Em homenagem à minha querida Ana B., vamos retomar uma das seções mais fascinantes deste espaço: a sempre subestimada e tão maltratada História. E, para justificar o retorno em grande estilo, vamos falar de um dos assuntos mais mal explicados nas carteiras de colégio: por que o mundo do século XX foi o que foi depois de 1945? Para isso, é necessário falar sobre um dos episódios mais negligenciados em sala de aula: a Conferência de Potsdam.

A história da II Guerra Mundial é mais ou menos conhecida. Em setembro de 1939, a Alemanha nazista invadiu a Polônia. A leste, a União Soviética também invadiu a Polônia. Em menos de um mês, a Polônia desapareceria mais uma vez do mapa, refém do pacto firmado antes da guerra entre alemães e soviéticos.
Após um breve período de relativa calmaria que duraria mais ou menos seis meses, apelidado ironicamente pelos historiadores de Phoney War, a Alemanha de Hitler voltaria à carga. Movimentando a máquina de guerra mais rápida e eficaz que o mundo jamais vira, os generais de Hitler tomaram uma a uma as nações a oeste da Alemanha, até conquistar algo que parecia impossível antes da guerra: a queda da França.
Em menos de seis semanas, o que era até então o melhor e mais poderoso exército da Europa sucumbiu frente ao avanço implacável da Wehrmacht, auxiliado pelo apoio aéreo destruidor da Luftwaffe. Restaram aos aliados o recuo a um só tempo vergonhoso e salvador para as ilhas do Reino Unido, em um episódio que entraria para os livros de história como a Retirada de Dunquerque. A Alemanha era, agora, senhora do continente europeu, e a Inglaterra era a única coisa que separava Hitler da vitória total.
Coube ao mundo a boa fortuna de, justamente na hora mais dramática, os ingleses elegerem como primeiro-ministro Winston Churchill. Enquanto todo mundo achava que o melhor a fazer seria negociar com Hitler, Churchill bateu o pé e disse que, acontecesse o que acontecesse, a Inglaterra permaneceria na guerra. Churchill estava careca de saber que a Inglaterra, sozinha, não teria como ganhar da Alemanha. O que ele fez foi ganhar tempo até que as condições permitissem uma virada de um jogo que, àquela altura, lhe era completamente desfavorável.
A sorte lhe deu razão em junho de 1941. Naquela que foi a maior operação militar terrestre de todos os tempos (a Operação Barbarossa), Hitler rompeu o pacto que tinha com Stalin e mandou invadir a União Soviética. As divisões alemãs chegaram a menos de 20 quilômetros de Moscou, mas, graças à chegada do “General Inverno”, os soviéticos conseguiram armar uma contra-ofensiva e barrar o avanço alemão. Dali pra frente, presos no atoleiro do inverno russo, os alemães foram tendo suas forças progressivamente dizimadas, até verem a maré virar definitivamente com a derrota na Batalha de Stalingrado.
Com o Exército Vermelho marchando a leste e, do outro lado, os aliados retomando a frente a oeste depois da invasão da Normandia (o famoso “Dia D”), o que em 1942 parecia um sonho inalcançável começou a ser apenas um fato esperando por acontecer. Diante da perspectiva concreta de derrota dos nazistas, os três grandes aliados – Estados Unidos, Inglaterra e União Soviética – resolveram se reunir para debater em que termos a coisa caminharia dali pra frente. Daí veio a Conferência de Yalta, com sua famosa foto de Churchill, Roosevelt e Stalin sentados (por cortesia do inglês e do soviético, já que Roosevelt àquela altura não conseguia mais ficar em pé, por conta da paralisia nas pernas):

