Uma disputa perigosa, ou O paradoxo de Haddad

Só não viu quem não quis.

Enquanto boa parte da mídia e dos “analistas” políticos do país apostava em um segundo turno presidencial entre Geraldo Alckmin e alguém da dita “esquerda” – mais provavelmente Ciro Gomes -, aqui no Blog cravou-se há pouco mais de três meses: a disputa final pela cadeira de presidente será entre Jair Bolsonaro e Fernando Haddad.

Embora a conclusão hoje pareça óbvia a qualquer néscio que saiba olhar as pesquisas eleitorais, não era nada intuitiva antes das convenções partidárias de julho. Do lado da Direita, acreditava-se piamente que o latifúndio televisivo de Alckmin acabaria por destronar o ex-capitão do Exército da dianteira. No lado da Esquerda, Lula ainda acreditava que seria capaz de emparedar o Judiciário e forçar sua candidatura. Tamanha era a fé na sua própria divindade que, a menos de 30 dias da escolha da chapa, Lula não definira sequer quem seria o seu vice. Boa parte do petismo preferia o baiano Jacques Wagner, enquanto a presidente do PT, Gleisi Hoffman, nutria nada em segredo a vã ambição de ser ungida pelo babalorixá petista. No entanto, o dedazo  falou mais alto e o ex-prefeito paulistano acabou com a vaga que Lula considera eternamente sua.

Com a sagacidade que lhe é inata, Lula elaborou a melhor estratégia política que poderia, consideradas as circunstâncias. Uma vez que estava preso e impedido de fazer campanha, fez o que pôde para estender uma batalha judicial que qualquer rábula reconheceria perdida de antemão. Tudo, claro, para permanecer em evidência e aumentar a percepção de que sofre uma perseguição política do Ministério Público e do Judiciário. De quebra, ainda pouparia qualquer substituto seu da costumeira pancadaria que se abate sobre os candidatos a presidente. Uma jogada de mestre, portanto.

Parada resolvida, então?

Não exatamente.

Que o dedazo de Lula catapultaria qualquer indicado seu a 20% dos votos, era algo mais do que previsível; era até natural. Portanto, Haddad sair de 4% para 19% em pouco mais de uma semana de campanha não representa nenhum feito do candidato petista. Estranho seria se ele não conseguisse alavancar tal índice montado na imensa popularidade de seu padrinho. Todavia, não há a menor razão para acreditar que Haddad continuará subindo à razão de 10 pontos percentuais por semana.

Se por um lado a jogada de Lula revelou-se brilhante para garantir uma vaga no segundo turno para seu pupilo, por outro o tiro se revela uma estratégia de eficácia limitada no tempo. A idéia de postergar ao máximo a substituição da chapa e resguardar Fernando Haddad da artilharia de campanha garante sua vaga no segundo turno. Mas, daí pra frente, a coisa muda de figura.

Com a campanha na rua e tendo de dar a cara a tapa, aos poucos as pessoas vão deixar de pensar no “candidato do Lula” e vão observar o Fernando Haddad de carne e osso. Pode ser que ninguém ligue para o fato de que Haddad foi o único prefeito da história a perder uma reeleição no 1º turno, muito menos de que ele comandava a prefeitura mais mal avaliada do país quando foi derrotado por João Dória. Mesmo assim, Haddad terá de carregar o desgaste de 14 anos de governos petistas. E esse fardo pode ser pesado demais para uma só pessoa carregar.

Pior do que o legado de corrupção de toda uma era e o desastre econômico capitaneado por Dilma Rousseff, Haddad começará a encarnar numa só figura toda a ojeriza que levou o PT em certo momento a ser o partido mais odiado do país. Antes havia apenas a discussão sobre Lula e suas condenações judiciais. Mesmo quem não gostava do PT era capaz de nutrir alguma simpatia pelo ex-presidente e suas agruras penais.

Agora, não.

Quem assistiu à entrevista de Haddad ao Jornal Nacional teve uma indesejável sensação de dejà vu. Subitamente, tudo aquilo que parecia escondido em um recanto empoeirado da memória voltou à tona, ao vivo e em cores. A pretensa superioridade moral da esquerda, a desqualificação dos adversários, a soberba petista de acreditar que o partido recebeu algum tipo de missão divina que o credencia a fazer qualquer coisa, inclusive menosprezar a inteligência alheia. Somente isso pode explicar a bizarra tentativa de creditar a crise econômica de Dilma ao PSDB, como se tivessem sido os economistas tucanos os responsáveis pelo represamento dos preços controlados, pelo estelionato eleitoral de 2014 e pela condução desastrada de uma política de subvenção tributária da qual não resultou nenhum emprego.

