Recordar é viver: “Os limites da realidade, ou Até quando o povo vai se deixar enganar pela extrema-direita?”

Agora que o deputado federal André Fernandes foi flagrado jogando lixo em frente ao Paço Municipal de Fortaleza somente para gravar um vídeo lacrador “denunciando” a sujeira da cidade, talvez seja uma boa hora para recordar esse post do ano passado.

É o que você vai entender, lendo.

Os limites da realidade, ou Até quando o povo vai se deixar enganar pela extrema-direita?

Publicado originalmente em 28.10.25

O que aconteceu hoje no Rio de Janeiro é o retrato mais bem acabado dos males que a extrema-direita representa para o país. Numa operação verdadeiramente Tabajara, o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, resolveu mandar a polícia a campo para prender integrantes do Comando Vermelho. Sem qualquer espécie de planejamento maior, os representantes das forças do Estado foram às ruas como um Exército que se dirige a uma luta campal. Até o momento, o saldo é de 8o suspeitos presos e 64 mortos, sendo quatro destes policiais que participavam da operação.

Uma simples comparação com outra operação recente contra o crime organizado é capaz de dimensionar o tamanho do desastre. Na “Carbono Oculto”, seis pessoas foram presas e mais de 350 foram alvos do inquérito. Utilizando-se de inteligência e estratégia, os promotores e a polícia conseguiram desvendar uma rede que teria lavado nada menos do que R$ 46 bilhões, através de um intricando esquema com fundos da famosa Faria Lima (que adora gritar contra a corrupção dos outros). Nenhum morto. Nenhum ferido.

Sopesando a operação de agora com a Carbono Oculto, o leitor amigo poderá concluir: qual das duas causou mais dano ao crime organizado? A que prendeu 80 e matou 60 soldados do crime? Ou a que estourou a boca da lavagem de dinheiro?

Embora Cláudio Castro não seja ele próprio um extremista, é certo que bajula a extrema-direita bolsonarista visando a um cargo no Senado Federal nas próximas eleições. Sem ter o que apresentar para a população e tendo de brigar pela única vaga da direita restante (a outra está reservada ao 01 do clã Bolsonaro, Flávio), Cláudio Castro deve ter pensado que sair pro pau com o crime organizado poderia lhe render votos no ano que vem. Se a idéia era essa, é bem possível que o tiro tenha saído pela culatra.

O exemplo da guerra campal aberta contra a bandidagem no Rio de Janeiro é emblemático do modus operandi da extrema-direita brasileira. Como sua, digamos, “atividade política” é restrita à tática do “causar”, o grosso do que essa galera faz é simplesmente produzir vídeos em série para “lacrar” nas redes sociais. Olhando-se a fundo, não existe um só caso de parlamentar da extrema-direita que tenha produzido algo efetivamente relevante para a população que o elegeu.

Peguemos os casos de Carlos e Eduardo Bolsonaro, por exemplo. Tendo começado a vida parlamentar praticamente adolescentes, os hoje marmanjos Carluxo e Dudu Bananinha apresentaram e conseguiram aprovar um total de zero – isso mesmo: ZERO – proposições legislativas que tenham trazido algum impacto positivo para o povo. Entre tweets ininteligíveis, escritos numa língua que se aproxima muito do português, e conspirações contra a própria pátria, nem o filho 02 nem o filho 03 aprovaram qualquer coisa em benefício da população. Considere-se, entretanto, que estão apenas a seguir o exemplo do pai, Jair, que, ao longo de quase 30 anos friccionando a região escrotal, tampouco aprovou ou propôs qualquer coisa digna de nota na Câmara dos Deputados.

Essa característica é tão forte que mesmo a “nova geração” da extrema-direita segue na mesma toada. Nikolas Ferreira e André Fernandes, duas figurinhas carimbadas dos vídeos desinformativos do TikTok, vão completar um quadriênio só na base do dedo no c* e gritaria. Nada, absolutamente nada do que eles fizeram durante seus mandatos reverteu em algum benefício concreto para a população brasileira.

