Recordar é viver especial de homenagem: “O fim do programa do Jô”

E lá se foi o último beijo do Gordo.

Não que fosse inesperado. Afinal, José Eugênio Soares já contava com seus 84 anos mais que bem vividos, com uma longa folha de serviços prestados ao jornalismo, à literatura, ao teatro e, claro, ao humor. Não, jamais haverá alguém como ele, e todas as homenagens que se lhe fizerem ainda serão poucas diante do buraco que Jô Soares deixou na cultura brasileira.

Deste espaço, pelo menos, pode-se dizer que as homenagens não vieram somente com a sua morte. Aliás, muito do que ora está sendo reproduzido na grande mídia que optou burramente por esquecê-lo já foi escrito aqui, seis anos atrás.

Resta, portanto, consolarmo-nos do legado imortal que ele deixou, que sobreviverá ainda por muitos anos no imaginário de quem teve o privilégio de assistir ao vivo à genialidade dessa grande figura.

O fim do Programa do Jô

Publicado originalmente em 20.12.06

anúncio foi feito desde o começo do ano. Como numa contagem regressiva, o público foi sendo apresentado a um fim lento e gradual do primeiro grande talk show da televisão brasileira. Decerto, a esperança era a de que o fim prenunciado diminuísse a dor da partida, fazendo com que a audiência se acostumasse aos poucos com a idéia de não ir mais dormir com o “beijo do Gordo”.

Jô Soares cansou-se de repetir que essa seria apenas o fim do Programa do Jô na Globo. Com isso, passava duas mensagens: primeiro, que jamais concordou com a decisão da emissora de encerrar a atração; segundo, que deixava as portas abertas à concorrência para continuar com seu programa de entrevistas em outro canal. Embora não se saiba exatamente o que o futuro reserva para Jô Soares, é difícil acreditar que seu talk show continue em algum outro lugar, mesmo na TV fechada. Desde a última sexta-feira, com a entrevista de Ziraldo, pode-se dizer que se encerra uma das fases mais gloriosas do entretenimento nacional.

Quando saiu brigado com Boni da Globo no final dos anos 80, Jô levou para Sílvio Santos a idéia de inaugurar no Brasil um programa de entrevistas nos moldes daqueles produzidos na televisão norte-americana (Johnny Carson, David Letterman, Jay Leno, entre outros). O modelo era rigorosamente o mesmo: um grande humorista no papel de apresentador, uma bandinha para tocar música e servir como escada para piadas de palco e um bate-papo informal, descontraído, recheado de piadas e humor.

À diferença dos concorrentes que vieram depois, como Danilo Gentilli e Fábio Porchat, e mesmo dos seus precursores ianques, Jô Soares tinha um diferencial que quase nenhum deles ostentava ou vai ostentar algum dia: ele era um homem de TV, de teatro e de entretenimento. Mais que isso. Poucos como ele gozaram da intimidade de artistas consagrados e participaram tão ativamente do movimento cultural brasileiro desde os anos 60. Tendo passado por quase todas as emissoras e teatros do Brasil, Jô conhecia e tornou-se amigo de praticamente todo mundo do meio artístico. Seja como roteirista, produtor, apresentador ou “só” humorista, Jô convive com a nata da intelectualidade brasileira há mais de cinquenta anos. Assim, quando o sujeito ia no Programa do Jô, ele não ia ser entrevistado por um grande apresentador. Ele ia bater um papo com um amigo de longa data. Nenhum outro apresentador no Brasil, quiçá no mundo, ostentava essa prerrogativa no currículo.

Assim, fica fácil entender por que Jô Soares fez sucesso como entrevistador durante quase 30 anos. Não foi somente por ser fluente em inglês, francês, italiano e espanhol. Tampouco foi por ser um grande humorista. Muito menos por seu indiscutível talento para entrevistar. Quando Jô estava diante das câmeras, era a história sendo contada por um agente dela, não por um despachante autorizado.

Ninguém é insubstituível, muito menos em televisão. Jô tinha plena consciência disso, assim como a Rede Globo, que já escalou o dublê de apresentador e filósofo Pedro Bial para ocupar o espaço deixado na grade pelo Programa do Jô. Pode-se encontrar alguém tão fluente em línguas quanto ele. Pode-se buscar um grande humorista para substituí-lo. Pode até encontrar quem seja melhor entrevistador do que ele. Mas jamais se encontrará alguém que reúna, a um só tempo, todas essas qualidades, contando ainda com o diferencial de ter feito parte da construção da história da televisão, do entretenimento e da cultura nacionais.

O Programa do Jô acabou. Jô Soares, ao contrário, continua vivinho da Silva. Que alguma outra emissora tenha a sapiência que sempre falta de vez em quando à Globo, para não deixar que seu talento se perca no esquecimento, justo agora quando se aproxima o outono de sua vida.

Publicado em Recordar é viver | Marcado com , , , | Deixe um comentário

Trilha sonora do momento

Mais ou menos isso.

Publicado em Trilha sonora do momento | Marcado com , , , | Deixe um comentário

Pensamento do dia

A gente escreve o que ouve, nunca o que houve.

