dias quaresmais para apresentar mais uma Série especial do Blog. Será uma série curta, é verdade, com apenas três episódios. No entanto, espero modestamente que, com isso, possa ajudar-vos compartilhando o pouco que entendo sobre alguns assuntos que eventualmente definirão o rumo dessa triste guerra que se inicia.

Para começar, analisaremos o aspecto que talvez seja mais decisivo para o desenrolar dessa nova guerra eslava: a Economia. Porque, ao contrário dos conflitos do século XX, os grandes movimentos de “tropas” dão-se hoje na frente do computador, com o apertar de cliques de “buy” e “sell” nas principais praças financeiras mundiais.

Dando a cara a tapa – Série especial “A guerra Rússia x Ucrânia”: O panorama econômico

Pois é, meus amigos. Tal como alertado aqui no começo deste 2022, o mundo novamente está em guerra. Não que o conflito entre Rússia e Ucrânia fosse exatamente esperado ou desejado por quem quer que fosse. Todavia, quando em um dos lados enxerga-se o vulto de Vladimir Putin, sempre é mais seguro apostar no pior cenário. Como de hábito, Putin novamente não “decepcionou” nesse quesito.

Quando os primeiros mísseis foram disparados contra o solo ucraniano, muito analista de Twitter celebrou a “genialidade” e a “frieza” do ditador russo, que estaria preparando há tempos a invasão contra a vizinha Ucrânia. Mais que isso, Putin teria se preparado inclusive para as sanções ocidentais, acumulando impressionantes US$ 630 bilhões em reservas internacionais. Tudo para fazer frente às vicissitudes impostas por um provável bloqueio econômico que se seguiria à incursão armada. O que os “especialistas em geopolítica de final de semana” não contavam é que, assim como ocorreu em inúmeros casos na história, Putin estava jogando a guerra passada.

Ao tomar a Criméia em 2014, a Rússia não promoveu um só disparo de artilharia. A entrada do exército vermelho na então península ucraniana foi quase saudada pela população local, majoritariamente russófila. Em menos de uma semana, o equivalente ao parlamento da Criméia votava em peso pela adesão à Federação Russa. Do lado ocidental, houve apenas as sanções burocráticas de praxe: encerramento de colaborações bilaterais, repúdio nos foros internacionais e bloqueio de ativos a pessoas específicas (nenhuma delas de alto coturno, registre-se). O “pior” que houve então foi a expulsão da Rússia do G8, o que, convenhamos, é o mesmo que nada.

Diante desse histórico, é pelo menos admissível imaginar que Putin imaginava um cenário de “mais do mesmo”, isto é, suas tropas “passeando” pelo território ucraniano, sendo recebidas com festa pela população local e as nações ocidentais, impotentes, acenando com sanções do tipo “me engana que eu gosto”. Todavia, desta feita o buraco foi muito mais embaixo.

Para além da feroz resistência dos ucranianos e do seu exército ao invasor russo, que será analisada mais detidamente no post de amanhã, a resposta do Ocidente à agressão da Rússia foi muito mais violenta do que provavelmente imaginado no pior cenário concebido por Putin. Numa só tacada, o Ocidente bloqueou as reservas russas, tirou seus bancos do sistema swift e anunciou uma perseguição implacável aos bens da oligarquia russa, quase todos localizados no mundo ocidental. É artilharia pra ninguém botar defeito.

O primeiro tiro, de grossíssimo calibre, foi o cerco financeiro promovido contra o Banco Central Russo. Gestor das reservas internacionais do país, o BCR é o responsável por comprar e vender moedas, títulos e metais preciosos que costumam integrar a reserva de valor de qualquer país. Com a negativa de liquidez aos depósitos e à movimentação de dinheiro depositado em instituições internacionais, a reserva de emergência da Rússia – ou o war fund a que Joe Biden fez referência no discurso do Estado da União de ontem – literalmente micou.

Dos tais U$ 630 bilhões que a Rússia teria oficialmente à disposição, apenas US$ 30 bilhões estão disponíveis dentro do país. O resto está disperso pelo resto do mundo, ou seja, bloqueado pelas nações ocidentais. Mesmo a parte das reservas disponíveis em ouro (US$ 135 bilhões) não são imediatamente conversíveis em dinheiro, e uma eventual venda por deprimir o próprio valor do ativo.

