Cripto sell-off, ou Por que (não) investir em Bitcoin?

A lenda é conhecida. Mais ou menos por volta de 2008, um tal de Satoshi Nakamoto lançou um “sistema de dinheiro eletrônico peer-to-peer”. Assim nascia o agora famoso “Bitcoin”, a primeira e, até o momento, mais famosa criptomoeda existente no mundo. Mas, afinal, o Bitcoin realmente é a “moeda do futuro”? Ou tudo não passa de uma grande bolha especulativa?

Antes de mais nada, para definir se o Bitcoin é ou não a “moeda” do futuro, devemos antes explicar o que se entende por “moeda”. Para que qualquer coisa – papel (dólar, euro, real); metal (ouro, prata, platina); coisa (sal, da onde vem a palavra “salário) – possa ser considerada uma “moeda”, ela deve necessariamente atender a três condições:

1 – Ela deve ser uma “unidade de conta”. Traduzindo para o português das ruas, ela deve ser uma medida através da qual você possa precificar mercadorias. Por exemplo: eu consigo dizer que uma coisa que vale 10 dólares custa menos do que outra que custa 100 dólares. Entretanto, eu sou incapaz de dizer quantas sacas de milho valem uma cerveja. Ou quantos alqueires de terra valem um carro esportivo. Não são coisas reciprocamente mensuráveis. Para que eu possa fazer essa conta, eu preciso antes fazer uma avaliação de cada coisa específica, para só depois chegar a um denominador comum quanto ao preço. A moeda – qualquer que seja ela – corta esse caminho.

2 – Ela deve ser um “meio de troca”. Em outras palavras, isso significa dizer que ela é largamente aceita para fazer transações em geral. Se eu chego numa banca de revistas com 10 reais no bolso, eu consigo trocar esse pedaço de papel por uma revista ou um chiclete. O dono da banca não vai recusar a grana que eu lhe oferecer porque, com ela, ele pode renovar o estoque ou comprar comida pra casa dele. Seria diferente, por exemplo, se eu chegasse com um relógio Rolex numa concessionária por um carro. A menos que o dono da loja seja um aficcionado por relógios de luxo, dificilmente ele aceitaria meu Rolex na troca por um carro qualquer.

3 – Ela deve funcionar como “reserva de valor”. Se eu quiser guardar minhas economias para uso futuro, essa reserva deve ser economicamente estável suficiente para que eu possa utilizá-la no futuro. Por exemplo: eu quero comprar um imóvel de R$ 100 mil. Se eu guardar R$ 10 mil por mês, eu sei que terei o montante suficiente ao fim de dez meses. Mas se esse ativo perde 50% do seu valor de uma hora pra outra, como é que fica o planejamento da compra do meu imóvel?

No caso do Bitcoin, verifica-se que ele não é uma unidade de conta (me diga aí quantos bitcoins você precisa pra comprar um cafézinho ou pagar um jantar em um restaurante), nem é meio de troca (me diga algum estabelecimento comercial que aceite receber o pagamento em criptomoedas). Mal e mal, dizia-se que era reserva de valor – famoso “ouro digital”, do qual falam os bitcoinlovers.

O teste da realidade, no entanto, destrói essa narrativa. Como admitir que seja reserva de valor um ativo que perde mais da metade do seu valor em menos de um mês? Como afirmar que o bitcoin é o “ouro digital”, quando no último mês e meio o ouro físico atingiu o mais alto preço da sua história, enquanto, do outro lado, o bitcoin se desmanchava numa queda superior a 50%? Deve ser o único caso de reserva de valor cujo preço cai em momentos de crise.

Na verdade, moedas não são investimento propriamente dito, muito menos deveriam ser um investimento de alto risco. Elas devem funcionar como porto seguro para você guardar o fruto do seu trabalho. O Bitcoin, portanto, não é uma moeda. É um ativo especulativo digital, altamente volátil e extremamente complexo de operar. Para se ter uma idéia, apenas neste último sell-off, o market cap – isto é, o valor total dos ativos considerado seu preço – cai de US$ 4,3 trilhões para US$ 2 trilhões. Ou seja: em menos de um mês, dois trilhões – TRILHÕES, com T de “tatu” – viraram pó.

Por isso mesmo, apesar do hype feito através de mídias sociais pelos famigerados influencers, não faz qualquer sentido você estruturar uma estratégia pessoal de investimentos fundamentada exclusivamente em bitcoin. Bitcoin não tem valuation, isto é, ninguém consegue precificá-lo em termos reais. Ele não gera fluxo de caixa nem distribui dividendos, como uma ação de uma empresa listada em bolsa. Ao contrário dos ativos “reais”, o preço dele sobe e desce com base exclusivamente na demanda especulativa. Quem compra bitcoin está basicamente apostando que, no futuro, alguém estará mais disposto a pagar mais caro por ele. Só.