No balneário da Criméia, ficou decidido que, ao contrário de 1918, ninguém negociaria termos de paz com a Alemanha. A desgraça atingira tal proporção que seria um erro permitir que um armistício pusesse o conflito de lá para, poucos anos depois, simplesmente ver a Alemanha se reerguer e levar o mundo de volta à beira do precipício. A idéia, portanto, era de que não se aceitaria nada senão uma derrota incondicional da Alemanha. Restava, contudo, saber o que fazer de fato depois que Hitler e os nazistas fossem vencidos. E é aí que entra a Conferência de Potsdam.
Realizada na cidade de mesmo nome, a pouco mais de trinta quilômetros de Berlim, a Conferência de Potsdam começou em julho – portanto, dois meses após o fim da guerra – com uma novidade. Dos três integrantes da foto de Yalta, apenas um (Stalin) permanecera. Roosevelt morrera em abril, poucos dias antes do suicídio de Hitler. Seu vice, Harry Truman, assumira como presidente.
Churchill, por sua vez, viveu a mais constrangedora das experiências que a democracia pode impor a um estadista: saiu de Potsdam no meio da conferência para acompanhar as eleições britânicas e, ao chegar em seu país, viu seu partido perder para o trabalhista Clement Attlee. Com a troca de guarda no Reino Unido, coube a Attlee voltar para ocupar a cadeira que cabia à Grã-Bretanha na mesa de negociações. Stalin, que não precisava se preocupar com eleições, assistia à dança das cadeiras das duas potências ocidentais com a tranquilidade de quem dominava uma das máquinas de repressão política mais brutais de todos os tempos.

A conferência durou dezesseis dias e produziu o Acordo de Potsdam. Nesse acordo, estavam estabelecidas as bases do pós-guerra europeu. A Alemanha seria dividida em quatro zonas de ocupação: americana, britânica, francesa e soviética. Berlim, situada no interior da porção oriental da Alemanha, também seria dividida em quatro setores. Até onde os exércitos de cada “lado” haviam chegado demarcariam o que viriam a ser as “zonas de influência” americana e soviética. As fronteiras da Polônia foram restabelecidas e foi decidido que os nazistas seriam julgados não por um tribunal de guerra, mas por um tribunal “jurídico”, naquilo que viria a ser conhecido como Julgamento de Nuremberg.
Como mesmo nos grandes momentos da história há espaço para episódios novelescos, durante as reuniões o dia 24 de julho daquele ano, Truman chamou Stalin de lado e sussurrou em seu ouvido que os Estados Unidos haviam desenvolvidos uma arma capaz de fazer frente ao Exército Vermelho. Stalin, que já sabia do que se tratava por conta da rede de espionagem comandada por Julius Rosemberg, apenas disse que esperava que a arma fosse usada contra o Japão (naquela altura, a guerra terminara na Europa, mas ainda continuava no Pacífico).
Dito e feito.
Três semanas depois, os norte-americanos jogaram duas bombas atômicas sobre o Japão. O conflito mais mortal e mais destrutivo de toda a história da humanidade. Começaria, então, outro, muito menos mortal, mas muito mais tenso e com potencial apocalíptico jamais experimentado: a Guerra Fria. É impossível, portanto, compreender o que se passou no século XX após o final da II Guerra Mundial sem entender o que se passou naquela pequena e pacata cidade nos arredores de Berlim. Foi lá que três homens — dois deles recém-chegados ao cargo e um ditador veterano de outros carnavais — desenharam o mundo dos cinquenta anos seguintes e, de certo modo, o mundo no qual vivemos hoje.
Para além dos livros de história, Potsdam é um programa imperdível. Em menos de uma hora de trem é possível sair da capital e ir visitá-la. Nela, você vai encontrar o Palácio de Sanssouci, a Versalhes prussiana de Frederico, o Grande, com seus jardins escalonados, suas fontes e a vista que parece pintada à mão. O lugar onde a conferência de Potsdam, se realizou, o Palácio Cecilienhof, fica a alguns quilômetros de distância, num parque de lagos e arvoredos que não parece ter nada de especial. Ao chegar lá, o turista tira a foto, olha ao redor e pensa:
“Nossa, mas aqui parece tão tranquilo”.
E era mesmo.
Até que deixou de ser….