Recordar é viver: “Dos xás aos aiatolás: uma breve história do Irã”

Não deu nem tempo de anivesariar e já estamos aqui novamente.

É o que você vai entender, lendo.

Dos xás aos aiatolás: uma breve história do Irã

Publicado originalmente em 24.6.25

Já que agora falar do Irã virou moda (não pelos melhores motivos, é fato), vamos retomar nossa velha e querida seção de História para que os 123 seguidores deste espaço possam argumentar com mais profundidade sobre (mais um) imbróglio que se desenrola na antiga Pérsia.

Assim como quase tudo no Oriente, a história do Irã representa milênios de uma civilização única. Conhecido como Pérsia até 1935 – ou seja, até ontem, em padrões cronológicos -, o território por ele representado sobreviveu às conquistas de Alexandre, o Grande, às invasões árabes, aos turcos e até os mongóis. Durante todo esse tempo, mantiveram a língua e a rica cultura como manifestações concretas da identidade nacional. No grande cisma do islamismo, escolheram abraças o xiismo contra o sunismo no século XVI, já que o sunismo era expressão de outro grande império da época, o Império Otomano.

O problema, como você mesmo pode intuir, foi quando descobriram que em suas terras havia petróleo. Aí a porca entortou o rabo. Rússia e Reino Unido, duas grandes potências do começo do século XX, dividiram o território persa em duas zonas de influência, passando por cima das autoridades locais. Com o fim da II Guerra Mundial, a débâcle da Grã-Bretanha devastada pelo bombardeio alemão acabou precipitando um processo de independência em toda a região. O Irã, obviamente, não fugiu à regra.

Governado desde antes da independência por uma dinastia política que tentava se vincular à herança do antigo Império persa, assumiu como primeiro-ministro do Irã, em 1951, um sujeito chamado Mohammad Mossadegh. No contexto dos anos 50, nacionalizar as empresas de petróleo era a vibe (não nos esqueçamos da nossa famosa campanha O Petróleo é Nosso!, da mesma época). No caso dos países do Oriente Médio, tratava-se não só de uma moda, mas de uma questão de sobrevivência. Mossadegh entendeu bem isso e partiu para nacionalizar a Anglo-Persian Oil Company.

Como vocês podem imaginar, os britânicos não gostaram muito da idéia. Ajudados pelos Estados Unidos, o Reino Unido impôs um bloqueio econômico ao país. Como desgraça pouca é bobagem, os dois serviços secretos anglófonos – CIA e MI6 – arquitetaram um golpe de Estado em 1953. A idéia foi a de sempre: semear o caos para, no meio da confusão, dar um golpe. Maquiavelicamente, o plano deu super certo. Mossadegh foi preso e, em seu lugar, o xá Reza Pahlevi deixou de ser rainha da Inglaterra e passou a ser ditador de facto do país, embora todo mundo soubesse que o xá era apenas uma figura teleguiada a partir de Londres e Washington.

À primeira vista, a chamada “Revolução Branca” parecia popular. O xá aboliu o véu imposto às mulheres pela lei islâmica, permitiu-lhes a educação e – suprema heresia – até o trabalho. Nos porões do regime, contudo, o pau comia. Gente que ficou de fora da festa, assim como os conservadores islâmicos, não ficaram nada satisfeitos com essa “ocidentalização” do povo persa.

Para piorar, o xá achou que seria uma boa gastar a grana do petróleo numa festa para comemorar os “2500 anos do Império Persa” (essa, pelo menos, era a propaganda e a justificativa oficial do banquete). Com menu concebido pelo Maxim’s de Paris, o xá organizou aquele que viria a ser conhecido como maior regabofe da história. 15 mil árvores foram importadas da França, enquanto 50 mil pássaros trazidos da Europa para ornamentar a festa morreriam dias depois sob o intenso calor de Teerã. Convidados do mundo inteiro puderam se deliciar com faisão recheado com foie gras e trufas frescas da Provence, enquanto bebiam Château Lafite 1945 e champagne Dom Pérignon 1959.

Com o tempo, a raiva foi se acumulando até que, em 1979, uma revolução pôs abaixo a ditadura do xá. Em seu lugar, assumiu outra ditadura (ou uma teocracia, como queiram), liderada por um clérigo xiita que vivia no exílio: o aiatolá Khomeini.