“Ah, mas bitcoin protege contra crises”. A realidade, contudo, diz o contrário. Em todas as grandes crises – TODAS – as criptomoedas em geral caíram mais do que as bolsas.

“Ah, mas bitcoin protege contra governos”. Falso. Todas as transações ficam registradas no blockchain. Corretoras reportam dados. Mesmo a auto-custódia deixa rastros. Achar que basta dizer “perdi a senha” para escapar de cobrança estatal é de uma ingenuidade atroz. Se necessário, o governo estima seu patrimônio e executa por outros meios. Sempre existirá um caminho.

Em resumo: bitcoin não é unidade de conta, não é meio de troca e não funciona como reserva de valor. Não serve para te proteger contra crises, muito menos para te “defender” do governo. Quem vai para o YouTube ou para o Instagram vender esse Eldorado das criptos ou é um enganador ou um ignorante. Ao adquirir um bitcoin, você não está comprando o “futuro das finanças”. Está comprando um ingresso só de ida para uma montanha-russa das mais radicais que existe.

Você quer fazer isso?

Go ahead. Be my guest.

Só não vale reclamar depois…

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Trilha sonora do momento

Always.

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Pensamento do dia

Você tem três moedas: conhecimento, tempo e dinheiro. Quando você estiver sem uma delas, use as outras duas para para consegui-la.

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Trilha sonora do momento

E como hoje é aniversário do Zeca Pagodinho, vamos com esse clássico dele.

Porque eu também tô meio nessa vibe.

Só não sei para onde ela vai me levar…

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Pensamento do dia

Você nunca vai chegar no seu destino se parar para jogar pedras em cada cão que late.

By Winston Churchill

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Encrenca Master, ou As origens da crise do Banco Master

Imagine a seguinte cena: um banco cresce de forma espetacular, oferecendo rendimentos generosos, que deixam os concorrentes com inveja. Seus clientes, encantados com os juros altos e com a sensação de segurança, aportam seus recursos. Mas, assim como em qualquer pirâmide financeira, um dia a casa cai. E aí o escândalo aparece. Foi exatamente o que aconteceu no caso do Banco Master.

Para entender como um tamborete – chamar o Master de banco é uma ofensa ao conceito de casa bancária – chegou a ter R$ 80 bilhões em ativos e quebrou de forma tão espetacular, é preciso voltar um pouquinho no tempo.

Com o fim da espiral hiperinflacionária após a implementação do Plano Real, todo o sistema financeiro perdeu um poderoso aliado: a correção monetária. Como gostava de repetir seu criador, Roberto Campos (o avô, não o incompetente do neto), a correção monetária era um instrumento de primeira para economias de quinta. Era justamente essa a definição do Brasil desde os anos 1960 até o meio dos anos 1990.

Com a correção monetária, os ativos do banco, ao invés de serem depreciados pela inflação galopante, eram corrigidos no balanço pelo mesmo percentual da inflação. Logo, ninguém tinha de se preocupar com o tamanho dos seus ativos independentemente do percentual que a inflação alcançasse em um mês ou em um ano.

Se, no mundo das economias desenvolvidas, um banco vê, por exemplo, seus ativos imobiliários perderem metade do valor porque a inflação daquele ano foi de 50%, ou o banco recebe dinheiro dos seus acionistas (a famosa “chamada de capital”), ou ele simplesmente quebra. Nesse mesmo cenário, com a mágica da correção monetária, um ativo de R$ 100,00 passa a valer R$ 150,00, ficando elas por elas. Foi através dessa mandrakaria que o Brasil pôde conviver durante anos com uma inflação que, no acumulado, chegou a um quatrilhão por cento, sem que houvesse guerra civil ou uma revolução.

Para além do artifício contábil da correção monetária, a hiperinflação também tornava mais difícil auditar o balanço dos bancos. No meio de tantos zeros da moeda, era mais fácil para banqueiros e contadores inescrupulosos maquiarem as contas de suas casas quebradas. Com o fim da inflação, a maquiagem ficou mais difícil. Foi assim que foi à breca, por exemplo, o Banco Nacional, cujo boné ficou amplamente conhecido na cabeça de seu garoto-propaganda mais famoso: Ayrton Senna.

Implantado em 1994, era apenas questão de tempo até que os primeiros corpos começassem a boiar. Como se diz na gíria do mercado, somente quando o mar (ou a liquidez) seca é que você consegue ver quem estava nadando pelado. Não é que o fim da hiperinflação tenha quebrado os bancos. Ela apenas expôs na vitrine as nádegas de quem vinha fraudando seus balancetes.

