Recordar é viver: “Qual o sentido do “cristão conservador” brasileiro?”

Em tempos de eleição, essa figura caricata voltou a das as caras por aqui.

Dizer que é cristão e conservador a um só tempo fácil. Difícil é ser de fato qualquer uma dessas coisas.

É o que você vai entender, lendo.

Qual o sentido do “cristão conservador” brasileiro?

Publicado originalmente em 1º.8.22

Já faz algum tempo que o mundo político foi brasileiro foi tomado pela expressão “cristão conservador”. Muitas vezes substituída ou acompanhada pela indefectível variante “cidadão de bem”, os adjetivos designativos de certa parcela do povo brasileiro – quase sempre a sua elite -, acabaram tomando um rumo diferente daqueles a que designam os dicionários correntes da língua pátria. E, não raro, descobrimos “cidadãos de bem” quando eles surgem nas manchetes dos jornais, praticando atos como pedofilia, feminicídio, estupro y otras cositas más.

Não que isso fosse de todo inesperado. Afinal, se há algo que acompanha o cristianismo desde sempre é o seu correlato antípoda: o farisaísmo. Pessoas que falam sobre Deus sem saber ou sem ligar para os seus ensinamentos coabitam conosco desde que o mundo é mundo. O traço distintivo dessa aparente vertente de “neofariseus” é a submissão de todo o discurso religioso a um determinado sentido político, quase sempre enviesado. Se o sujeito está contra alguém (“meu político de estimação”), estará, por conseguinte, também “contra Deus”, como se uma coisa implicasse necessariamente a outra.

Nada mais falso.

Em primeiro lugar, as tentativas ridículas de indicar um candidato – qualquer que seja ele – como “enviado de Deus” ou “preferido do Senhor” violam diretamente o primeiro mandamento: Amar a Deus sobre todas as coisas. Embora o enunciando original tenha se destinado a condenar o politeísmo vigente naquela época, o sentido religioso do mandamento segue o mesmo: condenar toda e qualquer forma de idolatria, inclusive e especialmente aquela que pretende transformar os piores pecadores mundanos em substitutos do próprio Deus.

Em segundo lugar, que tipo de cristianismo se está a professar quando se prega a morte ou a destruição do outro? Não haverá uma viv’alma dentre os “cristãos conservadores” que tenha tomado ciência do segundo mandamento de Cristo (Amarás ao próximo como a ti mesmo)? O discurso de ódio vai na mão contrária de tudo o que os ensinamentos da Bíblia representam. Quem prega o extermínio de adversários, seja no sentido figurado, seja no sentido literal, pode chamar-se de qualquer coisa, menos de cristão.

Em terceiro e último lugar, que suposto pensamento cristão pode fazer com que pessoas aparentemente corretas passem pano para políticos que defendem tortura? Ou por acaso esses “cristãos” terão se olvidado de que o próprio Jesus foi Ele mesmo vítima de tortura; brutal, desumana e ignominiosa como o são todas as torturas? Não se sabe ao certo que livro guia esses “adoradores de Cristo”, mas certamente a Bíblia é que não deve ser.

É evidente que, por mais laico que seja o Estado, política e religião misturam-se em algum grau. Nunca é demais recordar que Jesus Cristo foi – Ele próprio – condenado à crucificação por um motivo político: subversão. Daí a plaquinha aposta por sobre a cruz em que o Cordeiro de Deus foi imolado: INRI – Iesus Nazarenus Rex Iudeaorum – Jesus de Nazaré, Rei dos Judeus. Todavia, o discurso religioso não pode funcionar como biombo para atitudes manifestamente anticristãs, que se valem da ignorância e da crença do povo mais humilde para servir a outros propósitos que não os de Deus.

A verdade – é triste reconhecer – é que o “cristão conservador” tupiniquim tornou-se uma caricatura muito sem graça e terrível dele mesmo. Elevado ao patamar de bonus pater familias, esse exemplar curioso da fauna política nacional exala hipocrisia, ostenta malvadez e chega ao cúmulo se orgulhar da própria boçalidade. E, se há alguém que possa estar feliz com isso, pode estar certo de que não é o cara lá de cima.