A Revolução Islâmica teve como alvo, claro, o “Grande Satã”, também conhecido como “Estados Unidos da América”. Quando os americanos aceitaram receber o xá exilado para um tratamento médico em Nova York, o caldo entornou de vez. Khomeini tocou as trombetas, denunciando o recebimento de Pahlevi como parte de uma conspirata visando a um futuro novo golpe no Irã. Em fúria, alguns estudantes e rebelados – convenientemente não reprimidos pelas forças policiais iranianas – invadiram a embaixada norte-americana em Teerã. Tinha início a crise que culminou com o esgarçamento definitivo das relações entre Estados Unidos e Irã.

Os iranianos diziam que só libertariam os reféns caso os Estados Unidos deportassem Pahlevi para ser julgado no Irã. Alguns funcionários da embaixada conseguiram fugir. Algum tempo depois, eles foram repatriados às escondidas, numa operação retratada de forma alegórica no filme Argo. Os reféns restantes permaneceram presos na embaixada. A crise foi tão grande que fulminou a campanha à reeleição de Jimmy Carter. O acordo para libertação dos reféns só foi assinado dois anos depois, em 1981, já com Ronald Reagan como inquilino da Casa Branca.

Nesse meio tempo, como forma de vingança, os americanos acharam que seria uma boa idéia apoiar um país vizinho, de maioria sunita, para lutar contra o Irã. Seu presidente? Um sujeito chamado Saddam Hussein. Nascia, assim, a Guerra Irã-Iraque, que duraria oito anos (1980-1988) e custaria um milhão de mortos. Dois anos depois, endividado e embriagado pelo poder de ter se tornado a maior potência bélica da região, Saddam usaria as mesmas armas fornecidas pelos americanos para invadir o Kwait. A Guerra do Golfo não foi a mais sangrenta, mas provavelmente foi a mais irônica da história moderna.

De lá pra cá, toda a vez que os americanos resolveram meter o dedo no Oriente Médio, o resultado foi desastre. Foi assim com a invasão do Iraque. Foi assim com a invasão do Afeganistão. Vinte anos depois, os americanos parecem não ter aprendido nada. Só isso explica o bombardeio às instalações nucleares iranianas. Não importa que tenham feito isso para supostamente “salvar” Israel da ameaça atômica. Nenhuma paz é possível ou sustentável se for montada com base na força das baionetas. Somente um acordo que permita aos iranianos levantarem as sanções econômicas mediante o compromisso de inspeção de suas instalações nucleares pode resultar numa paz duradoura. Com os bombardeios da semana passada, tudo isso está mais longe.

Nesse contexto, é curioso observar que persas e judeus – hoje inimigos declarados – fazem parte da história um do outro, e não de uma forma desagradável. Afinal, foi Ciro, o rei da Pérsia, que entrou para a história – inclusive bíblica – como herói dos judeus, ao libertá-los do cativeiro da Babilônia.

Como diria Morpheus: fate, it seems, is not without a sense of irony.

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Trilha sonora do momento

80 anos de uma das maiores lendas do rock, do pop, da música mundial, enfim.

Parabéns, David Gilmour. Você é o cara.

Para homenageá-lo, uma das melhores do Floyd, naquela que foi a última apresentação da formação clássica da banda.

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Pensamento do dia

As pessoas estão tão acostumadas a ouvir mentiras que sinceridade demais choca e faz com que você pareça arrogante.

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Imbróglio Master, ou Tutti buona gente

Quando os italianos querem se referir de forma irônica a gente bem apessoada, mas que, digamos, têm valores questionáveis, eles costumam recorrer a um velho ditado que começa dizendo o seguinte: (Sono) Tutti buona gente – no vernáculo, “(são) todos gente boa”. Com as últimas revelações desta semana, é impossível observar o caso do escândalo do Banco Master e não se recordar do pessoal do Bota

Na terceira fase da Operação Compliance, o Ministro André Mendonça autorizou a PF a dar várias batidas na turma que operava o esquema de pirâmide do Master. Além do já conhecido esquema bilionário de fraudes contábeis, descobriu-se coisa muito pior. Ao melhor estilo Cosa Nostra, Daniel Vorcaro não era somente um trambiqueiro que descobrira no FGC uma fórmula mágica através da qual ficaria bilionário. Ele comandava também uma verdadeira máfia napolitana.

