Recordar é viver: “As tarifas de Donald Trump contra o Brasil, ou O falso patriotismo bolsonarista”

Não que seja surpresa, mas…

É o que você vai entender, lendo.

As tarifas de Donald Trump contra o Brasil, ou O falso patriotismo bolsonarista

Publicado originalmente em 13.3.25

No Brasil das correntes de Zap, das bandeiras hasteadas em carros de luxo e dos discursos inflamados sobre “amor à pátria”, existe uma regra não escrita: quanto mais alguém grita “Brasil acima de tudo”, mais provável é que esteja prestes a vender o país por um punhado de likes. Tal é a sensação de quem observa o comportamento dos bolsonaristas após a imposição de tarifas de importação a produtos brasileiros por Donald Trump.

Para quem não sabe, o Nero dos nossos tempos resolveu aplicar uma tarifa de 25% sobre alumínio, chapas de aço e produtos metalúrgicos em geral exportados pelo Brasil aos Estados Unidos. Mesmo que a corrente de comércio entre os dois países seja largamente superavitária para os ianques, ainda assim o Brasil entrou de roldão no bolo das tarifas retaliatórias do Laranjão. Com dinheiro e, mais importante, empregos brasileiros em jogo, os “patriotas” da Bozolândia saíram em defesa de….Donald Trump.

Até aí, nada de novo. Jair Bolsonaro e sua trupe transformaram o “patriotismo” em um triste espetáculo de hipocrisia. E isso não é de agora. Quando assumiu como presidente, o primeiro lugar para o qual o ex-presidente se abalou foi justamente os Estados Unidos. Tal qual um fanboy diante de um ídolo de reality show – o que, ironicamente, não estava muito distante da realidade –, Bolsonaro sorriu e tirou fotos ao lado do seu “amigo”.

E qual foi a retribuição de Trump a esse espetáculo grotesco de tietagem explícita? Impor tarifas sobre a importação do alumínio brasileiro. O que faria um verdadeiro patriota diante de um escárnio desses? No mínimo reclamar, né? Bolsonaro, ao revés, preferiu manter-se em obsequioso silêncio, com receio de contrariar seu ídolo. O mesmo homem que acusa esquerdistas de “entreguismo” não titubeou em entregar nosso alumínio — e nossa dignidade — a um governo que enxergava o Brasil como mero fornecedor de commodities baratas.

Não espanta, portanto, que agora, quando o Laranjão volta a impor tarifas de importação contra produtos brasileiros, Bolsonaro venha a público defendê-lo. Ao ser questionado sobre seu “patriotismo” depois de mais esse ataque de Donald Trump ao país que supostamente ele defende, Bolsonaro – com todo seu “conhecimento” de economia – tuitou que os Estados Unidos estavam “taxando empresas estrangeiras, não o próprio país”.

Se o pai continua um mestre na arte da subserviência, o filho Bananinha, Eduardo Bolsonaro, elevou o nível da bajulação à décima quinta potência. Enquanto o Brasil tenta reconstruir sua imagem após os anos de negacionismo e ataques à democracia, o deputado federal decidiu fazer uma turnê pelos EUA para difamar as próprias instituições brasileiras. Sim, você leu certo: um representante eleito do Brasil viajou ao exterior – com despesas pagas pelo Congresso – para atacar o Supremo Tribunal Federal (STF), o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e qualquer órgão que tenha se insurgido contra os desmandos do desgoverno bolsonarista.

Em eventos ao lado de figuras da extrema direita americana — incluindo adeptos de teorias conspiratórias e negacionistas —, Eduardo transformou-se em um lobista da desordem. Seu discurso? Um mix de vitimismo, fake news e ataques à Justiça brasileira, apresentada como “ditatorial” simplesmente porque não se curvou aos interesses da família Bolsonaro. É como assistir a um filme de terror onde o vilão é o próprio protagonista, que sabotou a casa onde mora e depois culpa os bombeiros pelo incêndio.

