O fim prematuro da terceira via, ou O erro estratégico de Kassab

Há um dito corrente em Brasília segundo a qual, se você estiver em um prédio alto e Gilberto Kassab subitamente se jogar pela janela, a melhor coisa que você tem a fazer é pular atrás dele. A piada tem lá a sua graça, mas dá a exata dimensão do respeito que boa parte da classe política tributa ao todo-poderoso dono do PSD.

Surgido das sombras, Kassab sempre se fez homem de bastidores. Cria do extinto PFL, Kassab conseguiu descolar a vice de José Serra na prefeitura de São Paulo. Tendo derrotado Marta Suplicy na disputa, que tentava a reeleição, Serra largou o comando do municipalado paulistano para se tornar governador do Estado, já projetando uma futura recandidatura ao Planalto (o ex-ministro perdera para Lula na eleição de 2002). Sabendo disso, Kassab sabia que o comando do terceiro maior orçamento da República lhe cairia no colo. Dali para frente, ele apenas multiplicou seu poder e sua influência política.

Quando Dilma Rousseff venceu José Serra em 2010, muita gente da então “direita” brasileira começou a sentir urticária de passar tanto tempo na oposição. Queriam se achegar ao governo por carência (não conseguiam viver longe do poder) e por necessidade (sem a grana governista, dificilmente conseguiriam se reeleger). Mas como virar a casaca de forma tão descarada sem que “ficasse feio” para o seu eleitorado?

Foi nessa quadra que a própria presidente incentivou Kassab a formar uma espécie de “partido-ônibus”. Uma vez que os integrantes do DEM (antigo PFL) e do PSDB não poderiam simplesmente trocar o terno pela camisa vermelha do PT, era necessário que houvesse um novo partido desvinculado de todos os outros, no qual qualquer um que quisesse aderir ao governo pudesse entrar. Tal como a Arca de Noé, o PSD acolheria todo tipo de bicho. Não por acaso, Kassab declarou na sua fundação que o partido não seria “nem de direita, nem de esquerda, nem de centro”.

Desde então, a influência de Kassab no cenário político nacional só cresce. Hoje, o PSD é o partido que mais governa prefeituras no país e, simultaneamente, é uma das forças mais expressivas do Congresso Nacional. As feições camaleônicas do PSD são tão versáteis que o partido consegue estar no governo de Tarcísio de Freitas (um dos ícones do bolsonarismo) e, ao mesmo tempo, dispor de três ministérios no governo Lula. Valendo-se da máxima do antigo PFL, o PSD parece operar sob a máxima de que “se há governo, eu sou a favor”.

Todavia, Kassab enxergou uma fresta para quebrar a atual polarização cristalizada no país. Se de um lado há o PT (basicamente representado por Lula) e, do outro, o anti-petismo (posto ora ocupado pelos Bolsonaro), o dono do PSD parece ter vislumbrado a possibilidade de lançar uma candidatura literalmente “do meio”, sem estar vinculada a qualquer dos lados.

Para tanto, Kassab recrutou três das maiores estrelas do país: duas ascendentes, Ratinho Jr. e Eduardo Leite; e uma da velha guarda conservadora, Ronaldo Caiado. Para o público externo, era vendida a versão de que haveria uma espécie de “prévias” no partido para decidir quem seria o melhor candidato para quebrar a polarização. Entretanto, até as pedras sabiam que o ungido deveria a indicação a uma só pessoa: Gilberto Kassab.

Seu preferido era Ratinho Jr., o atual governador do Paraná. Contudo, Ratinho Jr. literalmente roeu a corda de Kassab, em virtude de sentir que seu legado no estado seria fustigado pela ameaça do ex-juiz Sérgio Moro aliado aos Bolsonaro. Sobraram-lhe, portanto, duas opções de candidatura presidencial: Eduardo Leite e Ronaldo Caiado.

Com Leite, Kassab teria um “candidato de terceira via” de mostruário. O governador do Rio Grande do Sul é uma figura simpática, agradável e, com todos os defeitos que certamente tem, não se pode dizer que seja exagerado ou histriônico. De todos os candidatos à direita do espectro político, havia sido o único até agora que dizia em alto e bom som que não concederia anistia ou indulto aos golpistas comandados por Jair Bolsonaro.