Intitulado “A Turma”, um grupo de WhatsApp do celular de Vorcaro não indicava a reunião da galera do colégio ou do pessoal do trabalho que gosta de tomar um chopp gelado no happy hour. Na verdade, tratava-se da reunião de uma série de escroque destinados a investigar, perseguir e ameaçar qualquer um que se colocasse no caminho do dono do Master. Se necessário, na base da porrada, como ficou claro nos diálogos em que Vorcaro sugere a um de seus comparsas forjar um assalto para “dar um pau” no jornalista Lauro Jardim, d’O Globo, quebrando-lhe todos os dentes. Pra piorar, as investigações já indicam que o grupo tinha acesso indevido a sistemas sigilosos da PF, da Justiça e do Ministério Público.

Travestida de agressão a um “inimigo” estava a idéia evidente de atacar a liberdade de imprensa. No entanto, enquanto a maioria da população esperaria de um banqueiro bilionário a sofisticação de um vilão dos filmes de James Bond, Vorcaro entregou a incompetência de uma estratégia baseada no pensamento de um chefe de quadrilha de subúrbio. O destinatário da ordem para quebra os dentes de Lauro Jardim era Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, carinhosamente apelidado pelo sugestivo nome de Sicário, um termo polido para designar o que no português de botequim chamaríamos de “assassino de aluguel”.

O problema de Sicário não parou por aí. Preso pela Polícia Federal, Mourão teria se suicidado com uma camisa dentro da cela. As circunstâncias ainda não esclarecidas dessa morte levantam a possibilidade não negligenciável de que Sicário, ao invés de ter se matado, tenha sido suicidado. E daí a pergunta é incontornável: que segredos terá ele levado para o túmulo?

Nessa altura do campeonato, o deslumbramento nouveau riche de Daniel Vorcaro, com sua conduta miliciana/mafiosa, já deixou a periferia dos guetos criminais e entrou com toda pompa e circunstância nos principais salões de Brasília. Na decisão em que determinou sua prisão, o ministro André Mendonça fez questão de anotar que o esquema havia atingido o “alto escalão da República”. Quão alto está esse escalão? Só as investigações poderão dizer.

Preso e sem perspectiva de ser liberado por algum habeas corpus providencial de alguma corte interior – como aconteceu quando foi preso da primeira vez -, a carta da delação premiada parece ter entrado definitivamente no baralho da defesa de Daniel Vorcaro. Quem eventualmente poderia defendê-lo está exposto demais para tentar alguma coisa agora. Soltá-lo agora, ainda mais depois de tudo que foi revelado, representaria a desmoralização suprema do sistema de justiça do país.

Quando se olha a agenda de contatos de Daniel Vorcaro, dá pra se ter uma idéia do tamanho da “rede de proteção” que o banqueiro mafioso montou em torno de si. Além de no mínimo duas dezenas de deputados, há referências a encontros com o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, e com o presidente do Senado Federal, Davi Alcolumbre. Isso, claro, para não falar da estranhíssima ligação de fundos do Master com o agora famoso “resort” Tayayá, que pertencia à família do ministro Dias Toffoli, e ao contrato do banco com Viviane Barci, mulher do ministro Alexandre de Moraes.

Com nível de envolvimento até agora exposto, o caso Master começa a ecoar os antigos fantasmas da Lava-Jato. Mesmo tendo destrinchado uma teia de corrupção (a das empreiteiras), que chegou ao Brasil junto com as caravelas de Cabral, a Lava-Jato acabou caindo em desgraça quando se soube da “parceria” entre o Ministério Público de Deltan Dallagnol e do ex-juiz Sérgio Moro. Depois da vaza-jato, o intuito político da operação ficou evidente, e tudo que se escreveu depois disso foi epitáfio. A diferença é que, na Lava-Jato, o alvo final eram os políticos e o palco era em Curitiba. Agora, o palco é em Brasília e, além dos políticos de sempre, a própria Corte também é alvo da operação.

