10 anos Dando a cara a tapa

Pois é, meus caros.

10 anos depois daquele histórico 18 de janeiro de 2011, estamos aqui para celebrar uma década de vida deste pequeno espaço da Internet. 

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Confesso que a chegada de uma data tão simbólica deixa-me, a um só tempo, espantado e nostálgico. Espantado porque eu jamais imaginaria que seguiria ainda por aqui ainda dez anos depois que concluí que os 140 caracteres do Twitter eram muito pouco para poder expor um raciocínio minimamente inteligível. E nostálgico porque, olhando para trás, eu ainda consigo ver aquele (quase) menino dez anos mais moço, cheio de idéias na cabeça e sonhos no coração.

Claro, como tudo na vida, nem tudo se concretizou, e muito daquele sujeito que resolveu criar o Dando a cara a tapa já não existe mais. No entanto, como diria Bentinho de Dom Casmurro, vida diferente não significa vida pior; é outra coisa. Uma década mais velho, com mais preocupações sobre os ombros e menos cabelos sobre a cabeça, pode-se dizer que o Blog testemunhou cada passo dessa mudança. E, graças à Internet, essas sutis alterações sobre a minha própria compreensão da vida ficaram registradas para sempre, de modo que um dia, quem sabe, alguém com um pouco mais de interesse possa fazer um apanhado geral e relatar o que aqui se passou. 

Em 10 anos, o Blog atraiu a atenção de um pouco mais de 700 mil pessoas. 2 mil delas seguiram o exemplo deste que vos escreve e deram a cara a tapa, deixando os seus pensamentos na área de comentários deste espaço. 6.500 posts são o testemunho histórico desta década que passou, tão movimentada quanto controversa. Quantos mais virão? Bem, aí só Deus sabe.

O que é certo que, na semana que vem, teremos mais uma semana especial de comemoração do natalício do Dando a cara a tapa. E, considerando que um novo decênio se inicia neste já conturbado ano de 2021, vamos sair um pouco do roteiro. Ao invés de projetar a política nacional, internacional e a economia neste ano, faremos um apanhado geral tentando projetar o que acontecerá ao final desta década. Espera-se, apenas, que ela seja melhor que os anos 20 do século passado.

Seja como for, fica sempre o meu muito obrigado aos meus diletos e fiéis 102 seguidores que insistem em perder tempo com as coisas que se escrevem por aqui. Foi pra vocês que este espaço foi criado.

Cordialmente,

O Autor

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Trilha sonora do momento

Hallejujah, irmãos.

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Pensamento do dia

Goodbye, Trump. We’re really going to miss trying to avoid you around here.

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Projetando 2022, ou Uma saída pelo Ceará?

Eu sei, eu sei.

2022 ainda está longe no calendário e, considerando a rapidez com que o mundo (e o Brasil) tem mudado nos últimos tempos, dois anos são equivalentes a duas eternidades. Basta lembrar que, há menos de um ano, Trump estava reeleito, Guedes prometia um crescimento espetacular e Corona era apenas uma marca de cerveja. Ninguém em sã consciência, portanto, pode achar possível desenhar cenários minimamente críveis com tanta água ainda por rolar.

De todo modo, traçar projeções e especular sobre o que pode acontecer no biênio que precede as eleições gerais tem sido um dos esportes mais praticados desde que o mundo é mundo (ou desde que o Brasil é Brasil). E é até salutar que assim seja. Afinal, tentar pelo menos definir os lados da arena política ajuda a entender o que eventualmente pode ocorrer e, na melhor das hipóteses, pode permitir que você se prepare para o que está por vir.

Que Bolsonaro será candidato à reeleição, toda a gente já sabe. Com menos de seis meses de mandato, ele jogou fora uma de suas muitas promessas eleitorais, a de que iria acabar com esse famigerado instituto introduzido no país pelo malfadado governo Fernando Henrique, de triste memória. Sentado na cadeira presidencial, ele dispara como favorito, dado que 1/3 da população é cronicamente governista, no matter what (para entender por quê, clique aqui).

