Dando a cara a tapa – Série especial “A guerra Rússia x Ucrânia”: O panorama econômico

Quem acompanha o Blog há algum tempo já está familiarizado com o tradicional recesso quaresmal do Dando a cara a tapa. No entanto, com a eclosão do conflito entre Rússia e Ucrânia na semana passada, sinto que estaria a desapontar-vos se simplesmente partisse para o meu retiro sem deitar um ou duas linhas mais aprofundadas sobre o assunto.

Isto posto, para poder recolher-me em paz de espírito e com a consciência limpa, tomarei os primeiros dias quaresmais para apresentar mais uma Série especial do Blog. Será uma série curta, é verdade, com apenas três episódios. No entanto, espero modestamente que, com isso, possa ajudar-vos compartilhando o pouco que entendo sobre alguns assuntos que eventualmente definirão o rumo dessa triste guerra que se inicia.

Para começar, analisaremos o aspecto que talvez seja mais decisivo para o desenrolar dessa nova guerra eslava: a Economia. Porque, ao contrário dos conflitos do século XX, os grandes movimentos de “tropas” dão-se hoje na frente do computador, com o apertar de cliques de “buy” e “sell” nas principais praças financeiras mundiais.

Dando a cara a tapa – Série especial “A guerra Rússia x Ucrânia”: O panorama econômico

Pois é, meus amigos. Tal como alertado aqui no começo deste 2022, o mundo novamente está em guerra. Não que o conflito entre Rússia e Ucrânia fosse exatamente esperado ou desejado por quem quer que fosse. Todavia, quando em um dos lados enxerga-se o vulto de Vladimir Putin, sempre é mais seguro apostar no pior cenário. Como de hábito, Putin novamente não “decepcionou” nesse quesito.

Quando os primeiros mísseis foram disparados contra o solo ucraniano, muito analista de Twitter celebrou a “genialidade” e a “frieza” do ditador russo, que estaria preparando há tempos a invasão contra a vizinha Ucrânia. Mais que isso, Putin teria se preparado inclusive para as sanções ocidentais, acumulando impressionantes US$ 630 bilhões em reservas internacionais. Tudo para fazer frente às vicissitudes impostas por um provável bloqueio econômico que se seguiria à incursão armada. O que os “especialistas em geopolítica de final de semana” não contavam é que, assim como ocorreu em inúmeros casos na história, Putin estava jogando a guerra passada.

Ao tomar a Criméia em 2014, a Rússia não promoveu um só disparo de artilharia. A entrada do exército vermelho na então península ucraniana foi quase saudada pela população local, majoritariamente russófila. Em menos de uma semana, o equivalente ao parlamento da Criméia votava em peso pela adesão à Federação Russa. Do lado ocidental, houve apenas as sanções burocráticas de praxe: encerramento de colaborações bilaterais, repúdio nos foros internacionais e bloqueio de ativos a pessoas específicas (nenhuma delas de alto coturno, registre-se). O “pior” que houve então foi a expulsão da Rússia do G8, o que, convenhamos, é o mesmo que nada.

Diante desse histórico, é pelo menos admissível imaginar que Putin imaginava um cenário de “mais do mesmo”, isto é, suas tropas “passeando” pelo território ucraniano, sendo recebidas com festa pela população local e as nações ocidentais, impotentes, acenando com sanções do tipo “me engana que eu gosto”. Todavia, desta feita o buraco foi muito mais embaixo.

Para além da feroz resistência dos ucranianos e do seu exército ao invasor russo, que será analisada mais detidamente no post de amanhã, a resposta do Ocidente à agressão da Rússia foi muito mais violenta do que provavelmente imaginado no pior cenário concebido por Putin. Numa só tacada, o Ocidente bloqueou as reservas russas, tirou seus bancos do sistema swift e anunciou uma perseguição implacável aos bens da oligarquia russa, quase todos localizados no mundo ocidental. É artilharia pra ninguém botar defeito.

O primeiro tiro, de grossíssimo calibre, foi o cerco financeiro promovido contra o Banco Central Russo. Gestor das reservas internacionais do país, o BCR é o responsável por comprar e vender moedas, títulos e metais preciosos que costumam integrar a reserva de valor de qualquer país. Com a negativa de liquidez aos depósitos e à movimentação de dinheiro depositado em instituições internacionais, a reserva de emergência da Rússia – ou o war fund a que Joe Biden fez referência no discurso do Estado da União de ontem – literalmente micou.

