Recordar é viver: “Final dos sonhos, ou A imbecil rivalidade entre Brasil e Argentina”

Quatro anos de novo, cá estamos aqui novamente.

E – só para deixar claro – dessa vez torcerei pela Espanha.

Mesmo assim, o resto do texto continua a fazer todo o sentido.

É o que você vai entender, lendo.

Final dos sonhos, ou A imbecil rivalidade entre Brasil e Argentina

Publicado originalmente em 20.12.22

Era tudo que a gente esperava.

Salvo os otimistas incorrigíveis e os trêfego nefelibatas, ninguém mais acreditava em um título da seleção brasileira. O técnico da seleção, com sua “Titebilidade”, já deixara clara a limitação do seu esquema. Desde escolhas incompreensíveis (por que convocar NOVE atacantes?) até erros verdadeiramente bisonhos (convocar Daniel Alves apenas para ficar no banco como café-com-leite), o fato é que o time do ex-técnico corintiano nunca inspirou confiança. E, se ele não apanhou tanto quanto merecia até então, muito se deve à complacência quase criminosa com que a imprensa brasileira o tratou desde que assumiu o escrete canarinho.

Já que não havia condições reais de torcer por um improvável hexacampeonato, restava aos amantes do futebol torcer por uma final que reunisse as duas melhores seleções da Copa. E, mesmo para quem não entende bulhufas do esporte bretão, estava claro que os dois melhores times eram Argentina e França (com a Inglaterra correndo honrosamente por fora).

Não por acaso. Além de terem os melhores técnicos, os dois grandes craques da atualidade são, de um lado, o argentino Messi; e, do outro, o francês Mbappé. Nenhum dos dois é o “clássico” número 10 ao qual estamos acostumados, mas ninguém em sã consciência duvida que ambos honram com sobras a mística da camisa imortalizada por Pelé. Basta, para tanto, lembrar o que aconteceu na própria final: Messi fez dois gols e começou a jogada do outro; e Mbappé tornou-se o primeiro jogador a marcar três tentos numa final de Copa do Mundo. E se o caneco ao final ficou em mãos argentinas, isso se deve mais ao empenho da seleção alviceleste, que foi superior a maior parte do jogo e sempre buscou o gol. Simplesmente sensacional.

Chega a ser tristemente irônico que a mais fantástica final de um torneio mundial de futebol tenha tido lugar justamente na mais criticada das nações que o recebeu. Afinal, a qualidade do desempenho dos atletas em campo em nada apaga o retrospecto da Copa no Catar, que ficará para sempre marcado pelas restrições às mulheres, aos homossexuais e pelo desrespeito grosseiro aos direitos humanos dos trabalhadores que a tornaram possível.

Todavia, ao lado dessas tristezas (e elas não são poucas), coube-nos a boa fortuna de ver praticamente uma nação inteira torcendo por aquela a quem se diz ser sua arquirrival. Sim, porque se tem algo que o brasileiro aprende depois que começa a chutar uma bola é que, havendo do outro lado uma camisa branca e azul, a próxima coisa a se chutar é uma canela. A rivalidade entre Brasil e Argentina é, sem dúvida, a maior do futebol mundial. E não seria exagerado dizer que o embate entre os dois maiores vencedores da América do Sul compõe o maior clássico da bola.

A despeito disso, a maior parte dos brasileiros torceu pela Argentina na final da Copa. Mesmo aqueles que escondiam sua torcida sob o manto diáfono do “estou torcendo só pelo Messi” mal conseguiam disfarçar o que, à vista de todos, parecia ser só um pretexto. No final, quando sacramentado o resultado das penalidades, a explosão em júbilo deixou claro o que batia no peito desses torcedores enrustidos.

Mas por que tanto ódio aos argentinos?

A bem da verdade, a razão para isso é nenhuma. A rigor, Brasil e Argentina nunca estiveram em guerra um contra o outro. Salvo um breve interlúdio conflituoso na Guerra do Prata, brasileiros e argentinos sempre estiveram lado a lado, desde a Guerra do Paraguai até as duas guerras mundiais (embora a Argentina tenha se mantido oficialmente neutra nas duas, los hermanos chegaram a “emprestar” combatentes aos aliados para o esforço de guerra).