By Oswald de Andrade

Publicado em Pensamentos do dia | Marcado com , , , | Deixe um comentário

Qual o sentido do “cristão conservador” brasileiro?

Já faz algum tempo que o mundo político foi brasileiro foi tomado pela expressão “cristão conservador”. Muitas vezes substituída ou acompanhada pela indefectível variante “cidadão de bem”, os adjetivos designativos de certa parcela do povo brasileiro – quase sempre a sua elite -, acabaram tomando um rumo diferente daqueles a que designam os dicionários correntes da língua pátria. E, não raro, descobrimos “cidadãos de bem” quando eles surgem nas manchetes dos jornais, praticando atos como pedofilia, feminicídio, estupro y otras cositas más.

Não que isso fosse de todo inesperado. Afinal, se há algo que acompanha o cristianismo desde sempre é o seu correlato antípoda: o farisaísmo. Pessoas que falam sobre Deus sem saber ou sem ligar para os seus ensinamentos coabitam conosco desde que o mundo é mundo. O traço distintivo dessa aparente vertente de “neofariseus” é a submissão de todo o discurso religioso a um determinado sentido político, quase sempre enviesado. Se o sujeito está contra alguém (“meu político de estimação”), estará, por conseguinte, também “contra Deus”, como se uma coisa implicasse necessariamente a outra.

Nada mais falso.

Em primeiro lugar, as tentativas ridículas de indicar um candidato – qualquer que seja ele – como “enviado de Deus” ou “preferido do Senhor” violam diretamente o primeiro mandamento: Amar a Deus sobre todas as coisas. Embora o enunciando original tenha se destinado a condenar o politeísmo vigente naquela época, o sentido religioso do mandamento segue o mesmo: condenar toda e qualquer forma de idolatria, inclusive e especialmente aquela que pretende transformar os piores pecadores mundanos em substitutos do próprio Deus.

Em segundo lugar, que tipo de cristianismo se está a professar quando se prega a morte ou a destruição do outro? Não haverá uma viv’alma dentre os “cristãos conservadores” que tenha tomado ciência do segundo mandamento de Cristo (Amarás ao próximo como a ti mesmo)? O discurso de ódio vai na mão contrária de tudo o que os ensinamentos da Bíblia representam. Quem prega o extermínio de adversários, seja no sentido figurado, seja no sentido literal, pode chamar-se de qualquer coisa, menos de cristão.

Em terceiro e último lugar, que suposto pensamento cristão pode fazer com que pessoas aparentemente corretas passem pano para políticos que defendem tortura? Ou por acaso esses “cristãos” terão se olvidado de que o próprio Jesus foi Ele mesmo vítima de tortura; brutal, desumana e ignominiosa como o são todas as torturas? Não se sabe ao certo que livro guia esses “adoradores de Cristo”, mas certamente a Bíblia é que não deve ser.

É evidente que, por mais laico que seja o Estado, política e religião misturam-se em algum grau. Nunca é demais recordar que Jesus Cristo foi – Ele próprio – condenado à crucificação por um motivo político: subversão. Daí a plaquinha aposta por sobre a cruz em que o Cordeiro de Deus foi imolado: INRI – Iesus Nazarenus Rex Iudeaorum – Jesus de Nazaré, Rei dos Judeus. Todavia, o discurso religioso não pode funcionar como biombo para atitudes manifestamente anticristãs, que se valem da ignorância e da crença do povo mais humilde para servir a outros propósitos que não os de Deus.

A verdade – é triste reconhecer – é que o “cristão conservador” tupiniquim tornou-se uma caricatura muito sem graça e terrível dele mesmo. Elevado ao patamar de bonus pater familias, esse exemplar curioso da fauna política nacional exala hipocrisia, ostenta malvadez e chega ao cúmulo se orgulhar da própria boçalidade. E, se há alguém que possa estar feliz com isso, pode estar certo de que não é o cara lá de cima.

Já o cara lá de baixo…

Publicado em Política nacional, Religião | Deixe um comentário

Trilha sonora do momento

Uma homenagem à nova jornada da Ana B.

Entendedores entenderão.

Publicado em Trilha sonora do momento | Marcado com , , , | Deixe um comentário

Pensamento do dia

If you’ve got them by the balls, their hearts and minds will follow.

By Theodore Roosevelt

Publicado em Pensamentos do dia | Marcado com , , , | Deixe um comentário

A inconstitucionalidade da “PEC Kamikaze”

Depois de uma longa e involuntária ausência deste espaço – motivada, dentre outros problemas, pela quebra da máquina com a qual digito essas mal alinhavadas linhas -, eis que retornamos com os posts regulares do Dando a cara a tapa. E, dado o largo período de privação de escrita, tantos são os assuntos acumulados que é difícil estabelecer uma escala de prioridades entre eles. O leitor amigo, contudo, certamente concordará que, no meio do caos que nos rodeia, poucos assuntos causaram tanto impacto quanto a chamada “PEC Kamikaze”.