Sem poder ter acesso aos fundos e enfrentando uma corrida bancária de russos desesperados – o maior banco russo sediado na Europa já fechou as portas depois que seus clientes correram às agências para sacar o seu dinheiro -, a presidente do BCR pediu arrego. Elvira Nabiullina afirmou que a situação de seu país mudara “dramaticamente” e que uma tal medida era absolutamente “anormal”. Ninguém no Ocidente, salvo talvez o presidente Jair Bolsonaro, prestou “solidariedade” à presidente do BC russo.

Para se ter uma idéia do tamanho do estrago que essa medida pode causar, basta transportar o caso russo para o cotidiano de um cidadão comum. Imagine você, leitor amigo, na iminência de perder um emprego. Previdente, você guarda dinheiro para enfrentar os tempos difíceis que se avizinham. Obviamente, você não vai guardar todo o dinheiro embaixo do colchão. Parte dele, ínfima, pode até ficar em casa, mas a maior parte vai ficar depositada em um banco. Todavia, quando a carta de demissão chega, você descobre que o banco bloqueou suas contas e você não pode movimentar o dinheiro que está lá depositado.

E aí? Faz o quê? O dinheiro guardado no colchão pode até segurar a onda por um tempo, mas não é algo que vai te levar longe. Os bicos – no caso da Rússia, a venda de óleo e gás – podem até te dar mais um fôlego, mas uma hora você vai ficar insolvente, sem poder pagar as contas da casa e comprar comida. É mais ou menos isso que está acontecendo com a Rússia. Não por acaso, a hipótese de quebra do país já está sendo discutida abertamente no mercado financeiro.

Para além do bloqueio das reservas, a retirada da Federação Russa do sistema swift provoca um impacto igualmente violento na estabilidade do seu sistema financeiro. O sistema swift é o que permite a transmissão e a circulação de dinheiro entre as diversas instituições que integram o sistema financeiro internacional. Com o canal financeiro cortado, é difícil até imaginar como as vendas de óleo e gás possam continuar se mantendo por muito mais tempo, dada as dificuldades que surgirão naturalmente para a liquidação financeira dessas operações.

Não se subestime, também, o impacto político e econômico das sanções impostas aos oligarcas russos. Por mais mão de ferro que Putin possa ter, ninguém governo nenhum país, ainda mais um com as dimensões da Rússia, sem estar apoiado numa delicada, mas sólida, rede de apoio interna. Embora os gostos ocidentais do tipo iates de luxo, tênis da Nike e celulares Iphone possam ser contornados pela cleptocracia corrupta da Rússia pós-soviética, nenhum oligarca, por mais adesista que possa ser, vai querer continuar muito tempo sentindo o bafo das sanções ocidentais no seu cangote. Em algum momento esse desconforto vai se transformar em pressão contra o ditador russo. E aí, quando a coisa começar a bater no bolso, vai ser a hora de ver até onde o apoio que Putin recolhe nas elites russas vai se manter.

Ao contrário do imaginado, portanto, é Putin – e não a Ucrânia – que corre desesperadamente contra o tempo nessa guerra. Se a imaginada vitória militar rápida e incontestável demorar demais a chegar, as sanções econômicas tornarão a vida dos russos cada vez mais difícil. Com isso, a pressão popular e política – para além da internacional – podem tornar o ambiente interno cada vez mais insuportável, a ponto de forçar uma retirada ou, no mínimo, um cessar fogo unilateral por parte da Rússia. Seria a suprema humilhação para o pretendente a “novo Czar”.

É isso que vai acontecer?

Só Deus sabe. A única coisa certa a essa altura é que o mito do “Putin-estrategista-genial-que-se-preparou-para-a-resposta-do-Ocidente” caiu por terra. Sob esse aspecto, a guerra por parte da Rússia já está perdida. Resta saber em que condições ela vai sair dessa.

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Trilha sonora do momento

Dogs of war

And men of hate

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Pensamento do dia

A guerra é um massacre entre pessoas que não se conhecem, para beneficiar pessoas que se conhecem, mas não se massacram.

By Paul Valéry

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A crise na Ucrânia, ou Teremos guerra?

Da onde menos se espera, daí é que não vem mesmo, já ensina a sabedoria popular. Tal é o sentimento do cidadão aflito ao assistir ao noticiário internacional no dia de hoje.