Já o cara lá de baixo…

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Trilha sonora do momento

E hoje é dia dele: o único, o inigualável, o insofismável, o gigantesco Mestre Caetano Veloso.

Gênio da arte, orgulho da terra, Mestre Caê é provavelmente a figurinha mais carimbada desta seção do Blog.

Como fã declarado, vou me dar o direito de escolher uma das minhas favoritas dele, que, se a minha memória não falha, curiosamente nunca apareceu por aqui.

Porque Caetano é, de fato, um Milagre do Povo.

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Pensamento do dia

Quem começa a rir quando tudo ao redor está dando errado é porque já descobriu em quem pôr a culpa.

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A retirada do visto da embaixadora brasileira nos EUA, ou Até onde vai o Laranjão?

Da onde menos se espera, daí é que não vem mesmo. Tal é a conclusão de quem acompanhou mais uma rodada na escalada dos Estados Unidos contra o Brasil.

Depois do tarifaço visando a ajudar Flávio Bolsonaro, agora o Departamento de Estado norte-americano revogou o visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti. Diplomata de carreira, Viotti é ex-chefe de gabinete do Secretário-Geral da ONU, António Guterres, e já chegou a presidir, em nome do Brasil, o Conselho de Segurança das Nações Unidas.

A justificativa oficial dada pelo governo dos EUA é uma suposta “ação recíproca” pela demora do governo brasileiro em conceder o agrément ao indicado de Trump para a embaixada americana em Brasília, o deputado estadual Daniel Perez, presidente da Câmara da Flórida. Conversa fiada. O que houve foi (mais um) caso de malcriação internacional do governo do Nero Laranja.

De acordo com as normas costumeiras internacionais, toda vez que se resolve nomear um embaixador para outro país há um ritual silencioso através do qual, antes de noticiar o nome na imprensa, o governo do país estrangeiro consulta informalmente o governo que receberá seu embaixador dizendo, em termos mais polidos: “E aí, você tem algum problema se eu nomear Fulano?”. É a isso que se dá o nome de “agrément”.

Tratando-se de uma decisão soberana de cada Estado dizer se vai ou não receber alguém para representar um governo estrangeiro em seu próprio país, a nação que vai receber o embaixador tem o direito de recusar quem quer que seja sem sequer ser obrigado a declinar as suas razões. Trata-se de previsão expressa da Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas de 1961 (art. 4º).

Isso já aconteceu, por exemplo, com o próprio Brasil. Em 2021, o governo de Jair Bolsonaro indicou Marcelo Crivella para a embaixada do Brasil na África do Sul. Sobrinho de Edir Macedo e ex-pastor da Universal, a idéia era usar o cargo para tentar resolver os problemas que que IURD tinha na África. O governo sul-africano sentou em cima do pedido, numa forma elegante de dizer “não mandem este sujeito pra cá”. Seis meses depois, Bolsonaro revogou a indicação.

Ao justificar a revogação do visto da embaixadora brasileira por conta da suposta demora na concessão do agrément a Daniel Perez, os Estados Unidos passaram por cima solenemente das regras mais básicas de diplomacia. Não só por ignorar que o Brasil poderia simplesmente não conceder o agrément, mas principalmente por tentar ditar um prazo para que isso acontecesse, coisa que não se encontra em qualquer convenção internacional sobre o tema.

Se isso não bastasse, ao revogar o visto de uma embaixadora já credenciada e em pleno exercício das suas funções, os Estados Unidos adotaram uma decisão completamente girafa em termos de jurisdição internacional. Se a idéia era expulsar a diplomata do país como forma de retaliação, o governo norte-americano deveria tê-la declarado persona non grata. Ao revogar o visto e, ao mesmo tempo, não a expulsar, o governo norte-americano pratica uma espécie de bullying diplomático, porque a embaixadora pode ficar no país, mas, caso saia dele por qualquer razão (uma viagem de férias, por exemplo), não terá como regressar, por falta de visto válido.

