Oscar 2021

Pois é, meus caros.

Dez anos depois de ter iniciado os trabalhos com um “palpitão” geral para o maior prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, eis-nos aqui novamente para chutar os ganhadores do Oscar a se realizar no próximo domingo.

Obviamente, esse será um Oscar diferente dos demais. Afinal, o mundo de 2021 não é o mesmo daquele que celebrava os vencedores em 2020. A pandemia mudou tudo, e com o mundo do cinema não foi diferente.

Aliás, que cinema? Com as salas fechadas durante a maior parte do ano, lançamentos foram adiados, remakes foram devolvidos à gaveta e o público se acostumou, mais do que nunca, a assistir às emoções da “telona” na telinha de casa, mesmo. Não por acaso, mais uma vez as plataformas de streaming se destacam na premiação. E, ao contrário de cerimônias anteriores, dessa vez elas são favoritas para levar uma boa quantidade de estatuetas para casa.

Evidentemente, as restrições não fizeram bem somente ao bom hábito de ir ao cinema comer uma pipoca enquanto assiste a um bom filme. Mesmo películas que já se encontravam no período de pós-produção sofreram abalo com as restrições do novo mundo pandêmico. Talvez por isso mesmo, presenciamos um dos anos mais fraquinhos em termos de qualidade artísticas do Oscar dos últimos tempos, com as honrosas exceções de praxe. Quem sabe em 2022 a coisa não mude de figura, já que, pelo menos nos Estados Unidos, a pandemia parece cada vez mais próxima do fim.

Seja como for, vamos ao Bolão do Dando a cara a tapa para o Oscar de 2021:

1 – Melhor ator: Barbada das barbadas. Na mesma linha do Óscar Póstumo concedido a Heath Ledger por sua lendária interpretação do Coringa em Cavaleiro das Trevas, o finado Chadwick Boseman deve levar a estatueta por A voz suprema do blues. Não fosse essa circunstância, provavelmente Anthony Hopkins levaria o prêmio pra casa por O pai, pois sua atuação é bem superior ao do falecido artista;

2 – Melhor atriz: Parada duríssima. Atuação por atuação, Frances McDormand deveria levar por Nomadland. Não se pode ignorar, contudo, o efeito que o assassinato de George Floyd e a posterior campanha do Black Lives Matter teve sobre a Academia, sempre sensível às lembranças de seu passado – “passado”?!? – racista. Por isso mesmo, acredito que o prêmio vá para Viola Davis, por A voz suprema do blues.

3 – Melhor atriz coadjuvante: Outra para encarniçada. Amanda Seyfried seria uma candidata natural ao prêmio, dado seu bom retrospecto cinematográfico e ao fato de ser uma das queridinhas da nova geração hollywoodiana. Pesa, contudo, o fato de Mank ser um filme que deixa muito a desejar. Yuh-jung Youn ganhou o Bafta e o SAG por sua atuação em Minari e, depois que O Parasita ganhou no ano passado, não seria exatamente uma surpresa uma sul-coreana ganhar uma estatueta este ano. Mas, como eu sou teimoso, não acredito que a Academia terá a cara de pau de caronar Glenn Close pela oitava vez e finalmente se renderá ao talento da atriz.

4 – Melhor ator coadjuvante: Mais um prêmio difícil de cravar. A lógica indicaria que Leslie Odom Jr. levasse o Oscar por sua atuação em Uma noite em Miami. Mas a lógica da Academia nem sempre é muito lógica. Por isso, Sacha Baron Cohen ainda corre por fora no fraquíssimo (e incrivelmente superestimado) Os 7 de Chicago. No entanto, como o ano parece ser de “vamos-mostrar-que-nunca-fomos-racistas”, creio que a estatueta vai pra Daniel Kaluuya por Judas e o Messias Negro.

5 – Melhor filme de animação: Esse é barbada. Soul vai levar o Oscar, com justiça e com um pé nas costas.