Para quem veio de Marte ou recém despertou de um coma profundo, Rússia e o Ocidente medem forças em pleno território ucraniano. Ex-integrante da União Soviética, a Ucrânia é, a um só tempo, o palco de um dos acidentes mais terríveis já presenciados pelo ser humano (Chernobyl) e um ponto de ligação estratégico entre o “continente russo” e a Europa. De quebra, a Ucrânia ainda é uma potência agrícola e um produtor relevante de ferro, manganês, gás e petróleo. Há muitos intere$$es, portanto, rondando a região.

Assim como previsto aqui, o desenlace da crise ucraniana envolveria grandes emoções de lado a lado. Como pano de fundo, a discussão é relativamente simples. Com o fim da União Soviética, a Rússia se ressente de seu outrora glorioso passado de superpotência e deseja assim ser tratado pelos demais players internacionais. Mesmo com a economia em franca decadência desde pelo menos a década de 70, os russos ainda mantêm consigo o segundo maior arsenal atômico do planeta. Convenhamos, não é pouca coisa.

Do lado do Ocidente, a idéia – como sempre – é jogar os russos para o mais Oriente possível do mundo, afastando-os da Europa. Daí a quebra dos acordos não firmados após a dissolução do império soviético, de que os aliados não iriam mais ao leste da Alemanha Oriental na sua disputa por áreas de influência no mundo. Era o “preço” cobrado pelo Exército Vermelho para não colocar areia na reunificação alemã. Promessa jogada fora, as repúblicas bálticas (Estônia, Letônia e Lituânia), Polônia, Hungria, Eslováquia, Romênia e Bulgária – todas elas ex-integrantes da “Cortina de Ferro”-, viraram a casaca e passaram a jogar com as cores da OTAN, a entidade ocidental antípoda ao falecido “Pacto de Varsóvia”. Parecia claro que era só questão de tempo até a Rússia querer dar o troco.

Pois parece ser justamente isso que está acontecendo agora. Jogando numa estratégia de tensão, os russos alegam – não sem alguma dose de razão – que não podem permitir a introdução de armamento pesado ocidental em nações com as quais fazem fronteiras. Mal comparando, seria o mesmo que os Estados Unidos admitirem a instalação de mísseis em Cuba, no seu quintal de casa. Esse mesmo caso já aconteceu em 1962 e foi o mais perto que o mundo esteve da Terceira Guerra Mundial (pelo menos até o momento).

Desde a derrubada do presidente ucraniano pós-Moscou em 2014, Vladimir Putin vem tentando expandir sua influência na região. E a melhor forma de fazer isso, ao menos sob a sua perspectiva, é exibir os músculos do Exército Vermelho. Daí a anexação da Criméia em 2014 e o apoio aos separatistas ucranianos das regiões de Donetsk e Luhansk, cujos territórios o presidente russo, no dia de hoje, reconheceu como independentes.

Cartas na mesa, resta saber agora o que o Ocidente vai fazer. Do ponto de vista prático, é difícil imaginar uma ação armada contra os russos, mesmo em caso de uma ampla invasão e anexação do território ucraniano por Putin. Para além do risco do “fim do mundo” (uma guerra nuclear aberta), não faz sentido que os membros da OTAN saiam em defesa de um país que nem sequer é integrante da organização. Ademais, seria no mínimo duvidoso entrar numa parada assim, tão encarniçada, para enfrentar um inimigo militarmente mais poderoso, que “joga em casa”, para tão-somente reafirmar a independência de um possível-sabe-se-lá-mas-não-há-muita-certeza aliado.

O mais provável, portanto, é que a briga continue no campo das sanções econômicas. Por mais “soviéticos” que os russos queiram ser, o fato é que a economia mundial, hoje, é muito mais integrada do que era na Guerra Fria. Está certo que um eventual apoio da China pode fazer alguma diferença, mas a Rússia vai precisar de muito mais do que isso para sobreviver economicamente se a porca entortar o rabo. Fechar o acesso aos mercados mundiais dos bancos e das empresas russas (especialmente as do setor de energia) pode causar um estrangulamento econômico progressivo que nem as boçais reservas em dólar do Banco Central Russo serão capazes de enfrentar. E aí teremos que ver quem vai piscar primeiro: o Ocidente ou os russos.

Convém, entretanto, colocar as barbas de molho. Quando o estudante bósnio Gavrilo Princip puxou o gatilho da sua arma para assassinar Francisco Ferdinando, herdeiro do Império Austro-Húngaro, ninguém imaginou que os balcãs pudessem valer mais do que os ossos de um granadeiro pomeraniano (Bismark).

Deu no que deu.

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