É exatamente por isso que o crescimento de Haddad nas pesquisas representa um paradoxo. Se ao mesmo tempo ele se beneficia da popularidade de Lula, torna-se mais conhecido e se credencia para disputar o segundo turno das eleições, por outro ele passa a ser a encarnação real de todos os pesadelos que acompanham o legado petista. Isso pode não ser suficiente para tirá-lo da segunda ronda, mas pode aniquilar sua pretensões em um eventual segundo turno. Talvez por isso mesmo, em algum momento Fernando Haddad terá de demonstrar de fato porque é conhecido internamente como “o mais tucano dos petistas”.

Haverá, claro, quem vai continuar achando que o país não embarcará numa aventura e votará em Haddad simplesmente para impedir uma recaída autoritária. É um erro, porém, subestimar o poder do anti-petismo. Jair Bolsonaro passou quatro anos pregando contra o “comunismo” e defendendo o fim do “foro de São Paulo”. Enquanto isso, Geraldo Alckmin repetia platitudes, pronunciando sílaba por sílaba, cada vez mais devagar, como gramofone quebrado.

Deu no que deu.

Anúncios
Publicado em Política nacional | Marcado com , , , | Deixe um comentário

Trilha sonora do momento

Não perguntei antes, mas estou certo de que ela aprovaria…

Publicado em Trilha sonora do momento | Marcado com , , , | Deixe um comentário

Pensamento do dia

Quem reclama da ironia deveria saber que iria gostar muito menos da minha sinceridade.

Publicado em Pensamentos do dia | Marcado com , , , | Deixe um comentário

O incêndio da Quinta da Boa Vista

Lá se vão 10 dias da tragédia, mas as marcas do incêndio perdurarão por muito mais tempo do que isso. Em pouco menos de uma noite, o patrimônio cultural, antropológico e natural da mais antiga instituição científica do Brasil foi reduzido a cinzas. Do imponente prédio do antigo Palácio São Cristóvão não restaram mais do que paredes fumegantes e uma pergunta inescapável: “Por quê?”

Incêndio do Museu Nacional

A primeira reação, claro, veio nas redes sociais. E, como sói acontecer nesses casos, veio na forma de uma fúria insensata, fruto da estupidez reinante nesse tipo de meio. Para além de teorias conspiratórias completamente sem noção, houve gente que veio associar a tragédia ao histórico partidário do reitor da UFRJ (filiado ao PSOL) e até mesmo quem se dispusesse a calcular o custo de manutenção do museu frente aos gastos com o salário anual de um juiz. Sem meias palavras, trata-se de empulhação das brabas.

Em primeiro lugar, não passa pela cabeça de ninguém que um pesquisador cuja vida foi dedicada à pesquisa científica tenha destruído seu objeto e lar de estudo apenas para mostrar que estava certo. Por maior que sejam as agruras de um cientista no Brasil – e elas não são poucas – nem o mais louco dos pesquisadores atearia fogo a um museu somente para chamar atenção pro caso.

Em segundo lugar, a filiação partidária do reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro é a coisa menos importante a se discutir nesse momento. Ele poderia ser filiado ao PFL, à UDN ou à Liga das Escolas de Samba. Nada disso mudaria o fato de que o museu precisava de reparos e eles não estavam sendo dados. “Até onde ia a responsabilidade no reitor pela manutenção do museu?”, é a pergunta a ser feita. De resto, associar a tragédia a uma suposta incompetência da esquerda na administração do patrimônio público é algo que só pode prosperar no ambiente putrefato deste Brasil pré-eleições.

Em terceiro lugar, não tem o menor sentido fazer o cálculo do custo do museu com o salário anual de qualquer servidor público, muito menos de um juiz. Somente a estupidez alienante de quem nunca estudou algo parecido com contas públicas pode querer comparar o gasto de custeio com servidor de outro Poder (Judiciário) com a soma gasta para manter um patrimônio público (responsabilidade do Executivo). É algo tão bizarro quanto comparar banana com trufa. A menos que se pretenda sair por aí demitindo servidores de outros poderes para fazer frente às necessidades de um Executivo que não consegue manejar sequer o próprio orçamento, a discussão nessas bases não tem pé nem cabeça.

