É aquela história: não surpreende, mas abala.
Protagonista do escândalo de 2005, Valdemar da Costa Neto foi um dos que curtiu uma cana dura depois que o STF condenou toda a malta de mensaleiros envolvidos no esquema desenvolvido no primeiro governo Lula. Recebido com honras na Papuda, Valdemar compartilhou cela – veja você – justamente com Zé Dirceu, o grande artífice do Mensalão.
Indultado em 2016, Valdemar deve ter pensado que não fazia muito sentido tentar a sorte de volta nas urnas. Afinal, ele continuava a ser dono do PL, um dos maiores partidos da república. Seu nome não estava na urna em 2018. Tampouco esteve na de 2022, quando cedeu legenda a Jair Bolsonaro na sua frustrada tentativa de reeleição. O que ninguém sabia é que, para além de dono do cartório partidário, Valdemar aparentemente atuava nas sombras também como deputado federal.
De acordo com a Polícia Federal, o presidente do PL – indivíduo sem mandato, assim como eu e você – teria distribuído pelo menos 21 emendas parlamentares. Ninguém nunca viu Valdemar discutindo destino de dinheiro na Comissão de Orçamento. Mesmo assim, seu nome aparece numa pergunta insólita trocada entre servidores da Câmara dos Deputados:
“Fechou o valor do Valdemar?”
Ao lado de Valdemar, consta outro ex-figurão da República, o notório Eduardo Cunha. Da mesma forma que Valdemar, o ex-presidente da Câmara manobrava nas sombras o destino de várias emendas parlamentares. A despeito da oposição da PGR, o ministro Flávio Dino determinou o bloqueio de R$ 119 milhões em bens do manda-chuva do PL, e mais R$ 6 milhões de Eduardo Cunha.
Até aqui, pode parecer que esse é mais um daqueles escândalos típicos de Brasília. Na atmosfera seca do Planalto Central, a corrupção sempre encontrou solo fértil para vicejar. O que faria este escândalo ser diferente dos outros?
É fato que os escândalos de desvio de dinheiro público são tão parte da paisagem brasiliense como os flamingos do Alvorada. E o sujeito mais cínico pode estar se perguntando: que diferença faz se o dinheiro está sendo desviado para obras por um parlamentar eleito ou Valdemar da Costa Neto e Eduardo Cunha?
Pode-se argumentar, com alguma ponta de razão, que o problema maior nesse caso não reside no fato de que um ex-condenado por corrupção pela Justiça está usurpando uma prerrogativa que não lhe pertence. O problema maior está em um sistema através do qual os governos – todos os governos – transformaram um instrumento legítimo do mandato parlamentar (as emendas) numa forma de cumplicidade espúria. Como uma moeda de livre circulação, ela é emitida por quem tem mandato, gasta por quem tem acesso, mas fiscalizada por ninguém.
O buraco, contudo, é muito mais embaixo.
Apenas no orçamento de 2026, reservaram-se mais de R$ 60 bilhões para o pagamento de emendas parlamentares. Em 2025, os parlamentares controlaram quase 1/3 do orçamento de investimentos do país. Mas, ao contrário do Presidente, do Governador ou do Prefeito, nenhum deles precisou explicar em público a razão pela qual escolheu essa ou aquela obra. Enquanto os membros do Executivo são cobrados todo dia por empresários, pela mídia e pela população, os parlamentares que se assenhoraram do orçamento transitam lépidos e fagueiros, sem que ninguém lhes importune pelo destino dos dinheiros da Nação.
Construiu-se, assim, pelo menos para os parlamentares, o melhor de dois mundos: o máximo de dinheiro com o mínimo de responsabilidade. É um jogo de ganha-ganha. Para além dos tradicionais desvios das obras públicas, os nobres deputados e senadores eleitos ganham ao dizer que “patrocinaram” uma obra paroquial numa cidade qualquer, mas não precisam responder pelo preço da cesta básica ou pelo aumento do desemprego.
Para piorar, o negócio já atingiu tal nível de deturpação que ninguém mais sabe se um dia será possível voltar atrás nisso. Com o Congresso liberado da tarefa de passar o pires nos ministérios, quem precisa apoiar o Executivo? Basta cruzar os braços e reclamar, como o pipoqueiro da esquina. Afinal, se as coisas forem mal, a culpa recairá em quem sempre recai nessa horas: no Governo.
A decisão de Flávio Dino veio em boa hora e certamente representa um sopro de esperança. Mas será ilusão pensar que ela, sozinha, resolverá alguma coisa. Valdemar da Costa Neto e Eduardo Cunha são apenas as duas pontas mais evidentes de um imenso iceberg que flutua abaixo do radar da opinião pública. São mais de R$ 60 bilhões de reais distribuídos entre 594 gabinetes (513 deputados e 81 senadores). A diferença entre eles e Valdemar é que eles foram eleitos.
Mas quem precisa de mandato para distribuir emendas, não é mesmo?