Trump Always Chickens Out, ou A esmagadora derrota dos Estados Unidos na guerra contra o Irã

Aconteceu o esperado.

Na undécima hora, depois de ter ameaçado trocentas vezes “obliterar” o país e mandá-lo de volta à “Idade da Pedra”, Donald Trump recuou mais uma vez de seu “ultimato” de 48h ao Irã. Depois de literalmente ter xingado muito no Twitter, pedindo que os crazy bastards (“loucos malditos”) dos iranianos reabrissem the fuckin’ strait (“a porra do estreito (de Hormuz)”, o Nero Laranja mais uma vez recuou e disse ter adiado por duas semanas (risos) o ultimato de aniquilação total do país persa. Sem meias palavras, o que está se desenhando é a mais esmagadora derrota dos Estados Unidos desde a retirada de Saigon, há mais de meio século.

Alright, good news first:

Do ponto de vista humanitário, o cessar-fogo – seja em que guerra for – sempre é algo a ser comemorado. É preciso ser muito desalmado ou insensível para acreditar que a matança indiscriminada de seres humanos pode trazer algo de bom. Por mais que os ditos “cristãos-patriotas-cidadãos de bem” estivessem celebrando a morte de pessoas simplesmente pelo fato de professarem uma fé diferente, a maior parte da população via o que estava acontecendo com profunda angústia. As boas notícias (para os Estados Unidos), contudo, param por aí.

Do ponto de vista estritamente militar, a situação para os Estados Unidos é um desastre. Lançou milhares de bombas sobre o Irã; matou o primeiro, segundo e terceiro escalão dos aiatolás; teve dois porta-aviões tirados de combate (um retornou ao país por um suposto incêndio na lavanderia; o outro saiu de perto do Golfo Pérsico por medo dos mísseis iranianos); teve quase uma dezenas de aeronaves abatidas; teve de executar duas missões de alto risco para resgatar pilotos derrubados pela defesa anti-aérea do Irã; e, mesmo com tudo isso, não conseguiu derrubar o regime persa.

Como desgraça pouca é bobagem, os aiatolás agora estão mais empoderados do que nunca. Resistiram à artilharia maciça da maior potência militar da região (Israel) e da maior potência bélica do mundo (Estados Unidos). Não só não cederam a nenhuma das exigências que lhe foram impostas como, ainda por cima, descobriram o tamanho do estrago que conseguem produzir manejando a única arma geográfica que eles têm à disposição: o estreito de Hormuz.

Passadas seis semanas de conflito e o preço do petróleo insistentemente acima dos US$ 100, a economia mundial – já em estágio periclitante – ameaçava dobrar os joelhos diante de uma iminente recessão causada pelo aumento inflação global. Uma vez que boa parte da cadeia produtiva mundial depende diretamente do ouro negro, a expectativa de aumento dos custos jogou por terra a hipótese de corte de juros pelo FED para este ano. Bancos Centrais de outros países, incluindo o Brasil, já previam até aumento da taxa básica de juros para fazer frente ao surto inflacionário decorrente da disrupção do abastecimento de petróleo.

Diante desse cenário, a Trump não restava muita escolha. O tweet do último sábado, xingando os iranianos para pedir a abertura do estreito de Hormuz, não era outra coisa senão sinal de desespero. Com a popularidade ao rés-do-chão e diante da perspectiva concreta de perder as duas casas do Congresso na eleição de novembro, o Laranjão precisava desesperadamente dar um jeito de jogar o preço do petróleo pra baixo. Só assim seria possível tentar diminuir o mau humor do consumidor americano que já sentia o preço da brincadeira americana no Oriente Médio quando ia abastecer seu veículo no posto de gasolina.

“O acordo de agora é pra valer?”

Claro que é impossível cravar isso a essa altura. Pela dinâmica dos acontecimentos, entretanto, duas coisas são certas:

A primeira é que ninguém levará mais a sério as ameaças de Trump. O acrônimo TACO (Trump Always Chickens OutTrump sempre arrega) já desmoralizou por completo o Nero Laranja. Todo mundo agora tem certeza absoluta de que, não importa o que aconteça, Trump sempre recuará na última hora diante do risco de uma débâcle econômica.

