O fim da escala 6×1, ou Enfim, um descanso para o trabalhador

As boas coisas também acontecem. Tal é a conclusão de quem assistiu ontem à aprovação na Câmara dos Deputados do fim da desumana escala do 6×1, de modo a garantir a todo e qualquer trabalhador pelo menos dois dias de folga por semana. Trata-se do maior avanço para a qualidade de vida geral do operário-padrão brasileiro desde a promulgação da Constituição de 1988, com seu extenso rol de direitos sociais.

Para quem está acostumado a ver a seção política como sublegenda da seção policial dos jornais, chega a assustar quando o Congresso Nacional demonstra alguma utilidade para o bem estar da população. Afinal, quando a esmola é demais, o santo desconfia. Tudo bem que ainda falta a coisa passar pelo Senado, mas, dada a esmagadora maioria na sessão de ontem, quando nem sequer duas dezenas de deputados tiveram a pachorra de votar contra a medida, é difícil imaginar que os senadors tenham coragem de barrar a iniciativa.

Como tudo que é bom nestas terras ao sul do equador, a conquista não veio de graça. A extrema-direita bolsonarista fez de tudo para barrar a medida. O deputado federal Sóstenes Cavalcante, líder do PL e autoproclamado paladino da família, lutou bravamente para garantir que o trabalhador continuasse chegando em casa a tempo apenas de ver os filhos dormindo. Ao seu lado, a dupla dinâmica do “dedo no c* e gritaria”, André Fernandes e Nikolas Ferreira, recorreu ao truque regimental de tentar impor a votação da escala 4×3 como forma de deixar tudo como está. Nikolas Ferreira chegou ao cúmulo de dizer que aprovar a escala 4×3 levaria à demissão de milhões de trabalhadores e que esse dia, quando chegasse, seria “maravilhoso”.

A “justificativa” para tentar barrar essa medida era aquela de sempre: dar mais direitos aos trabalhadores vai levar a mais desemprego. O problema é que a realidade teima em desmentir essa teoria toda vez que ela é colocada em prática. Em 1962, por exemplo, João Goulart instituiu o “abono de Natal”, popularmente conhecido como 13º salário. Numa manchete que entraria para a história (no mau sentido), o jornal o Globo decretou:

Passados mais de sessenta anos, o vaticínio catastrofista do jornal carioca não só se concretizou como ainda ficou claramente desmoralizado. Hoje, ninguém imagina um trabalho com carteira assinada que não assegure ao trabalhador o agora sagrado 13º salário, uma das maiores fontes de renda do próprio comércio quando chega o final do ano.

Ao contrário do que pregavam os profetas do Apocalipse, o que aconteceu na prática foi que aquele dinheiro extra em dezembro foi injetado direto na academia. Ele aquece o varejo e provoca o que os economistas costumam chamar de aumento da demanda agregada. Quem poderia imaginar que um consumidor com dinheiro no bolso é muito melhor para os negócios do que um consumidor miserável, não é?

Não é necessário sequer voltar tanto no relógio do tempo para ver que os discursos contra o aumento dos direitos dos trabalhadores normalmente vêm das classes que querem apenas manter o estado de miséria geral do sofrido proletariado. No Brasil dos anos 2000, por exemplo, uma das maiores políticas públicas de transferência de renda para a população mais pobre foi a política de valorização real do salário mínimo. À época, dizia-se a mesma coisa: “o país vai quebrar”, “os empresários vão demitir”, “no final isso vai acabar sendo ruim para o trabalhador”. Um quarto de século depois, pela primeira vez na história o Brasil alcançou o índice de alto desenvolvimento humano das Nações Unidas.

Para quem reclama da produtividade, achando que “gestão” é sinônimo de “chicote”, parece claro que um trabalhador exausto, que só tem tempo para trabalhar e cair na cama desmaiado, será bem menos produtivo do que um que consegue minimamente descansar e ter tempo para cuidar da família. É evidente que trabalhadores descansados erram menos, adoecem menos, faltam menos e, por conseguinte, entregam mais. Países com jornadas menores lideram sistematicamente os rankings globais de produtividade, de que são exemplo Noruega, Dinamarca e Alemanha. Não se cuida aqui de defender ideologia. Cuida-se, apenas, de defender a matemática básica.

O que a vitória da escala 5×2 escancara é que trabalhador não é insumo. É gente. E gente descansada consome, movimenta o mercado e, de quebra, gera mais lucro para os mesmos empresários que tanto espernearam contra a mudança. A maior ironia disso tudo é que, no final das contas, os profetas do fim do mundo no Congresso lutaram contra os interesses financeiros dos próprios patrões que idolatram.

