Hoje boa parte do público – incluindo este que vos escreve – foi apresentado à agora famosa “Deolane Bezerra”, Habitante daquele mundo paralelo em que as pessoas ficam famosas simplesmente porque “ficam famosas”, a “Doutora Deolane” foi presa numa operação policial por suspeita de lavagem de dinheiro e envolvimento em jogos de azar.
Não me interessa aqui falar especificamente sobre o caso do Deolane. Nada contra a moça, da qual boa parte do país sequer tinha ouvido falar até o dia de hoje. Se for culpada, que acerte suas contas com a Justiça. Se não for, que seja declarada inocente. O que me interessa é falar de como alguém surge do nada e, aparentemente, ao nada retornará sem qualquer justificativa para sua existência midiática. O que poderia ser apenas folclórico torna-se melancolicamente preocupante ao se constatar que o caso de Deolane Bezerra representa o ápice de uma era de culto ao nada.
Não que o fenômeno seja novo. De certa forma, a cultura brasileira sempre teve uma queda pelo espetáculo da banalidade (ou não teríamos tido tantas edições do Big Brother). Já aqui se denunciou no final da década passada a praga dos youtubers. O que houve de novidade de lá pra cá foi apenas a exponencialização de um modo de ganhar na vida completamente desconectado da realidade.
Em outros tempos, a pessoa possuía algum talento e, uma vez reconhecida, tornava-se famosa. Agora, a fama perdeu qualquer lastro relacionado com talento, utilidade pública e até mesmo o mínimo de capacidade intelectual do sujeito. Nos tempos de hoje, ilustres desconhecidos são catapultados ao estrelato sem justificativa aparente, como se a mera exibição obscena do patrimônio fosse alguma espécie de virtude cívica.
Para quem acompanha os tais “influencers” das redes insociáveis, o roteiro de produção de novo “famoso” segue um padrão conhecido. Em regra, eles costumam vender estilo de vida que não possuem para pessoas que não podem pagar por ele. O cotidiano de um influenciador ordinário resume-se a postar stories ostentando carros importados, jatinhos, bolsas de grife e maços de dinheiro. A lógica é a da identificação pelo avesso. O seguidor olha para aquela figura desprovida de qualquer conteúdo relevante e pensa, subconscientemente: “Se alguém tão comum e limitado conseguiu enriquecer fazendo p…. nenhuma, eu também posso”.
No final das contas, o que quase todo influenciador faz é vender a ilusão do atalho à riqueza. Trata-se de uma fantasia instagramável através do qual o ganho fácil se sobrepõe ao esforço real do desenvolvimento pessoal. O problema é que, enquanto o público assiste à novela da vida alheia, quem enriquece é apenas o protagonista do feed. E, como parece ser o caso de Deolane, muitas vezes isso ocorre à custa do endividamento dos próprios seguidores.
Mas por que pessoas sem talento algum de repente viram semideuses digitais, arrastando multidões e conquistando milhões de seguidores?
A resposta é simples, porém dolorosa. Vivemos um apagão cultural no qual a validação social migrou do mérito para a métrica. Antigamente, a fama era consequência de uma habilidade: você precisava cantar bem, atuar com brilhantismo, liderar um movimento ou, no mínimo, chutar uma bola com maestria. Hoje, o algoritmo inverteu a lógica. O sujeito torna-se famoso simplesmente por ser famoso. Cria-se um loop de voyeurismo digital, alimentado pela carência de uma massa que busca anestesia para a própria realidade sem graça através da vida luxuosa de outrem.
O que a prisão de Deolane fez foi expor de certo modo as entranhas dessa engrenagem. Quando a cortina de fumaça da ostentação é dissipada, o que sobra por trás dos filtros do Instagram revela um enredo bem menos glamouroso. Quando a coisa fica restrita à venda de “chás emagrecedoras” ou tendências de moda de gosto duvidoso, vá lá; o dano fica restrito à futilidade do sujeito. O problema é quando a monetização da ilusão alheia abandona o campo do entretenimento e invade o orçamento doméstico. Aí, sim, a coisa vira caso de polícia.
Como todo grande escândalo midiático deste país, é bem provável que o caso de Deolane Bezerra já esteja esquecido na semana que vem. O problema, contudo, permanecerá do mesmo tamanho. Enquanto o gigantesco déficit educacional brasileiro continuar sendo preenchido pela miragem de fama e fortuna através de aplicativos de redes sociais, casos assim continuarão a acontecer.
É esperar pra ver.