Fora isso, desde que a reeleição (comprada) foi introduzida no texto constitucional, não houve caso de presidente que não tenha sido reeleito. Dilma Rousseff – que era Dilma Rousseff – se reelegeu em 2014, em que pesasse a desgraceira completa de seu governo e a corrupção generalizada desvelada pela Operação Lava-Jato. Logo, é no mínimo ingênuo acreditar que Bolsonaro não estará pelo menos no segundo turno das próximas eleições.

Do lado da esquerda, as vias continuam interditadas por ele, sempre ele: Luís Inácio Lula da Silva. Ninguém sabe se o Supremo de fato anulará as condenações impostas pelo ex-juiz Sérgio Moro ao torneiro bissílabo de São Bernardo. Caso isso aconteça, Lula recuperará seus direitos políticos e, se sair candidato, dificilmente não estaria na segunda rodada do pleito, a despeito do imenso desgaste de sua imagem. Enquanto a situação de Lula não se resolver, ninguém dará grandes passos pela zona jacobina do espectro político. Até porque com Lula, o cenário é um. Sem Lula, o cenário é outro, completamente diferente.

A maior expectativa e – por que não dizer? – o maior drama do tabuleiro eleitoral de 2022 encontra-se na centro-direita. Com a extrema-direita inteiramente ocupada por Bolsonaro, sem substituto imediato ao alcance da vista, e a esquerda completamente inviabilizada eleitoralmente (com Lula ou seja lá quem for), a alternativa para quem deseja derrotar o atual inquilino do Planalto na próxima eleição teria de sair, necessariamente, daquele aglomerado disforme que vai da esquerda envergonhada (pode me chamar de “centro-esquerda”), até a direita racional, aquela que sabe usar os talheres e não arrota na mesa.

Mas quem?

Essa é a questão.

Excluam-se, desde logo, os balões de ensaio de Sérgio Moro e Luciano Huck. Além de ambos estarem situados na mesma extrema-direita já devidamente ocupada por Jair Bolsonaro, é difícil imaginar que ambos consigam se viabilizar eleitoralmente em tão pouco tempo.

Pra começar, o ex-todo-poderoso juiz da Lava-Jato exibe o carisma de uma porta e a articulação de um cone. Ademais, Moro dificilmente encontraria uma casa para acolhê-lo, ou, falando o português reto, um partido que o aceitasse como filiado. Depois de seu, digamos, “controverso” histórico como juiz justiceiro, pode-se apostar em tudo, menos que o ex-juiz seja alguém “querido” pelo meio político. E, se tudo isso não bastasse, Moro ainda teria de lidar com as explicações que até hoje não deu sobre a Vaza Jato e ao fato de ter permanecido um ano e meio como ministro da Justiça de um governo que, segundo ele, queria aparelhar a Polícia Federal para proteger a família do presidente.

Tampouco será fácil o caminho de Luciano Huck. Afora as intermináveis dúvidas que assombram o apresentador de TV, sobre jogar “tudo pro alto” e arriscar o rico dinheirinho que ganha como estrela da Globo e garoto-propaganda dos mais inúmeros produtos, Huck ainda teria que: 1) encontrar um partido pra chamar de seu; 2) articular apoio político relevante, atuando numa seara na qual jamais mergulhou; e 3) construir um discurso que permita se desvencilhar de seu histórico ultradireitista para trazê-lo mais ao centro. Se fazer tudo isso já seria difícil para qualquer raposa experimentada da arena política, imagine para um neófito como Huck.

É nessa quadra que um dado curioso surge no horizonte. Nesta semana, o senador Tasso Jereissati deu uma longa entrevista ao Valor, na qual disseca muitos dos nós nos quais estamos metidos e sugere cenários para o ano que vem. Ex-governador por três vezes, em seu segundo mandato no Senado Federal, Tasso é, disparado, um dos políticos mais tarimbados e experientes do país. E é justamente por isso que seu nome poderia desequilibrar uma possível corrida eleitoral.