A segunda é que o Irã se sentirá devidamente autorizado a negociar a “paz” nos seus termos. Talvez por isso mesmo os iranianos tenham soltado a lista com suas “10 exigências” logo após o anúncio do recuo de Trump. Quem visse a lista antes da guerra – que inclui, por exemplo, a retirada de todas as bases americanas do Oriente Médio e o reconhecimento oficial do controle do estreito de Hormuz pelo Irã -, imaginaria que os iranianos estariam ou muito loucos de droga ou fazendo piada. Agora, o próprio Trump disse que essa lista constitui uma workable basis (“base viável”) para um acordo.

No longo prazo, os efeitos da guerra também serão largamente deletérios para os norte-americanos. Se antes os Estados Unidos tinham jogado fora oitenta anos de soft power nas relações internacionais ao atacar até aliados com pretensões imperalistas, agora seu próprio hard power (ou seja, o emprego de força bruta) também estará em xeque. Ficou demonstrado mais uma vez que, por maior que seja a hegemonia militar dos ianques, até para ela existem limites. O fato de os iranianos terem sapateado na cara do Laranjão com a divulgação simultânea ao cessar-fogo da sua lista de 10 exigências é a prova mais cabal disso.

No futuro, quando os Estados Unidos não forem mais a superpotência hegemônica do planeta, os historiadores procurarão definir o turning point, o momento decisivo que marcou o início incontestável do declínio norte-americano. Esse ponto pode ter acontecido hoje.

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Trilha sonora do momento

E enfim a galera do Pink Floyd encontrou alguém para dar alô no lado escuro da Lua…

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Pensamento do dia

Viver é ficar se equilibrando o tempo todo entre escolhas e consequências.

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Trilha sonora do momento

Bem que o Trump poderia mudar o prazo dos ultimatos dele pra 72h.

Não acrescentaria nada, mas pelo menos seria mais engraçado…

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Pensamento do dia

Você consegue vencer quarenta estudiosos com um fato, mas não consegue vencer um idiota com quarenta fatos.

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A morte de Ivan Ilitch

Saindo um pouco da pasmaceira de política nacional e internacional aqui no Blog, vamos retomar uma das seções mais queridas: as sempre maltratadas Artes. E, nesse caso, para falar de um verdadeiro clássico da literatura universal: A morte de Ivan Ilitch.

The Death of Ivan Ilyich Leo Tolstoy. Illustration of a man in bed.

Publicada quase 20 anos depois do monumental Guerra e Paz, A morte de Ivan Ilitch foi escrita por um Tolstói em meio a uma crise existencial. O escritor russo acabara de escrever Anna Karenina, mas de certo modo o seu estilo aristocrata de ser encontrava-se em xeque. Subitamente, Tolstói viu-se atormentado pela noção de vazio. A noção da finitude da vida pareceu atropelá-lo como um caminhão. Foi no meio desse turbilhão de conflitos internos sobre a razão da nossa existência que ele resolveu escrever um romance seco, bruto, quase implacável, sobre a morte.

Assim como na Metamorfose de Kafka, logo de cara o autor nos brinda com a “conclusão” da obra: Ivan Ilitch morreu. Juiz de alta patente da Rússia dos Czares, Ivan Ilitch era, por assim dizer, um cidadão de mostruário. Estudara Direito, subira na carreira por méritos próprios e casara-se com Prascóvia, protótipo do que hoje chamaríamos de “mulher-arroz”: só serve para acompanhar.

Durante o velório, contudo, há algo além da comoção com a passagem dele. Seus amigos mais próximos não relembram velhas histórias engraçadas ou contam causos antigos da personagem. Pelo contrário. As preocupações deles são mais imediatas: “Quem vai assumir o seu cargo? Qual juiz será removido para ocupar a sua cadeira? E, sendo Fulano de Tal, será que eu terei chance de ser removido para a vaga dele?”

O retrato mais emblemático desse “pragmatismo” diante da morte vem da própria viúva, Práscovia. No meio do velório, Prascóvia chama de lado um de seus melhores amigos, Piotr Ivanovitch. O amigo havido ido ao seu velório meio a contragosto, lamentando a perda do carteado que marcara com a sua turma naquele mesmo dia. Ao receber os pêsames conformados de Piotr, Prascóvia agradece, mas logo em seguida emenda: “Vem cá: você sabe me dizer como eu faço para receber a pensão pela morte dele?”