Com Caiado, Kassab iria numa linha “mais do mesmo”. Veterano da primeira disputa presidencial de 1989, Caiado defende a anistia como uma forma de “pacificar” o país (como se isso fosse possível mandando pra casa criminosos golpistas). Membro fundador da UDR (União Democrática Ruralista), Caiado defendia a pauta “agro-bala-bíblia” antes de virar modinha com a atual extrema-direita tupiniquim.

Ao se decidir pela segunda opção, Kassab enterra, na prática, a possibilidade de que tenhamos uma terceira via na eleição deste ano. Com Caiado como candidato, o PSD correrá numa faixa similar à que já se encontra Flávio Bolsonaro. Claro que o governador de Goiás não carrega consigo a herança do golpe de 2022/2023, nem tampouco das mortes na pandemia de Covid. Mas, se é pra votar em alguém que baba de ódio pelo PT e promete anistia aos golpistas, a prateleira já tem um produto de mostruário: o filho 01 de Jair, que traz até o pedigree do sobrenome familiar.

Caso Kassab tivesse optado por Leite, era bem possível que estivesse contratando uma derrota. Afinal, tal é o nível de polarização política no país que seria difícil ver alguém apanhando dos dois lados (esquerda e extrema-direita) e, ainda assim, chegar ao segundo turno. Entretanto, por mais que uma vitória agora fosse improvável, estaria sendo construída a base para o próximo pleito. Ainda que ganhe agora, Lula não poderá concorrer em 2030. E, caso Flávio vencesse, o fato de não haver alternativa imediata à esquerda lançaria Eduardo Leite imediatamente como referência da oposição a um segundo desgoverno Bolsonaro.

A escolha foi tão incompreensível que houve até quem cogitasse que Kassab tivesse escolhido Caiado para servir de “candidato sobressalente” numa eventual desistência de Flávio Bolsonaro. Nesse cenário hipotético, o filho 01 de Bolsonaro seria destruído durante a campanha em virtude de seu imenso telhado de vidro (rachadinha, Queiroz, loja de Kopenhagen, mansão em Brasília, BRB e uma enorme lista de etcetera). Sem alternativa à mão, restaria aos Bolsonaro aderir ao outro direitista da corrida para impedir uma vitória de Lula.

Não se sabe se de fato foi essa a razão para que Kassab optasse pelo atual governador de Goiás como candidato a presidente. Mas, se tiver sido esse motivo, convém recomendar ao todo-poderoso chefe do PSD uma visita ao psiquiatra, porque só em um delírio alucinógeno alguém poderia imaginar que, batido Flávio Bolsonaro, Jair optaria por apoiar alguém de fora da família, submetido à tutela de Kassab ainda por cima. É mais fácil vislumbrar ele denunciando alguma espécie de “farsa” na eleição e pedir a intervenção direta de Trump no Brasil do que ver Jair Bolsonaro fazendo esse tipo de escolha política.

Seja como for, por qualquer ângulo que se analise a questão, a escolha de Kassab foi um erro. Não há chance de Caiado decolar nas pesquisas e, na melhor das hipóteses, ele será visto como linha auxiliar do bolsonarismo. Entre apostar, ainda que com risco de derrota, no caminho do meio para construir uma base para o próximo pleito presidencial; e tentar parasitar a extrema-direita com a intenção de substituí-la, Kassab ficou com a segunda opção.

Qual o tamanho do preço que ele vai pagar por esse erro?

Isso só saberemos depois da eleição.

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Trilha sonora do momento

Para aliviar a tristeza dos meus amigos italianos, eliminados pela terceira vez seguida da Copa do Mundo…

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Pensamento do dia

Que chegue logo o 1º de abril. Estou doido para dizer umas verdades e depois dizer que era mentira.

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Trilha sonora do momento

Foi o que restou a Eduardo Leite, infelizmente.

Uma pena…

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Pensamento do dia

Se você me quer em sua vida, coloque-me nela. Não sou eu quer deveria estar lutando.

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Recordar é viver: “O “Admirável” Novo Mundo de Donald Trump, ou O fim de uma era geopolítica”

Há exatamente um ano, a análise era essa.

Passados doze meses, a conclusão continua a mesma. Só está mais reforçada.

É o que você vai entender, lendo.

