A crise entre Gilmar Mendes e os militares, ou Por uma nova Lei de Segurança Nacional

Era só uma questão de tempo.

Considerando-se um governo fraco, um ministro do Supremo excessivamente loquaz e militares ocupando cargos mil no Ministério da Saúde em meio à maior pandemia do século, o desfecho é óbvio: uma hora o ministro vai falar demais e mexer com os brios dos militares. Foi justamente isso que aconteceu no final da semana passada, quando o Ministro Gilmar Mendes, um conhecido falastrão da Justiça, disse que o “vazio” da Saúde acabaria por associar os homens da caserna a um “genocídio”.

Como era de se esperar, os militares subiram nas tamancas. Uma nota do Ministro da Defesa, com a assinatura insólita dos comandantes das três Armas (que por hábito não fazem manifestações políticas), tachou a acusação do ministro de “infundada, irresponsável e sobretudo leviana”. Se a coisa tivesse parado por aí, jogo jogado. Gilmar teria dado o tiro dele, e os militares teriam atirado de volta (tudo, claro, no campo da retórica). Mas a nota foi além:

Informamos que o Ministério da Defesa encaminhará representação ao Procurador-Geral da República (PGR) para a adoção das medidas cabíveis”.

É aí que a porca entorta o rabo.

Na representação enviada à Procuradoria-Geral da República, os militares insinuam que Gilmar teria violados dispositivos previstos no Código Penal Militar e – pasmem – na Lei de Segurança Nacional. Eles, que não fizeram representação contra ninguém quando dementes debilóides foram em frente ao Quartel-General do Exército pedir “Intervenção Militar” e a “volta do AI-5”, acham que o ministro do STF pode ter incorrido no art. 23 da LSN, segundo o qual é crime “incitar à animosidade entre as Forças Armadas ou entre estas e as classes sociais ou as instituições civis”.

Do ponto de vista prático, a representação feita pelo Ministério da Defesa não terá efeito algum. De 1 a 10, a chance de o Procurador-Geral da República denunciar Gilmar Mendes por conta dessa crítica é zero. Ainda que, numa hipótese absolutamente impensável, Augusto Aras se dispusesse a denunciá-lo, ministros do Supremo são julgados por crimes comuns pelo próprio Supremo. Logo, não é preciso ser nenhum gênio para imaginar que as possibilidades de algo assim prosperar são menos que auspiciosas.

Do ponto de vista jurídico, a representação não tem pé nem cabeça. Não só porque Gilmar, a rigor, não incitou animosidade alguma, mas principalmente porque a crítica não foi endereçada à caserna, mas ao Governo Bolsonaro. Pelo menos do que se depreende de suas palavras, seria dele a responsabilidade pelo tal “genocídio” ao qual as Forças Armadas poderiam ser associadas. O que se poderia questionar – e aí seria boa discussão – é o fato de ministro do STF estar fazendo cosplay de comentarista político. Gilmar, como se sabe, é reincidente nesse tipo de prática. Seja como for, a questão aí situa-se no campo da ética dos magistrados, não algo a ser resolvido na esfera criminal.

O embate entre os militares e Gilmar, contudo, abre espaço para rediscutir a tal da “Lei de Segurança Nacional”. Com a autoridade de quem sempre defendeu que a norma fora recepcionada pela Constituição de 1988, enquanto a maioria dos juristas de ocasião costumava rejeitá-la como “entulho autoritário da ditadura“, este que vos escreve acha que já passou da hora de o Congresso pensar em uma nova lei para substituir a anterior.

Datada de 1983, a atual Lei de Segurança Nacional foi editada nos estertores da ditadura, no final de um governo Figueiredo já assolado pela crise econômica e carregando nas costas as marcas do atentado do RioCentro (1981). Basta lembrar que a farsa do IPM aberto para investigá-lo levou  à renúncia do então Chefe da Casa Civil, Golbery do Couto e Silva. Foi nesse contexto que a LSN foi editada.

Como o hábito é que faz o monge, os “juristas” da ditadura escreveram normas tipificando condutas suficientemente vagas para que, em caso de “necessidade”, pudessem servir para embasar algum surto persecutório oportunista. Se isso não aconteceu no meio dos anos 80, foi porque o Governo Figueiredo se esfacelou antes disso.

