Os melhores matchups de filmes de todos os tempos

Aproveitando a relativa pasmaceira no cenário nacional e internacional, vamos retomar uma das seções mais queridas deste espaço: as Artes. Nesse caso, para falar especificamente de uma delas, a de número sete, a qual a maioria das pessoas costuma se referir como Cinema.

Para quem curte realmente a sétima arte, há certos filmes que provocam uma sensação diferente em quem os assiste. Não porque o roteiro seja exatamente soberbo, ou porque a fotografia seja fora de série. Esse, digamos, “arrebatamento instantâneo” acontece quando vemos “duelar” na tela dois grandes atores – em regra representando duas grandes personagens -, mas que, curiosamente, praticamente não se encontram frente a frente na película. À falta de uma palavra no vernáculo que designe com precisão exatamente o que se quer dizer, vamos recorrer à língua de Shakespeare para encontrar algo similar: matchup (“confronto”).

Como o leitor amigo pode imaginar, não se quer fazer qualquer referência a confrontos físicos. Não, não, absolutamente. Se assim o fosse, a seleção do Blog ficaria restrita a filmes do Stallone (Rocky) ou do Van Dame. Quando se fala aqui em matchup, trata-se de disputa intelectual, psicológica, aquela disputada no campo das sinapses e das emoções, não na brutalidade dos músculos.

A mecânica por trás dos matchups atende a critérios bem estritos. Em regra, trata-se de um “duelo diferido”, isto é, você vê durante o filme que existem duas personagens antagônicas, porém, de forma curiosa, elas não contracenam. Tal qual uma mola que se comprime, a expectativa pelo encontro dos rivais é o que move a tensão do roteiro, como se a emoção ficasse represada e, numa só cena, todo esse caldo entornasse de uma vez numa espécie de catarse cinematográfica.

Obviamente, são poucos os filmes em que esses duelos diferidos ocorrem. E, por isso mesmo, quando o roteiro é bem escrito e, ao mesmo tempo, consegue-se reunir gigantes da Sétima Arte para interpretá-los, essas cenas costumam ficar no imaginário popular como lembranças inesquecíveis, tornando muitas vezes essas cenas isoladas maiores do que o próprio filme.

Nesse breve levantamento, o Blog propõe um pódio com apenas três desses exemplares cinematográficos. Como toda lista aqui do Dando a cara a tapa, ela atende exclusivamente a critérios pessoais do Autor. Se você gostar das escolas, ótimo; terei me pagado da tarefa a que me propus. Se não gostar, pode pegar a lista e enfiar no ralo da banheiro (ou em outro buraco que esteja à mão).

Sem mais delongas, vamos à lista dos três maiores matchups da história do cinema mundial:

O Julgamento de Nuremberg (1961)

Clássico de 1961, Julgamento de Nuremberg traz um elenco capaz de fazer corar qualquer festival de cinema contemporâneo: Spencer Tracy, Burt Lancaster, Marlene Dietrich, Judy Garland, Montgomery Clift e Richard Widmark. O personagem de Lancaster — o juiz nazista Ernst Janning — permanece em silêncio durante quase todo o filme. Enquanto o juiz americano Dan Haywood, vivido por Tracy com a sua sobriedade característica, Janning assiste a tudo como se nada daquilo lhe dissesse respeito.

Após a condenação, Janning pede para seu advogado, Hans Rolfe, vivido por Maximilian Schell (que ganhou o Oscar de melhor ator pelo papel), falar com o juiz Haywood. Calado durante praticamente todo o julgamento, Janning quer se “confessar” perante seu julgador. Ao relatar todos os seus pecados como juiz nazista, Janning suplica a Haywood:

Those millions of people… I never knew it would come to that” (“Aquelas milhões de pessoas” – se referindo ao holocausto judeu – “Eu nunca imaginei que fosse acabar nisso“).

Ao que o juiz Haywood sabiamente responde:

It came to that the first time you sentenced a man to death you knew to be innocent“. (“Chegou-se a esse ponto na primeira vez que você sentenciou um homem à morte sabendo que ele era inocente”).

A frase cai como uma lápide sobre Janning. Ao se dar conta da realidade, nada mais é dito por ele.

E nem precisava, né?

O Júri (2003)

Nossa medalha de prata vai para um filme frequentemente subestimado por boa parte da crítica cinematográfica. Não que O Júri tenha sido exatamente desprezado pelos críticos de plantão, mas o simples fato de se tratar de mais um thriller judicial adaptado de John Grisham traz um natural nariz torcido contra a produção.