Em pânico para evitar uma corrida bancária, o governo Fernando Henrique resolveu transferir a conta da brincadeira para a viúva. Conhecido como Proer (Programa de Estímulo à Reestruturação do Sistema Financeiro), o programa era um mamão com açúcar. Feito de pai pra filho, o programa dividia o banco quebrado em duas partes: parte “boa” (que dava lucro) e outra “ruim” (as dívidas). A parte “boa” era entregue de graça para quem quisesse tocar o negócio pra frente. A parte “ruim” ficava para o governo, que arcava com o prejuízo. Nessa brincadeira, mais de R$ 20 bilhões do contribuinte foram enterrados para salvar estelionatários disfarçados de banqueiros. Pior. Nenhum desses escroques foi sequer processado pelas fraudes que cometeram.

Como o custo político dessa falta de vergonha foi muito alto, o governo e os próprios bancos pensaram numa forma de tirar a viúva da jogada caso outras quebras acontecessem. Foi aí que surgiu o Fundo Garantidor de Crédito (FGC). O dinheiro do fundo viria de contribuições compulsórias cobradas às próprias instituições financeiras. Dessa forma, o risco ficava socializado entre a banca, embora todo mundo saiba que essa grana vinha do dinheiro tomado em forma de tarifas aos seus correntistas. Agora, se um banco quebrasse, o FGC honraria até R$ 250 mil de dinheiro aplicado pelos correntistas.

Foi aqui que surgiu o paradoxo do Banco Master. Sabendo que o FGC funcionaria como guarda-chuva em caso de tempestade, o tamborete de Daniel Vorcaro transformou o que era pra ser uma espécie de seguro em propaganda. “Invista no Master, CDB garantido pelo FGC”, era o mote da campanha. Mesmo gente ressabiada tomava coragem para emprestar dinheiro que rendia a 150% do CDI (50% mais do que as taxas mais altas do mercado) quando sabia que havia risco zero de perder grana nesse negócio. De certa forma, o guarda-chuva do FGC foi quem financiou a viagem do Master e de seus correntistas até a tempestade. No final das contas, o que o cliente contratava era um “produto do FGC” patrocinado pela marca Master.

Com a grana que arrecadou no meio dessa esbórnia, Daniel Vorcaro comprou não apenas jatinhos, automóveis luxuosos e mansões de revista. Comprou também muito apoio político. Não por acaso, a teia de gente associada ao Master é ecumênica: há gente da esquerda, passando pelo centro, pela direita até chegar na extrema-direita. O notório senador Ciro Nogueira, por exemplo, ex-todo-poderoso chefe da Casa Civil de Jair Bolsonaro, patrocinou um projeto de lei para aumentar o limite deo FGC de R$ 250 mil para R$ 1 milhão. A justificativa? “Proteger o pequeno investidor”. Claro. Porque nada protege mais o pequeno investidor do que garantir os milhões aplicados pelos muito, muito grandes investidores. Era a tentativa de, no rescaldo do furacão, vender um guarda-chuva ainda maior – e mais caro para o sistema – justamente para quem tinha navegado nas águas turbulentas que o próprio guarda-chuva ajudou a criar. A proposta, felizmente, naufragou no ridículo, mas serviu como perfeito epílogo para essa farsa.

Ao fim e ao cabo, o que Daniel Vorcaro fez foi transformar uma idéia que nasceu de um erro numa desgraça ainda maior. Ostentando o selo de garantia do FGC, investidores em geral passaram a negligenciar os riscos dos seus investimentos, com a prudência anestesiada pelo risco zero de perda. O que era pra ser uma garantia a ser invocada em último caso passou a ser uma ferramenta de marketing.

No final das contas, a ousadia da pilantragem torna-se regiamente remunerada, mas a conta da aventura, como de hábito, é entregue para outra pessoa pagar. O FGC, formado pelo dinheiro de todos nós poupadores, ficou com o espeto da alavancagem irresponsável do Banco Master. Vorcaro, com sua extensa rede de contatos, curtiu uma semana de cana, mas já foi liberado. Como se costumava dizer durante a crise do Proer nos anos 90, o segundo melhor negócio do mundo é fundar um banco.

“E o primeiro?”

Afundá-lo.

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Trilha sonora do momento

Como ainda estamos no Blog numa vibe pernambucana, vamos a um dos melhores duetos dos últimos anos, com o talentoso Tiago Iorc numa parceria tão improvável quanto brilhante com minha conterrânea Duda Beat.

Enjoy.

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Pensamento do dia

É impressionante a quantidade de gente insegura sobre a própria aparência, mas não com o seu caráter.

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Trilha sonora do momento

E já que hoje é Dia de Iemanjá…

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Pensamento do dia

Por que você tem tanto medo de perder alguma coisa, se nada neste mundo realmente te pertence?

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