A convenção do PL, ou Os maus modos de Javier Milei

Não faz nem 10 dias.

Depois de um jogo xoxo, em que a Argentina renunciou ao futebol e saiu de campo dando seu primeiro chute a gol apenas nos acréscimos do segundo tempo da prorrogação, a Espanha sagrou-se campeã mundial de futebol. O 1×0 foi generoso até demais com o time portenho, considerando a desproporção de volume de jogo durante a partida. E, embora Lionel Messi seja reverenciado por toda a gente como gênio da bola que é, foi difícil encontrar no Brasil quem tenha chorado pela derrota da alviceleste. Flávio Bolsonaro, porém, parece ter se esquecido de tudo isso.

Para fazer o lançamento de sua candidatura a presidente pelo PL, o filho 01 de Jair convidou – veja você – o presidente da Argentina, Javier Milei, para com ele dançar e cantar no palco. Abatido pela maré contrária d escândalo do Dark Horse, das notas fiscais do Banco Master, das tarifas de Donald Trump e do vídeo-bomba de Michelle, Flávio Bolsonaro parece ter pensado que era uma boa idéia ir buscar ajuda do outro lado do Rio da Prata. Definitivamente, não foi a escolha mais inspirada em termos de marketing político.

Fazendo as vezes de popstar, Milei cantou, dançou e sacudiu uma camisa da Argentina diante de um público inteiramente composto por brasileiros. Não se sabe a opinião de quem de fato estava presente, mas a repercussão da “apresentação” de Milei junto à população não foi das melhores. Afinal, a maioria dos brasileiro detesta argentino até prova em contrário.

Como se isso não bastasse, agindo como bufão populista de extrema-direita que é, Milei achou pouco sua “performance” no palco e desandou a xingar os adversários de seu anfitrião. A Lula, chamou de “presidiário”. A Alexandre de Moraes, de “lixo careca”. Para além de não ter observado a norma milenar segundo a qual não se deve falar de corda em casa de enforcado (o pai de Flávio está preso), Milei jogou literalmente na lata do lixo as regras mais básicas de educação que a diplomacia pode ensinar.

Se numa situação, digamos, “normal”, já seria completamente impensável e absurdo imaginar um presidente de um país amigo xingar o presidente de outro país e um ministro da Suprema Corte estando em solo estrangeiro, o caso específico de Milei e do Brasil deixa a coisa ainda mais surreal. O Brasil não é um país importante para a Argentina somente porque com ela faz fronteira. É o seu maior parceiro comercial. Não se trata de uma parceria estratégica abstrata. São dados concretos. Sem o Brasil, a Argentina quebra. Simples assim.

Pra piorar, o timing do episódio rocambolesco tampouco foi dos melhores. Milei veio xingar de “ladrão” o presidente de um país vizinho no momento em que seu próprio governo atravessa o pior período desde que assumiu a Casa Rosada. A inflação, que havia sido reduzida de dois dígitos para cerca de 2% ao mês em 2025, voltou a acelerar e fechou março de 2026 em 3,4%. A atividade econômica registrou retração de 2,6% em fevereiro. A produção industrial acumula queda de 8,7% nos últimos doze meses. A dívida em dólares cresce porque o governo precisa contrair novos empréstimos para segurar o valor do peso, que já perdeu módicos 99% do valor de face desde que o dono daquelas costeletas de gosto duvidoso assumiu por lá. Para onde quer que se olhe, o cenário é de horror.

Como desgraça pouca é bobagem, os escândalos de corrupção que Milei prometeu exterminar apareceram dentro da sua própria casa. Seu chefe de gabinete, Manuel Adorni, está sendo investigado por enriquecimento ilícito. Fora isso, a irmã de Milei, Karina, eminência parda do governo, também é acusada de corrupção. É nesse contexto que o presidente argentino sentiu-se à vontade para vir ao Brasil xingar Lula de “ladrão” e Xandão de “lixo careca”.