A desconfiança brasileira em relação aos argentinos pode ser medida pela disposição de suas forças. O maior e mais poderoso contingente militar do Brasil é o III Exército (agora chamado de Comando Militar do Sul), com sede em Porto Alegre. Durante boa parte do século XX, viveu-se com a impressão de que uma guerra entre Brasil e Argentina pelo domínio do continente sul-americano era inevitável, a ponto de ambas as nações terem gastado tempo e dinheiro produzindo – pasmem – um programa nuclear. Felizmente, essa parte da rivalidade parece ter ficado no passado.

Para aqueles que reclamam do suposto racismo e xenofobia ao sul do Rio da Prata, a única resposta possível é a de que imbecis e racistas existem em qualquer lugar. Duvidam? Basta ver o que aconteceu depois das eleições em Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul quando foram colhidos os votos dos nordestinos. Assim como é errado dizer que todo sulista é um idiota xenófobo, é igualmente equivocado generalizar o comportamento de alguns portenhos néscios e extrapolá-lo ao comportamento de toda uma nação.

Já é hora, portanto, de superar esse ranço estúpido e reconhecer nos nossos irmãos argentinos a riqueza de uma cultura que produziu um prêmio Nobel de Química, dois de Medicina e dois da Paz. Isso, claro, para não falar de Ernesto Sabato, Adolfo Bioy Casares e – claro – Jorge Luís Borges. E, se alcançamos a Jules Rimet antes deles, “agradeçam” à II Guerra Mundial. Se o selecionado argentino tivesse disputado os cancelados torneios de 1942 e 1946, possivelmente a Argentina teria hoje as mesmas cinco estrelas que enfeitam o escudo da seleção brasileira.

Por algumas horas, quiçá dias, Messi conseguiu fazer com que esse pesado histórico fosse colocado de lado. Se a sua genialidade, premiada pelo justíssimo título argentino, puder fazer com que esse seja mais um legado duradouro de sua brilhante carreira, é sinal de que o futebol é, de fato, uma tenda de milagres. O Brasil e o futebol agradecem.

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Trilha sonora do momento

Ou na serra, tanto faz.

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Pensamento do dia

Não peça permissão pra voar. As asas são suas e o céu não pertence a ninguém.

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TariFlávio 2, ou O esforço de Flávio Bolsonaro para perder a eleição

É a volta dos que não foram.

Assim como aconteceu no ano passado, Donald Trump resolveu novamente assediar moralmente o Brasil com sua insana política tarifária. Sem base fática ou jurídica para impor novamente tarifas contra os produtos brasileiros, o Laranjão recorreu de novo ao seu indisfarçável viés político. Mas, se a intenção era ajudar Flávio Bolsonaro, o tiro pode ter mais uma vez saído pela culatra.

Para quem não conseguiu ainda ler o noticiário de hoje, o governo dos Estados Unidos anunciou a aplicação de tarifas adicionais de 25% sobre produtos brasileiros. O instrumento jurídico para aplicação da sanção é a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, historicamente reservada a países com déficits bilionários, práticas de dumping documentadas ou subsídios ilegais comprovados.

Qual o problema?

Nenhuma dessas condições existe na relação comercial com o Brasil. Em 2024, os americanos exportaram US$ 78,4 bilhões para cá e importaram apenas US$ 49 bilhões — um superávit de US$ 29,3 bilhões favorável ao Tio Sam. O Brasil é, sob qualquer métrica comercial razoável, um dos melhores clientes dos Estados Unidos. Para além disso, nenhuma empresa brasileira que exporta lá pratica dumping – e é duvidoso até que tenhamos qualquer companhia com capacidade de vender produtos a baixo de seu preço de custo só para monopolizar mercado -, muito menos damos subsídios ilegais aos nossos produtores.

Quando se desce às minúcias do documento de imposição das tarifas ao Brasil é que a verdadeira natureza do ato se revela. Nas 138 páginas do documento, o nosso querido PIX é citado mais de vinte vezes. Os americanos acusam o Banco Central brasileiro de favorecer “seu campeão nacional” em detrimento de “provedores americanos de pagamento eletrônico”. Traduzindo para o vernáculo financeiro, esse blá-blá-blá quer dizer que Visa e Mastercard perderam R$ 12 bilhões em receitas de taxas de transação desde que o PIX tornou praticamente desnecessário o uso de bandeiras estrangeiras para pagamentos do dia a dia.

Para piorar, o WhatsApp Pay — plataforma da Meta que nunca emplacou no Brasil com a força planejada, porque o PIX chegou primeiro e não cobra nada — também está na lista de descontentes. Nenhuma dessas empresas aparece pelo nome no documento do USTR. A agenda delas, no entanto, está em cada parágrafo.