Como o caso das tarifas sobre os produtos brasileiros está a ensinar, essa tática ridícula encontra um limite na realidade. Bananinha pode vociferar à vontade contra Lula e inventar um “Xadrez 52-D”, no qual Donald Trump estaria apenas produzindo uma “armadilha genial” contra o babalorixá petista, mas o fato incontornável é que, desde que se autoexilou nos Estados Unidos, ele não tirou sequer uma foto sendo recebido pelo Laranjão. Lula, ao contrário, tem uma.

Ainda haverá quem siga acreditando nas baboseiras e invencionices dessa malta escroque. Como nunca há nada de concreto a apresentar, a extrema-direita se sustenta numa eterna expectativa hypeada do porvir. Todavia, o número de crédulos nessa bizarra fantasia é cada vez menor. Mesmo para quem odeia a esquerda até a medula é difícil se manter no looping infinito “aguarde 72h – nada acontece – aguarde mais 72h”.

Nessa quadra, a única pergunta que resta é:

Até quando o povo vai se deixar enganar pela extrema-direita?

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Trilha sonora do momento

Com a volta do pessoal da Artemis, vamos de Paralamas do Sucesso pra encerrar esta sexta em alto astral.

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Pensamento do dia

No mundo de hoje, tem muita gente com a testa oleosa se achando mente brilhante.

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Trump x Leão, ou A ameaça de Avignon 2.0

A guerra do Irã definitivamente não fez bem a Donald Trump. Não satisfeito em tretar com meio mundo por conta do estúpido conflito que iniciou no Oriente Médio, agora o Laranjão partiu pra cima de ninguém mais, ninguém menos do que Sua Santidade, o Papa Leão XIV.

De acordo com notícias divulgadas pela imprensa americana, o Nero Laranja teria ficado com raivinha das críticas que o Bispo de Roma pronunciara contra a chacina perpetrada por americanos e israelenses em solo persa. Em “resposta”, o subsecretário de Defesa dos Estados Unidos, Elbrigde Colby, convocou ao Pentágono o núncio apostólico da Santa Sé no país, Cardeal Christophe Pierre.

Noves fora o fato de que a convocação, se devida fosse, deveria ter sido feita pelas vias diplomáticas normais, não pelo Departamento de Defesa, a “mensagem” entregue por Colby ao cardeal Pierre foi o puro suco de arrogância, delírio e ameaça típicas do movimento trumpista: “Os Estados Unidos têm o poder militar para fazer o que bem entender no mundo. A Igreja Católica faria melhor em alinhar-se conosco”. Como desgraça pouca é bobagem, Colby ainda mandou que o núncio transmitisse ao Santo Padre – um cidadão norte-americano de nascimento – um recado nada sutil: se ele continuasse a insistir nas críticas, o governo do Laranjão acionaria o “protocolo de Avignon”.

Para quem não pegou a sutileza da ameaça, o “Papado de Avignon” retrata um dos capítulos mais infames da história da Igreja Católica. Por sete décadas, de 1309 a 1377, a sede papal – que por definição estava estabelecida desde sempre em Roma – foi compulsoriamente transferida para a cidade de Avignon, no sul da França. A violência teve como origem um entrevero entre o Papa Bonifácio VIII e Felipe IV, rei da França. Com egos proporcionais aos seus títulos reais, Felipe IV fez valer seu poderio militar para tentar dobrar a Igreja aos interesses da coroa francesa.

Não bastasse a transferência da Santa Sé para Avignon, Felipe IV exigiu que todos os papas dali pra frente fossem franceses. E assim foi. Com o Sacro Colégio Cardinalício sitiado por tropas gaulesas, de Clemente V a Gregório IX, todos os sumos pontífices eleitos eram franceses. Por isso mesmo, esse período é referido jocosa e ironicamente como “Cativeiro Babilônico da Igreja”.

Em Avignon, o papado, embora centralizado administrativamente e próspero financeiramente (para desespero de muitos que viam nisso simonia e corrupção), operava sob a sombra do poder monárquico, transformando-se, aos olhos de muitos cristãos, em um mero apêndice da política francesa. Essa perda de autonomia e a subsequente crise de legitimidade não apenas geraram o escândalo da ausência papal de Roma, mas também semearam as sementes para o Grande Cisma do Ocidente, quando foram eleitos dois sumos pontífices: um papa em Roma (Urbano VI); e outro, “antipapa”, em Avignon (Clemente VII).