O “Admirável” Novo Mundo de Donald Trump, ou O fim de uma era geopolítica”

Publicado originalmente em 6.3.25

Da onde menos se espera, daí é que não vem mesmo. Tal é o sentimento de quem assiste aos movimentos erráticos de Donald Trump nos últimos dias. À semelhança de um elefante numa loja de porcelanas, o Nero Laranja parece firme no propósito de desestruturar todo o sistema geopolítico estabelecido após o final da II Guerra Mundial. Para explicar melhor o tamanho da confusão em que o Laranjão está nos metendo, vamos voltar um pouquinho no tempo.

Desde antes da descoberta das Américas, as grandes potências do mundo – todas européias – digladiavam-se pelo domínio dos mares, dos continentes e, portanto, da riqueza produzida no globo. Nessa época, o mundo assistiu, sucessivamente, países como Portugal, Espanha ou Holanda brigando pelo monopólio do comércio de especiarias ou simplesmente pela produção do açúcar derivado da cana.

Com o tempo e o desenvolvimento de novas tecnologias, essa briga passou para outras coisas, como ouro e pedras preciosas. O pano de fundo, porém, continuava o mesmo: às potências coloniais importava dominar mais e mais territórios para, com isso, ganhar mais e mais dinheiro, que, por sua vez, financiaria o domínio de mais territórios. Foi com essa “metodologia”, por exemplo, que o Reino Unido tornou-se o “Império onde o sol não se põe”.

Obviamente, tudo isso não veio de graça. Uma vez que a “repartição” do mundo não se dava à margem de disputa entre as próprias potências, era essencial que elas se armassem até os dentes para enfrentar a oposição externa. Foi essa corrida armamentista que deu origem à I Guerra Mundial e, apenas vinte anos depois, à II Guerra Mundial.

O desmantelo causado pela segunda grande guerra foi tão gigantesco que as grandes potências vencedoras daquele conflito – Estados Unidos, de um lado, e União Soviética, do outro – resolveram que era preciso dar um basta nisso. Nas duas principais conferências realizadas após o fim da guerra – Yalta e Potsdam – definiu-se que o mundo seria basicamente dividido em duas zonas de influência: uma, comandada pelos americanos; outra, comandada pelos soviéticos.

Mas como essa ordem seria estruturada?

Simples: os países mais “problemáticos” – Alemanha e Japão – seriam literalmente ocupados, para que não se rearmassem e trouxessem caos de novo ao mundo. A Alemanha foi retalhada em quatro pedaços (EUA, França, Inglaterra e URSS). Já o Japão ficou sob domínio norte-americano até 1952, quando o chefe da ocupação, General Douglas MacArthur, outorgou a constituição pacifista que vigora até hoje em solo nipônico. O resto do planeta ficaria sob a proteção do bedel do seu lado (EUA ou URSS)

Obviamente, houve custos nesse rearranjo mundial. Para que nenhum desses estados se sentisse tentado a se rearmar com base na ameaça de uma invasão soviética, os americanos resolveram assumir o papel de “polícia do mundo”. Em caso de necessidade (uma invasão soviética, por exemplo), os americanos se comprometiam a entrar na parada para defendê-los. Daí as dezenas de bases americanas espalhadas pelo continente europeu e pela Ásia, inclusive com a instalação de mísseis nucleares, para fazer frente ao colosso soviético. Fora isso, criou-se um fórum mundial para discutir as coisas a nível diplomático – a famosa Organização das Nações Unidas –, de modo a pelo menos tentar evitar que o mundo se precipitasse novamente no abismo de um conflito mundial.

Pode-se reclamar da preponderância de apenas dois países e de muitas outras coisas nessa ordenação geopolítica. Um fato, porém, é incontestável: oitenta anos depois da rendição do Japão, nunca mais o mundo presenciou uma guerra a nível mundial. O que Trump está fazendo nos últimos dias, em resumo, é jogar tudo isso fora.

“Para colocar o que no lugar?”

Ninguém sabe. Não se sabe sequer se o Laranjão possui alguma estratégia de fundo, para além da destruição pura e simples do atual sistema de governança global. Para quem olha de fora, parece simplesmente que o Nero dos nossos tempos quer simplesmente botar fogo no circo, tacar um VSF pro mundo e liberar o “cada um por si” geopolítico.

