Saindo um pouco da pasmaceira de política nacional e internacional aqui no Blog, vamos retomar uma das seções mais queridas: as sempre maltratadas Artes. E, nesse caso, para falar de um verdadeiro clássico da literatura universal: A morte de Ivan Ilitch.

Publicada quase 20 anos depois do monumental Guerra e Paz, A morte de Ivan Ilitch foi escrita por um Tolstói em meio a uma crise existencial. O escritor russo acabara de escrever Anna Karenina, mas de certo modo o seu estilo aristocrata de ser encontrava-se em xeque. Subitamente, Tolstói viu-se atormentado pela noção de vazio. A noção da finitude da vida pareceu atropelá-lo como um caminhão. Foi no meio desse turbilhão de conflitos internos sobre a razão da nossa existência que ele resolveu escrever um romance seco, bruto, quase implacável, sobre a morte.
Assim como na Metamorfose de Kafka, logo de cara o autor nos brinda com a “conclusão” da obra: Ivan Ilitch morreu. Juiz de alta patente da Rússia dos Czares, Ivan Ilitch era, por assim dizer, um cidadão de mostruário. Estudara Direito, subira na carreira por méritos próprios e casara-se com Prascóvia, protótipo do que hoje chamaríamos de “mulher-arroz”: só serve para acompanhar.
Durante o velório, contudo, há algo além da comoção com a passagem dele. Seus amigos mais próximos não relembram velhas histórias engraçadas ou contam causos antigos da personagem. Pelo contrário. As preocupações deles são mais imediatas: “Quem vai assumir o seu cargo? Qual juiz será removido para ocupar a sua cadeira? E, sendo Fulano de Tal, será que eu terei chance de ser removido para a vaga dele?”
O retrato mais emblemático desse “pragmatismo” diante da morte vem da própria viúva, Práscovia. No meio do velório, Prascóvia chama de lado um de seus melhores amigos, Piotr Ivanovitch. O amigo havido ido ao seu velório meio a contragosto, lamentando a perda do carteado que marcara com a sua turma naquele mesmo dia. Ao receber os pêsames conformados de Piotr, Prascóvia agradece, mas logo em seguida emenda: “Vem cá: você sabe me dizer como eu faço para receber a pensão pela morte dele?”
Despachado o defunto, o livro dedica-se a contar a história de como Ivan Ilitch chegara até o caixão. Após ser transferido para outra cidade, Ivan Ilitch adquire um novo apartamento. Ao gosto seu e da época, Ivan Ilitch resolve decorá-lo com toda a pompa e circunstância dos costumes burgueses. Entretanto, ao cair de uma pequena escada no salão de casa, Ivan Ilitch bate o lado contra o fecho de uma janela. O pequeno roxo causado pelo acidente é logo esquecido.
Mas coisas estranhas começam a acontecer. De repente, Ivan Ilitch começa a sentir um gosto estranho na boca. Pior. O lado esquerdo do ventre também passa a incomodar. Os médicos vão à sua residência para examiná-lo, mas ninguém chega a um diagnóstico preciso. Pode ser um “rim móvel”, catarro crônico ou um problema no “ceco” (intestino).
O que à primeira vista parece algum comum, suscetível a qualquer pessoa, logo se torna inquietude com a persistência do mal estar. De certa forma, a dor apresenta a Ivan Ilitch uma hipótese que ele jamais cogitaria pensar: “Talvez eu esteja morrendo”. A primeira reação a essa conclusão, claro, foi a negação. Como ele mesmo conclui, a morte era algo que ele cogitava como aplicável somente aos outros, mas nunca a si mesmo.
Durante o padecimento, Ivan Ilitch começa a se ressentir da própria família. Na sua visão, a mulher tratava seu quadro com indiferença, repetindo frases educadas saídas de um manual de boas maneiras, mas sem nutrir verdadeira empatia com o doente. Sua filha, Lisa, enxerga no pai um obstáculo à sua felicidade, já que quer se juntar com o noivo, Petrischev. O único que na sua opinião o tratava com a dignidade devida era Guerássim, um jovem camponês que sinceramente se compadecera de seu quadro, ajudando-o a enfrentar a dor erguendo suas pernas sobre os ombros e passando noites em claro para que sofresse menos.
Com o tempo, contudo, Ivan Ilitch começa a se dar conta de que, de fato, está a caminho do outro plano. E aí começam as reflexões existenciais. Será que a vida dele valeu a pena? Nas suas lembranças, era como se tudo tivesse piorado a partir da infância, “como se eu descesse uma montanha imaginando que a subia”. O problema, contudo, não é somente a dor física. É a solidão existencial. É nesse momento que ele percebe que sua vida inteira não passou de uma mentira elegante.
Do ponto de vista filosófico, Tolstói antecipa temas centrais do existencialismo – sobretudo a ideia de que a consciência da finitude é a chave para uma vida autêntica. Ivan Ilitch passou décadas agindo como se a morte não existisse, como se o protocolo social pudesse blindá-lo do abismo. A morte, ao chegar, não lhe tira apenas o fôlego. Ela lhe revela que ele nunca respirou de verdade. O romance mostra que a o esforço cotidiano para ignorar o nosso fim produz como consequência uma vida superficial, feita de rituais vazios, trabalho mecânico e status ilusório.
A pergunta que atravessa o livro é brutal e libertadora: o que você está fazendo agora que resistirá ao crivo da sua própria morte? A resposta de Ivan – “nada, absolutamente nada” – é o espelho que Tolstói coloca diante do leitor. Não por acaso, o único personagem que escapa da hipocrisia é justamente Guerássim, um camponês que não precisa fingir porque nunca aprendeu a mentira dos costumes sociais.
Ao contrário do que possa parecer, a obra em si não possui um caráter pessimista. Ela constitui sobretudo um alerta. A Morte de Ivan Ilitch deve ser lida não como um consolo, mas como um incômodo produtivo. São aproximadamente oitenta páginas que podem transformar para sempre a sua relação com o trabalho, com o afeto, com o lazer e, principalmente, com o tempo do qual você ainda dispõe. Se você quiser viver de verdade, leia-o antes de morrer.