O reverso da fortuna, ou Como os Estados Unidos se tornaram o que sempre ensinaram a não ser

Quem é mais velho vai lembrar.

Nos anos 80, o Brasil viva de passar o pires em organismos internacionais. Quebrado, o país recorria aos empréstimos do FMI para conseguir os dólares de que necessitava para fazer frente aos seus compromissos externos. Àquela época, ficaram famosas as “cartas” ao Fundo, no qual o governo fingia que ia fazer um ajuste fiscal nas contas para pedir dinheiro, enquanto o FMI fingia que acreditava que aquilo era de verdade.

Também é dessa época outro best seller: o relatório de condicionalidades. Trata-se de um documento elegante, escrito com o tecnicismo próprio dos economistas, no qual os çábios das finanças internacionais explicam por A+B o que países emergentes estão fazendo de errado e o que eles precisam corrigir para continuar tendo acesso ao crédito internacional. Esse gênero o Brasil conhece de cor. Já leu muitas edições. Assinou até algumas. E pagou o preço de quase todas.

Esses fantasmas, que costumavam assombrar o Brasil e a América Latina, resolveram dar as caras em outras paragens agora. Em um plot twist digno de um filme de M. Night Shyamalan, quem agora está sofrendo com a descrença sobre a sua capacidade fiscal é a Roma dos tempos modernos, verdadeira Meca do capitalismo financeiro internacional: os Estados Unidos.

Já há algum tempo, os juros longos da dívida americana vinham subindo. Desde o segundo semestre de 2022, quando a inflação da pandemia obrigou o Federal Reserve a apertar a política monetária, a coisa começou a degringolar. Agora em março, o nervosismo aumentou e, com ele, os juros começaram a subir com mais força. Na terça-feira, atingiram o nível mais alto desde 2007. Na quarta-feira, o Tesouro agiu.

Sentido a água batendo na bunda, o Secretário do Tesouro norte-americano, Scott Bessent, fez valer sua fama de grande operador da banca internacional. Sem ter como resolver imediatamente a questão do crônico déficit fiscal dos EUA, Bessent decidiu intervir no mercado de títulos. A coisa funciona mais ou menos assim:

O Departamento do Tesouro, maior player desse mercado secundário de títulos, compra regularmente os títulos da dívida por ele mesmo emitidos para dar liquidez ao mercado. Pois bem. Bessent anunciou que vai dobrar a quantidade de recompra de títulos com vencimento em 10 e 30 anos. E é exatamente isso que você está pensando: o governo está comprando de volta a sua própria dívida.

“Mas de onde um governo deficitário tira dinheiro para comprar sua própria dívida?”

É aqui que entra o truque de Bessent. Para comprar títulos de longo prazo, ele vende títulos de curto prazo. Com o dinheiro dessa venda, ele recompra os títulos que venceriam daqui a 10 ou trinta anos por outros, que vencem a cada dois anos. Com mais gente (leia-se: Tesouro) comprando títulos da dívida, o preço deles sobe (a famosa leia da oferta e da procura). Se o preço do título sobe, isso significa que a remuneração por ele – ou seja, os juros – caem.

Qual o problema dessa “estratégia”?

Quando você compra títulos longos, que em regra têm juros mais baixos, usando como forma de financiamento a emissão de dívida de curto prazo – que por natureza é mais cara -, você está meio na posição do sujeito que vende o carro pra comprar a gasolina. Pode até funcionar por algum tempo. Mas é receita de desastre certo no longo prazo.

“E o que é que a gente tem a ver com isso?”, deve estar se perguntando você.

Pois esta semana, enquanto os juros americanos atingiam o nível mais alto em quase vinte anos, Washington resolveu experimentar na própria pele o tipo de problema que sempre gostou de diagnosticar nos outros.

Seguinte: uma vez que o dólar é a moeda de reserva mundial, todas as taxas de juros do sistema financeiro – pelo menos do lado ocidental do planeta – têm como piso a taxa de juros norte-americana. Quando elas sobem, não sobem só as taxas do cartão de crédito e das hipotecas dos americanos. Por tabela, sobe o custo do dinheiro pra todo mundo, inclusive o Brasil.

Mas, afinal, por que diabos a taxa de juros nos Estados Unidos está subindo?

A explicação é relativamente simples. Além dos déficits fiscal e comercial gigantescos, o governo do Nero Laranja adicionou à equação a guerra do Irã. Além do preço do petróleo subir por razões óbvias, os gastos com o maquinário militar naturalmente aumentam a despesa do governo. Mais despesa, mais déficit, mais juros. Exatamente como ocorre no Brasil ou em qualquer outro lugar.

Como desgraça pouca é bobagem, a esse problema se soma outro, vindo do outro lado do mundo. Com uma dívida pública de impressionantes 250% do PIB, o Japão abandonou uma longa e histórica tradição de juros negativos. Com a alta dos juros no Japão, o fluxo de capital japonês para o financiamento do rombo fiscal americano secou.

