Imagine a seguinte cena: um banco cresce de forma espetacular, oferecendo rendimentos generosos, que deixam os concorrentes com inveja. Seus clientes, encantados com os juros altos e com a sensação de segurança, aportam seus recursos. Mas, assim como em qualquer pirâmide financeira, um dia a casa cai. E aí o escândalo aparece. Foi exatamente o que aconteceu no caso do Banco Master.
Para entender como um tamborete – chamar o Master de banco é uma ofensa ao conceito de casa bancária – chegou a ter R$ 80 bilhões em ativos e quebrou de forma tão espetacular, é preciso voltar um pouquinho no tempo.
Com o fim da espiral hiperinflacionária após a implementação do Plano Real, todo o sistema financeiro perdeu um poderoso aliado: a correção monetária. Como gostava de repetir seu criador, Roberto Campos (o avô, não o incompetente do neto), a correção monetária era um instrumento de primeira para economias de quinta. Era justamente essa a definição do Brasil desde os anos 1960 até o meio dos anos 1990.
Com a correção monetária, os ativos do banco, ao invés de serem depreciados pela inflação galopante, eram corrigidos no balanço pelo mesmo percentual da inflação. Logo, ninguém tinha de se preocupar com o tamanho dos seus ativos independentemente do percentual que a inflação alcançasse em um mês ou em um ano.
Se, no mundo das economias desenvolvidas, um banco vê, por exemplo, seus ativos imobiliários perderem metade do valor porque a inflação daquele ano foi de 50%, ou o banco recebe dinheiro dos seus acionistas (a famosa “chamada de capital”), ou ele simplesmente quebra. Nesse mesmo cenário, com a mágica da correção monetária, um ativo de R$ 100,00 passa a valer R$ 150,00, ficando elas por elas. Foi através dessa mandrakaria que o Brasil pôde conviver durante anos com uma inflação que, no acumulado, chegou a um quatrilhão por cento, sem que houvesse guerra civil ou uma revolução.
Para além do artifício contábil da correção monetária, a hiperinflação também tornava mais difícil auditar o balanço dos bancos. No meio de tantos zeros da moeda, era mais fácil para banqueiros e contadores inescrupulosos maquiarem as contas de suas casas quebradas. Com o fim da inflação, a maquiagem ficou mais difícil. Foi assim que foi à breca, por exemplo, o Banco Nacional, cujo boné ficou amplamente conhecido na cabeça de seu garoto-propaganda mais famoso: Ayrton Senna.
Implantado em 1994, era apenas questão de tempo até que os primeiros corpos começassem a boiar. Como se diz na gíria do mercado, somente quando o mar (ou a liquidez) seca é que você consegue ver quem estava nadando pelado. Não é que o fim da hiperinflação tenha quebrado os bancos. Ela apenas expôs na vitrine as nádegas de quem vinha fraudando seus balancetes.
Em pânico para evitar uma corrida bancária, o governo Fernando Henrique resolveu transferir a conta da brincadeira para a viúva. Conhecido como Proer (Programa de Estímulo à Reestruturação do Sistema Financeiro), o programa era um mamão com açúcar. Feito de pai pra filho, o programa dividia o banco quebrado em duas partes: parte “boa” (que dava lucro) e outra “ruim” (as dívidas). A parte “boa” era entregue de graça para quem quisesse tocar o negócio pra frente. A parte “ruim” ficava para o governo, que arcava com o prejuízo. Nessa brincadeira, mais de R$ 20 bilhões do contribuinte foram enterrados para salvar estelionatários disfarçados de banqueiros. Pior. Nenhum desses escroques foi sequer processado pelas fraudes que cometeram.
Como o custo político dessa falta de vergonha foi muito alto, o governo e os próprios bancos pensaram numa forma de tirar a viúva da jogada caso outras quebras acontecessem. Foi aí que surgiu o Fundo Garantidor de Crédito (FGC). O dinheiro do fundo viria de contribuições compulsórias cobradas às próprias instituições financeiras. Dessa forma, o risco ficava socializado entre a banca, embora todo mundo saiba que essa grana vinha do dinheiro tomado em forma de tarifas aos seus correntistas. Agora, se um banco quebrasse, o FGC honraria até R$ 250 mil de dinheiro aplicado pelos correntistas.
Foi aqui que surgiu o paradoxo do Banco Master. Sabendo que o FGC funcionaria como guarda-chuva em caso de tempestade, o tamborete de Daniel Vorcaro transformou o que era pra ser uma espécie de seguro em propaganda. “Invista no Master, CDB garantido pelo FGC”, era o mote da campanha. Mesmo gente ressabiada tomava coragem para emprestar dinheiro que rendia a 150% do CDI (50% mais do que as taxas mais altas do mercado) quando sabia que havia risco zero de perder grana nesse negócio. De certa forma, o guarda-chuva do FGC foi quem financiou a viagem do Master e de seus correntistas até a tempestade. No final das contas, o que o cliente contratava era um “produto do FGC” patrocinado pela marca Master.
Com a grana que arrecadou no meio dessa esbórnia, Daniel Vorcaro comprou não apenas jatinhos, automóveis luxuosos e mansões de revista. Comprou também muito apoio político. Não por acaso, a teia de gente associada ao Master é ecumênica: há gente da esquerda, passando pelo centro, pela direita até chegar na extrema-direita. O notório senador Ciro Nogueira, por exemplo, ex-todo-poderoso chefe da Casa Civil de Jair Bolsonaro, patrocinou um projeto de lei para aumentar o limite deo FGC de R$ 250 mil para R$ 1 milhão. A justificativa? “Proteger o pequeno investidor”. Claro. Porque nada protege mais o pequeno investidor do que garantir os milhões aplicados pelos muito, muito grandes investidores. Era a tentativa de, no rescaldo do furacão, vender um guarda-chuva ainda maior – e mais caro para o sistema – justamente para quem tinha navegado nas águas turbulentas que o próprio guarda-chuva ajudou a criar. A proposta, felizmente, naufragou no ridículo, mas serviu como perfeito epílogo para essa farsa.
Ao fim e ao cabo, o que Daniel Vorcaro fez foi transformar uma idéia que nasceu de um erro numa desgraça ainda maior. Ostentando o selo de garantia do FGC, investidores em geral passaram a negligenciar os riscos dos seus investimentos, com a prudência anestesiada pelo risco zero de perda. O que era pra ser uma garantia a ser invocada em último caso passou a ser uma ferramenta de marketing.
No final das contas, a ousadia da pilantragem torna-se regiamente remunerada, mas a conta da aventura, como de hábito, é entregue para outra pessoa pagar. O FGC, formado pelo dinheiro de todos nós poupadores, ficou com o espeto da alavancagem irresponsável do Banco Master. Vorcaro, com sua extensa rede de contatos, curtiu uma semana de cana, mas já foi liberado. Como se costumava dizer durante a crise do Proer nos anos 90, o segundo melhor negócio do mundo é fundar um banco.
“E o primeiro?”
Afundá-lo.