Cearense de nascimento, Tasso já sairia de cara com a simpatia daquele 1/3 do eleitorado que reside no Nordeste. Empresário de formação, Tasso reúne, a um só tempo, a experiência bem sucedida no setor privado e governos muito bem avaliados no setor público. Não seria difícil para ele recolher apoio no empresariado e até mesmo no mercado financeiro, sempre sedento por governos de tendência liberal e que contenham o mínimo de previsibilidade (matéria-prima que anda em falta, hoje em dia). Inteligente e articulado, Tasso ainda traria consigo o bônus de poder ser acusado de muita coisa, menos de ser “comunista”.

Se uma articulação dessa natureza de fato ocorresse, poderia se esperar que Tasso saísse de cara com o apoio do PSDB, do DEM e do MDB. Em um segundo turno contra Bolsonaro, o PDT de Ciro (que é sua cria política) e até mesmo o PT de Lula (que quase foi vice com ele numa chapa presidencial em 1994) facilmente correriam para o “Galeguim dos óio azul”, como se diz no Ceará. O risco de uma derrota para Bolsonaro, portanto, seria bem real e concreto.

Claro, claro, tudo isso são meras conjecturas e ninguém sabe o que vai ocorrer daqui para o ano que vem. Na entrevista, Tasso não fala em momento algum em candidatura e nem mesmo se sabe se ele quereria de fato enfrentar uma parada encarniçada como essa. Com quatro pontes de safena no coração, é duvidoso até que sua saúde permita algo do gênero. E, como se tudo isso não bastasse, Tasso ainda teria que “furar a fila” no seu próprio PSDB, hoje dominado pelo governador de São Paulo, João Dória (cuja viabilidade eleitoral é, na mais condescendente das avaliações, discutível).

Seja como for, uma eventual candidatura de Tasso Jereissati em 2022 poderia finalmente desarmar essa armadilha eleitoral entre esquerda e extrema-direita em que nos metemos, permitindo que o centro mais racional tomasse conta do debate eleitoral. Mas será que a saída eleitoral de 2022 viria do Ceará?

Aí, só Deus sabe…

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Trilha sonora do momento

Será que agora vai?

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Pensamento do dia

Eu sempre digo não à bebida, mas ela não me ouve.

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A tentativa de golpe nos Estados Unidos, ou O ocaso de Trump ou o ocaso da América?

Voltando às atividades rotineiras aqui no Blog depois deste brevíssimo recesso de final de ano, eis que a segunda temporada de 2020 já chega “causando” geral com imagens nunca antes imaginadas. E, pra que os trabalhos do Dando a cara a tapa recomecem comme il faut, a primeira coisa a fazer-se é chamar as coisas pelo que elas são. Pois o que houve hoje em Washington não foi um “distúrbio” nem sequer um “protesto”. O que houve foi uma tentativa de golpe de Estado.

Não que a desordem tenha sido completamente inesperada, que fique claro. Afinal, quem acompanhou pelo Twitter as reações enlouquecidas de Donald Trump a urnas que começavam a sorrir para seu adversário (“STOP THE COUNT!”), poderia imaginar que o Nero Laranja dos nossos tempos não entregaria assim, de mão beijada, a cadeira de homem mais poderoso do mundo. Quando se elege um mentiroso egocêntrico e salafrário, com sintomas graves de psicopatia, pode-se esperar de tudo. Mas, mesmo para padrões trumpistas, o que se passou no Capitólio na noite deste Dia de Reis excedeu a qualquer limite.

Desde pelo menos a virada do ano, Trump sugeria que algo do gênero poderia ocorrer. Dentro do intrincado processo eleitoral norte-americano, as disputas pra valer encerraram-se em 12 de dezembro, o famoso dia do “porto seguro” (“safe harbor“). Com a certificação dos resultados eleitorais em todos os estados, não havia mais caminhos eleitorais e/ou jurídicos para que Trump revertesse a derrota nas urnas. As sucessivas cacetadas que seus advogados levaram da Suprema Corte e até mesmo dos juízes federais indicados por ele eram a comprovação mais evidente do quão fútil era seguir contestando o resultado da eleição.

Mas, se não há mais caminhos democráticos e/ou jurídicos para tentar se reverter um resultado eleitoral, o que é que resta?