Os riscos dessa nova “era” parecem evidentes, mesmo para quem não entende bulhufas de geopolítica. Se a Rússia pode invadir um país menor em busca de expansão territorial e da posse de suas riquezas – e, ainda assim, sair impune e vitoriosa dessa empreitada -, o que impedirá, por exemplo, a China de tentar o mesmo com Taiwan? Até o último presidente norte-americano, havia a certeza de que os Estados Unidos viriam em socorro da “província rebelde” chinesa. Agora, quem pode dar essa garantia?

Sempre é bom lembrar que a metáfora da geopolítica como um “jogo de xadrez” global é bastante imprecisa. O mundo não é um tabuleiro dividido entre peças pretas e brancas. Cada “movimento” possui impactos diretos na vida do cidadão comum. As decisões que são tomadas nesse contexto vão muito além de um xeque para induzir o adversário em erro. Elas são capazes de alterar profundamente o modo como o futuro à nossa frente se constrói.

A idéia vendida por Trump de que os Estados Unidos vêm sempre em primeiro lugar e agora é cada um por si pode até render um bom slogan de campanha, mas pode muito bem voltar-se como um bumerangue contra os próprios interesses norte-americanos. Se ninguém pode mais confiar nos Estados Unidos como aliados, quem vai voltar a fazer negócio com eles? O tratamento ora dispensado a México e Canadá desaconselha qualquer país com o mínimo de senso a se aproximar dos americanos.

No fim das contas, as mudanças que Donald Trump está trazendo para a geopolítica não são só uma questão de política interna norte-americana. Assim como previsto aqui, elas são um sinal de que estamos entrando em uma nova era, de caos e desordem. E a pergunta que fica é: estamos preparados para essa nova ordem global?

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Trilha sonora do momento

É isso.

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Pensamento do dia

O Mounjaro veio para provar que a galera do “aceite seu corpo” nunca aceitou coisa nenhuma. Era só preguiça de fazer dieta e de treinar.

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Claim victory and depart the field, ou O caos de Trump na guerra contra o Irã

A entrada dos Estados Unidos na guerra do Vietnã foi um desastre em slow motion. Começou com o envio de “observadores” para a antiga Indochina sob domínio francês, após as tropas gaulesas se retirarem do país. Com receio de que a região inteira caísse sob o jugo comunista – afinal, a China maoísta estava ali ao lado -, os americanos pouco a pouco foram expandindo suas operações em terras vietnamitas, até que o famoso incidente no Golfo de Tonkin, quando um contratorpedeiro norte-americano foi supostamente afundado por barcos vietcongues, fez o caldo entornar de vez.

Dali em diante, todos os presidentes americanos só tinham uma resposta para problemas no Vietnã: mandar mais tropas. Quanto mais gente morria, mais soldados eram enviados. Quanto mais soldados morriam, mais os ianques bombardeavam a população civil vietnamita. Quando a situação já alcançara patamares horrorosos, mas ainda não desesperadores como seriam no final, um senador republicano do estado de Vermont veio com uma “solução” genial: os americanos deveriam simplesmente declarar vitória e tirar o time de campo.

Obviamente, a declaração foi ridicularizada à época. Ninguém acreditava que seria possível dizer que havia ganhado uma batalha que os americanos estavam claramente perdendo e dar o caso por encerrado. Olhando em retrospecto, contudo, é impossível negar que teria sido melhor adotar essa saída fajuta do que permanecer numa guerra perdida, sabendo que milhares de pessoas iriam morrer. Esse, talvez, é o pensamento que esteja perpassando pela mente do staff de Donald Trump.

Tendo começado uma guerra sem base concreta que amparasse os ataques, nem muito menos objetivos predefinidos, o Laranjão agora vê-se na delicada situação de estar metido numa enrascada sem saber como sair dela. A idéia inicial era óbvia: matar toda a liderança iraniana pensando que, assim, os persas se dobrariam à vontade da Roma dos tempos modernos. Deu certo na Venezuela, com o sequestro de Maduro, por que não daria certo no Irã, com o assassinato de Khamenei? Quase um mês depois de iniciado o conflito, o Nero Laranja está descobrindo da pior forma possível que, nas areias quentes do Oriente Médio, o buraco é mais embaixo.