Se a idéia de Flávio era utilizar o presidente argentino como uma espécie de “padrinho internacional” da campanha, o tiro pode ter saído pela culatra. Não bastasse a antipatia natural dos brasileiros por nuestros hermanos, o candidato a padrinho tem dois terços do eleitorado contra ele, um chefe de gabinete e uma irmã às voltas com a Justiça e conduz uma economia em débâcle. Talvez o filho 01 de Jair tenha mais sorte com outro padrinho internacional que convidou por vídeo para sua festa: Benjamin Netanyahu, réu por corrupção em seu país e com mandado de prisão em aberto pela Corte Internacional de Haia por crimes contra a humanidade.

Seja como for, o fato é que há uma regra básica não só de diplomacia como de sobrevivência segundo a qual você não deve xingar um país amigo do qual depende financeira e comercialmente. E outra regra, relacionada à política eleitoral, de acordo com a qual você não convida para dançar no seu palco um presidente estrangeiro impopular em seu próprio país, ainda mais quando ele se dispõe a agitar com as mãos a bandeira do seu maior rival futebolístico. Flávio e Milei violaram as duas.

Para usar uma linguagem mais polida, esse tipo de atitude permite a conclusão de que ambos são péssimos estrategistas. Na língua das ruas, porém, o nome que se dá a esse tipo de atitude atende por outra designação.

Infelizmente, contudo, ela não consta no vocabulário diplomático.

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Trilha sonora do momento

Tem gente que, além de sem noção, é mal educada, mesmo.

Fazer o quê?

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Pensamento do dia

Quem vive com lucidez não precisa ficar se justificando o tempo todo.

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Trilha sonora do momento

Ainda nessa vibe.

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Pensamento do dia

Quem não se levanta para acender a luz não pode reclamar do escuro.

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Recordar é viver: “A batalha da anistia, ou A farsa do bolsonarismo moderado”

Às vezes tenho a sensação de estar me repetindo.

Mas, de vez em quando, a sensação se transforma em fato.

É o que você vai entender, lendo.

A batalha da anistia, ou A farsa do bolsonarismo moderado

Publicado originalmente em 2.9.25

Era só o que me faltava.

O Brasil enfim levando a julgamento facínoras que tentaram demolir o edifício democrático em nome de uma ideologia miserável como de Jair Bolsonaro e tudo que se fala nos bastidores do Congresso é uma pauta que nenhum brasileiro decente quer ouvir: “anistia”. Capitaneada agora pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, essa nova frente de batalha escancara para quem quiser ver a farsa do “bolsonarismo moderado”.

Pra começo de conversa, qualquer conversa sobre anistia aos golpistas antes de findo o julgamento será algo inútil. Conforme já foi explicado aqui, qualquer discussão sobre perdão a criminosos – e nenhum crime pode ser mais grave numa democracia do que golpe de Estado – só pode acontecer depois do trânsito em julgado da condenação. Isto é: enquanto o julgamento não acabar de vez e ainda for possível interpor recursos, por mais protelatórios que sejam, qualquer decisão nesse sentido será, na melhor das hipóteses, ineficaz (além, é claro, de inconstitucional).

Para além disso, a discussão sobre anistia revela uma falsa pauta do Congresso Nacional. Fora a trupe golpista de Jair Bolsonaro, ninguém quer saber de impunidade. São várias as pesquisas que revelam que a maioria da população se opõe firmemente a qualquer tentativa de passar a mão em quem pretendeu roubar seu voto (porque, no fundo, é a isso que se resume um golpe de Estado). Os percentuais variam de 55% a 65%. Em nenhuma pesquisa séria os que defendem a impunidade dos golpistas alcançam sequer 40% do total.

No final das contas, essa ressurreição assombrada de uma discussão que já deveria estar morta e enterrada é reflexo direto da briga pelo espólio da extrema-direita. Com o barata-voa deflagrado pelas sanções de Donald Trump contra o Brasil, o país pôde assistir de camarote à briga entre Dudu Bananinha e Tarcísio de Freitas pelos votos que ora pertencem a Bolsonaro. Em meio aos diversos impropérios que lançou via Zap contra o próprio pai, Eduardo Bolsonaro deixou uma mensagem muito clara: “Não confie em Tarcísio de Freitas, porque ele nunca fez nada pra te anistiar”.

Mensagem lida, recado captado. Vendo a oportunidade de cavalgar uma candidatura presidencial antes de encerrar sequer um mandato como governador, Tarcísio de Freitas foi a campo em busca dos votos que faltavam para votar a anistia aos golpistas na Câmara dos Deputados. Não só isso. Em diversas entrevistas, Tarcísio fez questão de ressaltar que daria indulto a Bolsonaro “na hora”, porque “não confia na Justiça”.