Na verdade, boa parte da comoção pública com o incêndio do Museu Nacional, localizado na belíssima Quinta da Boa Vista, revela um mis-en-scène de boa parte dos supostos indignados. Na hora da tragédia, todos são pelas Artes e pela Cultura. Mas, em condições normais de temperatura e pressão, a imensa maioria dos brasileiros não dá a mínima nem a uma nem a outra.

Basta perguntar para algum conhecido: “Qual foi a última vez que você foi a um Museu?” Salvo os viajantes frequentes que costumam atravessar o Atlântico para visitar sítios culturais em outro hemisfério, a resposta será um rotundo: “Não lembro”. Dentre as expressões culturais do país, brasileiro só costuma desfrutar quando elas vêm acompanhadas de feriados (carnaval ou festas juninas, por exemplo). No mais, tudo aquilo que se entende por “Cultura” fica restrito à Sétima Arte e, mesmo nesse caso, àquilo que se produz fora do país.

Por isso mesmo, há um quê de hipocrisia em toda a lamúria pelo Museu Nacional do Rio de Janeiro. Não só porque pouquíssima gente sequer visitou um dia o lugar, mas principalmente porque ninguém leva a Cultura a sério na hora que mais importa: no momento de depositar o voto na urna. Quantas vezes você levou em consideração as propostas para a área na hora de escolher um candidato? Um caso exemplifica bem a miséria que vivemos:

Em Sobral, construiu-se um grande hospital público. Nada havia nele, mas se impunha, por razões eleitorais, a “inauguração” da obra. Cid Gomes era o governador do Ceará. Gastou-se, então, R$ 650 mil (dinheiro de 2013) para contratar Ivete Sangalo para cantar na inauguração. Ou seja: ao invés de se gastar mais de meio milhão de reais com Cultura de verdade, preferiu-se chamar uma cantora renomada para entreter a massa por hora e meia. Ivete cantou, o povo aplaudiu e, dois meses depois, a marquise do Hospital (ainda sem funcionar) caiu por má construção. Cinco anos mais tarde, Cid Gomes é candidato a senador e lidera disparado as pesquisas.

“Por quê?”

Porque Ivete dá voto.

E Museu, que é bom, não…

Publicado em Artes | Marcado com , , , | 2 Comentários

Trilha sonora do momento

Foi ontem, mas para não deixar passar em branco mais um 11 de setembro, mestre Raulzito vem nos recordar daquele dia em que a Terra literalmente parou.

Publicado em Trilha sonora do momento | Marcado com , , , | Deixe um comentário

Pensamento do dia

O brasileiro não só não tem memória como antecipa o esquecimento.

Publicado em Pensamentos do dia | Marcado com , , , | Deixe um comentário

O atentado a Bolsonaro, ou Para onde vai o Brasil?

Ontem, por razões de força maior, não pude fazer a atualização semanal deste espaço como vos tinha prometido há alguns meses. Por um desses acasos que só o destino é capaz de proporcionar, a ausência de ontem pode ser compensada com um tema que tornaria inútil e sem sentido qualquer coisa que tivesse escrito ontem: a tentativa de assassinato de Jair Bolsonaro.

Sim, você não leu mal. “Tentativa de assassinato”. Porque quem sai de casa com uma faca de açougueiro, esconde-a por debaixo da jaqueta e apunhala um semelhante até a carne alcançar o cabo não tem outra intenção senão tirar a vida de quem foi esfaqueado. A essa altura, Bolsonaro já foi operado e o risco de morte imediato foi, pelo menos por ora, afastado. Ressalvadas as complicações que sempre podem surgir em intervenções cirúrgicas (lembrai-vos de Tancredo Neves!), ainda mais em circunstâncias tão emergenciais quanto esta, o candidato do PSL deve sair com vida do episódio.

E agora?

Bem, agora ninguém sabe. A coisa toda foi tão maluca que o mercado futuro da Bovespa deu um salto de mil pontos em poucos minutos depois que o crime foi noticiado. Enquanto no mundo inteiro a tentativa de assassinar o líder das pesquisas eleitorais conduziria a uma derrocada dos mercados, aqui, ao contrário, o dólar caiu e a Bolsa subiu. O máximo que se pode fazer no calor do momento, como fizeram os operadores do tal “Mercado”, é especular.