Sem ter como retaliar diretamente os Estados Unidos do ponto de vista militar, os iranianos resolveram atacar na parte mais sensível do corpo humano: o bolso. Fechando o estreito de Hormuz, o Irã fez disparar o preço do petróleo. Pode parecer pouca coisa para quem não é versado em economia mundial, mas sendo o mundo basicamente movido a ouro negro, o aumento do preço dessa commodity impacta diretamente quase todos os outros preços da economia. Subindo o preço, sobe a inflação. Subindo a inflação, sobem os juros. Logo, as dívidas – inclusive as dos governos – ficam mais caras e a população tende a gastar menos. A persistência desse cenário conduz inevitavelmente a uma recessão econômica, o pior dos cenários para qualquer político, como é o caso de Donald Trump.

Sabendo disso, o Laranjão trabalhava com o cenário de uma guerra curta, duas a três semanas no máximo. Mataria todo mundo, tocaria o terror geral e, depois, mudaria o regime dos aiatolás. Se isso não acontecesse, no “pior” cenário os persas colocariam no governo alguém disposto a dobrar os joelhos aos norte-americanos, como aconteceu com a vice de Nicolas Maduro, Delcy Rodrigues.

Não aconteceu nem uma coisa nem outra. Nem houve mudança de regime (nem há qualquer sinal de que isso venha a acontecer no futuro próximo), nem a liderança que emergiu após o assassinato de Khamenei se mostrou disposta a negociar com os agressores ianques. Pelo contrário. Os ataques não só recrudesceram o regime dos aiatolás, como, ainda, deram-lhe de presente uma posição de imensa vantagem. Ao fechar o estreito de Hormuz e interromper o fluxo de 1/5 das exportações mundiais de petróleo, os iranianos agora encontram-se numa situação em que, se a guerra se prolongar, a situação piora não para eles, mas para os Estados Unidos.

Exatamente por conta disso, temos assistido a movimentos completamente erráticos do Laranjão nos últimos dias. Primeiro, ele deu um “ultimato” de que, caso os iranianos não liberassem o estreito de Hormuz em 48h, ele iria bombardear toda a infraestrutura de energia do país (o que é crime de guerra, de acordo com a Convenção de Genebra). Com os mercados financeiros em pânico, ele “adiou” o ultimato perto do fim do prazo, estendendo o prazo até esta sexta-feira. Agora, às vésperas de vencer novamente o prazo, agora adiou o “ultimato” para o dia 6 de abril.

Curiosamente, nos dois casos a justificativa para o recuo do ultimato foi o fato de que estaria havendo negociações entre os Estados Unidos e uma suposta “cúpula” do Irã. Entretanto, o Irã não confirmou que estivesse disposto a fazer um acordo. Pior. Negou até que conversas entre os dois países estivessem ocorrendo. Desmontando a farsa armada, os iranianos apontaram a alegação de supostas conversas de paz como uma estratégia do Laranjão para ganhar tempo e evitar uma subida do preço do petróleo.

A preços de hoje, a verdade é que o Irã não tem qualquer razão para fazer um acordo. O país foi atacado, sim, e grande parte de sua infraestrutura militar está devastada. Contudo, o regime não caiu (longe disso) e os contra-ataques com mísseis e drones fizeram estrago suficiente na vizinhança. Fora isso, o maior instrumento de pressão que ele tem é justamente manter o preço do petróleo elevado. Se eles assinam um cessar-fogo agora, o preço desaba no minuto seguinte. Para “vencerem” a guerra, eles precisam manter a pressão elevada na economia mundial.

Rodopiando no palco como barata tonta e com falas cada vez mais desconexas, Trump insiste que os iranianos estariam “desesperados” para fazer um acordo. Com um ego que só não é maior do que o seu topete, Trump jamais admitiria publicamente que “recuou” ou que foi batido. Talvez em algum momento, entretanto, algum assessor tenha que lhe soprar no ouvido:

“Presidente, por que o senhor não declara simplesmente vitória e dá o fora dali?”

Vai ser igualmente patético, mas pelo menos o estrago econômico e a quantidade de vidas perdidas seria menor.

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Trilha sonora do momento

A gente joga bola e não consegue ganhar!

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