6 – Melhor Fotografia: Eu particularmente daria o prêmio para Mank, porque o filme, apesar de deixar a desejar, é muito bom nesse quesito. O favorito, no entanto, é Nomadland. Como ele deve ser o grande bicho papão da noite, acredito que vai levar o prêmio de todo jeito.

7 – Melhor montagem: Os entendidos estão cravando que o prêmio irá para Os 7 de Chicago. Como não quero crer que a Academia produzirá semelhante pastiche, acho melhor acreditar que o prêmio irá para O som do silêncio.

8 – Melhores efeitos especiais: Uma categoria em que, verdadeiramente, não há nenhum grande favorito. Até porque nenhum dos filmes representa lá grande coisa na corrida. Se fosse eu a decidir, daria o prêmio a Mulan. Mas, como não sou eu quem decide, o mais provável é que ganhe Tenet.

9 – Melhor som: Como a Academia finalmente acabou a divisão entre Melhor Edição de Som e Melhor Mixagem de Som (um doce pra quem entender a diferença), a coisa ficou menos técnica e um tanto mais óbvia. Sendo assim, O som do silêncio deve levar pra casa a estatueta com certa tranquilidade.

10 – Melhor Roteiro OriginalBela Vingança deve ganhar aqui, embora o mais correto fosse entregar o prêmio para Minari.

11 – Melhor Roteiro Adaptado: Aqui os críticos se dividem. A maioria aposta em Nomadland, enquanto boa parte se inclina para Uma noite em Miami. Eu, como sou do contra, acredito que o prêmio não vai pra nenhum dos dois, mas, sim, pra O pai. A conferir.

12 – Melhor figurino: Barbada. A Voz suprema do blues deve levar fácil nessa categoria.

13 – Melhor Direção de Arte: A lógica indicaria que o prêmio fosse para A voz suprema do blues. Mas, para contrariar os prognósticos dos entendidos, cravo que aqui Mank levará seu prêmio de consolação pra casa.

14 – Melhor maquiagem: Eu daria o prêmio para Pinóquio sem pensar duas vezes. Mas, assim como em outras categorias, dificilmente o Oscar não vai para A voz suprema do blues.

15 – Melhor canção: Aqui temos uma barbada e, enfim, o prêmio de consolação de Uma noite em Miami, que deve levar pra casa o prêmio com sua Speak now.

16 – Melhor trilha sonora original: Ao contrário da categoria anterior, aqui a disputa é braba. Mank não faz feio nessa categoria e ninguém ficaria sinceramente surpreso caso o prêmio fosse entregue a Minari. Mesmo assim, Soul deve levar sua segunda estatueta da noite por sua fantástica trilha sonora.

17 – Melhor Direção: Aqui não deve haver surpresas. Chloé Zhao deve levar fácil o Oscar pra casa. Até porque, convenhamos, não existe nenhum grande adversário para rivalizar com ela entre os indicados.

18 – Melhor filme: Quem leu as previsões anteriores, não terá dificuldades em antever quem é o favorito para levar pra casa o Oscar de Melhor Filme. Dica: começa com No e termina com madland.

A sorte, pois, está lançada. Na próxima semana saberemos a quantas anda a bola de cristal hollywoodiana deste que vos escreve.

Quem viver, verá.

Publicado em Artes | Marcado com , , , | Deixe um comentário

Trilha sonora do momento

E como hoje é 21 de abril…

Publicado em Trilha sonora do momento | Marcado com , , , | Deixe um comentário

Pensamento do dia

Democracia é a forma de governo através do qual um país é governado de acordo com o que a maioria merece.

Publicado em Pensamentos do dia | Marcado com , , , | Deixe um comentário

Torta de limão com merengue

No meio de tanta desgraça – cortesia da pior pandemia dos últimos 100 anos – e com a política nacional virada de pernas pro ar, talvez seja a hora de dar uma pausa no noticiário pesado aqui do Blog e relembrar o lado doce da vida. Neste caso, isso significa ressuscitar a seção mais cortejada pelo visitantes inopinados deste espaço: a sempre deliciosa Culinária. E, muito embora este que vos escreve não seja lá um grande fã de doces, vamos trazer uma das receitas que se tornou sensação da Cozinha Maravilhosa do Blog deste ano que que passou. Falo, aqui, da inigualável Torta de limão com merengue.

