Os italianos costumam dizer que os americanos são muito sortudos: onde quer que eles vão para exportar “liberdade” acabam encontrando petróleo. Nunca essa piada caiu tão bem quanto agora.
Menos de um ano após bombardear as instalações nucleares iranianas, mais uma vez Donald Trump e seu parceiro de carnificina, Benjamin Netanyahu, voltam a atacar a nação persa. Valendo-se de sua esmagadora superioridade militar, Trump e Bibi chacinaram praticamente toda a cúpula do governo iraniano, inclusive o líder supremo Ali Khamenei, que estava no poder desde 1989, quando seu antecessor Khomeini faleceu de causas naturais.
Do ponto de vista do álibi, o ataque não faz nenhum sentido. Foi o próprio Trump quem disse na época dos bombardeios às instalações iranianas que o programa nuclear persa havia sido “obliterado”. Parece evidente que nenhuma nação do mundo, muito menos uma alvo de pesadas sanções internacionais, conseguiria reconstruir sua infraestrutura atômica em prazo tão curto. Além disso, ainda que o Irã estivesse em busca de uma arma nuclear – coisa que jamais foi provada -, as chances de eles conseguirem miniaturizar esse artefato para colocá-lo em um míssil era próxima de zero.
Não havendo álibi disponível à mão, restou a Trump e a Bibi criar um monte de pretextos que, afinal, tampouco fazem sentido. Dizer que Khamenei e sua trupe comandavam um “regime maligno” pode até ser certo, mas, se o motivo for este, a fila de países a terem seus comandos “decapitados” é imensa e dificilmente o Irã estaria no primeiro lugar, posto esse reservado à Coréia do Norte (que, de fato, possui armas nucleares).
Sem qualquer justificativa razoável para justificar o ataque, resta ao mundo se perguntar: Por que atacar um país que não atacou ninguém? Por que atacar uma nação que estava sentada na mesa de negociações justamente para discutir seu programa nuclear? Por que começar uma guerra quando, segundo o Sultão de Omã, os iranianos estavam muito próximos de chegar a um acordo para limitar o enriquecimento de urânio (supostamente a principal preocupação americana)?
As respostas são várias. A primeira delas, óbvio, diz respeito à própria política interna norte-americana. Trump está em baixa. Com a popularidade no rés-do-chão, o Nero Laranja vê-se às voltas com o envolvimento de seu nome nos agora famosos Epstein Files, os documentos da investigação que levou à prisão de Jeffrey Epstein, o milionário amigo de Trump que supostamente se matou na prisão ao ser preso por construir uma rede de pedofilia gigantesca, com uma clientela farta e variada da elite mundial, que vai de Bill Clinton ao (ex) príncipe Andrew, da Inglaterra.
Além de desviar a atenção acerca do envolvimento de seu nome nos Epstein Files, uma guerra sempre produz uma espécie de catarse coletiva na nação que nubla a visão do público quanto aos defeitos do governante. Com uma política econômica estúpida, que só promoveu até aqui inflação e confusão mundial, Trump precisa desesperadamente de uma tábua na qual se agarrar para tentar recuperar um pouco da popularidade perdida. Atacar um regime odiado internacionalmente como o irã dos aitolás se encaixa perfeitamente nessa equação.
Para além disso, se de fato o Laranjão conseguir produzir no país persa uma mudança de regime, isto é, colocar no lugar dos velhinhos de turbante preto algum aliado seu, ele se assenhorará da terceira maior reserva de petróleo do mundo. Não só isso. Tendo feito “truque” parecido na Venezuela, Trump conseguiria cortar o suprimento de dois dos três maiores fornecedores de petróleo da China, sua arquirrival no xadrez global (o outro é a Rússia).
Se do ponto de vista geopolítico a estratégia até pode fazer sentido, do ponto de vista prático o buraco é mais embaixo. Se na Venezuela os Estados Unidos conseguiram trocar a cabeça sem trocar o regime – a ditadura chavista simplesmente mudou de lado e, agora, há um governo títere dos americanos -, no Irã é simplesmente inimaginável que essa mágica possa ser replicada. Se os militares bolivarianos podem ser comprados com dinheiro e promessa de anistia, mais difícil é imaginar que gente movida por um radicalismo religioso fervoroso, que passou a vida aprendendo que os Estados Unidos são o “Grande Satã”, possa virar a casaca com a naturalidade de quem troca de roupas.
O próprio Trump parece saber disso, ao dizer de antemão que a guerra durará “entre quatro e seis semanas”. Quem diz isso no segundo dia de guerra sabe que a coisa vai mais longe que isso. Na Venezuela, em dois dias estava tudo resolvido. No Irã, a coisa pode se estender por meses e até anos, a depender da disposição dos aiatolás de levarem à frente a sua vingança.
Por ora, sabe-se que eles estão atacando todos os vizinhos ao seu redor. Como os persas odeiam os árabes e vice-versa, as nações do golfo – todas elas apoiadas pelos Estados Unidos – se tornaram o alvo perfeito para uma retaliação. Sem contar com o mesmo aparato de proteção de que dispõe Israel, os árabes já estão começando a ficar ressabiados com o “abandono” dos americanos. Dubai, por exemplo, um dos maiores hubs e centros turísticos do mundo, encontra-se virtualmente isolado do resto do globo por conta dos drones iranianos. Se a coisa continuar desse jeito, é difícil saber até quando irá a paciência dos árabes com os ataques dos israelenses (por quem nunca nutriram grande simpatia) e dos americanos.
Não havendo – por inviabilidade logística e por impeditivos políticos – a hipótese de colocar tropas no Irã, é improvável imaginar que os americanos consigam produzir uma mudança de regime no país persa. O apelo de Trump para que o povo iraniano “se levantasse” contra o governo dos aiatolás parece mais um gesto de desespero de alguém que só pensou nas consequências de seus atos tarde demais do que uma estratégia bem pensada a ser colocada em prática. Não há oposição constituída no Irã. Pior. Os opositores do regime nem sequer conversam entre si, a ponto de se articular para tentar um levante popular.
Restaria, portanto, a remota hipótese de que os integrantes da Guarda Revolucionária dessem um golpe de Estado e instalassem uma ditadura militar no lugar da teocracia dos aiatolás. Ainda que isso viesse a ocorrer, seria ainda mais improvável a chance de que essa ditadura militar se tornasse subitamente pró-Estados Unidos, como aconteceu na Venezuela.
Seja como for, parece claro que Estados Unidos e Israel começaram uma guerra sem terem um objetivo claro e sem sequer disporem de uma estratégia de saída caso as coisas saiam ao contrário do esperado. Explodir coisas é fácil. Difícil é construir uma forma de “ocidentalizar” uma nação inimiga jogando bombas em seu território, sem ter à mão um governo com legitimidade e com uma população claramente refratária aos “valores americanos”. Os Estados Unidos já tentaram essa estratégia com o Iraque. Já tentaram o mesmo com o Afeganistão.
Deu no que deu.