É sabido que o (ir)responsável por essa decisão foi o Secretário de Estado Marco Rubio. Já tendo em outras ocasiões revogado o visto dos ministros do STF e incluindo o nome de Alexandre de Moraes no rol da Lei Magnitsky, Rubio apenas está dando curso a sua estratégia de dobrar a América Latina inteira aos seus ditames.

Não se trata de um capricho isolado ou de algo impensado, em termos de estratégia. Ele já conseguiu fazer isso por bem na Argentina, com Javier Milei encenando gostosamente o papel de capacho. E já conseguiu fazer isso por mal na Venezuela, sequestrando Nicolas Maduro e instaurando em seu lugar um governo títere, com Delcy Rodríguez, a fantoche que responde pela presidência do país caribenho. Caso consiga inclinar a balança eleitoral em favor de Flávio Bolsonaro nas eleições brasileiras, Rubio terá praticamente a América do Sul inteira em suas mãos.

No caso de Daniel Perez, pesa o fato de ele ser um político de segundo escalão, sem qualquer experiência diplomática e com o risco na negligenciável de, sendo oriundo da mesma Flórida de Marco Rubio, ser apenas mais um agente na tentativa de gerar instabilidade no país às vésperas da eleição de outubro. A idéia, como parece claro, era usar a embaixada americana para tentar influir favoravelmente à pretensão dos Bolsonaro nas eleições. Colocar a indicação de tal sujeito na geladeira não era apenas uma medida recomendável; era quase uma medida de legítima defesa diplomática.

Ao revogar o visto de Maria Luiza Viotti e anunciar publicamente o nome de Daniel Perez como indicado, sem consultar previamente e quebrando a tradição secular do agrément, os Estados Unidos fizeram como o sujeito que invade a casa do vizinho e reclama que não recebido efusivamente. O problema, portanto, não é apenas diplomático. É de educação, mesmo.

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Trilha sonora do momento

E ela deve valer para todos, mesmo.

Inclusive ministro do STJ.

#ProntoFalei

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Pensamento do dia

Pare de bancar o terapeuta para pessoas que precisam de um exorcista.

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Trilha sonora do momento

Autoexplicativo.

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Pensamento do dia

If people don’t match your vibe, change the people, not the vibe.

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O fim do Universo, ou O que haverá no fim dos tempos?

Há três perguntas fundamentais que funcionam como intercessão entre os domínios da Ciência, da Religião e da Filosofia: 1) da onde viemos?; 2) para onde vamos?; e 3) será que lá tem Internet?

Da onde viemos é mais ou menos sabido. Sabe-se que havia uma sopa primordial de partículas extremamente densa e extremamente quente, com tamanho menor do que um átomo. Do nada, ela começou a se expandir de forma acelerada e tomou a forma do universo tal qual o conhecemos hoje. É a famosa “Teoria do Big Bang”.

“Se lá vai ter Internet?” também já é sabido. Afinal, já inventamos a tecnologia e, doravante, não se imagina que caminhemos para trás, só pra frente. Se as pessoas ainda estarão “farmando aura” nessa altura é pouco provável, mas certamente a conexão através da qual elas postarão conteúdos infames no Instagram ou no TikTok será muito melhor que a atual.

Mas para onde vamos? Essa pergunta ainda permanece um mistério. Por mais que saibamos com precisão aritmética o que aconteceu até um trilionésimo de segundo depois do Big Bang, o que acontecerá quando o “fim” chegar – se é que um dia haverá de fato um “fim” – ainda é um tema envolto em profundo mistério.

Do ponto de vista da Física moderna, tudo gira em torno basicamente da Segunda Lei da Termodinâmica, segundo a qual a entropia – isto é, o processo de desorganização das partículas em um sistema fechado – tende sempre a aumentar. Traduzindo isso para o nosso dia a dia, é essa lei que explica por que o cubo de gelo derrete, por que o café esfria, por que você não consegue colar de volta um copo que se espatifou no chão.