Eu sei, eu sei, as receitas deste espaço sempre privilegiaram os cozinheiros de primeira viagem. Justamente em razão disso, as dicas culinárias aqui postadas sempre privilegiaram receitas simples ou, ainda que sofisticadas, que não exigissem muito dos aventureiros do fogão de final de semana. O caso da torta de limão com merengue é bem outro, entretanto. Embora à primeira vista as dificuldades não se insinuem de imediato, no decorrer da receita é que o sujeito percebe o tamanho do buraco no qual se enfiou.

Antes de descer aos detalhes da receita, vamos primeiro aos ingredientes. Você vai precisar:

1 – Para a massa:

  • 4 colheres de sopa de manteiga;
  • 1 xícara e meia de farinha de trigo;
  • 2 colheres de sopa de açúcar;
  • 2 gemas.

2 – Para o recheio:

  • 1 lata de leite condensado;
  • Meia xícara de suco de limão;

3 – Para o merengue:

  • 2 claras;
  • 10 colheres de sopa de açúcar.

Comecemos pela massa. Pegue a manteiga, a farinha de trigo e o açúcar e coloque tudo dentro de um recipiente para misturar com as mãos. Depois de os ingredientes estarem razoavelmente integrados, coloque as gemas e continue a mexer. Tal como a massa de pão ou de pizza, vá mexendo e misturando, passando de mão pra mão, até obter uma boa homogênea que não pregue nos dedos. Quando chegar nesse ponto, enrole a bola com papel filme e reserve.

Enquanto a massa da torta descansa, parta para o recheio. Aqui você vai ter alguma folga. O recheio é a parte mais fácil da receita. Basta pegar o leite condensado e o suco de limão e misturar. Há quem acrescente açúcar à receita, de modo a deixar o recheio da torta com um pouco mais de consistência. Eu pessoalmente acho desnecessário, mas, se for o seu caso, pode acrescentar duas colheres de sopa de açúcar, não mais que isso. E, se você achar que vai ficar muito doce, pode acrescentar um pouco mais de suco de limão à mistura, que ninguém vai reclamar. Ao obter uma mistura homogênea, guarde-a na geladeira.

O suspiro – ou “merengue”, como queiram – não é algo particularmente difícil de fazer. Basta pegar as duas claras e bater em neve. Quando as claras já estiverem em neve bem firme, basta ir acrescentando aos poucos as colheres de açúcar e deixar a batedeira fazer o restante. A dificuldade, no entanto, é usar o famoso “bico de confeitar” para fazer o suspiro comme il faut. De toda forma, esse é um problema que só vai aparecer mais adiante.

Pré-preparados todos os ingredientes, passa-se à montagem da dita cuja. O ponto principal aqui é jamais esquecer que ninguém faz uma torta de limão sem uma forma com fundo removível. Se não houver uma à mão, melhor nem tentar; o resultado tende a ser desastroso. Dispondo dela, pegue a massa e espalhe-a, prestando atenção principalmente nas laterais, responsáveis pela “borda” da torta e que, ao fim e ao cabo, são o grande toque de elegância da receita. Fure-a como se faz com massa da pizza e leva-a ao forno médio pré-aquecido por uns 15 minutos.

Quando a massa estiver pré-assada, retire a forma do forno e despeje o recheio. Feito isto, pegue o bico de confeitar e cubra a superfície com os merengues. Se você quiser esnobar, pode ainda colocar umas raspas de limão por cima de tudo, mas isso aí fica ao critério do freguês. Devolva ao forno pelo tempo suficiente até que os suspiros fiquem levemente dourados.

Terminou, então?

Ainda não.