Resta saber se a “Turma” de Vorcaro vai preferir o silêncio ou se vai abrir o verbo. Caso opte pelo trombone, a questão será saber se o “terrivelmente evangélico” André Mendonça seguirá uma linha técnica, para não macular a operação com acusações de parcialidade, ou se vai deixar tudo cair na vala comum dos embates políticos.

Seja como for, a única certeza é que o pau vai quebrar, e não serão os dentes de jornalistas que vão voar. Afinal, como diz o ditado italiano, (sono) tutti buona gente, ma tutti ladri – (são) todos gente boa, mas todos ladrões.

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Trilha sonora do momento

Daniel Vorcaro, o nome dele.

#piadapronta

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Pensamento do dia

Ninguém se esforça mais do que alguém que odeia pedir favores.

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Trilha sonora do momento

Com a nova prisão de Daniel Vorcaro, só nos resta Cazuza pra perguntar:

Brasil, qual é o teu negócio?

O nome do teu sócio?

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Pensamento do dia

Quando a gente não diz o que sente, o outro vai embora sem saber que talvez tivesse motivo para ficar.

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O ataque ao Irã, ou Um novo atoleiro americano

Os italianos costumam dizer que os americanos são muito sortudos: onde quer que eles vão para exportar “liberdade” acabam encontrando petróleo. Nunca essa piada caiu tão bem quanto agora.

Menos de um ano após bombardear as instalações nucleares iranianas, mais uma vez Donald Trump e seu parceiro de carnificina, Benjamin Netanyahu, voltam a atacar a nação persa. Valendo-se de sua esmagadora superioridade militar, Trump e Bibi chacinaram praticamente toda a cúpula do governo iraniano, inclusive o líder supremo Ali Khamenei, que estava no poder desde 1989, quando seu antecessor Khomeini faleceu de causas naturais.

Do ponto de vista do álibi, o ataque não faz nenhum sentido. Foi o próprio Trump quem disse na época dos bombardeios às instalações iranianas que o programa nuclear persa havia sido “obliterado”. Parece evidente que nenhuma nação do mundo, muito menos uma alvo de pesadas sanções internacionais, conseguiria reconstruir sua infraestrutura atômica em prazo tão curto. Além disso, ainda que o Irã estivesse em busca de uma arma nuclear – coisa que jamais foi provada -, as chances de eles conseguirem miniaturizar esse artefato para colocá-lo em um míssil era próxima de zero.

Não havendo álibi disponível à mão, restou a Trump e a Bibi criar um monte de pretextos que, afinal, tampouco fazem sentido. Dizer que Khamenei e sua trupe comandavam um “regime maligno” pode até ser certo, mas, se o motivo for este, a fila de países a terem seus comandos “decapitados” é imensa e dificilmente o Irã estaria no primeiro lugar, posto esse reservado à Coréia do Norte (que, de fato, possui armas nucleares).

Sem qualquer justificativa razoável para justificar o ataque, resta ao mundo se perguntar: Por que atacar um país que não atacou ninguém? Por que atacar uma nação que estava sentada na mesa de negociações justamente para discutir seu programa nuclear? Por que começar uma guerra quando, segundo o Sultão de Omã, os iranianos estavam muito próximos de chegar a um acordo para limitar o enriquecimento de urânio (supostamente a principal preocupação americana)?

As respostas são várias. A primeira delas, óbvio, diz respeito à própria política interna norte-americana. Trump está em baixa. Com a popularidade no rés-do-chão, o Nero Laranja vê-se às voltas com o envolvimento de seu nome nos agora famosos Epstein Files, os documentos da investigação que levou à prisão de Jeffrey Epstein, o milionário amigo de Trump que supostamente se matou na prisão ao ser preso por construir uma rede de pedofilia gigantesca, com uma clientela farta e variada da elite mundial, que vai de Bill Clinton ao (ex) príncipe Andrew, da Inglaterra.