Supondo que Bolsonaro sobreviva ao atentado, a questão é saber que tipo de efeito o incidente terá sobre a trajetória eleitoral do deputado. Embora seja certo que muito da antipatia e da rejeição que ele colhe no eleitorado seriam atenuadas, é fato também que o candidato ficaria impossibilitado de fazer campanha nas ruas pelo menos até o final do 1º turno.

No frigir dos ovos, pode-se intuir que o resultado político do incidente seria um resultado de soma zero, ou seja, Bolsonaro nem ganha nem perde; ficaria exatamente onde está. Talvez, a depender da sagacidade de seus marqueteiros e da burrice dos assessores alheios (uma assessora de Dilma Rousseff chegou a dar os “parabéns” a Bolsonaro por incitar a violência), Bolsonaro até cresça mais um pouco. Seja como for, ficando parado ou subindo um pouco, sua vaga no segundo turno, que já estava ao alcance da mão, agora pode ser considerada como certa.

Se, por outro lado – bate na madeira! -, Bolsonaro vier a falecer, a eleição de 2018, que já disputava o trono de mais imprevisível de todos os tempos, alcançaria facilmente o status de hors concours. Um quarto do eleitorado se veria subitamente privado de seu líder, sem que haja ninguém imediatamente disponível para assumir o seu legado eleitoral.

Uma disputa intestina entre os candidatos da dita “direita liberal” – Alckmin, Amoêdo, Meirelles e Álvaro Dias – seria deflagrada, com resultados ainda incertos. Alckmin seria o beneficiário mais evidente, mas não seria de todo inteligente descartar uma súbita ascenção de Amoêdo e até mesmo de Henrique Meirelles, montados na grana boçal de que dispõem para a campanha.

Engana-se, porém, quem acha que os efeitos eleitorais da tentativa de assassinato de Jair Bolsonaro ficariam limitados à direita. Pouco se sabe sobre o criminoso que tentou matá-lo, mas já circulam evidências de que ele foi filiado ao PSOL e teria ajudado na campanha de Dilma Rousseff em 2014.

Se a associação ficar restrita ao PSOL, o efeito do incidente sobre o eleitorado da esquerda será diminuto. Boulos está na rabeira das pesquisas e por lá continuaria, sem muita mudança de cenário. No entanto, se houver associação do criminoso ao PT, a bomba pode ter efeito devastador. Fernando Haddad, que ainda não assumiu a cabeça da chapa petista, pode ter suas pretensões eleitorais dinamitadas logo de cara. Embora não passe pela cabeça de ninguém associar ele ou qualquer outro dirigente do PT ao crime, o fato é que isso seria explorado ad nauseam na campanha, levando o PT a carregar a marca do “extremismo” como uma bola de ferro amarrada ao tornozelo.

Caso isso venha a acontecer, as cartas dos outros candidatos voltariam todas ao baralho. Ciro Gomes seria o herdeiro óbvio dos votos petistas, mas não se pode descartar uma ascensão meteórica de Marina Silva, à falta de opções mais deglutíveis para o eleitorado esquerdista. Não se poderia se descartar sequer uma das hipóteses mais improváveis de todas: um 2º turno entre extrema-direita (Bolsonaro) e direita (Alckmin), caso o ex-governador paulista consiga transformar o latifúndio radiotelefônico que detém em meia dúzia de votos.

Seja como for, o atentado a Bolsonaro marca o ápice de uma cavalgada de degradação do ambiente político que o Brasil experimenta desde pelo menos 2014. Desde as incompreendidas manifestações de junho de 2013, passando pelo estelionato eleitoral do ano seguinte, as multidões de 2015 e o impeachment de 2016, o Brasil segue numa escalada crescente de ódio e intolerância, na qual o cidadão que pensa politicamente diferente de mim não é alguém a ser convencido, mas um sujeito a ser exterminado.

Seria muito bom que desse triste episódio surgisse pelo menos algo de bom: uma chamada de consciência coletiva entre políticos e eleitores dos mais diversos matizes ao cultivo saudável da tolerância. Entretanto, a julgar pelo histórico recente, só mesmo sendo muito ingênuo pra achar que algo do tipo pode acontecer. Ao contrário. O mais provável é que as coisas continuem a piorar.

“Pra onde vai o Brasil, afinal?”.

E a resposta nunca foi tão atual quanto agora:

“Só Deus sabe”.

Publicado em Política nacional | Marcado com , , , | Deixe um comentário