Recordar é viver: “Apocalipse trumpista, quarto ato: o Laranjão parte para o ataque. E agora?”

Exatamente um ano depois, cá estamos aqui novamente.

É o que você vai entender, lendo.

Apocalipse trumpista, quarto ato: o Laranjão parte para o ataque. E agora?

Publicado originalmente em 10.7.25

Tava demorando…

Para quem esperava pelo ataque de Donald Trump desde quando ele assumiu, no começo deste ano, sete meses até que foi um prazo razoavelmente longo para que as instituições brasileiras fossem alvo da fúria do Nero dos nossos tempos. Exatamente como foi previsto aqui, não adiantava acreditar em moderação. Em algum momento o Laranjão viria com tudo para cima do Brasil. A dúvida era apenas saber: 1) “quando”; 2) “por quê?”.

“Quando”, já sabemos. Foi agora, menos de uma semana depois do encerramento da reunião dos Brics no Rio de Janeiro. Como boa parte das coisas na vida, também aqui o timing é bastante sintomático. Se coincidências já são raras na vida em geral, quando se fala de política externa – ainda mais da maior potência do planeta – elas são virtualmente inexistentes.

O que nos dá, por consequência, uma pista sobre o porquê. Apesar do autoexilado Eduardo Bolsonaro tentar reclamar para si os louros dessa “vitória”, é no mínimo duvidoso acreditar que um sujeito como Donald Trump resolvesse comprar briga por conta de Jair Bolsonaro, o chefe de Estado mais subserviente no tempo do seu primeiro mandato. Embora tenham compartilhado dois anos de período presidencial, o Laranjão não veio uma vez sequer ao Brasil, taxou as exportações de aço brasileiro para os Estados Unidos e nem sequer – suprema desfeita – seguia o chefe do clã Bolsonaro no Twitter. Logo, creditar ao “Bananinha” a responsabilidade pelo tarifaço aos produtos brasileiros é atribuir-lhe uma importância que ele definitivamente não tem.

Se isso não fosse o bastante, um bilionário liberticida e narcisisticamente autocentrado como Trump jamais queimaria pestanas por BOs alheios. Afinal, como ele mesmo disse na “carta” que enviou pelo Twitter ao governo brasileiro, caso as empresas brasileiras resolvam transferir suas fábricas pra lá, as tarifas seriam removidas imediatamente. Ele se prontifica inclusive a resolver a questão da papelada “em semanas”, como diz a própria carta. Ou seja: se trouxerem investimentos (e empregos) para os Estados Unidos, dane-se Bolsonaro e sua trupe.

“Mas se não foi por isso, foi por que, então?”

Excluindo, por absoluta falta de lógica, a hipótese de que isso tenha sido motivado por afinidade ideológica ou alguma espécie de solidariedade a Bolsonaro, restam duas hipóteses, ambas entrelaçadas: a primeira, de natureza geopolítica; a segunda, de natureza econômica.

Do ponto de vista geopolítico, a grande briga dos Estados Unidos, hoje, é contra a China. Nessa Guerra Fria 2.0, as superpotências olham para o globo como a gente costumava olhar para o tabuleiro de War: “que território eu posso conquistar?” No caso dos EUA, a América Latina sempre foi o seu quintal. E a última coisa que passa pela cabeça dos norte-americanos é deixar o Brasil cair nos braços de seu maior inimigo geopolítico. Como o Brics, na configuração atual, é basicamente uma “ONU do B”, comandada pelos chineses, atingir o Brasil não deixa de ser uma forma de também passar um recado para o Império do Meio.

Do ponto de vista econômico, o tarifaço trumpista tem íntima ligação com a questão geopolítica. Se os Estados Unidos são o que são hoje, muito disso se deve ao fato de o dólar ser não somente a moeda de referência mundial, como também a moeda de reserva de praticamente todos os países do mundo. Todavia, graças ao declínio da hegemonia econômica dos Estados Unidos e à ascensão de outras potências como a própria China, esse verdadeiro monopólio de emissão de moeda já não é mais o mesmo. Na virada do milênio, o dólar respondia por 75% das reservas mundiais. Hoje, esse percentual não passa de 5%, com tendência de queda.