A questão, nesse caso, foi a ousada decisão do diretor Gary Fleder de escalar nada mais, nada menos do que Dustin Hoffman e Gene Hackman para os dois papéis principais da película. Amigos de longa data, Hoffman e Hackman chegaram a dividir um quarto no começo da carreira, tal era o miserê quando chegaram para tentar a vida como atores na cidade grande. Apesar da proximidade e do talento indiscutível de ambos, eles nunca haviam contracenado em um filme.

Hoffman interpreta Wendell Rohr, o advogado de acusação num processo contra uma fabricante de armas. Trata-se do protótipo do velho e bom causídico: um homem de princípios, verborrágico e apaixonado, que acredita genuinamente na causa que defende. Hackman, em contraposição, representa Rankin Fitch, o advogado lobista contratado pela defesa. Fitch é o típico cínico profissional, que trabalha como “consultor de júris”, isto é, o sujeito especializado em comprar e manipular jurados a fim de obter a melhor decisão possível para seu cliente.

De maneira extremamente cuidadosa, Fleder mantém ambas as personagens próximas, porém separadas. Enquanto Rohr defende a causa apaixonadamente na tribuna do júri, Fitch trabalha nas sombras, no comando de uma operação clandestina destinada a controlar os ânimos e a influenciar os jurados escolhidos para decidir o caso contra a fabricante de armas.

Curiosamente, o encontro entre os dois acontece no lugar mais improvável quando se pensa em um thriller judicial: o banheiro do tribunal. Longe dos olhos de todos (especialmente dos do juiz do caso), eles se encontram para ter talvez a cena mais honesta de todo o filme. Fitch não tenta seduzir nem intimidar; ele simplesmente expõe sua visão cínica do mundo com a tranquilidade de quem acredita ter razão. Rohr não recua; ele devolve, com a dignidade ferida de quem se recusa a aceitar que o cinismo seja a única forma adulta de enxergar a realidade. É o embate não só entre dois modos irreconciliáveis de advogar, mas da própria forma de encarar a vida.

Infelizmente, contudo, o Oscar foi avaro com esses dois grandes mestres e nenhum deles foi indicado a nada.

Azar da academia…

Fogo Contra Fogo (Heat, 1995)

Para quem já sabia do que se tratava, não será surpresa para ninguém que a medalha de ouro dessa nossa pequena lista fica com Heat (Fogo contra Fogo).

Tudo o que se pode dizer sobre o encontro entre Al Pacino e Robert De Niro na lanchonete de Fogo Contra Fogo começa pela constatação do peso histórico daquela situação. Os dois maiores atores de sua geração — e, provavelmente, os dois maiores atores americanos da segunda metade do século XX — nunca tinham dividido uma cena de verdade. Estiveram no mesmo filme antes (O Poderoso Chefão II), mas em linhas do tempo distintas: De Niro interpretou um jovem Vito Corleone, enquanto do outro lado da trama Pacino operava a transformação do jovem universitário em um Dom Corleone frio e implacável, até com a própria família.

Parece óbvio que o diretor Michael Mann sabia exatamente o que estava fazendo ao construir durante duas horas a tensão entre o detetive Vincent Hanna e o ladrão Neil McCauley, para só então colocar os dois sentados numa mesa de café e tivessem um encontro cara a cara. O que se passa naquela lanchonete não é uma cena de ação. Não há armas, não há ameaças explícitas. Há dois homens que se respeitam profundamente, que reconhecem um no outro o espelho de si mesmos e que sabem que, quando saírem dali, serão inimigos novamente.

No fundo, a cena retrata uma melancolia quase insuportável. Há no ar uma estranha sensação de que aqueles dois poderiam ter sido amigos em outra vida. Naquela em que estão, a alternativa que resta é a da destruição mútua. Pacino e De Niro entregam, cada um à sua maneira, performances de quem sabe que aquele momento é o ápice de suas carreiras conjuntas. E, embora tenham voltado a atuar juntos em alguns filmes depois, a magia bruta daquela primeira vez permaneceu inigualável.

Abaixo, a cena, para quem quiser tirar a prova dos 9:

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Trilha sonora do momento

Tem gente que não se toca, brother.

Fazer o quê?

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Pensamento do dia

Sem propósito, até os dias mais bonitos parecem vazios.

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Trilha sonora do momento

É dura a vida do trabalhador brasileiro… :-/

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Pensamento do dia

Ultimamente, meu exercício mais comum tem sido balançar a cabeça por descrença.