Agora, no entanto, acaba por servir a toda sorte de maluquices dos autoritários de ocasião. Foi assim que se chegou a uma situação na qual a Lei de Segurança Nacional é invocada para contestar o depoimento de um porteiro (Sérgio Moro), o discurso de um político de oposição (Sérgio Moro de novo) e até mesmo o desenho de um cartaz de festival de Punk Rock (Sérgio Moro mais uma vez). De duas, uma: ou o conceito de segurança nacional precisa ser revisto, ou a lei que temos está completamente ultrapassada.

Uma nova Lei de Segurança Nacional teria a virtude de reposicionar o debate sobre a defesa das instituições democráticas, ao tempo em que poderia afastar em definitivo as travessuras das “vivandeiras alvoraçadas” que adoram ir “aos bivaques” para “bulir com os granadeiros e provocar extravagâncias do Poder Militar” (Castello Branco).

A segurança jurídica e a democracia, penhoradamente, agradeceriam.

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Trilha sonora do momento

E pra quem reclama das velharias que rolam neste espaço, aqui vai uma das mais recentes aquisições da discoteca do Blog, cortesia da quarentena e dica certeira da Icsa.

Porque, com covid ou sem covid, a única certeza é que nós não estaremos sós.

Nunca…

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Pensamento do dia

A pior mentira que se pode contar a si mesmo é: “Eu não preciso anotar isso; vou me lembrar depois”.

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O artigo de Hélio Schwartsman, ou Por que não devemos desejar a morte dos outros

Só me faltava essa.

O país enfrentando a maior pandemia dos últimos 100 anos, o mundo inteiro à beira da depressão econômica, e o grande assunto desta semana foi um artigo escrito por Hélio Schwartsman na Folha de São Paulo: “Por que torço para que Bolsonaro morra“. Como se ensina logo no primeiro ano do curso de Jornalismo, “quando o repórter vira notícia, é porque alguma coisa deu errado”.

Em seu texto, Schwartsman utiliza-se da lógica consequencialista para defender a idéia de que, após o Presidente ter sido diagnosticado com covid, seria melhor para todo mundo que ele piorasse e viesse a falecer. Segundo seu raciocínio, caso isso ocorresse, “ficaria muito mais difícil para outros governantes irresponsáveis imitarem seu discurso e atitudes, o que presumivelmente pouparia vidas em todo o planeta”. Ou seja: morrendo, Bolsonaro serviria de “exemplo” do que não se deve fazer e, por conseguinte, da sua morte resultaria a salvação de muitas vidas.

Que o raciocínio é demasiadamente ingênuo para um articulista do calibre de Schwartsman, já é algo de se espantar logo à partida. Que ele próprio tenha escolhido uma sentença tão desconexa e panfletária para intitulá-lo apenas adiciona perplexidade a um quadro já naturalmente excêntrico.

O raciocínio de Schwartsman é demasiadamente ingênuo porque não há razão alguma para acreditar que a morte de Bolsonaro possa influenciar no desenvolvimento da Covid, muito menos que daí resulta uma autêntica virada da maré a nível mundial. Quem está seguindo – países e pessoas – as melhores diretrizes sanitárias e científicas para combater o mal que nos assola continuaria a segui-las. Quem não as segue, já teve informação suficiente para tomar uma decisão informada. Se ainda assim resolve seguir outro caminho, não será a morte de um presidente de um país da América do Sul que o fará mudar de rota.

Pior que a ingenuidade, só a (má) escolha das palavras para compor o título de seu artigo. Não só porque se está diante de um daqueles casos em que o título não corresponde exatamente ao que está no texto – o que Schwartsman defende vai muito além do mero “desejo” de que o Presidente morra -, mas também porque foi claramente feito para chamar a atenção. E aí o resultado é inevitável: em mundo no qual vigora a regra da informação transmitida por correntes de “zap”, o que sobra é somente a chamada em letras grandes, pouco importa o conteúdo do que foi escrito.

Mas por que, afinal, não se deve desejar a morte dos outros?

Em primeiro lugar, para recorrer à mesma linha argumentativa de Schwartsman, pode-se argumentar com outro tipo de lógica: a utilitarista. Se ninguém sabe como é a morte, vai que é bom? O desejo de um mal supremo ao indivíduo pode, no final das contas, resultar em um grande prêmio. Logo, não faz sentido desejar algo cujas consequências, a rigor, ninguém sabe exatamente quais são.