Juntando lé com cré, dá pra entender a razão pela qual Trump produziu tamanho piti. Dado que Lula é o parceiro do Brics mais vocal no desejo de “desdolarização” da economia mundial, o Laranjão juntou a fome – o desejo de expressar seu poder imperial – com a vontade de comer – retaliar um país que “ameaça” a hegemonia do dólar. Melhor para o Nero Laranja, já que, ao contrário da China, o Brasil não tem nem cacife nem estofo para uma disputa do tipo tit-for-tat com os americanos. O dano potencial à economia brasileira é muito maior do que à norte-americana, caso o Brasil decida retaliar na mesma moeda.

“E agora, o que é que a gente faz?”

Bom, numa disputa louca como a do Laranjão, algumas coisas são inegociáveis. A primeira delas refere-se justamente ao pretexto mais esdrúxulo utilizado como pretexto para o tarifaço: a suspensão do processo contra Bolsonaro e os golpistas de 8 de janeiro. Ao contrário dos Estados Unidos, incapazes de punir um criminoso como Trump por tentar dar um golpe de Estado, aqui as instituições funcionam. Não somos uma república de bananas, que cede às chantagens e aos caprichos de um candidato a protoditador alaranjado. Ademais, ainda que quisesse, Lula não tem nem poder nem competência constitucional para fazer parar o processo contra Bolsonaro. Discutir isso, portanto, está fora de questão.

Difícil também vai ser negociar as tarifas sob um ângulo estritamente econômico. Afinal, o pressuposto invocado pelo Laranjão na sua cartinha é o fato de que “as injustas medidas” tarifárias do Brasil causaram um déficit que ameaça a “segurança nacional” norte-americana. O problema é que, desde 2009, a balança comercial entre o Brasil e os Estados Unidos é superavitária. Pra eles. Pra nós, já são quase US$ 90 bi de déficit acumulado em 15 anos. A questão aí, portanto, não é de política comercial. É de aritmética.

Resta, então, tentar agir com a cabeça e deixar o fígado de lado. Se existe uma coisa na qual o Brasil é bom é na diplomacia. Um dos melhores grupos técnicos que o Estado brasileiro foi capaz de construir até hoje é justamente o corpo de diplomatas do Itamaraty. Brasil e Estados Unidos são aliados há mais de 200 anos. Os americanos foram os primeiros a reconhecer a nossa independência de Portugal. Nas duas guerras mundiais, o Brasil lutou ao lado dos americanos. E, durante toda a Guerra Fria, o Brasil se posicionou do lado do Ocidente contra a União Soviética. O histórico, portanto, joga a nosso favor.

A desgraça produzida pelo Laranjão não é pequena, ressalte-se. Mas, assim como aconteceu em seu primeiro mandato, uma hora ela acaba. Tal qual o desgoverno bolsonarista, também o Apocalipse Trumpista irá passar. Cabe a nós, os verdadeiros patriotas, trincarmos os dentes e brace for impact. Como ensina um clássico da Sessão da Tarde dos anos 80:

Desistir? Nunca.

Render-se? Jamais

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Trilha sonora do momento

Grande Cartola…

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Pensamento do dia

As únicas duas coisas fáceis na vida são engordar e gastar dinheiro. O resto é difícil. Acostume-se.

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Um Conto de Natal

Eu sempre costumo insistir com quem me é próximo que ler é um santo remédio. “Mas ler o quê?”, é o que sempre me perguntam em seguida. Começar pelos clássicos é a melhor forma de aprender muito e poupar tempo na busca. Nesse sentido, talvez nenhum deles seja mais fascinante do que Um Conto de Natal.