Qual seria a solução?

Para quem está familiarizado com as famosas cartas do FMI e os relatórios de condicionalidades dos anos 80, o receituário é o de sempre: cortar gastos, produzir reformas estruturais e, de preferência, não sair bombardeando nações mundo agora. Tudo que essa galera adorava empurrar goela abaixo do Brasil e da América Latina naquele tempo, mas que nunca foi aplicado de verdade por quem pregava isso.

O curioso é que essa é precisamente a política que economistas heterodoxos brasileiros propõem há anos — que o Banco Central compre títulos para controlar a curva de juros longa —, sendo sistematicamente ridicularizados pelo mercado financeiro e pela imprensa econômica como irresponsáveis, estatizantes e inimigos da ortodoxia. A proposta nunca entrou em vigor no Brasil, em parte porque o pessoal de “o mercado” sempre reagiu a ela como se fosse o prenúncio do apocalipse fiscal. Agora, quando a mesma coisa é feita às claras em Washington, o bicho ganha o nome de “gestão de liquidez”.

A verdade é que a era econômica que sobreveio ao desastre financeiro de 2008 — obra da própria picaretagem financeira de Wall Street — e durou até a pandemia acabou. A era de juros artificialmente baixos no mundo rico está chegando ao fim. Antes, era barato financiar déficit. Agora, não mais. Com taxas mais altas e déficits que crescem sem perspectiva de ajuste, a dívida pública americana acumula a desconfiança e o descrédito que antes eram privilégio das economias “irresponsáveis”.

Bem-vindos ao clube, senhores.

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Trilha sonora do momento

E como hoje é Dia Mundial da Fotografia, vamos a esse clássico de Chico Buarque e Tom Jobim.

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Pensamento do dia

Em certa medida, viver é aceitar que o investimento é certo, mas o retorno nem sempre é garantido.

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Trilha sonora do momento

I’m gonna miss you, baby. 🥺​😢​😘​

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Pensamento do dia

Eu gosto de gente que resolve. O mundo já tem gente demais pra reclamar.

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Trilha sonora do momento

Vamo que vamo…

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Pensamento do dia

Quem não quer mudar encara qualquer verdade como ofensa.

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Recordar é viver: “Apocalipse trumpista, quarto ato: o Laranjão parte para o ataque. E agora?”

Exatamente um ano depois, cá estamos aqui novamente.

É o que você vai entender, lendo.

Apocalipse trumpista, quarto ato: o Laranjão parte para o ataque. E agora?

Publicado originalmente em 10.7.25

Tava demorando…

Para quem esperava pelo ataque de Donald Trump desde quando ele assumiu, no começo deste ano, sete meses até que foi um prazo razoavelmente longo para que as instituições brasileiras fossem alvo da fúria do Nero dos nossos tempos. Exatamente como foi previsto aqui, não adiantava acreditar em moderação. Em algum momento o Laranjão viria com tudo para cima do Brasil. A dúvida era apenas saber: 1) “quando”; 2) “por quê?”.

“Quando”, já sabemos. Foi agora, menos de uma semana depois do encerramento da reunião dos Brics no Rio de Janeiro. Como boa parte das coisas na vida, também aqui o timing é bastante sintomático. Se coincidências já são raras na vida em geral, quando se fala de política externa – ainda mais da maior potência do planeta – elas são virtualmente inexistentes.

O que nos dá, por consequência, uma pista sobre o porquê. Apesar do autoexilado Eduardo Bolsonaro tentar reclamar para si os louros dessa “vitória”, é no mínimo duvidoso acreditar que um sujeito como Donald Trump resolvesse comprar briga por conta de Jair Bolsonaro, o chefe de Estado mais subserviente no tempo do seu primeiro mandato. Embora tenham compartilhado dois anos de período presidencial, o Laranjão não veio uma vez sequer ao Brasil, taxou as exportações de aço brasileiro para os Estados Unidos e nem sequer – suprema desfeita – seguia o chefe do clã Bolsonaro no Twitter. Logo, creditar ao “Bananinha” a responsabilidade pelo tarifaço aos produtos brasileiros é atribuir-lhe uma importância que ele definitivamente não tem.

Se isso não fosse o bastante, um bilionário liberticida e narcisisticamente autocentrado como Trump jamais queimaria pestanas por BOs alheios. Afinal, como ele mesmo disse na “carta” que enviou pelo Twitter ao governo brasileiro, caso as empresas brasileiras resolvam transferir suas fábricas pra lá, as tarifas seriam removidas imediatamente. Ele se prontifica inclusive a resolver a questão da papelada “em semanas”, como diz a própria carta. Ou seja: se trouxerem investimentos (e empregos) para os Estados Unidos, dane-se Bolsonaro e sua trupe.