Mas não precisamos esquentar a cabeça. Daqui a algum tempo, quando a escala 5×2 tiver alcançado o mesmo patamar do 13º salário no ranking de direitos básicos conquistados pela sociedade, alguma nova conquista trabalhista surgirá no horizonte. Quando ela aparecer, os arautos do Apocalipse estarão a postos para garantir que, agora sim, o Brasil afunda. Não se trata de profecia.

É simplesmente a tradição…

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Trilha sonora do momento

O golpe tá aí.

Cai quem quer.

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Pensamento do dia

Pensar demais é a arte de criar problemas que não existem.

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Trilha sonora do momento

Será que o Congresso derruba a escala 6×1?

A conferir.

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Pensamento do dia

Às vezes eu sei que estou errado, mas continuo pelo simples prazer de discutir.

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Os melhores matchups de filmes de todos os tempos

Aproveitando a relativa pasmaceira no cenário nacional e internacional, vamos retomar uma das seções mais queridas deste espaço: as Artes. Nesse caso, para falar especificamente de uma delas, a de número sete, a qual a maioria das pessoas costuma se referir como Cinema.

Para quem curte realmente a sétima arte, há certos filmes que provocam uma sensação diferente em quem os assiste. Não porque o roteiro seja exatamente soberbo, ou porque a fotografia seja fora de série. Esse, digamos, “arrebatamento instantâneo” acontece quando vemos “duelar” na tela dois grandes atores – em regra representando duas grandes personagens -, mas que, curiosamente, praticamente não se encontram frente a frente na película. À falta de uma palavra no vernáculo que designe com precisão exatamente o que se quer dizer, vamos recorrer à língua de Shakespeare para encontrar algo similar: matchup (“confronto”).

Como o leitor amigo pode imaginar, não se quer fazer qualquer referência a confrontos físicos. Não, não, absolutamente. Se assim o fosse, a seleção do Blog ficaria restrita a filmes do Stallone (Rocky) ou do Van Dame. Quando se fala aqui em matchup, trata-se de disputa intelectual, psicológica, aquela disputada no campo das sinapses e das emoções, não na brutalidade dos músculos.

A mecânica por trás dos matchups atende a critérios bem estritos. Em regra, trata-se de um “duelo diferido”, isto é, você vê durante o filme que existem duas personagens antagônicas, porém, de forma curiosa, elas não contracenam. Tal qual uma mola que se comprime, a expectativa pelo encontro dos rivais é o que move a tensão do roteiro, como se a emoção ficasse represada e, numa só cena, todo esse caldo entornasse de uma vez numa espécie de catarse cinematográfica.

Obviamente, são poucos os filmes em que esses duelos diferidos ocorrem. E, por isso mesmo, quando o roteiro é bem escrito e, ao mesmo tempo, consegue-se reunir gigantes da Sétima Arte para interpretá-los, essas cenas costumam ficar no imaginário popular como lembranças inesquecíveis, tornando muitas vezes essas cenas isoladas maiores do que o próprio filme.

Nesse breve levantamento, o Blog propõe um pódio com apenas três desses exemplares cinematográficos. Como toda lista aqui do Dando a cara a tapa, ela atende exclusivamente a critérios pessoais do Autor. Se você gostar das escolas, ótimo; terei me pagado da tarefa a que me propus. Se não gostar, pode pegar a lista e enfiar no ralo da banheiro (ou em outro buraco que esteja à mão).

Sem mais delongas, vamos à lista dos três maiores matchups da história do cinema mundial:

O Julgamento de Nuremberg (1961)

Clássico de 1961, Julgamento de Nuremberg traz um elenco capaz de fazer corar qualquer festival de cinema contemporâneo: Spencer Tracy, Burt Lancaster, Marlene Dietrich, Judy Garland, Montgomery Clift e Richard Widmark. O personagem de Lancaster — o juiz nazista Ernst Janning — permanece em silêncio durante quase todo o filme. Enquanto o juiz americano Dan Haywood, vivido por Tracy com a sua sobriedade característica, Janning assiste a tudo como se nada daquilo lhe dissesse respeito.

Após a condenação, Janning pede para seu advogado, Hans Rolfe, vivido por Maximilian Schell (que ganhou o Oscar de melhor ator pelo papel), falar com o juiz Haywood. Calado durante praticamente todo o julgamento, Janning quer se “confessar” perante seu julgador. Ao relatar todos os seus pecados como juiz nazista, Janning suplica a Haywood:

Those millions of people… I never knew it would come to that” (“Aquelas milhões de pessoas” – se referindo ao holocausto judeu – “Eu nunca imaginei que fosse acabar nisso“).

Ao que o juiz Haywood sabiamente responde:

It came to that the first time you sentenced a man to death you knew to be innocent“. (“Chegou-se a esse ponto na primeira vez que você sentenciou um homem à morte sabendo que ele era inocente”).

A frase cai como uma lápide sobre Janning. Ao se dar conta da realidade, nada mais é dito por ele.