Todo mundo – ou, pelo menos, quase todo mundo no Brasil – já viveu a experiência de se sentar à mesa no dia 24 de dezembro, na véspera da data que, segundo o calendário cristão, marca o nascimento de Jesus Cristo. Família reunida, enfeites por toda a casa, árvore cheia de presentes e um belíssimo peru ao centro da mesa. Pouca gente, no entanto, tem noção de que devemos tudo isso a uma só pessoa: Charles Dickens.

Em 1843, a Inglaterra vivia o auge da Revolução Industrial. Ao lado da imensa riqueza que geraria o famoso “Império-onde-o-Sol-não-se-põe”, grassava também a miséria. Historiadores costumam chamar esse período de The Hungry Forties, ou Os Famintos Anos 40 (do século XIX). Crianças de oito anos trabalhavam catorze horas por dia em minas de carvão. Uma lei de 1834 (alô, Renan Santos?) determinava que a ajuda aos pobres só seria prestada em instituições propositalmente degradantes, projetadas para “desencorajar” a pobreza (como se ela fosse uma opção).

Nesse mesmo período, o parlamento britânico abriu uma espécie de CPI para investigar as condições degradantes em que vivia a população. Quando ao final o relatório foi publicado, toda a gente se escandalizou. O relato sobre o trabalho infantil era especialmente devastador para as pessoas de bom coração.

Dickens teve acesso ao relatório. Ao lê-lo, foi tomado por um misto de tristeza e raiva. Para o escritor, aquele tipo de relato não tinha de abstrato. Dickens tinha doze anos quando seu pai foi preso por dívidas e forçado a trabalhar numa fábrica infestada de ratos. É o tipo de trauma que qualquer pessoa carrega consigo pelo resto da vida. Para Dickens, o retrato das crianças nas ruas de Londres não eram senão um espelho do que ele havia sido. Felizmente, o escritor transformou a fúria em escrita.

E assim nasceu A Christmas Carol (“Um Conto de Natal”).

Em pouco mais de 100 páginas, Dickens praticamente redesenhou a forma com a qual celebramos o nascimento de Cristo. Até então, o Natal era comemorado em festivais comunitários nas ruas, quase como um carnaval, regado a muita bebida. O foco não era a família, nem as crianças, muito menos a caridade e a reconciliação. A idéia era simplesmente celebrar as colheitas de inverno e encher a cara. Nada muito diferente de como os romanos celebravam o 25 de dezembro antes do surgimento do cristianismo (para saber mais, clique aqui).

A história gira em torno de Scrooge, um velho avarento que odeia o Natal e tudo o que o rodeia. Na véspera do feriado, ele recebe a visita de três espíritos: o do Natal Passado, o do Natal Presente e o do Natal Futuro. Em resumo, os espíritos conduzem Scrooge por uma jornada pessoal. Não é um conto de terror (embora tenha fantasmas). Não é um sermão (embora esteja recheado de moral). No fundo, trata-se de uma história de redenção. E ela funciona justamente porque Dickens compreende que as pessoas não mudam por obrigação. Elas só mudam – quando mudam – quando confrontam, com honestidade, o que se tornaram e o que perderam pelo caminho.

Originalmente, a idéia de Dickens era escrever uma espécie de manifesto político. Um amigo, entretanto, convenceu-o do contrário. Panfleto sobre política ninguém iria ler, dizia ele (não sem alguma razão). Ao invés de ficar com raiva ou praguejar contra o amigo, Dickens agradeceu o conselho, mas não sem antes avisá-lo de que escreveria no lugar do manifesto algo que teria o impacto de “um golpe de marreta” na consciência da sociedade. Em apenas seis semanas, caminhando de madrugada pelas ruas escuras da Londres vitoriana, Dickens escreveu a obra de cabo a rabo.

O impacto foi imediato e, como se verificou depois, permanente. Donos de fábricas começaram a fechar as portas das fábricas no Natal. Melhor: começaram a mandar presentes aos seus funcionários. Leitores escreveram a Dickens relatando que haviam perdoado parentes com quem estavam brigados há anos. Críticos que raramente cediam ao sentimentalismo renderam-se completamente. Um deles escreveu que o livro havia “fomentado mais atos concretos de caridade do que todos os sermões da cristandade”.