Escrita literalmente em cima das coxas do ex-líder do governo no Senado, Fernando Bezerra, a proposta de emenda à Constituição nº. 1/2022 parece um monumento erguido à barafunda legislativa que tomou conta do país nesses últimos tempos. Poucos serão os casos em que uma proposta legislativa reunirá, a um só tempo: desfaçatez, quanto ao seu pressuposto; oportunismo, quanto à sua motivação; e inutilidade, quanto à sua eficácia.

A PEC envolve desfaçatez em seu pressuposto porque, como parece claro a qualquer néscio, não subsiste à mais perfunctória análise o alegado “estado de emergência” empregado para justificar o rol de “bondades” que ela traz. O texto da emenda constitucional estabelece claramente que o tal estado de emergência seria “decorrente da elevação extraordinária e imprevisível dos preços do petróleo, combustíveis e seus derivados e dos impactos sociais deles decorrentes”. Noves fora o fato de que os preços vêm subindo pelo menos desde o começo de 2021, já se passou quase meio ano desde que Putin resolveu invadir a Ucrânia. Se esse “atraso” não fosse o bastante, o valor do barril de petróleo, no dia de hoje, está pouco mais de 5% acima do nível em que estava em fevereiro de 2022, quando eclodiu a guerra na Ucrânia. Convenhamos, menos de 10% de aumento não é algo que possa ser caracterizado exatamente como “elevação extraordinária e imprevisível”.

A PEC envolve oportunismo quanto à motivação porque, se de fato a “emergência” era decorrente do aumento dos preços do petróleo, o que o aumento em R$ 200,00 do valor do Auxílio-Brasil tem a ver com isso? Ou a população que depende do benefício governamental está tendo problemas para abastecer os carros na garagem? Na verdade, o fato de terem enfiado na PEC uma forma de turbinar o antigo Bolsa-Família, limitando o aumento a dezembro deste ano, somente escancara de vez as pretensões eleitoreiras de quem foi responsável pela aprovação da matéria.

Por fim, a PEC é inútil quanto à sua eficácia porque dificilmente reverterá um quadro eleitoral que, hoje, desenha-se como absolutamente adverso ao Presidente da República. Tal como já foi escrito aqui, qualquer tentativa de querer transformar Bolsonaro em novo benfeitor das classes menos favorecidas esbarrará em um obstáculo intransponível: do outro lado está Lula, o “novo Vargas”, o “pai dos pobres”, o criador do Bolsa-Família. Por melhor que seja o marketing reeleitoral de sua campanha, seria necessário um mago para fazer com que Bolsonaro assumisse o lugar do torneiro bissílabo de São Bernardo no imaginário do povo carente que recebe o benefício. Nem mesmo o auxílio aos caminhoneiros ajudaria nesse quesito, repudiado que foi como “esmola” por líderes da classe. Assim como ocorreu quando foi aprovada da PEC dos Precatórios – feita para possibilitar o Auxíli-Brasil de R$ 400,00 – não há nenhuma razão para acreditar que a subida para R$ 600,00 vá causar impacto eleitoral significativo.

Todas essas questões, contudo, não dizem o pior sobre essa emenda. Se tudo isso estivesse sendo feito em um ano “normal”, a emenda seria apenas ruim. Feita nas coxas, com atropelos constrangedores sobre o regular rito legislativo e em pleno ano (re)eleitoral, a PEC representa um verdadeiro desastre para as instituições republicanas. Numa só tacada, foram enviados à lata do lixo a Lei de Responsabilidade Fiscal, a Lei Eleitoral e o Teto de Gastos. E, com eles, explodem-se também alguns dos princípios mais caros à nossa Constituição. Se antes havia um mínimo de regras para impedir que o incumbente de turno pudesse usar a máquina a seu favor, agora, com esse “precedente” aberto, abriu-se uma verdadeira caixa de Pandora. Ou alguém imagina que, na próxima eleição, estando o presidente (seja ele quem for) em desvantagem nas pesquisas, respeitará as regras fiscais em nome da manutenção da previsibilidade fiscal e da paridade de armas na seara eleitoral?

Doravante, estaremos condenados eternamente à conveniência e à capacidade de articulação legislativa do governo de turno, para sabermos se haverá ou não outros “estados de emergência” decretados às vésperas das eleições, somente para aplacar interesses eleitoreiros imediatos, sem ligar para as funestas consequências desses atos, tanto a nível político, quanto a nível jurídico.

Uma triste página, portanto, da história desta nossa sofrida República.

Publicado em Direito, Política nacional | Marcado com , , , | Deixe um comentário

Trilha sonora do momento

E já que hoje é Dia do Amigo, vamos relembrar um clássico dos anos 80…

Publicado em Trilha sonora do momento | Marcado com , , , | Deixe um comentário

Pensamento do dia

Não conte quantos amigos você tem, mas, sim, saiba com quantos você pode contar.

Publicado em Pensamentos do dia | Marcado com , , , | Deixe um comentário

Trilha sonora do momento

Entendedores entenderão.

Publicado em Trilha sonora do momento | Marcado com , , , | Deixe um comentário