Com tais atitudes, o atual inquilino do Palácio dos Bandeirantes rasga de vez a fantasia do “bolsonarismo moderado”. Essa tese defendia a noção de que Tarcísio poderia representar uma versão light de Jair Bolsonaro. Um “conservador” que sabe sentar à mesa e usar os talheres, isto é, alguém que defenderia os interesses de “o mercado” e das franjas mais radicais de um cristianismo fanatizado, mas sem colocar o país numa crise institucional por semana.

Embora boa parte da mídia e dos “analistas” tenha embarcado alegremente nesse barco, essa “tese” nunca foi comprada neste espaço (conferir aqui). O “bolsonarismo” não pode ser moderado porque depende, necessariamente, de um estado de tensão constante para manter-se vivo. O que Tarcísio de Freitas está fazendo, para quem consegue enxergar dois palmos à frente do nariz, é anunciar em público que ele topa o arranjo de ser radical, desde que, para isso, receba as bençãos de Jair Bolsonaro como sucessor. Para mostrar que fala sério, já contrata desde agora uma crise constitucional entre Congresso e Supremo sobre a possibilidade de anistiar crimes contra a democracia.

Além de eleitoralmente estúpido (quanto mais próximo alguém estiver de Bolsonaro, mais longe estará do Planalto), o arranjo é precário dentro da própria lógica interna da extrema-direita brasileira. Para a família Bolsonaro, o patrimônio eleitoral de Jair só é transmissível via sucessão hereditária. Em outras palavras, se alguém tiver que herdar os votos do ex-capitão do Exército, esse alguém terá que ser, necessariamente, alguém da família. Terceiros não são admitidos nesse clube.

Não se deve esquecer que ser “líder da oposição” também é um lugar de poder. Hoje, cortesia da pusilanimidade e da burrice da direita brasileira, esse lugar está ocupado por Bolsonaro. Se amanhã Tarcísio de Freitas se elege presidente, o posto de “anti-Lula” ou de “anti-PT” passará obrigatoriamente a ser ocupado por ele. Não foi por outra razão que, numa de suas muitas entrevistas desde as sanções do Laranjão, Dudu Bananinha deixou escapar que talvez fosse melhor perder a próxima eleição presidencial com um Bolsonaro do que “ganhá-la” com Tarcísio.

Seja como for, resta aos verdadeiros democratas enfrentar novamente mais essa ameaça à democracia e garantir que, depois de condenados, os golpistas passem uma boa e longa temporada na cadeia. Como já se disse aqui mais de uma vez, não estamos mais em 1964, muito menos em 1979.

Anistia?

Nunca mais.

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Trilha sonora do momento

É isso.

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Pensamento do dia

Nunca troque autenticidade por aprovação. Deixe as pessoas não gostarem de você.

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A radicalização de Flávio Bolsonaro, ou A farsa do “Bolsonaro moderado”

Era algo que estava mais ou menos escrito.

Desde quando começou a campanha, Flávio Bolsonaro quis vender a imagem de moderação. A começar pela distância tomada na questão da vacina contra a Covid – “Ele não tomou. Eu tomei duas doses” – o filho 01 de Jair procurava construir uma persona pública que, a um só tempo, mimetizasse a figura do pai (por razões eleitorais) e dela se afastasse (pelos mesmos motivos).

Essa mágica seria inédita, algo como tirar a cartola de dentro do coelho, justamente em um momento em que a população está p da vida por ter acreditado em ilusionismos. Por conta disso, tinha tudo para dar errado. E de fato deu.

Do ponto de vista da embalagem, o raciocínio até que fazia sentido. Afinal, Flávio é mais jovem que o pai, parece ser menos impulsivo e construiu sua carreira política nas franjas do Centrão. O filho 01 buscaria o eleitor desgarrado da direita, aquele que não aguentava mais ver as lives de Jair defendendo armas, ameaçando o STF e entupindo o governo de generais na tentativa de intimidar os outros poderes com “as minhas Forças Armadas”. Em outras palavras, Flávio queria ser o Bolsonaro que o pessoal da campanha imagina dele que parte do eleitorado queria que o pai tivesse sido. Daí Flávio ter reduzido os ataques a Alexandre de Moraes, negociado com partidos de centro e ter até criado uma IA para seduzir o eleitorado feminino.