Resta romper com a legalidade. Ou, em termos mais práticos, dar um golpe. “Golpe” mesmo, não aqueles golpes envergonhados ou “brancos” que muita gente tenta vender por aí, como o que supostamente teria ocorrido no impeachment de Dilma Rousseff. E foi justamente isso que Trump promoveu hoje.

Tendo convocado seus seguidores aos milhares para vir a Washington “pressionar” seus representantes a não certificar Joe Biden como presidente – uma providência cartorária meramente procedimental, sem qualquer efeito prático no resultado da eleição -, Trump literalmente armou um picadeiro em frente à Casa Branca. Com direito a palanque, bandeiras confederadas e a indefectível claque de seguidores fanáticos, o presidente norte-americano literalmente incensou a turba a “marchar” em direção ao Congresso. Daí pra frente, tudo que aconteceu pode – e deve – ser imputado na sua responsabilidade.

Vendidos, não sem alguma razão, como “a última grande democracia do mundo”, os Estados Unidos sempre firmaram uma sólida reputação mundo afora assentando-se na idéia de que, no matter what, as transições de poder davam-se de modo pacífico. Salvo um único  e triste episódio – a Guerra Civil -, essa regra permitiu que uma antiga e miúda colônia britânica, formada por apenas trezes estados provinciais, que compunham uma margem estreita de litoral, tornasse-se, em menos de dois séculos, um colosso que irrompe desde o Atlântico até o Pacífico, a Roma dos nossos tempos, verdadeira locomotiva do mundo e superpotência indiscutível do planeta desde, pelo menos, 1945.

Com base nisso – e também no poder de fogo insuperável de suas Forças Armadas -, os Estados Unidos exercem, há pelo menos meio século, o papel de “polícia do mundo”. E tão grande e incontestável é a sua superioridade militar que os americanos sempre se acharam no direito de ir “ajeitar” as coisas onde eles achavam que elas iam “errado”. Foi assim que se organizaram golpes militares na América Latina, se depuseram presidentes bandidos como Manuel Noriega e se derrubaram ditadores fascínoras como Saddam Hussein. Tudo isso, claro, em nome da “democracia”.

Agora, com essa tentativa canhestra e malfada de golpe de Estado, tudo isso se perdeu. Ao pior estilo das repúblicas bananeiras da Latinoamérica, as cenas de um Congresso sitiado, com gente fantasiada de viking invadindo os plenários da Câmara e do Senado, destróem por completo a noção de Estados Unidos como “berço da democracia”.

Evidentemente, o resultado eleitoral não vai ser alterado nem tampouco haverá uma insurreição militar que mantenha Trump, contra a vontade das urnas, na presidência a partir de 20 de janeiro. Mesmo assim, o dano já está feito. E tão grave é a sua extensão que aos políticos norte-americanos – aí incluídos os próprios republicanos – não restam muitas alternativas: ou derrubam o presidente imediatamente, seja por impeachment, seja pela declaração de incapacidade prevista na Emenda 25 de sua Constituição; ou a democracia americana – e tudo aquilo que ela representa – terá tomado o caminho do brejo.

Mais que isso, uma eventual resposta fulminante das instituições americanas a essa tentativa de golpe teria o efeito benfazejo de estender os seus efeitos para outras paragens. Se Trump for destronado antes do fim de seu mandato e imediatamente levado aos tribunais pelos inúmeros crimes que cometeu nos últimos dias, o mundo poderá respirar um pouco mais aliviado, porque o exemplo que terá ficado será a de que o crime, afinal, não compensa.

Mas, se não acontecer nada…

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Trilha sonora do momento

Para manter a tradição, nesta segunda temporada de 2020, que, como esperado, chegou chegando…

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Pensamento do dia

2020 foi um ano difícil, mas pelo menos foi melhor do que 2021.

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2020: o ano que não houve

Pois é, meus caros. 2020 está chegando ao fim e, por mais que se queira enganar, poucas vezes o mundo vivenciou um ano tão ruim sob tantos aspectos diferentes.