A mensagem transmitida pelo governo dos Estados Unidos, portanto, foi clara como água de bica: se a Igreja não se dobrasse, talvez um “Papado de Mar-a-Lago” pudesse ser arquitetado. A ironia de um império “moderno” flertando com a barbárie medieval para intimidar o sucessor de São Pedro seria cômica, se não fosse trágica.

Para o Laranjão, pode ser que a ameaça fizesse algum sentido. Afinal, Leão é o “novato” que surprendeu os vaticanistas ao ser eleito Papa no ano passado. Como disse Stalin durante a II Guerra Mundial, o Bispo de Roma não dispõe de tropas para impor sua vontade. O Nero Laranja, contudo, esqueceu-se de que a força de um pontífice não vem das armas (que não têm), mas da moral e da força de sua palavra.

Submetido à afronta, ao invés de recuar, Leão resolveu dobrar a aposta. Primeiro, o Papa cancelou a visita de Estado prevista para as celebrações dos 250 anos dos Estados Unidos. Depois, pisando no acelerador, o Papa reiterou sua condenação à guerra, classificando-a como “injusta”. Mais que isso. Tachou as ameaças de inaceitáveis e conclamou os fiéis católicos do país – cuja população tem crescido nos últimos tempos – a “ligarem para os seus representantes no Congresso”, visando a pressionar o governo.

No final das contas, a cruzada de Trump contra o Papa Leão XIV apenas expõe a fragilidade de um governo acuado pelos seus próprios erros. Se o Laranjão precisa recorrer à ameaça militar para prevalecer diante de uma crítica puramente moral, é sinal de que a batalha da comunicação já está completamente perdida.

Enquanto o Nero Laranja tenta reescrever a história eclesiástica com mísseis e ultimatos, o Papa – com a autoridade de quem não tem exércitos, mas tem o poder da palavra – recorda que o poder bélico não compra a dignidade humana, nem silencia a consciência da fé católica. E, por mais que tentem, não há força militar capaz de transformar uma guerra injusta numa cruzada divina. A Igreja, ao que parece, ainda tem a capacidade de rugir.

E este Leão não parece disposto a ser domesticado…

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Trilha sonora do momento

Ê, Rio de Janeiro….

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Pensamento do dia

Antes nada do que a metade.

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Trilha sonora do momento

Será?

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Pensamento do dia

A má notícia é que o tempo voa. A boa, que você é o piloto.

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Trump Always Chickens Out, ou A esmagadora derrota dos Estados Unidos na guerra contra o Irã

Aconteceu o esperado.

Na undécima hora, depois de ter ameaçado trocentas vezes “obliterar” o país e mandá-lo de volta à “Idade da Pedra”, Donald Trump recuou mais uma vez de seu “ultimato” de 48h ao Irã. Depois de literalmente ter xingado muito no Twitter, pedindo que os crazy bastards (“loucos malditos”) dos iranianos reabrissem the fuckin’ strait (“a porra do estreito (de Hormuz)”, o Nero Laranja mais uma vez recuou e disse ter adiado por duas semanas (risos) o ultimato de aniquilação total do país persa. Sem meias palavras, o que está se desenhando é a mais esmagadora derrota dos Estados Unidos desde a retirada de Saigon, há mais de meio século.

Alright, good news first:

Do ponto de vista humanitário, o cessar-fogo – seja em que guerra for – sempre é algo a ser comemorado. É preciso ser muito desalmado ou insensível para acreditar que a matança indiscriminada de seres humanos pode trazer algo de bom. Por mais que os ditos “cristãos-patriotas-cidadãos de bem” estivessem celebrando a morte de pessoas simplesmente pelo fato de professarem uma fé diferente, a maior parte da população via o que estava acontecendo com profunda angústia. As boas notícias (para os Estados Unidos), contudo, param por aí.