Em segundo lugar, do ponto de vista deontológico, a questão também não se põe. Qualquer filosofia de dever-ser preconiza o respeito à vida e à integridade do próximo, pois isso se reflete, em regra, em um bem à coletividade (e, portanto, a si mesmo).

Em terceiro lugar, do ponto de vista político, a morte de Bolsonaro, neste exato momento, resultaria no exato oposto do que pretendem seus adversários. O escândalo Queiroz e todos os inúmeros erros cometidos pelo Presidente até aqui seriam subitamente postos de lado, cedendo lugar a uma atmosfera imediata de luto, na qual todos esses pecados seriam de pronto esquecidos. O resultado seria um evento que aumentaria em escala exponencial a aura do “Mito” que seus seguidores tanto insistem em difundir nas redes insociáveis.

Por fim, do ponto de vista cristão, querer que algum semelhante morra significa um sacrilégio sem tamanho. Não só porque o sujeito está, ao fim e ao cabo, tentando usurpar de Deus a definição quanto à “hora” do cidadão, mas também porque está a atentar contra o primeiro mandamento de Jesus Cristo: “Amai-vos uns aos outros, assim como Eu vos amei” (João 15:12).

Fica, portanto, o ensinamento para que não desejais a morte dos vossos semelhantes. Muito menos se um deles for Presidente da República.

Fica, também, a lição da Bíblia. Afinal, é dela que vem o milenar ensinamento:

“Não se alegre quando
o seu inimigo cair,
nem exulte o seu coração
quando ele tropeçar, para que o Senhor não veja isso
e se desagrade
e desvie dele a sua ira”.

Provérbios 24: 17-18

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Trilha sonora do momento

E há trinta anos deixava este plano da existência Agenor de Miranda Araújo Neto, ou, como era popularmente conhecido, Cazuza.

Vai, portanto, uma pequena homenagem do Blog ao aniversário de despedida do maior poeta da geração 80 do Rock Brasileiro.

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Pensamento do dia

Mede-se o caráter de um homem não pela quantidade de vez que ele cai, mas pela quantidade de vezes que ele volta a se levantar.

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Triste fim de Policarpo Quaresma

Uma das vocações naturais deste Blog – como, de resto, deveria ser de qualquer outro Blog – é a difusão da cultura. Não por acaso, há aqui uma seção inteiramente dedicada às Artes, nas quais cinema, pinturas e a tão necessária literatura acabam se combinando para passar ao distinto público um pouco da experiência deste que vos escreve.

Entretanto, já há algum tempo os pots dedicados à essa seção rarearam, ficando quase que exclusivamente restritos ao nosso tradicional bolão anual do Oscar. Para reparar esta falta indesculpável, vamos hoje retomar esse assunto tão importante com uma das mais belas obras da literatura nacional e um bálsamo para a mente de um adolescente pré-universitário do final dos anos 90: Triste fim de Policarpo Quaresma.

usado:Triste Fim de Policarpo Quaresma Série Bom Livro nas americanas

 

Escrito por Lima Barreto, Triste fim de Policarpo Quaresma foi primeiramente publicado através de três folhetins no Jornal do Commercio do Rio de Janeiro. Posteriormente, o texto foi reunido numa única publicação e tomou a forma com a qual o conhecemos hoje. Desde então, tornou-se presença obrigatória em qualquer cânone da literatura nacional.

O livro conta a saga de Policarpo Quaresma, o protótipo do patriota nacionalista. A vizinhança o respeitava, mas de certa forma estranhava seus hábitos, digamos, “diferentes”. Seu amor pelos livros, somado ao seu nacionalismo exacerbado, tornavam-no uma figura a um só tempo curiosa e estranha.

Quaresma adorava exaltar o Brasil como o país de berço esplêndido, rico em minérios e em natureza, pronto para despontar como potência mundial. As coisas pioram um pouco quando ele resolve escrever um ofício ao Congresso solicitando a troca do português pelo tupi-guarani como língua oficial do país. O texto resume bem o que é a personagem:

“Policarpo Quaresma, cidadão brasileiro, certo de que a língua portuguesa é emprestada ao Brasil; certo também de que, por esse fato, o falar e o escrever, em geral, se vêem na humilhante contingência de sofrer continuamente censuras ásperas dos proprietários da língua; usando do direito que lhe confere a Constituição, vem pedir que o Congresso Nacional decrete o tupi-guarani como língua oficial e nacional do povo brasileiro. Senhores Congressistas, o tupi-guarani, língua aglutinante, é a única capaz de traduzir as nossas belezas, de pôr-nos em relação com a nossa natureza e adaptar-se perfeitamente aos nossos órgãos vocais e cerebrais, por ser criação de povos que aqui viveram e ainda vivem”.