Depois de retirar a torta do forno, você ainda não pode comê-la. É necessário levá-la para a geladeira por, no mínimo, duas horas. É o tempo de a mistura toda assentar e o recheio adquirir a consistência necessária para dar forma à torta. Passado esse período, no entanto, basta então desenformar a forma removível e, voilà, a torta de limão estará surgirá diante de seus olhos em todo seu esplendor.

Não se trata, como se vê, de uma tarefa fácil. No entanto, a torta de limão traz consigo o bônus de durar alguns dias na geladeira e ir bem com todas as refeições, mesmo no lanche da tarde. E é exatamente por isso que, apesar dos pesares, ela nunca sai de moda.

É o que você vai entender, quando fizer.

Publicado em Culinária | Marcado com , , , | Deixe um comentário

Trilha sonora do momento

Autoexplicativo.

Publicado em Trilha sonora do momento | Marcado com , , , | Deixe um comentário

Pensamento do dia

Manda quem pode. Obedece quem é marido.

Publicado em Pensamentos do dia | Marcado com , , , | Deixe um comentário

O julgamento da liberação dos cultos religiosos, ou A questão da laicidade do Estado – Parte II

Não é a primeira vez em que Direito e Religião se misturam neste espaço. Desta feita, todavia, a culpa não é do caráter um tanto quanto contraditório e subversivo deste que vos escreve, mas da triste imposição da realidade: o julgamento acerca da liberação de cultos religiosos em pleno pico da segunda onda de Covid.

A questão parece ser por todos conhecida. Alguns meses depois de herdar uma ação em que se discutia a eventual inconstitucionalidade de decretos estaduais que restringiam a realização de cerimônias e cultos religioso em caráter presencial durante a pandemia, o Ministro Kássio Nunes – aparentemente tomado por algum tipo de “inspiração divina” – subitamente descobriu uma “urgência tardia” e resolveu canetar, monocraticamente, o processo e permitir que igrejas de todas as religiosidades pudessem abrir seus templos para receber os fiéis. Poucos dias depois, a caneta de Kássio Nunes foi rabiscada por um contra-despacho de Gilmar Mendes, obrigando o presidente do STF, Luiz Fux, a reunir o Tribunal em sua composição plenária para decidir a controvérsia.

Do ponto de vista jurídico, a questão não tinha nem pé nem cabeça. Já vai quase um ano desde que o Supremo Tribunal Federal decidiu que a competência para promover ações de combate à pandemia tinha natureza concorrente, isto é, competia em igual importância à União, aos Estados e aos Municípios. Sem excluir qualquer responsabilidade do Executivo Federal – e tal circunstância merece sempre ser ressaltada -, o que a Corte decidiu, em resumo, é que Estados e Municípios poderiam tomar qualquer tipo de medida para conter o surto de Covid-19 que está a matar nossos concidadãos. Dentre essas medidas, por óbvio, estava a possibilidade de decretar lockdowns – ou medidas de “isolamento social”, como queiram.

Estabelecido isso por decisão plenária do STF, não cabia ao Ministro Kássio Nunes, solitária e monocraticamente, “revisitar” o tema para permitir a reabertura de igrejas, em contrariedade ao que dispunham os decretos estaduais impugnados. Não só porque a tal de Ajure (Associação de Juristas Evangélicos) não tinha legitimidade para propor judicialmente semelhante pedido, mas principalmente porque não é papel de Corte Constitucional nenhuma ficar rediscutindo toda hora aquilo que seu plenário já decidiu.

Pior que a decisão de Kássio Nunes Marques, somente as sustentações orais do Advogado-Geral da União, André Mendonça, e do Procurador-Geral da República, Augusto Aras. Numa confusão absolutamente incompatível com a dignidade dos cargos que ocupam, ambos resolveram transformar seus apanhados jurídicos em pregações religiosas, talvez, quem sabe, para tentarem se cacifar à vaga de “ministro terrivelmente evangélico” já anunciada por Bolsonaro. Durante sua pregação, André Mendonça cometeu impropriedades jurídicas, sanitárias e até mesmo religiosas .