Dos tais U$ 630 bilhões que a Rússia teria oficialmente à disposição, apenas US$ 30 bilhões estão disponíveis dentro do país. O resto está disperso pelo resto do mundo, ou seja, bloqueado pelas nações ocidentais. Mesmo a parte das reservas disponíveis em ouro (US$ 135 bilhões) não são imediatamente conversíveis em dinheiro, e uma eventual venda por deprimir o próprio valor do ativo.

Sem poder ter acesso aos fundos e enfrentando uma corrida bancária de russos desesperados – o maior banco russo sediado na Europa já fechou as portas depois que seus clientes correram às agências para sacar o seu dinheiro -, a presidente do BCR pediu arrego. Elvira Nabiullina afirmou que a situação de seu país mudara “dramaticamente” e que uma tal medida era absolutamente “anormal”. Ninguém no Ocidente, salvo talvez o presidente Jair Bolsonaro, prestou “solidariedade” à presidente do BC russo.

Para se ter uma idéia do tamanho do estrago que essa medida pode causar, basta transportar o caso russo para o cotidiano de um cidadão comum. Imagine você, leitor amigo, na iminência de perder um emprego. Previdente, você guarda dinheiro para enfrentar os tempos difíceis que se avizinham. Obviamente, você não vai guardar todo o dinheiro embaixo do colchão. Parte dele, ínfima, pode até ficar em casa, mas a maior parte vai ficar depositada em um banco. Todavia, quando a carta de demissão chega, você descobre que o banco bloqueou suas contas e você não pode movimentar o dinheiro que está lá depositado.

E aí? Faz o quê? O dinheiro guardado no colchão pode até segurar a onda por um tempo, mas não é algo que vai te levar longe. Os bicos – no caso da Rússia, a venda de óleo e gás – podem até te dar mais um fôlego, mas uma hora você vai ficar insolvente, sem poder pagar as contas da casa e comprar comida. É mais ou menos isso que está acontecendo com a Rússia. Não por acaso, a hipótese de quebra do país já está sendo discutida abertamente no mercado financeiro.

Para além do bloqueio das reservas, a retirada da Federação Russa do sistema swift provoca um impacto igualmente violento na estabilidade do seu sistema financeiro. O sistema swift é o que permite a transmissão e a circulação de dinheiro entre as diversas instituições que integram o sistema financeiro internacional. Com o canal financeiro cortado, é difícil até imaginar como as vendas de óleo e gás possam continuar se mantendo por muito mais tempo, dada as dificuldades que surgirão naturalmente para a liquidação financeira dessas operações.

Não se subestime, também, o impacto político e econômico das sanções impostas aos oligarcas russos. Por mais mão de ferro que Putin possa ter, ninguém governo nenhum país, ainda mais um com as dimensões da Rússia, sem estar apoiado numa delicada, mas sólida, rede de apoio interna. Embora os gostos ocidentais do tipo iates de luxo, tênis da Nike e celulares Iphone possam ser contornados pela cleptocracia corrupta da Rússia pós-soviética, nenhum oligarca, por mais adesista que possa ser, vai querer continuar muito tempo sentindo o bafo das sanções ocidentais no seu cangote. Em algum momento esse desconforto vai se transformar em pressão contra o ditador russo. E aí, quando a coisa começar a bater no bolso, vai ser a hora de ver até onde o apoio que Putin recolhe nas elites russas vai se manter.

Ao contrário do imaginado, portanto, é Putin – e não a Ucrânia – que corre desesperadamente contra o tempo nessa guerra. Se a imaginada vitória militar rápida e incontestável demorar demais a chegar, as sanções econômicas tornarão a vida dos russos cada vez mais difícil. Com isso, a pressão popular e política – para além da internacional – podem tornar o ambiente interno cada vez mais insuportável, a ponto de forçar uma retirada ou, no mínimo, um cessar fogo unilateral por parte da Rússia. Seria a suprema humilhação para o pretendente a “novo Czar”.

É isso que vai acontecer?

Só Deus sabe. A única coisa certa a essa altura é que o mito do “Putin-estrategista-genial-que-se-preparou-para-a-resposta-do-Ocidente” caiu por terra. Sob esse aspecto, a guerra por parte da Rússia já está perdida. Resta saber em que condições ela vai sair dessa.

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