Saindo do cotidiano e trazendo esse problema para a cosmologia, a idéia básica é a de que, mais hora, menos hora, o Universo terá um fim. A questão apenas é saber como será esse fim. Até o momento, três teorias são as principais candidatas a assumir o posto.

A primeira – e mais provável segundo o consenso científico atual – é conhecida pelo singelo nome de “Morte Térmica”. A lógica dela é bem simples. Sabe-se que o Universo só se expande desde quando surgiu, há 13,7 bilhões de anos. Curiosamente, ao contrário do que ditaria o senso comum, essa expansão não só continua como tem se acelerado. A “culpada” por essa aceleração ainda é uma ilustre desconhecida, à qual os cientistas resolveram dar o nome de “energia escura”. Ela seria responsável por quase 70% de toda a massa da energia. O “problema” é que ninguém nunca conseguiu observar empiricamente a energia escura e não existe sequer prova de que ela realmente exista.

Mas, supondo que a energia escura exista e atue da forma como as observações da expansão do Universo têm sugerido, todas as galáxias hoje existentes se afastarão para tão longe umas das outras que simplesmente será impossível enxergá-las. Para piorar, as estrelas – todas elas, seja de que tamanho forem – já terão consumido todo o seu combustível e terão se apagado. Nem mesmo os buracos negros sobreviverão, dada a lenta perda de massa através da radiação Hawking (em homenagem ao físico britânico Stephen Hawking). O que restará, em resumo, será apenas um vastíssimo espaço frio, escuro e absolutamente vazio.

Se essa alternativa lhe pareceu um pouco tediosa, a Ciência nos brinca com outra possibilidade, digamos, mais “dramática”. O nome já diz tudo: Big Rip, ou “O grande rasgo” (que também pode ser interpretado como Big RIP: Rest in Peace). Supondo que a expansão do Universo continue a crescer de forma indefinida no tempo, ela poderia acelerar até o ponto em que as forças que hoje mantêm não só o Universo estável como “inteiro” não seriam mais capazes de operar para manter a matéria reunida. Haveria, então, um “rasgo” no tecido do espaço-tempo, pois os átomos que compõem o Universo não seriam mais capazes de se manterem íntegros diante da expansão acelerada do próprio Universo.

A última opção, embora menos dramática que a anterior, é igualmente cataclísmica. Ela sugere que, a partir de algum ponto no futuro, a energia escura irá perder sua dinâmica, permitindo que a gravidade voltasse a dar as cartas no Universo. Como consequência, a expansão do Universo não só desacelararia, como pararia e – pasmem – se inverteria. Isso significa que o Universo à nossa volta passaria a encolher. Encolhendo, ele ficaria cada vez mais denso e mais quente, até o ponto em que atingiríamos uma singularidade muito semelhante ao próprio Big Bang. O Big Crunch (“O Grande Colapso”), contudo, é a menos provável das três hipóteses ventiladas.

A “vantagem” do Big Crunch é que ele seria de certa forma poético. O Universo voltaria ao seu ponto inicial, para depois novamente inverter a equação e começar a expandir-se novamente, em um novo e eterno Big Bang. Tudo teria como início e fim o mesmo ponto. E se você quiser chamar esse ponto de “Deus” não haveria nenhum físico intelectualmente honesto para contraditá-lo.

Seja como for, há uma única certeza que atravessa qualquer um dos três cenários e que dispensa matemática avançada para ser compreendida: o Sol já está na metade da sua vida útil. Perto do seu fim, ele se tornará uma estrela gigante vermelha e engolirá a Terra em aproximadamente. Não haverá sequer Terra para sabermos como isso tudo vai acabar.

A verdade, em resumo, é que não sabemos ainda como Universo decidiu como vai terminar. Mas aparentemente ele já decidiu que nós não estaremos lá para ver.

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Trilha sonora do momento

Here we go again

Saco, brother… :-/

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