O signo deste 2020, por óbvio, foi a pandemia de Covid-19. Se em janeiro Trump parecia reeleito, a bolsa estava prestes a romper a máxima histórica e tudo se encaminhava para mais um ano de rame-rame no Congresso, no final de fevereiro o panorama era bem outro. Assim como em um filme de terror, o mal que surgiu na China e se alastrou pela Ásia começou a chegar deste lado do mundo. As cenas de lockdown e desespero nas UTIs de países como Itália, Espanha e França pareciam um prenúncio de que boa coisa não nos esperava.

E foi justamente isso que aconteceu. Já em março, o vírus foi oficialmente detectado no Brasil e o desespero tomou conta de todos. Sem uma coordenação nacional única e com o presidente aparentemente mais empenhado em agradar à sua turba mais ensandecida com discursos raivosos em frente ao Forte Apache, prefeitos e governadores tiveram que se virar nos 30 para tentar fazer frente a um inimigo que pouco se conhecia e menos ainda se sabia como combater.

Entre negacionismos torpes e uma injeção de dinheiro sem precedentes na Economia, a Ciência desde então corre em busca de uma solução para a doença que vitimou mais de 1,5 milhão de pessoas mundo afora (180 mil só no Brasil). Hoje, somente quem acredita nas teorias conspiratórias que transitam loucamente pelo WhatsApp pode negar que estamos mais próximos do que nunca de uma solução. A menos que você seja um daqueles que crê piamente que tudo não passa de um plano diabólico de Bill Gates com George Soros para implantar um chip no seu corpo, que permitiria à China controlar sua mente e transformá-lo numa espécie de zumbi, a vacina está logo ali, ao alcance da mão.

Obviamente, a vacina sozinha não vai mudar muita coisa. Enquanto não houver gente imunizada em quantidade suficiente – e por “suficiente” entenda-se: mais de 70% da população mundial – máscaras e isolamento social ainda farão parte do nosso cotidiano. Os desafios logísticos da vacina da Pfizer,  que demanda ultrafreezers capazes de mantê-la resfriada a temperaturas que beiram os 70 graus negativos, é apenas o exemplo mais emblemático de como é penosa e desafiadora a tarefa de vacinar tanta gente.

Por muitos motivos, mas principalmente por conta disso, 2020 provavelmente passará à História como “o ano que não houve”. Planos foram adiados, crianças perderam o ano escolar nesse autoengano a que convencionamos chamar de “ensino online” e muita, mas muita gente mesmo, perdeu o emprego ou o trabalho. Tudo aquilo que fora planejado na virada de 2019 viu-se subitamente transplantado para a virada de 2020, como se alguém tivesse apertado o botão de fast forward em nossas vidas e acelerado o tempo para um ano à frente.

Nenhum desses dramas, contudo, terá sido maior do que a dor de quem perdeu a vida ou algum ente querido no meio desse pandemônio. Enquanto muita gente defendia cloroquina ou coisa que o valha para combater um mal que desconhece remédio, as mortes iam se acumulando. Quando não renegavam as mortes em si mesmas – “não está morrendo tanta gente assim” -, os negacionistas simplesmente “justificavam” os óbitos com base em alguma comorbidade do falecido. Ignorava-se, contudo, que hipertensão, diabetes ou obesidade podem até ser classificados como fatores de risco, mas dificilmente levam à morte no curto prazo. Se essas pessoas morreram, morreram não por causa das doenças que tinham, mas da doença (Covid) que pegaram. Quando se tenta minimizar isso, está-se, no mínimo, fazendo pouco caso da dor alheia. E nada pode ser mais desumano que isso.

Por isso mesmo, se você chegou até o final deste ano vivo e com saúde, não resta senão agradecer. Planos podem ser refeitos. Patrimônios podem ser reconstruídos. Só a vida – sim, a vida – é a única coisa que, uma vez perdida, não pode ser recuperada.

Haverá, claro, quem venha a argumentar que o tempo perdido neste ano não também voltará atrás. 2021 pode trazer tudo, menos os meses em que você ficou trancado dentro de casa neste 2020. Mas, de certa forma, o tempo que se foi neste ano pode ter servido pelo menos para você aprender uma lição, talvez a mais importante para todo ser humano: a gente só leva da vida a vida que leva.

Um Feliz Natal e um excelente Ano Novo a todos.

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