Em sua defesa, o governo brasileiro respondeu o óbvio: a Seção 301 não autoriza os Estados Unidos a punir um país por suas escolhas soberanas de política pública, especialmente quando não há déficit, não há dumping e não há prova de prejuízo ao comércio americano. Mas o argumento jurídico de nada serve nesse caso. É a política norte-americana que decide como as tarifas são aplicadas.

E que fins políticos o Nero dos nossos tempos pode estar querendo atingir com o novo tarifaço?

Como toda a gente sabe, em maio deste ano Flávio Bolsonaro foi a Washington tirar foto como papagaio de pirata de Donald Trump. Numa reuni\ao com o vice de Trump, J.D. Vance, e com seu secretário de Estado, Marco Rubio, o filho 01 de Bolsonaro voltou a pedir que o governo norte-americano interviesse a seu favor para tentar reverter o cenário eleitoral desfavorável. O lobby dos Bolsonaro – não nos esqueçamos do autoexilado Bananinha – produziu o relatório do USTR. E o relatório do USTR resultou nas tarifas.

Intuindo que um novo tarifaço novamente lhe seria prejudicial, Flávio Bolsonaro ainda ensaiou uma meia-volta constrangedora, ao comparecer à sessão pública da USTR para dizer que “este não seria o melhor momento” para aplicar as tarifas (como se em algum outro momento isso pudesse ser bom), pois isso acabaria por “fortalecer Lula em um ano eleitoral”. Demonstrando mais uma vez que sua influência junto à Casa Branca é tão verdadeira quanto uma nota de três reais, o filho mais velho de Jair foi solenemente ignorado pelos americanos.

Ao trazer de novo para o centro do palco a questão das tarifas, o Nero Laranja transfere de bandeja a bandeira do patriotismo – sequestrada pelo bolsonarismo desde 2018 – para as mãos de Lula. E, como desgraça pouca é bobagem, as tarifas do Laranjão chegam em um momento particularmente difícil para o filho 01 de Bolsonaro.

Depois de ser derrubado por uma onda ao ser flagrado pedindo a módica quantia de R$ 134 milhões ao “irmão” Daniel Vorcaro, Flávio Bolsonaro tomou um caldo ainda maior com a divulgação do vídeo de Michelle Bolsonaro acusando-o de “humilhá-la” e “desrespeitá-la”. Tudo isso e mais o rumor já confirmado nos bastidores da campanha de que existe um vídeo do candidato participando de uma “suruba não convencional” (o que se deve entender por uma “suruba não convencional” corre por conta da imaginação do freguês). Agora, com as tarifas, a candidatura de Flávio Bolsonaro arrisca afundar de vez.

Existe uma máxima nas relações política segundo a qual, assim como na regra dos sinais matemáticos, o inimigo do meu inimigo é meu amigo. Flávio Bolsonaro parece ter descoberto da pior forma possível uma variante curiosa dessa fórmula: o amigo (Trump) do meu amigo (Jair) não é necessariamente meu amigo (não me ajuda). Pior: o filho 01 de Bolsonaro foi a Washington pedir pra fazerem isso com ele. Esse erro pode ter custado a Flávio a eleição.

Aguardemos as cenas dos próximos capítulos.

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Trilha sonora do momento

Lá vamos nós novamente… :-/

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Pensamento do dia

O melhor nível a ser alcançado é aquele em que o silêncio começa a lhe dar respostas.

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Trilha sonora do momento

Não foi dessa vez, Inglaterra.

So sorry… #NOT

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Pensamento do dia

Não venci em todas as vezes que lutei, mas perdi em todas as vezes que deixei de lutar.

By Cecília Meireles

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Mandato fantasma, ou O caso do patrocínio de emendas por Valdemar da Costa Neto e Eduardo Cunha

É aquela história: não surpreende, mas abala.

Protagonista do escândalo de 2005, Valdemar da Costa Neto foi um dos que curtiu uma cana dura depois que o STF condenou toda a malta de mensaleiros envolvidos no esquema desenvolvido no primeiro governo Lula. Recebido com honras na Papuda, Valdemar compartilhou cela – veja você – justamente com Zé Dirceu, o grande artífice do Mensalão.