Escrito o ofício, Policarpo tomou seis meses de hospício para “ajustar as idéias”. Desgostoso com a política e com a cidade, resolve então se mudar para um sítio no interior, cujo nome é sugestivo das intenções de seu dono: Sossego.

Mas sossego é tudo que não ocorre a Policarpo quando ele se muda para lá. Sem querer se imiscuir na politicagem local, Quaresma arrosta taxas e impostos por cima de impostos, tudo para persegui-lo. Se isso não bastasse, nem mesmo sua recém-descoberta paixão pela botânica sobrevive às agruras da labuta do interior. Às voltas com uma infestação de saúvas, decreta: “Ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil”.

Desgostoso agora com o campo, Policarpo volta à cidade. Agora, para se tornar “Major” do Marechal Floriano Peixoto. Alistado para combater na Revolta da Armada, Quaresma. A tensão do ambiente revoltoso abre espaço para aquilo que é de hábito em sedições: prisões arbitrárias e violências de toda sorte. Acompanhadas, é claro, pelo carreirismo de cupinchas e puxa-sacos que adoram vender lealdade à primeira oportunidade de ascensão social que aparece.

Desgostoso, enfim, com o Exército, Policarpo resolve escrever ao próprio Floriano para denunciar o estado de coisas que estava a assistir. Resultado? Entra em cana, acusado de ser um traidor da causa. Ou seja: o único e verdadeiro patriota de todo o livro é justamente o sujeito que toma uma cadeia por “traição à pátria”. Entristecido, Policarpo só então se dá conta de que a “pátria” à qual dedicara sua vida não passara de uma ilusão. Quaresma, por fim, é fuzilado por um pelotão por ter “traído” a pátria que, com tanto gosto, amou.

A narrativa de Lima Barreto se sobressai porque, no meio de tudo isso, ele consegue desconstruir de forma elegantemente irônica o ideal de um país romântico sonhado pela personagem principal. Entre aquilo que Policarpo Quaresma sonhava e aquilo que era o Brasil real, havia uma imensa distância a percorrer.

Não faltam, por evidente, críticas sarcásticas aos funcionários públicos, em especial os carreiristas. Lima Barreto brilha ao ridicularizar em sua obra um país no qual prevaleciam um general que não participa de qualquer batalha (General Albernaz), e um almirante que não possuía sequer navio para exercer seu comando (Almirante Caldas).

Claro, há um quê de autobiográfico no relato da vida de Policarpo Quaresma. Descendente de escravos, Lima Barreto sentiu na pele o que era viver no Brasil da virada do Oitocentos, com pouco mais de duas décadas de abolição da escravatura. Ele mesmo um funcionário público de carreira, Lima Barreto conhecia a fundo a estrutura burocrática do Brasil. Talvez exatamente por isso, a obra retrata de forma tão pouco lisonjeira o funcionalismo.

Seja como for, o fato é que Triste fim de Policarpo Quaresma desconstrói de forma sagaz, irônica e divertida o mito do “Brasil Grande”, retratando o país exatamente como ele é, com todos os seus defeitos e contradições. P

Para quem gosta de literatura, é livro de leitura obrigatória e presença indispensável na biblioteca. Nele, aprende-se muito sobre o Brasil, e muito mais sobre nós mesmos. É o que você vai entender, lendo-o.

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Trilha sonora do momento

E você aí pensando que furacões são coisa dos Estados Unidos e tufões, do Pacífico… #tenso

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Pensamento do dia

A gente só se lembra das melhores respostas depois que a discussão acaba.

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Os 50 anos do Tri

Talvez a pandemia tenha tirado um pouco do brilho das comemorações, mas, no último dia 21 deste mês, completaram-se 50 anos desde que o escrete canarinho bateu a Itália no Estado Azteca, na Cidade do México. Numa só tacada, os comandados de Zagallo conquistaram o tricampeonato mundial da Fifa, receberam em definitivo a taça Jules Rimet e consagrou nomes como Gérson, Rivellino, Tostão e, claro, Pelé no panteão dos grandes craques do futebol mundial.