“Mas se não foi por isso, foi por que, então?”

Excluindo, por absoluta falta de lógica, a hipótese de que isso tenha sido motivado por afinidade ideológica ou alguma espécie de solidariedade a Bolsonaro, restam duas hipóteses, ambas entrelaçadas: a primeira, de natureza geopolítica; a segunda, de natureza econômica.

Do ponto de vista geopolítico, a grande briga dos Estados Unidos, hoje, é contra a China. Nessa Guerra Fria 2.0, as superpotências olham para o globo como a gente costumava olhar para o tabuleiro de War: “que território eu posso conquistar?” No caso dos EUA, a América Latina sempre foi o seu quintal. E a última coisa que passa pela cabeça dos norte-americanos é deixar o Brasil cair nos braços de seu maior inimigo geopolítico. Como o Brics, na configuração atual, é basicamente uma “ONU do B”, comandada pelos chineses, atingir o Brasil não deixa de ser uma forma de também passar um recado para o Império do Meio.

Do ponto de vista econômico, o tarifaço trumpista tem íntima ligação com a questão geopolítica. Se os Estados Unidos são o que são hoje, muito disso se deve ao fato de o dólar ser não somente a moeda de referência mundial, como também a moeda de reserva de praticamente todos os países do mundo. Todavia, graças ao declínio da hegemonia econômica dos Estados Unidos e à ascensão de outras potências como a própria China, esse verdadeiro monopólio de emissão de moeda já não é mais o mesmo. Na virada do milênio, o dólar respondia por 75% das reservas mundiais. Hoje, esse percentual não passa de 5%, com tendência de queda.

Juntando lé com cré, dá pra entender a razão pela qual Trump produziu tamanho piti. Dado que Lula é o parceiro do Brics mais vocal no desejo de “desdolarização” da economia mundial, o Laranjão juntou a fome – o desejo de expressar seu poder imperial – com a vontade de comer – retaliar um país que “ameaça” a hegemonia do dólar. Melhor para o Nero Laranja, já que, ao contrário da China, o Brasil não tem nem cacife nem estofo para uma disputa do tipo tit-for-tat com os americanos. O dano potencial à economia brasileira é muito maior do que à norte-americana, caso o Brasil decida retaliar na mesma moeda.

“E agora, o que é que a gente faz?”

Bom, numa disputa louca como a do Laranjão, algumas coisas são inegociáveis. A primeira delas refere-se justamente ao pretexto mais esdrúxulo utilizado como pretexto para o tarifaço: a suspensão do processo contra Bolsonaro e os golpistas de 8 de janeiro. Ao contrário dos Estados Unidos, incapazes de punir um criminoso como Trump por tentar dar um golpe de Estado, aqui as instituições funcionam. Não somos uma república de bananas, que cede às chantagens e aos caprichos de um candidato a protoditador alaranjado. Ademais, ainda que quisesse, Lula não tem nem poder nem competência constitucional para fazer parar o processo contra Bolsonaro. Discutir isso, portanto, está fora de questão.

Difícil também vai ser negociar as tarifas sob um ângulo estritamente econômico. Afinal, o pressuposto invocado pelo Laranjão na sua cartinha é o fato de que “as injustas medidas” tarifárias do Brasil causaram um déficit que ameaça a “segurança nacional” norte-americana. O problema é que, desde 2009, a balança comercial entre o Brasil e os Estados Unidos é superavitária. Pra eles. Pra nós, já são quase US$ 90 bi de déficit acumulado em 15 anos. A questão aí, portanto, não é de política comercial. É de aritmética.

Resta, então, tentar agir com a cabeça e deixar o fígado de lado. Se existe uma coisa na qual o Brasil é bom é na diplomacia. Um dos melhores grupos técnicos que o Estado brasileiro foi capaz de construir até hoje é justamente o corpo de diplomatas do Itamaraty. Brasil e Estados Unidos são aliados há mais de 200 anos. Os americanos foram os primeiros a reconhecer a nossa independência de Portugal. Nas duas guerras mundiais, o Brasil lutou ao lado dos americanos. E, durante toda a Guerra Fria, o Brasil se posicionou do lado do Ocidente contra a União Soviética. O histórico, portanto, joga a nosso favor.

A desgraça produzida pelo Laranjão não é pequena, ressalte-se. Mas, assim como aconteceu em seu primeiro mandato, uma hora ela acaba. Tal qual o desgoverno bolsonarista, também o Apocalipse Trumpista irá passar. Cabe a nós, os verdadeiros patriotas, trincarmos os dentes e brace for impact. Como ensina um clássico da Sessão da Tarde dos anos 80:

Desistir? Nunca.

Render-se? Jamais

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Trilha sonora do momento

Grande Cartola…

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Pensamento do dia

As únicas duas coisas fáceis na vida são engordar e gastar dinheiro. O resto é difícil. Acostume-se.

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