Do ponto de vista estritamente militar, a situação para os Estados Unidos é um desastre. Lançou milhares de bombas sobre o Irã; matou o primeiro, segundo e terceiro escalão dos aiatolás; teve dois porta-aviões tirados de combate (um retornou ao país por um suposto incêndio na lavanderia; o outro saiu de perto do Golfo Pérsico por medo dos mísseis iranianos); teve quase uma dezenas de aeronaves abatidas; teve de executar duas missões de alto risco para resgatar pilotos derrubados pela defesa anti-aérea do Irã; e, mesmo com tudo isso, não conseguiu derrubar o regime persa.

Como desgraça pouca é bobagem, os aiatolás agora estão mais empoderados do que nunca. Resistiram à artilharia maciça da maior potência militar da região (Israel) e da maior potência bélica do mundo (Estados Unidos). Não só não cederam a nenhuma das exigências que lhe foram impostas como, ainda por cima, descobriram o tamanho do estrago que conseguem produzir manejando a única arma geográfica que eles têm à disposição: o estreito de Hormuz.

Passadas seis semanas de conflito e o preço do petróleo insistentemente acima dos US$ 100, a economia mundial – já em estágio periclitante – ameaçava dobrar os joelhos diante de uma iminente recessão causada pelo aumento inflação global. Uma vez que boa parte da cadeia produtiva mundial depende diretamente do ouro negro, a expectativa de aumento dos custos jogou por terra a hipótese de corte de juros pelo FED para este ano. Bancos Centrais de outros países, incluindo o Brasil, já previam até aumento da taxa básica de juros para fazer frente ao surto inflacionário decorrente da disrupção do abastecimento de petróleo.

Diante desse cenário, a Trump não restava muita escolha. O tweet do último sábado, xingando os iranianos para pedir a abertura do estreito de Hormuz, não era outra coisa senão sinal de desespero. Com a popularidade ao rés-do-chão e diante da perspectiva concreta de perder as duas casas do Congresso na eleição de novembro, o Laranjão precisava desesperadamente dar um jeito de jogar o preço do petróleo pra baixo. Só assim seria possível tentar diminuir o mau humor do consumidor americano que já sentia o preço da brincadeira americana no Oriente Médio quando ia abastecer seu veículo no posto de gasolina.

“O acordo de agora é pra valer?”

Claro que é impossível cravar isso a essa altura. Pela dinâmica dos acontecimentos, entretanto, duas coisas são certas:

A primeira é que ninguém levará mais a sério as ameaças de Trump. O acrônimo TACO (Trump Always Chickens OutTrump sempre arrega) já desmoralizou por completo o Nero Laranja. Todo mundo agora tem certeza absoluta de que, não importa o que aconteça, Trump sempre recuará na última hora diante do risco de uma débâcle econômica.

A segunda é que o Irã se sentirá devidamente autorizado a negociar a “paz” nos seus termos. Talvez por isso mesmo os iranianos tenham soltado a lista com suas “10 exigências” logo após o anúncio do recuo de Trump. Quem visse a lista antes da guerra – que inclui, por exemplo, a retirada de todas as bases americanas do Oriente Médio e o reconhecimento oficial do controle do estreito de Hormuz pelo Irã -, imaginaria que os iranianos estariam ou muito loucos de droga ou fazendo piada. Agora, o próprio Trump disse que essa lista constitui uma workable basis (“base viável”) para um acordo.

No longo prazo, os efeitos da guerra também serão largamente deletérios para os norte-americanos. Se antes os Estados Unidos tinham jogado fora oitenta anos de soft power nas relações internacionais ao atacar até aliados com pretensões imperalistas, agora seu próprio hard power (ou seja, o emprego de força bruta) também estará em xeque. Ficou demonstrado mais uma vez que, por maior que seja a hegemonia militar dos ianques, até para ela existem limites. O fato de os iranianos terem sapateado na cara do Laranjão com a divulgação simultânea ao cessar-fogo da sua lista de 10 exigências é a prova mais cabal disso.

No futuro, quando os Estados Unidos não forem mais a superpotência hegemônica do planeta, os historiadores procurarão definir o turning point, o momento decisivo que marcou o início incontestável do declínio norte-americano. Esse ponto pode ter acontecido hoje.

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Trilha sonora do momento

E enfim a galera do Pink Floyd encontrou alguém para dar alô no lado escuro da Lua…

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