Em primeiro lugar, Mendonça ignorou completamente o fato de o Brasil não ser um estado confessional. Mesmo que fosse possível defender aglomerações de cunho religioso durante uma pandemia que está a vitimar centenas de milhares de brasileiros, André Mendonça deveria ter atentado que sua “causa” não estava restrita às comunidades cristãs, mas a toda e qualquer fé professada neste país. Não fazia sentido, portanto, falar exclusivamente em “igrejas” fechadas por decretos estaduais, se a vedação supostamente inconstitucional atinge de igual, por exemplo, templos budistas e até mesmo terreiros de umbanda. Ao misturar a fé cristã com o próprio conceito de liberdade religiosa, o Advogado-Geral da União solapou o que há de mais básico no conceito de Estado laico.

Em outra passagem infeliz, André Mendonça afirmou, por exemplo, que “não há cristianismo sem vida comunitária, não há cristianismo sem a casa de Deus”. Isso quando a própria Bíblia diz que “o Altíssimo não habita em templos feitos por mãos de homens” (Atos 7:48). Pior. Para perplexidade geral, André Mendonça chegou ao cúmulo de dizer que os “verdadeiros cristãos” não estão dispostos a “matar por sua fé, mas estão sempre dispostos a morrer” por ela.

Para além do bizarro contrassenso de dizer que os “verdadeiros cristãos” não estão dispostos a “matar por sua fé”, mas que podem aglomerar à vontade em suas igrejas – colocando em risco, por conseguinte, a vida do seu semelhante -, fato é que não existe um “direito fundamental à morte”, muito menos à morte alheia, como bem apontou o Ministro Gilmar Mendes. Do contrário, teríamos de aceitar rituais de sacrifícios humanos, como faziam os maias e os incas, como parte natural da paisagem, ante a prevalência da “liberdade religiosa”.

No fundo, a discussão encetada hoje no Supremo Tribunal Federal foi mais uma tarde triste em um Brasil já cansado e abatido depois de mais de um ano de pandemia. O que esteve em jogo nunca foi a liberdade religiosa. Fiéis podem professar a sua fé livremente em qualquer lugar do país. O que está vedado – e ainda assim temporariamente – são as celebrações religiosas que promovam aglomerações, de modo a impedir a propagação do coronavírus e a morte de ainda mais gente. Deus está em todo lugar e inclusive na Internet, como provam as diversas denominações que estão a pregar pelo Facebook ou pelo Instagram.

Fica, portanto, a lição de que o primeiro – e mais importante – mandamento de Jesus Cristo (“Amai-vos uns aos outros, como Eu vos amei”) é atendido não quando se permite lotar igrejas em meio a uma pandemia, mas, sim, quando se restringe o acesso a elas para preservar a vida daqueles que buscam um sentido espiritual para suas vidas. Afinal, como ensina a própria Bíblia:

“Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” (Coríntios 3:16)

Publicado em Direito, Religião | Marcado com , , , | Deixe um comentário

Trilha sonora do momento

Para quem reclama das igrejas fechadas, a sábia simplicidade do Mestre Gilberto Gil.

#FicaaDica

Publicado em Trilha sonora do momento | Marcado com , , , | Deixe um comentário

Pensamento do dia

Não trate como prioridade quem te trata como opção.

Publicado em Pensamentos do dia | Marcado com , , , | Deixe um comentário

A “eleição” de Médici, ou Os meandros da anarquia militar

Que há uma crise nas Forças Armadas, isso só as avestruzes não vêem. Não é propósito deste espaço voltar a tratar da problemática do pessoal da caserna quando se envolve em cargos civis. Pelo contrário. A idéia é defender o exato oposto: assim como os fardados não devem se imiscuir na Administração Civil, os civis também não têm nada que se meter com as crises militares. Isso é coisa de vivandeira.

Deve-se a expressão ao Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco. Primeiro presidente da Ditadura, o cearense da capital abespinhara-se com a galera que chamava o seu governo de militarista. Em um discurso memorável, o velho Marechal perspegou:

“Eu os identifico a todos. E são muitos deles. Os mesmos que, desde 1930, como vivandeiras alvoroçadas, vêm aos bivaques bulir com os granadeiros e provocar extravagâncias do Poder Militar”.