Além de desviar a atenção acerca do envolvimento de seu nome nos Epstein Files, uma guerra sempre produz uma espécie de catarse coletiva na nação que nubla a visão do público quanto aos defeitos do governante. Com uma política econômica estúpida, que só promoveu até aqui inflação e confusão mundial, Trump precisa desesperadamente de uma tábua na qual se agarrar para tentar recuperar um pouco da popularidade perdida. Atacar um regime odiado internacionalmente como o irã dos aitolás se encaixa perfeitamente nessa equação.

Para além disso, se de fato o Laranjão conseguir produzir no país persa uma mudança de regime, isto é, colocar no lugar dos velhinhos de turbante preto algum aliado seu, ele se assenhorará da terceira maior reserva de petróleo do mundo. Não só isso. Tendo feito “truque” parecido na Venezuela, Trump conseguiria cortar o suprimento de dois dos três maiores fornecedores de petróleo da China, sua arquirrival no xadrez global (o outro é a Rússia).

Se do ponto de vista geopolítico a estratégia até pode fazer sentido, do ponto de vista prático o buraco é mais embaixo. Se na Venezuela os Estados Unidos conseguiram trocar a cabeça sem trocar o regime – a ditadura chavista simplesmente mudou de lado e, agora, há um governo títere dos americanos -, no Irã é simplesmente inimaginável que essa mágica possa ser replicada. Se os militares bolivarianos podem ser comprados com dinheiro e promessa de anistia, mais difícil é imaginar que gente movida por um radicalismo religioso fervoroso, que passou a vida aprendendo que os Estados Unidos são o “Grande Satã”, possa virar a casaca com a naturalidade de quem troca de roupas.

O próprio Trump parece saber disso, ao dizer de antemão que a guerra durará “entre quatro e seis semanas”. Quem diz isso no segundo dia de guerra sabe que a coisa vai mais longe que isso. Na Venezuela, em dois dias estava tudo resolvido. No Irã, a coisa pode se estender por meses e até anos, a depender da disposição dos aiatolás de levarem à frente a sua vingança.

Por ora, sabe-se que eles estão atacando todos os vizinhos ao seu redor. Como os persas odeiam os árabes e vice-versa, as nações do golfo – todas elas apoiadas pelos Estados Unidos – se tornaram o alvo perfeito para uma retaliação. Sem contar com o mesmo aparato de proteção de que dispõe Israel, os árabes já estão começando a ficar ressabiados com o “abandono” dos americanos. Dubai, por exemplo, um dos maiores hubs e centros turísticos do mundo, encontra-se virtualmente isolado do resto do globo por conta dos drones iranianos. Se a coisa continuar desse jeito, é difícil saber até quando irá a paciência dos árabes com os ataques dos israelenses (por quem nunca nutriram grande simpatia) e dos americanos.

Não havendo – por inviabilidade logística e por impeditivos políticos – a hipótese de colocar tropas no Irã, é improvável imaginar que os americanos consigam produzir uma mudança de regime no país persa. O apelo de Trump para que o povo iraniano “se levantasse” contra o governo dos aiatolás parece mais um gesto de desespero de alguém que só pensou nas consequências de seus atos tarde demais do que uma estratégia bem pensada a ser colocada em prática. Não há oposição constituída no Irã. Pior. Os opositores do regime nem sequer conversam entre si, a ponto de se articular para tentar um levante popular.

Restaria, portanto, a remota hipótese de que os integrantes da Guarda Revolucionária dessem um golpe de Estado e instalassem uma ditadura militar no lugar da teocracia dos aiatolás. Ainda que isso viesse a ocorrer, seria ainda mais improvável a chance de que essa ditadura militar se tornasse subitamente pró-Estados Unidos, como aconteceu na Venezuela.

Seja como for, parece claro que Estados Unidos e Israel começaram uma guerra sem terem um objetivo claro e sem sequer disporem de uma estratégia de saída caso as coisas saiam ao contrário do esperado. Explodir coisas é fácil. Difícil é construir uma forma de “ocidentalizar” uma nação inimiga jogando bombas em seu território, sem ter à mão um governo com legitimidade e com uma população claramente refratária aos “valores americanos”. Os Estados Unidos já tentaram essa estratégia com o Iraque. Já tentaram o mesmo com o Afeganistão.

Deu no que deu.

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Trilha sonora do momento

Entraram, agora eu quero ver sair.

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