Eu sei, eu sei. Não foi Dickens quem inventou a história da árvore de Natal. A idéia veio do Príncipe Albert, marido da Rainha Vitória, herança de sua origem alemã. Tampouco veio de Dickens a história do Papai Noel. Mesmo assim, deve-se a ele a transformação de uma festa de rua cheia de álcool numa celebração intimista, dentro de casa, reunindo a família e consagrando a generosidade. Não haverá, portanto, qualquer exagero em dizer que devemos o que hoje chamamos de “Espírito de Natal” ao autor inglês.

Ao contrário de outros, o livro não é daqueles clássicos “pesados”. Pelo contrário. É um texto fluido, bastante amigável e pode ser lido numa única tarde sem muito esforço. Quem começa a lê-lo sente-se obrigado a terminá-lo. Se isso é raro para qualquer livro, imagine para um que foi escrito há quase duzentos anos.

Quem ainda não leu Um Conto de Natal está, tecnicamente, celebrando o Natal de Dickens sem ter sido sequer apresentado ao seu autor. Este dezembro, corrija essa injustiça. Você tem uma tarde. Dickens tem uma história que vai durar o resto da sua vida.

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Trilha sonora do momento

75 anos de Alberto de Castro Guedes.

Ou, para os íntimos, simplesmente Beto Guedes.

E aí vai talvez a mais famosa dele, e também uma das minhas preferidas.

A lição sabemos de cor

Só nos resta aprender

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Pensamento do dia

We all need someone who understands us without words.

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Trilha sonora do momento

Não só bebendo, mas acendendo cigarro com maçarico também.

#piadapronta

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Pensamento do dia

Se a gente soubesse o que é dito na nossa ausência não iria sorrir pra tanta gente.

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A volta da galera antivax, ou O triste retorno do sarampo

Há doenças que a medicina já derrotou. Mas certos políticos teimam em ressuscitá-las. Tal é a conclusão a que se chega de quem acompanhou o que aconteceu no noticiário nacional e internacional na última semana e meia.

Ontem, o presidente norte-americano, Donald Trump, assinou uma ordem executiva reduzindo – sim, reduzindo! – o calendário de vacinação infantil nos Estados Unidos. Ladeado pela extravagante figura do seu secretário de saúde, Robert Kennedy Jr. – cujos tiques nervosos e balançar angustiante denunciam seu passado nada católico -, o Laranjão determinou a redução de 18 para apenas 11 doenças cobertas pelo sistema de vacinação dos EUA.

Não satisfeito, o Nero Laranja ainda demitiu todos os 17 membros consultivos do CDC e cancelou um financiamento de US$ 500 milhões destinados a pesquisas sobre pandemias futuras. O movimento antivax, portanto, fez barba (reduziu o esquema vacinal), cabelo (demitiu quem era responsável por geri-lo) e bigode (cortou o financiamento de pesquisas). Não será surpresa pra ninguém, portanto, constatar que, em pleno 2026, os Estados Unidos registraram a maior epidemia de sarampo desde 1991. São 2.370 casos, atingindo 45 dos 50 estados norte-americanos. 93% dos infectados não estavam vacinados.

Corta para o Brasil.

Nesta semana, a Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo confirmou 23 casos de sarampo em 2026. Dezesseis dos 23 pacientes não tinham histórico de vacinação ou estavam com o esquema vacinal incompleto. A cobertura vacinal da tríplice viral no estado está em 77,5% para a primeira dose e 65,5% para a segunda — bem abaixo da meta de 95% que garante a imunidade de rebanho. O Ministério da Saúde lançou campanha de multivacinação.

Para quem acha isso bobagem, na década passada o Brasil havia recebido o certificado internacional de eliminação do sarampo. Uma doença altamente contagiosa, capaz de matar ou de deixar sequelas permanentes em crianças, havia sido finalmente erradicada do país. Isso, claro, até vir o governo Bolsonaro.