O propósito de Castelo, parece óbvio, era expor a hipocrisia daqueles que clamaram pela “Revolução Gloriosa” pensando nos benefícios que poderiam auferir com a derrocada da democracia, para logo em seguida reclamarem do fato de que os militares haviam tomado a coisa toda. Quiseram a violência constitucional, mas não queriam as suas conseqüências. “Taí o resultado”, foi o que disse Castelo, em resumo.

Embora não se queira aqui tratar da maior crise militar que o país viveu desde pelo menos a demissão de Sylvio Frota em 1977, o episódio serve como bom pretexto para rememorar um dos episódios mais obscuros e – por que não dizer? – tragicômicos do regime de exceção instaurado naquele primeiro de abril de 1964. Trata-se da “eleição” de Emilio Garrastazu Médici para a Presidência da República.

Castelo assumira após a deposição de João Goulart em 1964. Depois de muitos embates, acabou emparedado pela linha dura e teve de aceitar como sucessor seu Ministro da Guerra (o equivalente ao “Ministro do Exército”, quando ainda não havia Ministério da Defesa), Arthur da Costa e Silva. Inepto e absolutamente incapaz, Costa e Silva desgovernou o país por ano e meio. Foi o suficiente, no entanto, para levá-lo a um estado de confrontação social que permitisse aos militares mais radicais propor o fechamento total do regime. Veio, então, em 13 de dezembro de 1968, o famigerado AI-5.

Com a tigrada liberada para descer o cacete e a tortura comendo solta nos porões, Costa e Silva fingiu que governava o país ainda por alguns meses. Em agosto, todavia, o ditador foi abatido por um derrame. Mesmo identificado a tempo, com a medicina da época, pouco se podia fazer. A incapacidade clínica total do velho Marechal era apenas uma questão de tempo.

Ao saber disso, muitas coisas passaram pela cabeça dos três ministros militares da época: o general Lyra Tavares, o almirante Augusto Rademaker e o brigadeiro Márcio de Sousa Melo. Em nenhum desses pensamentos, contudo, estava nem remotamente incluída a idéia de passar o governo ao seu sucessor constitucional, o vice-presidente da República, Pedro Aleixo (civil). O Alto Comando do Exército mandou chamar o jurista Carlos Medeiros, e da sua pena saiu o Ato Institucional n. 12. Através dele, golpeou-se novamente a Constituição. Pedro Aleixo foi declarado incapaz para o cargo e o comando da Nação foi transferido a uma junta militar composta pelos ministros do Exército, da Marinha e da Aeronáutica.

Do Palácio para fora, a idéia era de manter uma certa aparência de normalidade, como se o país continuasse a ser governado como antes, ainda que à custa de um triunvirato. Do Palácio para dentro, no entanto, o jogo era bem mais simples. À Corte de Costa e Silva – representada principalmente pelo general Jayme Portella – não interessava perder o poder que tinha. Portanto, queriam manter o velho Marechal – a essa altura já em estado semi-vegetativo – numa espécie de “afastamento temporário” permanente, de modo que nenhum pretendente ousasse defenestrá-los todos de lá.

Obviamente, esse arranjo de coisas não tinha muito tempo para durar. Não bastasse a instabilidade inata de uma tal situação, o destino imporia à junta militar um golpe ainda maior. No começo de setembro, pouco dias depois da declaração de incapacidade de Pedro Aleixo, um grupo de revolucionários do MR-8 sequestrou o embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Charles Elbrick. Na carta de reivindicações, os seqüestradores impunham duas condições: a publicação integral da carta nas principais rádios, TVs e jornais do país; e a libertação de 15 companheiros que se encontravam presos. Os revolucionários deram-se até o luxo de ironizar os “juristas da Ditadura” em sua carta:

Os quinze companheiros devem ser libertados, estejam ou não condenados: esta é uma “situação excepcional”. Nas “situações excepcionais”, os juristas da ditadura sempre arranjam uma fórmula para resolver as coisas, como se viu recentemente, na subida da junta militar”.