O problema com esse raciocínio é que ele ignora o único princípio verdadeiramente estrutural desse movimento. É dizer: o bolsonarismo não existe sem tensão institucional permanente. Não se trata de um adorno lateral. É a pedra de toque do ecossistema que o mantém vivo. Para manter-se relevante, o bolsonarismo precisa de um inimigo declarado, da sensação de cerco, da sombra do “comunismo” ou coisa que o valha, porque é essa adrenalina que mantém a sua base mobilizada. Um Bolsonaro que não briga com o STF, que não questiona as urnas, que não declara guerra a alguém antes do café da manhã, não passa de uma imitação barata do original. De certo modo, o eleitor bolsonarista-raiz estava órfão de representante nesta eleição.

Agora não está mais.

Depois de ser alvejado sucessivamente pelo caso Dark Horse, pelo vídeo de Michelle Bolsonaro, pelas tarifas de Donald Trump e, agora, pelas notas fiscais mal explicadas do Banco Master, Flávio Bolsonaro parece ter preferido jogar fora a versão pirata do sistema e rodar o programa original. Se cada um desses episódios isoladamente poderia ser administrável, o seu conjunto praticamente obrigou o filho 01 de Jair a buscar socorro no eleitorado cativo do bolsonarismo: aquele eleitor hidrófobo, que acredita em fantasmas vestidos de vermelho e de vez em quando reza pra pneu.

O primeiro passo dessa nova tendência foi dado ontem. Em um discurso a diplomatas, Flávio Bolsonaro retomou a velha cantilena de Jair contra as urnas eletrônicas. Levantando os mesmos argumentos já desmentidos pelos fatos inúmeras vezes – como, por exemplo, a acusação mentirosa de que uma empresa venezuelana as teria produzido -, o filho 01 de Jair pediu o envio do “máximo possível” de observadores estrangeiros para acompanhar a eleição de outubro. Trata-se rigorosamente do mesmo roteiro de 2022, com o mesmo propósito: justificar uma derrota futura.

O movimento, no entanto, produziu o efeito colateral mais previsível possível: União Brasil e PP, que negociavam apoio à candidatura, recuaram e anunciaram neutralidade no pleito de outubro. Lideranças do Centrão passaram a qualificar o discurso de “tóxico” em conversas reservadas. Ao se despir da fantasia de “moderado”, Flávio Bolsonaro rifa qualquer possibilidade de aproximação dos eleitores independentes. Por diminuta que seja essa espécime no cenário nacional, são eles que decidem a eleição.

Mas o que levaria Flávio Bolsonaro a adotar uma postura que, no limite, pode lhe custar a eleição?

A resposta é simples: porque a idéia deles não é ganhar a eleição, mas manter o monopólio da direita. Caso um candidato – qualquer candidato – venha a superar Flávio Bolsonaro nas intenções de voto no primeiro turno, esse candidato será imediatamente alçado ao posto de “anti-Lula”. E aí esse lugar da cena eleitoral brasileira, ocupado provisoriamente pelo patriarca dos Bolsonaro, será transferido de propriedade. Trata-se, portanto, de uma estratégia de sobrevivência do clã.

O risco, claro, é que essa meia-volta pode ficar pelo caminho. No afã de tentar se salvar, Flávio Bolsonaro pode alcançar a façanha de produzir o pior dos dois mundos: perder definitivamente o eleitorado independente, sem garantir o retorno do núcleo duro do bolsonarismo. Afinal, o eleitor radical não vota em um nome. Vota no primeiro da fila que demonstrar viabilidade para tirar Lula do poder.

Flávio Bolsonaro passou o primeiro semestre todo tentando ser o Bolsonaro que não existia. Agora, está tentando ser o Bolsonaro que já existe. O problema é que esse Bolsonaro foi derrotado e está inelegível. Com seu discurso de radicalismo, o risco concreto é de que a cópia termine tão derrotada e inelegível quanto o original.

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Trilha sonora do momento

É oficial: estamos vivendo o Dia da Marmota. #EpicFail

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