Com seu ódio à ciência e seu projeto de transformar temas “comuns” em cavalos de batalha ideológicos, o governo de Jair reduziu desde o início a cobertura vacinal da população. Jair chegou ao limite até de retirar dos beneficiários do bolsa-família a obrigação de mostrar que suas crianças haviam sido vacinadas. O resultado, claro, não poderia ser outro. O Brasil não só perdeu o certificado internacional de eliminação do sarampo como agora vê, com ainda mais força, essa doença que há havia sido erradicada se espalhar de forma assustadora pelo país.

Nada disso, claro, aconteceu por acaso.

Quando veio a pandemia da Covid, Bolsonaro propagandeou até para as emas do Alvorada os supostos benefícios da cloroquina e da ivermectina no combate à doença. Esse combo transformou um remédio antiparasitário e outro para malária numa espécie de elixir milagroso que permitiria às pessoas saírem às ruas no meio da pandemia como se nada estivesse acontecendo. Resultado: 700 mil mortes, transformando o Brasil no país com o maior número de mortes pela doença no mundo, depois de quem? Sim, dos Estados Unidos.

Como o povo tem memória curta, todo esse blábláblá negacionista voltou agora com toda a força. Numa típica manobra diversionista de quem quer fazer a população desviar a atenção das fragilidades econômicas do país e da guerra perdida no Irã, Trump acionou seus cães de guarda no Senado norte-americano para tentar encurralar Anthony Fauci, o principal responsável pela campanha de combate à Covid durante a pandemia.

Sabendo que estaria jogando um jogo de cartas marcadas, Fauci resolveu invocar a Quinta Emenda da Constituição dos Estados Unidos para não responder às perguntas dos senadores. Foi o que bastou para a tropa de choque trumpista – macaqueada aqui no Brasil por gente como Nikolas Ferreira – denunciasse as “mentiras” sobre a pandemia, atacando os lockdowns e colocando em xeque até mesmo a quantidade de mortos pelo vírus.

Autoexilado nos Estados Unidos, o irmão de Flávio Bolsonaro, Eduardo, também resolveu gravar um vídeo para entrar na onda. Na gravação, o famoso Dudu Bananinha exibe orgulhoso um documento impresso, no qual ele diz ter obtido isenção de vacinação para a filha numa escola local. Isso, detalhe, mesmo sendo certo que o Texas é o principal foco do surto de sarampo nos Estados Unidos, com mais de 500 casos confirmados.

As mentes mais evoluídas gostariam muito de crer que isso fosse derivado apenas de convicção genuína. Seria mais fácil enquadrar o caso na hipótese de “burrice alheia” (ou “vergonha alheia”, como queiram). Apesar de ser sedutora, essa alternativa seria por demais ingênua. O que há é simplesmente uma tentativa nem um pouco dissimulada de gerar distração com temas que excitam a malta, especialmente aquela mais engajada de extrema-direita. Enquanto a gente fica discutindo vacina, ninguém discute a inflação nos Estados Unidos, a guerra no Oriente Médio ou os R$ 134 milhões que Flávio Bolsonaro pediu a Daniel Vorcaro.

No meio dessa guerra cultural idiota, vemos o país estar às voltas com uma doença que havia sido erradicada há mais de dez anos. Enquanto gente como Nikolas Ferreira vai às redes dizer que tudo – governo, ciência e vacina – é mentira, mas a fucking cloroquina funciona, temos mais de duas dezenas de crianças sofrendo os efeitos de uma doença que pode causar pneumonia, encefalite e, no limite, até a morte.

E é essa reflexão que vai estar em jogo nas urnas em outubro: queremos passar por tudo isso de novo?

Porque o sarampo já voltou.

O resto está apenas na fila, esperando para acontecer…

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Trilha sonora do momento

E já que hoje é Dia do Advogado, vamos a esse clássico do The Clash.

Porque se tem uma coisa que advogado faz é brigar com a lei…

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