Isso é o que todo mundo sabe. Mas como se chegou naquele mágico dia 21 de junho de 1970 é coisa completamente diferente. Quem viu aquele time ser construído dificilmente apostaria que dali sairia o melhor, o mais técnico, mais vistoso e o mais insuperável time de todos os tempos.

SELEÇÃO BRASILEIRA DE 70 | Seleção brasileira, Seleção brasileira ...

De início, a seleção sofreu uma reviravolta a menos de três meses da competição. Até então, o técnico era o temido João Saldanha (ou “João Sem-Medo”, para os íntimos). Jornalista de ofício, comunista por opção, Saldanha montara um escrete sensacional. Nas eliminatórias para a Copa do Mundo, o time de Saldanha saiu invicto. Tal era a qualidade e a desenvoltura do time que os jogadores ganharam o apelido de “Feras do Saldanha”.

Mas, se sobrava capacidade técnica a João Saldanha, faltava-lhe o indispensável jogo de cintura para o segundo cargo mais relevante do país depois do Presidente da República. Vivendo o pior período da ditadura militar, não passava pela cabeça de Saldanha baixar a cabeça para ninguém, nem mesmo o General Emilio Garrastazu Médici. Médici fez campanha aberta pela convocação de Dadá Maravilha, ao que Saldanha respondeu: “Ele escala o ministério, eu convoco a seleção”.

O atrevimento certamente não ajudou, mas não foi (só) por isso que Saldanha caiu. O técnico teimara com uma suposta miopia de Pelé e chegou a ir à TV para explicar a razão pela qual o Rei não poderia jogar. Fora isso, no último amistoso dentro do Brasil, o time passou um sufoco absolutamente sem sentido contra o fraquíssimo Bangu. Saco de pancadas do Carioca daquele ano, o time do Moça Bonita saiu na frente (1×0) e a seleção só empatou lá pelo fim do segundo tempo, quando o próprio treinador do Bangu colocou nove – NOVE – reservas em campo.

Dois dias depois, o então presidente da Confederação Brasileira de Desporto, o belga Jean Marie Faustin Godefroid Havelange (ou “João Havelange”, como queiram), interveio na comissão técnica. “Intervir”, claro, é força de expressão, porque só Saldanha foi mandado embora. Lydio Toledo (médico), Admildo Chirol (preparador físico) e um então desconhecido Carlos Alberto Parreira (assistente) continuaram no grupo. Para o lugar de Saldanha, Havelange trouxe o bicampeão do mundo e técnico do Botafogo: Mário Jorge Lobo Zagallo.

Zagallo vinha de uma experiência de muito sucesso como treinador do Botafogo. Mesmo assim, chegara cercado de desconfiança. Não só por conta das circunstâncias em que Saldanha foi demitido, mas, principalmente, porque seu primeiro ato como treinador foi justamente convocar Dadá Maravilha para a seleção.

Em tese, o time do Brasil estava montado. Saldanha deixara a seleção pronta e arrumada para a Copa. Na sua cabeça, restaria apenas o polimento e mais alguns ajustes. O resto já estaria feito. Mas Zagallo, por óbvio, tinha outros planos.

O time-base escalado por Saldanha era Félix; Carlos Alberto, Djalma, Joel e Marco Antônio; Piazza e Gérson; Jairzinho, Tostão, Pelé e Edu. Era um time de craques e muito bem equilibrado entre ataque e defesa. Mas havia um problema. Quem, em sã consciência, deixaria Rivellino no banco do time (e, de resto, de qualquer outro time)?

Do ponto de vista tático, o problema era insolúvel. O esquema-padrão naquela época era o 4-2-4, com dois volantes e dois pontas no ataque. O Brasil já tinha quatro camisas dez na sua escalação: Pelé (Santos), Gérson (São Paulo), Jairzinho (Botafogo) e Tostão (Cruzeiro). Acrescentar Rivellino  (o dez do Corinthians) à mistura significaria escalar meio time de camisas dez e rezar para que de alguma forma a combinação desse certo.