E nem precisava, né?

O Júri (2003)

Nossa medalha de prata vai para um filme frequentemente subestimado por boa parte da crítica cinematográfica. Não que O Júri tenha sido exatamente desprezado pelos críticos de plantão, mas o simples fato de se tratar de mais um thriller judicial adaptado de John Grisham traz um natural nariz torcido contra a produção.

A questão, nesse caso, foi a ousada decisão do diretor Gary Fleder de escalar nada mais, nada menos do que Dustin Hoffman e Gene Hackman para os dois papéis principais da película. Amigos de longa data, Hoffman e Hackman chegaram a dividir um quarto no começo da carreira, tal era o miserê quando chegaram para tentar a vida como atores na cidade grande. Apesar da proximidade e do talento indiscutível de ambos, eles nunca haviam contracenado em um filme.

Hoffman interpreta Wendell Rohr, o advogado de acusação num processo contra uma fabricante de armas. Trata-se do protótipo do velho e bom causídico: um homem de princípios, verborrágico e apaixonado, que acredita genuinamente na causa que defende. Hackman, em contraposição, representa Rankin Fitch, o advogado lobista contratado pela defesa. Fitch é o típico cínico profissional, que trabalha como “consultor de júris”, isto é, o sujeito especializado em comprar e manipular jurados a fim de obter a melhor decisão possível para seu cliente.

De maneira extremamente cuidadosa, Fleder mantém ambas as personagens próximas, porém separadas. Enquanto Rohr defende a causa apaixonadamente na tribuna do júri, Fitch trabalha nas sombras, no comando de uma operação clandestina destinada a controlar os ânimos e a influenciar os jurados escolhidos para decidir o caso contra a fabricante de armas.

Curiosamente, o encontro entre os dois acontece no lugar mais improvável quando se pensa em um thriller judicial: o banheiro do tribunal. Longe dos olhos de todos (especialmente dos do juiz do caso), eles se encontram para ter talvez a cena mais honesta de todo o filme. Fitch não tenta seduzir nem intimidar; ele simplesmente expõe sua visão cínica do mundo com a tranquilidade de quem acredita ter razão. Rohr não recua; ele devolve, com a dignidade ferida de quem se recusa a aceitar que o cinismo seja a única forma adulta de enxergar a realidade. É o embate não só entre dois modos irreconciliáveis de advogar, mas da própria forma de encarar a vida.

Infelizmente, contudo, o Oscar foi avaro com esses dois grandes mestres e nenhum deles foi indicado a nada.

Azar da academia…

Fogo Contra Fogo (Heat, 1995)

Para quem já sabia do que se tratava, não será surpresa para ninguém que a medalha de ouro dessa nossa pequena lista fica com Heat (Fogo contra Fogo).

Tudo o que se pode dizer sobre o encontro entre Al Pacino e Robert De Niro na lanchonete de Fogo Contra Fogo começa pela constatação do peso histórico daquela situação. Os dois maiores atores de sua geração — e, provavelmente, os dois maiores atores americanos da segunda metade do século XX — nunca tinham dividido uma cena de verdade. Estiveram no mesmo filme antes (O Poderoso Chefão II), mas em linhas do tempo distintas: De Niro interpretou um jovem Vito Corleone, enquanto do outro lado da trama Pacino operava a transformação do jovem universitário em um Dom Corleone frio e implacável, até com a própria família.

Parece óbvio que o diretor Michael Mann sabia exatamente o que estava fazendo ao construir durante duas horas a tensão entre o detetive Vincent Hanna e o ladrão Neil McCauley, para só então colocar os dois sentados numa mesa de café e tivessem um encontro cara a cara. O que se passa naquela lanchonete não é uma cena de ação. Não há armas, não há ameaças explícitas. Há dois homens que se respeitam profundamente, que reconhecem um no outro o espelho de si mesmos e que sabem que, quando saírem dali, serão inimigos novamente.

No fundo, a cena retrata uma melancolia quase insuportável. Há no ar uma estranha sensação de que aqueles dois poderiam ter sido amigos em outra vida. Naquela em que estão, a alternativa que resta é a da destruição mútua. Pacino e De Niro entregam, cada um à sua maneira, performances de quem sabe que aquele momento é o ápice de suas carreiras conjuntas. E, embora tenham voltado a atuar juntos em alguns filmes depois, a magia bruta daquela primeira vez permaneceu inigualável.

Abaixo, a cena, para quem quiser tirar a prova dos 9:

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Trilha sonora do momento

Tem gente que não se toca, brother.

Fazer o quê?

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Pensamento do dia

Sem propósito, até os dias mais bonitos parecem vazios.

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Trilha sonora do momento

É dura a vida do trabalhador brasileiro… :-/

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Pensamento do dia

Ultimamente, meu exercício mais comum tem sido balançar a cabeça por descrença.

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