Atordoados e sem governo, os militares aceitaram de pronto as reivindicações. O baque dentro da caserna foi grande. Para piorar, um dos generais mais articulados do Exército, Affonso de Albuquerque Lima, iniciara uma campanha interna para assumir no lugar do prostrado Marechal. A legitimidade interna da junta militar havia ido para as cucuias. Seria necessário eleger eleger um sucessor definitivo para Costa e Silva.

Mas quem?

A idéia, claro, seria a de que o sucessor fosse um dos generais de quatro estrelas integrantes do Alto Comando. Obviamente, não poderia ser alguém tão próximo a Costa e Silva que significasse uma continuidade do governo, nem poderia ser tão afastado que parecesse alguém da oposição. Até porque, de oposição já havia um candidato às claras, e esse candidato era Albuquerque Lima (que só tinha três estrelas nos ombros). Depois de alguma discussão, surgiu a proposta de fazer-se uma espécie de eleição com os 239 oficiais-generais do Exército, da Marinha e da Aeronáutica.

Deu chabu.

Quatro anos antes, os militares haviam cassado o direito de os brasileiros escolherem o Presidente da República. Ora se dizia que o povo não tinha o discernimento suficiente para uma escolha tão relevante, ora se dizia que a disputa acabava ficando restrita a dois demagogos. No fundo, a questão era bem mais simples: o povo não votava nos candidatos apoiados pelos generais. Autoinvestido na função de Colégio Eleitoral, o Alto Comando fizera uma grande descoberta: pelos seus critérios, os generais também não sabiam votar. Se uma proposta como essa fosse levada adiante, Albuquerque Lima muito provavelmente seria eleito. O Alto Comando, então, formou uma comissão com três generais (Antônio Carlos Muricy, Emilio Médici e Bizarria Mamede) destinada a resolver a questão.

Pouco se sabe do que essa comissão discutiu entre si. De toda a documentação que foi produzida, sobreviveram apenas uma dezenas de páginas rascunhadas pelo General Muricy, dos quais não se consegue entender coisa alguma. No Exército, por exemplo, determinou-se um sistema bizarro de distritos, através do qual o Comando da Amazônia (que apoiava Albuquerque Lima) foi colocado na mesma urna que o gabinete do Ministro (que apoiava Médici). O Departamento de Provisão Geral (que apoiava Médici) teve mais votos do que qualquer um dos quatro exércitos (SP, RJ, RS e PE), com muito mais generais.

Nas outras Armas a confusão não foi menor. Na Aeronáutica, ouviram-se todos os brigadeiros, com Médici ganhando por estreita margem. Na Marinha, produziu-se algo semelhante. Mas, na primeira votação, deu Albuquerque Lima. Diante do resultado, o comandante dos fuzileiros navais, Almirante Azambuja (que apoiava Médici), ameaçou metralhar o Alto Comando da Marinha. Fez-se, então, uma nova votação. Convencidos pelo “argumento” de Azambuja, os oficiais-generais da Marinha resolveram dar seus votos a Médici. Estava eleito, portanto, o sucessor de Arthur da Costa e Silva.

Quando os militares foram às ruas para derrubar Jango, muita gente saudou o ocorrido como uma espécie de retorno do país à “ordem”. Mal sabiam eles que as maiores desordens ocorrem justamente em governos de vocação ditatorial. A anarquia que se seguiu ao derrame de Costa e Silva demonstra bem o tamanho da confusão gerada quando os fardados resolvem que os civis já não podem mais brincar no parquinho e querem desempenhar o papel de “adulto na sala”. Que episódios como esse sirvam ao menos para relembrar uma das melhores máximas do insuperável Winston Churchill:

“A democracia é o pior dos regimes, com exceção de todos os outros”.

Publicado em História | Marcado com , , , | Deixe um comentário