Zagallo, então, resolveu promover uma revolução tática, que não foi reconhecida à época e, até hoje, não foi inteiramente assimilada pela mídia esportiva. Mantido o goleiro (Félix), Zagallo mudou inteiramente a zaga. Deixou o capitão Carlos Alberto na lateral-direita e tirou o restante. Brito entrou como zagueiro central e Piazza foi recuado da posição de volante para a de quarto-zagueiro. Na lateral-esquerda, o contundido Marco Antônio deu lugar a Everaldo.

Mas foi do meio pra frente que Zagallo realmente chacoalhou o time. O meio seria formado por Clodoaldo e Gérson, o grande cérebro do time. Na frente, um assombro: Rivellino, Tostão, Pelé e Jairzinho. Todos craques, todos no auge da forma. Mas todos, salvo Pelé, jogando fora de posição.

Rivellino deixaria de ser o tradicional camisa 10 do Corinthians e passaria a atuar como ponta-esquerda. Um sacrilégio para a maioria, principalmente porque no banco havia dois dos maiores pontas-esquerda da história da seleção: Edu e Paulo César Caju. Tostão, 0 10 do Cruzeiro, atuaria como um “falso centroavante”, jogando de costas para o gol, de maneira a tabelar e armar as jogadas para quem vinha de trás. Já Jairzinho, 0 10 do Botafogo, fora arremessado para a ponta-direita. Só Pelé atuaria da forma com a qual estava acostumado, como 10 do Santos.

O que tinha tudo para ser um desastre revelou-se uma jogada de mestre. Com muito treino físico e três meses de intensivos treinos táticos, Zagallo conseguiu fazer com que meio time de camisas 10 jogasse como uma seleção de verdade. Se no papel o time estava montado como um 4-2-4, na prática jogava como um 4-3-3. Ou, para quem quiser ser mais moderno, como um 4-2-3-1.

Rivellino era oficialmente ponta-esquerda, mas recuava para compor o meio de campo como Clodoaldo e Gérson, ajudando na marcação e na armação das jogadas. Na zaga, Brito, Piazza e Everaldo plantavam seus pés no chão, o que liberava Carlos Alberto para avançar ao ataque quase como um ponta-direita, suprindo a “ausência” de Jairzinho como um típico ponta. Na frente, Pelé avançava de frente para o gol, enquanto Tostão ficava enfiado entre os zagueiros e de costas para a meta, ajudando nas tabelas e na armação do ataque.

Dali por diante, o que viu foi uma máquina de jogar bola. Sem dar chance a ninguém, jogando o futebol mais bonito que jamais se vira, a seleção canarinho foi derrubando um a um os adversário. De quebra, Pelé, no auge, brindava o mundo com os “quase-gols” mais bonitos de todos os tempos.

Como se tudo isso não bastasse, o encerramento dessa grande jornada, o grande fecho desse histórico time, deu-se com uma goleada de 4×1 contra a então bicampeã Itália. E não só isso. O último gol, uma pintura, é tido e havido como o gol mais bonito de todas as Copas do Mundo.

Ele começa com Tostão recuperando a bola na intermediária brasileira. Depois de rodar pela Zaga, Gérson e Pelé, Clodoaldo pega a bola e dribla quatro italianos em sequência, para só depois entregá-la a Rivellino. O “Reizinho do Parque” lançou imediatamente para Jairzinho.

Sabendo que a zaga italiana marcava homem-a-homem, Jairzinho saíra da ponta-direita e viera à ponta-esquerda, para receber a bola. Com ele, veio também Facchetti, o lateral-esquerdo italiano. Jairzinho passa então a bola para Pelé, majestoso no cabeça da área, como se dominasse todas as ações em campo.

Pelo canto do olho, o Rei vê Carlos Alberto vindo desembestado pela avenida deixada por Facchetti ao sair para marcar Jairzinho. Com toda a categoria que Deus lhe deu, Pelé simplesmente rolou a bola mansamente numa diagonal em direção ao ponto em que chegaria Carlos Alberto, como se dissesse: “Faz!”

Caprichosa, a bola ainda deu um pequeno salto antes do chute cruzado de Carlos Alberto, permitindo que o eterno “Capita” a pegasse “na veia”e encerrasse com chave de ouro a conquista mais sensacional que o futebol jamais conheceu. O melhor time, do melhor técnico, com os melhores craques, terminava sua participação naquela Copa conquistando o campeonato com o gol mais bonito de todos os tempos.

E tem gente que ainda não acredita em milagres…

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