Despachado o defunto, o livro dedica-se a contar a história de como Ivan Ilitch chegara até o caixão. Após ser transferido para outra cidade, Ivan Ilitch adquire um novo apartamento. Ao gosto seu e da época, Ivan Ilitch resolve decorá-lo com toda a pompa e circunstância dos costumes burgueses. Entretanto, ao cair de uma pequena escada no salão de casa, Ivan Ilitch bate o lado contra o fecho de uma janela. O pequeno roxo causado pelo acidente é logo esquecido.

Mas coisas estranhas começam a acontecer. De repente, Ivan Ilitch começa a sentir um gosto estranho na boca. Pior. O lado esquerdo do ventre também passa a incomodar. Os médicos vão à sua residência para examiná-lo, mas ninguém chega a um diagnóstico preciso. Pode ser um “rim móvel”, catarro crônico ou um problema no “ceco” (intestino).

O que à primeira vista parece algum comum, suscetível a qualquer pessoa, logo se torna inquietude com a persistência do mal estar. De certa forma, a dor apresenta a Ivan Ilitch uma hipótese que ele jamais cogitaria pensar: “Talvez eu esteja morrendo”. A primeira reação a essa conclusão, claro, foi a negação. Como ele mesmo conclui, a morte era algo que ele cogitava como aplicável somente aos outros, mas nunca a si mesmo.

Durante o padecimento, Ivan Ilitch começa a se ressentir da própria família. Na sua visão, a mulher tratava seu quadro com indiferença, repetindo frases educadas saídas de um manual de boas maneiras, mas sem nutrir verdadeira empatia com o doente. Sua filha, Lisa, enxerga no pai um obstáculo à sua felicidade, já que quer se juntar com o noivo, Petrischev. O único que na sua opinião o tratava com a dignidade devida era Guerássim, um jovem camponês que sinceramente se compadecera de seu quadro, ajudando-o a enfrentar a dor erguendo suas pernas sobre os ombros e passando noites em claro para que sofresse menos.

Com o tempo, contudo, Ivan Ilitch começa a se dar conta de que, de fato, está a caminho do outro plano. E aí começam as reflexões existenciais. Será que a vida dele valeu a pena? Nas suas lembranças, era como se tudo tivesse piorado a partir da infância, “como se eu descesse uma montanha imaginando que a subia”. O problema, contudo, não é somente a dor física. É a solidão existencial. É nesse momento que ele percebe que sua vida inteira não passou de uma mentira elegante.

Do ponto de vista filosófico, Tolstói antecipa temas centrais do existencialismo – sobretudo a ideia de que a consciência da finitude é a chave para uma vida autêntica. Ivan Ilitch passou décadas agindo como se a morte não existisse, como se o protocolo social pudesse blindá-lo do abismo. A morte, ao chegar, não lhe tira apenas o fôlego. Ela lhe revela que ele nunca respirou de verdade. O romance mostra que a o esforço cotidiano para ignorar o nosso fim produz como consequência uma vida superficial, feita de rituais vazios, trabalho mecânico e status ilusório.

A pergunta que atravessa o livro é brutal e libertadora: o que você está fazendo agora que resistirá ao crivo da sua própria morte? A resposta de Ivan – “nada, absolutamente nada” – é o espelho que Tolstói coloca diante do leitor. Não por acaso, o único personagem que escapa da hipocrisia é justamente Guerássim, um camponês que não precisa fingir porque nunca aprendeu a mentira dos costumes sociais.

Ao contrário do que possa parecer, a obra em si não possui um caráter pessimista. Ela constitui sobretudo um alerta. A Morte de Ivan Ilitch deve ser lida não como um consolo, mas como um incômodo produtivo. São aproximadamente oitenta páginas que podem transformar para sempre a sua relação com o trabalho, com o afeto, com o lazer e, principalmente, com o tempo do qual você ainda dispõe. Se você quiser viver de verdade, leia-o antes de morrer.

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Trilha sonora do momento

E hoje seria o aniversário do grande, do enorme, do gigantesco Marvin Gaye.

Para mostrar que o elogio não é exagero, aqui vai um dos seus clássicos à capela.

Será que ele cantava?

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Pensamento do dia

Nada é tão seu quanto as consequências das suas ações.

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Trilha sonora do momento

Saudade do grande benemérito do Club de Regatas Vasco da Gama…

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Pensamento do dia

Às vezes, o pior não é a mentira. É você não poder dizer como descobriu a verdade.

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