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Recordar é viver: “Cassino online, ou As “bets” como problema de saúde pública”

Ninguém pode dizer que foi surpresa. Ninguém.

É o que você vai entender, lendo.

Cassino online, ou As “bets” como problema de saúde pública

Publicado originalmente em 22.08.24

Se há uma certeza no Brasil, é que as coisas sempre podem piorar. Não bastassem a miséria, a corrupção, a violência e as dificuldades que fazem deste rincão da América Latina um dos palmos de chão mais desafiadores de todo o planeta, agora estamos às voltas com a epidemia das “bets”, empresas de apostas online.

O produto não é exatamente novo. Em outros países, as apostas online já existem há muitos anos. O modelo é quase sempre o mesmo: pega-se um esporte qualquer, abre-se na Internet a possibilidade de o sujeito apostar no ganhador (ou em algum outro evento da partida, como um cartão vermelho) e partir daí o esquema funciona exatamente como nos cassinos: seja qual for o resultado, the house always wins.

Regulamentadas, as empresas que oferecem esse tipo de “produto” no exterior sujeitam-se a uma fiscalização rigorosa e pagam regiamente seus impostos. Ainda assim, escândalos de manipulação se sucedem. No tênis, por exemplo, um cidadão arregimentou 180 tenistas de vários países para um grande esquema de manipulação de resultados. Quando o escândalo foi descoberto, o sujeito foi condenado a 5 anos de cadeia. Ficou barato, principalmente porque o dinheiro de quem perdeu grana nessas apostas viciadas foi-se para sempre, sem possibilidade de retorno.

Aqui no Brasil, como de hábito, a coisa corre frouxa. As bets se instalaram e se multiplicaram numa razão maior do que a procriação de coelhos. Quase todos os maiores times de futebol, por exemplo, têm como patrocinador master da sua camisa uma empresa desse tipo. Não é preciso ser um gênio para imaginar ser apenas uma questão de tempo até que estoure algum escândalo de manipulação de resultados em jogos do Brasileirão.

Para se ter uma idéia do tamanho do dinheiro que gira nesse “negócio”, estima-se que, em valores atuais, o mundo das bets arrecadou entre R$ 70 e R$ 100 bilhões (com B de bola). Isso representa quase 1% do PIB indo pelo ralo somente na jogatina online. A coisa atingiu tal proporção que até o varejo – aquele que vende roupas, sapatos e mercadorias várias – sentiu o impacto dessa “concorrência”. Uma vez que o dinheiro no bolso do cidadão é finito, se ele está indo para apostas online, vai acabar faltando para o consumo de outros bens e serviços.

À primeira vista, isso pode parecer um problema menor, mas é um erro subestimar o impacto das apostas online na saúde das pessoas. Não se trata somente da saúde financeira, para deixar claro. Quando o sujeito simplesmente deixa de jantar fora para gastar numa aposta de jogo, vá lá; o “prejuízo” para a economia é naturalmente limitado. Mas quando essa mesma figura começa a gastar mais da metade do orçamento mensal para manter o vício, o resultado inescapável dessa dinâmica é começar a pegar empréstimos na praça para fazer frente às despesas de casa.

Com as dívidas, entra em ação a espiral de decadência psíquica e mental que costuma acompanhar os viciados em jogo. À vergonha de perder dinheiro na aposta soma-se a angústia de ver-se cada vez mais afundado no buraco financeiro. Enquanto isso, o humor vai pro espaço e o cidadão costuma se deprimir ou ficar agressivo (às vezes, os dois). A família começa a se desintegrar e o que se passa daí em diante é só tragédia.

Já passou da hora de a sociedade olhar com mais atenção esse verdadeiro desastre que se desenha à nossa frente. O Brasil é provavelmente o único país do planeta em que os jogos de azar são proibidos, mas a jogatina online é liberada. A hipocrisia que rondava o lendário jogo do bicho cedeu lugar a um estado de catatonia coletiva, no qual se aceita a proliferação das empresas de aposta e até mesmo a adesão de grandes figuras da TV como garotos-propaganda sem contestação, como se fossem um dado da paisagem.

Mas não são. Ou o país se dá conta disso agora e começa a agir para impedir essa tragédia que está em curso, ou daqui a pouco estaremos lamentando as estatísticas de mortes (por suicídio ou por homicídio) produzidas por esse novo “negócio”.

É esperar pra ver.

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Trilha sonora do momento

É só o começo?

#Oremus

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Pensamento do dia

Felicidade é aquele raro instante em que a realidade se torna melhor do que a fantasia.

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A prisão de Deolane Bezerra, ou Por que o público cultua o nada?