O mais grotesco é que essa campanha de difamação ocorre em solo estrangeiro, alimentada por dinheiro público e apoio de grupos que desprezam a soberania nacional. Enquanto Eduardo acusa o STF de “ativismo”, ele mesmo pratica o ativismo mais sujo: o de quem mina a credibilidade do país lá fora para alimentar teorias fantasiosas sobre uma suposta perseguição. Supondo que houvesse de fato uma perseguição injusta aqui dentro, um patriota de verdade lutaria por reformas dentro das regras do jogo, não participando de conferências de teóricos da conspiração contra o “globalismo” e o “marxismo cultural”.

É nesse contexto que se conclui que o núcleo duro do bolsonarismo ama símbolos nacionais, desde que sejam vazios de significado. Bandeiras do Brasil são usadas como cortinas para esconder a falta de políticas públicas; hinos são entoados para calar críticos; verde e amarelo viram cores de um clubismo que exclui quem ousa pensar diferente. Mas quando a questão é defender interesses reais do povo brasileiro, a retórica patriótica se transmuta em claque para o Nero Laranja dançar.

No fundo, Bolsonaro e sua trupe transformaram o Brasil num reality show de hipocrisia, onde o enredo é sempre o mesmo: gritar “ame-o ou deixe-o” enquanto sabotam o que há de mais valioso no país. Resta aos verdadeiros patriotas — aqueles que trabalham, protestam e acreditam na democracia — limpar a sujeira deixada por quem confunde nação com ego e proselitismo político.

No século XVIII, o escritor inglês Samuel Johnson escreveu que o “patriotismo é o último refúgio do canalha”. Não contava ele, contudo, que o adágio seria complementado aqui no Brasil pelo genial Millôr Fernandes, que acrescentou:

“Mas no Brasil é o primeiro”.

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Trilha sonora do momento

É isso.

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Pensamento do dia

É preciso ter mais cuidado com o covarde do que com o valente, porque o valente te enfrenta, mas o covarde de trai.

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Trilha sonora do momento

Não há.

#ProntoFalei

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Pensamento do dia

Eu adoro trocar idéias com quem fala bobagem com a mesma intensidade com a qual fala coisas sérias.

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TariFlávio, ou O falso patriotismo bolsonarista – Parte II

Da onde menos se espera, daí é que não vem mesmo, ensinava o Barão de Itararé. Tal é a sensação de quem acompanhou o desenrolar do noticiário político e internacional nesta última semana.

Após a divulgação do áudio pedindo R$ 134 milhões a Daniel Vorcaro, Flávio Bolsonaro – o filho 01 do patriarca Jair – foi levado às cordas. Não por corrupção, porque quem tem no passado um rolo do tamanho de Fabrício Queiroz e suas rachadinhas não representa exatamente um modelo de ética. A questão foi o envolvimento direto com o “Inimigo Público nº. 1” da vez, o famigerado trambiqueiro do Banco Master.

Depois da queda nas pesquisas e com o barco da sua candidatura fazendo água por todos os lados, Flávio Bolsonaro teve a brilhante idéia de ir buscar uma bóia com o “Grande Irmão do Norte”. Sim, ele mesmo, Donald Trump. A busca quase juvenil por uma foto com o Nero Laranja dá a exata medida do desespero do 01 com o caso Vorcaro. Trump não é exatamente a figura mais querida por estas bandas. E, da última vez que se socorreram dos “préstimos” do Laranjão, o resultado havia sido um tarifaço que devolveu boa parte da popularidade perdida por Lula.

À concepção estúpida somou-se a execução canhestra. Se a idéia era fazer com que a foto com Trump projetasse algum nível de “apoio” do Laranjão, para funcionar como balão de oxigênio de alguém cuja campanha respira por aparelhos, o saldo final foi um verdadeiro tiro n’água.