Indultado em 2016, Valdemar deve ter pensado que não fazia muito sentido tentar a sorte de volta nas urnas. Afinal, ele continuava a ser dono do PL, um dos maiores partidos da república. Seu nome não estava na urna em 2018. Tampouco esteve na de 2022, quando cedeu legenda a Jair Bolsonaro na sua frustrada tentativa de reeleição. O que ninguém sabia é que, para além de dono do cartório partidário, Valdemar aparentemente atuava nas sombras também como deputado federal.

De acordo com a Polícia Federal, o presidente do PL – indivíduo sem mandato, assim como eu e você – teria distribuído pelo menos 21 emendas parlamentares. Ninguém nunca viu Valdemar discutindo destino de dinheiro na Comissão de Orçamento. Mesmo assim, seu nome aparece numa pergunta insólita trocada entre servidores da Câmara dos Deputados:

“Fechou o valor do Valdemar?”

Ao lado de Valdemar, consta outro ex-figurão da República, o notório Eduardo Cunha. Da mesma forma que Valdemar, o ex-presidente da Câmara manobrava nas sombras o destino de várias emendas parlamentares. A despeito da oposição da PGR, o ministro Flávio Dino determinou o bloqueio de R$ 119 milhões em bens do manda-chuva do PL, e mais R$ 6 milhões de Eduardo Cunha.

Até aqui, pode parecer que esse é mais um daqueles escândalos típicos de Brasília. Na atmosfera seca do Planalto Central, a corrupção sempre encontrou solo fértil para vicejar. O que faria este escândalo ser diferente dos outros?

É fato que os escândalos de desvio de dinheiro público são tão parte da paisagem brasiliense como os flamingos do Alvorada. E o sujeito mais cínico pode estar se perguntando: que diferença faz se o dinheiro está sendo desviado para obras por um parlamentar eleito ou Valdemar da Costa Neto e Eduardo Cunha?

Pode-se argumentar, com alguma ponta de razão, que o problema maior nesse caso não reside no fato de que um ex-condenado por corrupção pela Justiça está usurpando uma prerrogativa que não lhe pertence. O problema maior está em um sistema através do qual os governos – todos os governos – transformaram um instrumento legítimo do mandato parlamentar (as emendas) numa forma de cumplicidade espúria. Como uma moeda de livre circulação, ela é emitida por quem tem mandato, gasta por quem tem acesso, mas fiscalizada por ninguém.

O buraco, contudo, é muito mais embaixo.

Apenas no orçamento de 2026, reservaram-se mais de R$ 60 bilhões para o pagamento de emendas parlamentares. Em 2025, os parlamentares controlaram quase 1/3 do orçamento de investimentos do país. Mas, ao contrário do Presidente, do Governador ou do Prefeito, nenhum deles precisou explicar em público a razão pela qual escolheu essa ou aquela obra. Enquanto os membros do Executivo são cobrados todo dia por empresários, pela mídia e pela população, os parlamentares que se assenhoraram do orçamento transitam lépidos e fagueiros, sem que ninguém lhes importune pelo destino dos dinheiros da Nação.

Construiu-se, assim, pelo menos para os parlamentares, o melhor de dois mundos: o máximo de dinheiro com o mínimo de responsabilidade. É um jogo de ganha-ganha. Para além dos tradicionais desvios das obras públicas, os nobres deputados e senadores eleitos ganham ao dizer que “patrocinaram” uma obra paroquial numa cidade qualquer, mas não precisam responder pelo preço da cesta básica ou pelo aumento do desemprego.

Para piorar, o negócio já atingiu tal nível de deturpação que ninguém mais sabe se um dia será possível voltar atrás nisso. Com o Congresso liberado da tarefa de passar o pires nos ministérios, quem precisa apoiar o Executivo? Basta cruzar os braços e reclamar, como o pipoqueiro da esquina. Afinal, se as coisas forem mal, a culpa recairá em quem sempre recai nessa horas: no Governo.

A decisão de Flávio Dino veio em boa hora e certamente representa um sopro de esperança. Mas será ilusão pensar que ela, sozinha, resolverá alguma coisa. Valdemar da Costa Neto e Eduardo Cunha são apenas as duas pontas mais evidentes de um imenso iceberg que flutua abaixo do radar da opinião pública. São mais de R$ 60 bilhões de reais distribuídos entre 594 gabinetes (513 deputados e 81 senadores). A diferença entre eles e Valdemar é que eles foram eleitos.

Mas quem precisa de mandato para distribuir emendas, não é mesmo?

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Trilha sonora do momento

Arriba!

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