Hoje boa parte do público – incluindo este que vos escreve – foi apresentado à agora famosa “Deolane Bezerra”, Habitante daquele mundo paralelo em que as pessoas ficam famosas simplesmente porque “ficam famosas”, a “Doutora Deolane” foi presa numa operação policial por suspeita de lavagem de dinheiro e envolvimento em jogos de azar.

Não me interessa aqui falar especificamente sobre o caso do Deolane. Nada contra a moça, da qual boa parte do país sequer tinha ouvido falar até o dia de hoje. Se for culpada, que acerte suas contas com a Justiça. Se não for, que seja declarada inocente. O que me interessa é falar de como alguém surge do nada e, aparentemente, ao nada retornará sem qualquer justificativa para sua existência midiática. O que poderia ser apenas folclórico torna-se melancolicamente preocupante ao se constatar que o caso de Deolane Bezerra representa o ápice de uma era de culto ao nada.

Não que o fenômeno seja novo. De certa forma, a cultura brasileira sempre teve uma queda pelo espetáculo da banalidade (ou não teríamos tido tantas edições do Big Brother). Já aqui se denunciou no final da década passada a praga dos youtubers. O que houve de novidade de lá pra cá foi apenas a exponencialização de um modo de ganhar na vida completamente desconectado da realidade.

Em outros tempos, a pessoa possuía algum talento e, uma vez reconhecida, tornava-se famosa. Agora, a fama perdeu qualquer lastro relacionado com talento, utilidade pública e até mesmo o mínimo de capacidade intelectual do sujeito. Nos tempos de hoje, ilustres desconhecidos são catapultados ao estrelato sem justificativa aparente, como se a mera exibição obscena do patrimônio fosse alguma espécie de virtude cívica.

Para quem acompanha os tais “influencers” das redes insociáveis, o roteiro de produção de novo “famoso” segue um padrão conhecido. Em regra, eles costumam vender estilo de vida que não possuem para pessoas que não podem pagar por ele. O cotidiano de um influenciador ordinário resume-se a postar stories ostentando carros importados, jatinhos, bolsas de grife e maços de dinheiro. A lógica é a da identificação pelo avesso. O seguidor olha para aquela figura desprovida de qualquer conteúdo relevante e pensa, subconscientemente: “Se alguém tão comum e limitado conseguiu enriquecer fazendo p…. nenhuma, eu também posso”.

No final das contas, o que quase todo influenciador faz é vender a ilusão do atalho à riqueza. Trata-se de uma fantasia instagramável através do qual o ganho fácil se sobrepõe ao esforço real do desenvolvimento pessoal. O problema é que, enquanto o público assiste à novela da vida alheia, quem enriquece é apenas o protagonista do feed. E, como parece ser o caso de Deolane, muitas vezes isso ocorre à custa do endividamento dos próprios seguidores.

Mas por que pessoas sem talento algum de repente viram semideuses digitais, arrastando multidões e conquistando milhões de seguidores?

A resposta é simples, porém dolorosa. Vivemos um apagão cultural no qual a validação social migrou do mérito para a métrica. Antigamente, a fama era consequência de uma habilidade: você precisava cantar bem, atuar com brilhantismo, liderar um movimento ou, no mínimo, chutar uma bola com maestria. Hoje, o algoritmo inverteu a lógica. O sujeito torna-se famoso simplesmente por ser famoso. Cria-se um loop de voyeurismo digital, alimentado pela carência de uma massa que busca anestesia para a própria realidade sem graça através da vida luxuosa de outrem.

O que a prisão de Deolane fez foi expor de certo modo as entranhas dessa engrenagem. Quando a cortina de fumaça da ostentação é dissipada, o que sobra por trás dos filtros do Instagram revela um enredo bem menos glamouroso. Quando a coisa fica restrita à venda de “chás emagrecedoras” ou tendências de moda de gosto duvidoso, vá lá; o dano fica restrito à futilidade do sujeito. O problema é quando a monetização da ilusão alheia abandona o campo do entretenimento e invade o orçamento doméstico. Aí, sim, a coisa vira caso de polícia.

Como todo grande escândalo midiático deste país, é bem provável que o caso de Deolane Bezerra já esteja esquecido na semana que vem. O problema, contudo, permanecerá do mesmo tamanho. Enquanto o gigantesco déficit educacional brasileiro continuar sendo preenchido pela miragem de fama e fortuna através de aplicativos de redes sociais, casos assim continuarão a acontecer.

É esperar pra ver.

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Trilha sonora do momento

É isso.

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