Segundo a jornalista Raquel Krähenbühl, da TV Globo, Flávio e Eduardo entraram no Salão Oval, deixaram documentos com assessores, tiraram foto e saíram. Tempo total da reunião: 10 minutos. Não é suficiente sequer para esquentar o café, quanto mais para discutir questões de Estado. Como humilhação pouca é bobagem, o Laranjão ainda teria gastado parte desses 10 minutos como elogios a Lula, qualificado por ele como uma personagem “muito dinâmica”.

De concreto, a comitiva bolsonarista teria saído de lá com o compromisso de qualificação do Comando Vermelho e do PCC como organizações terroristas (como se isso fosse resolver o problema da segurança pública por aqui). Obviamente, a nova “qualificação” de CV e do PCC teve zero de influência dos Bolsonaro. Afinal, se eles tivessem de fato alguma capacidade de influenciar as decisões do Nero dos nossos tempos, eles teriam evitado a pancada que o Laranjão deu hoje: 25% sobre os produtos exportados pelo Brasil aos Estados Unidos.

Oficialmente, a nova tarifa é resultado de uma investigação comercial sobre o Brasil. A alegação é de que as políticas adotadas pelo país seriam “irrazoáveis” e estariam restringindo ou onerando empresas americanas. Entre os alvos preferidos dessa cruzada tarifária está, veja você, o nosso querido PIX. Como desgraça pouca é bobagem, poucas horas após ter anunciado o tarifaço, Trump divulgou no Twitter uma foto com Flávio Bolsonaro, associando-o de forma incontornável ao medido. Aí as redes sociais se encarregaram do resto. Nasceu, pois, o “TariFlávio”.

Fato é: o PIX irrita profundamente muita gente do dinheiro grosso nos Estados Unidos. Visa e Mastercard, por exemplo, estimam perdas de mais de R$ 12 bi em seus cartões pela simples mudança do uso das suas tarjetas de plástico pelo nosso sistema tupiniquim. A acusação nesse caso é de “concorrência desleal”.

Para o comerciante, entretanto, a diferença é gritante: enquanto o PIX custa em média 0,22% a 0,33% ao lojista, os cartões cobram taxas médias superiores a 2%. Ou seja: o PIX é melhor, mais barato e mais inclusivo do que o produto das gigantes americanas. O Brasil, portanto, criou algo que funciona de maneira mais eficiente e mais econômica. Logo, na lógica do Nero Laranja, isso é um ultraje que tem de ser “punido”.

Enquanto as empresas brasileiras sofrem com as gracinhas de Donald Trump contra o país, a patota bolsonarista continua arrotando um suposto patriotismo de fancaria, do qual, curiosamente, os mais prejudicados são justamente aqueles que constituem a base eleitoral dessa gente (empresários e mercado financeiro). Agora, essa mesma galera corre atrás do governo Lula para impedir que se consume a desgraça plantada por quem eles apoiavam.

No fundo, esse o episódio sintetiza com precisão a relação da família Bolsonaro com o Brasil: o pai preso por tentar um golpe de Estado; o filho mais velho indo passear em Washington só para tirar foto com seu ídolo como forma de distração de um escândalo de corrupção; e, como brinde, o país sai da loja de souvenirs com uma bela de 25% de lembrança da excursão.

Dada a qualidade desse circo, talvez valha a pena lembrar um ex-presidente mexicano. No começo do século passado, Porfírio Díaz eternizou a trágica sina de sua nação com a célebre queixa: “Pobre México: tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos”. Se estivesse vivo para assistir à devoção vassalar da extrema-direita brasileira ao Nero dos nossos tempos, ele certamente atualizaria o seu aforismo para a realidade do seu grande irmão do sul:

“Pobre Brasil: tão cheio de patriotas e com tanta pressa de voltar a ser colônia.”

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Trilha sonora do momento

He’s back.


🤷

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Pensamento do dia

É um perigo medir o mundo com o próprio umbigo.

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Trilha sonora do momento

Mantendo a tradição.

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Pensamento do dia

Algumas saudades deixam vazios que nunca mais serão preenchidos.

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