Os 50 anos do Tri

Talvez a pandemia tenha tirado um pouco do brilho das comemorações, mas, no último dia 21 deste mês, completaram-se 50 anos desde que o escrete canarinho bateu a Itália no Estado Azteca, na Cidade do México. Numa só tacada, os comandados de Zagallo conquistaram o tricampeonato mundial da Fifa, receberam em definitivo a taça Jules Rimet e consagrou nomes como Gérson, Rivellino, Tostão e, claro, Pelé no panteão dos grandes craques do futebol mundial.

Isso é o que todo mundo sabe. Mas como se chegou naquele mágico dia 21 de junho de 1970 é coisa completamente diferente. Quem viu aquele time ser construído dificilmente apostaria que dali sairia o melhor, o mais técnico, mais vistoso e o mais insuperável time de todos os tempos.

SELEÇÃO BRASILEIRA DE 70 | Seleção brasileira, Seleção brasileira ...

De início, a seleção sofreu uma reviravolta a menos de três meses da competição. Até então, o técnico era o temido João Saldanha (ou “João Sem-Medo”, para os íntimos). Jornalista de ofício, comunista por opção, Saldanha montara um escrete sensacional. Nas eliminatórias para a Copa do Mundo, o time de Saldanha saiu invicto. Tal era a qualidade e a desenvoltura do time que os jogadores ganharam o apelido de “Feras do Saldanha”.

Mas, se sobrava capacidade técnica a João Saldanha, faltava-lhe o indispensável jogo de cintura para o segundo cargo mais relevante do país depois do Presidente da República. Vivendo o pior período da ditadura militar, não passava pela cabeça de Saldanha baixar a cabeça para ninguém, nem mesmo o General Emilio Garrastazu Médici. Médici fez campanha aberta pela convocação de Dadá Maravilha, ao que Saldanha respondeu: “Ele escala o ministério, eu convoco a seleção”.

O atrevimento certamente não ajudou, mas não foi (só) por isso que Saldanha caiu. O técnico teimara com uma suposta miopia de Pelé e chegou a ir à TV para explicar a razão pela qual o Rei não poderia jogar. Fora isso, no último amistoso dentro do Brasil, o time passou um sufoco absolutamente sem sentido contra o fraquíssimo Bangu. Saco de pancadas do Carioca daquele ano, o time do Moça Bonita saiu na frente (1×0) e a seleção só empatou lá pelo fim do segundo tempo, quando o próprio treinador do Bangu colocou nove – NOVE – reservas em campo.

Dois dias depois, o então presidente da Confederação Brasileira de Desporto, o belga Jean Marie Faustin Godefroid Havelange (ou “João Havelange”, como queiram), interveio na comissão técnica. “Intervir”, claro, é força de expressão, porque só Saldanha foi mandado embora. Lydio Toledo (médico), Admildo Chirol (preparador físico) e um então desconhecido Carlos Alberto Parreira (assistente) continuaram no grupo. Para o lugar de Saldanha, Havelange trouxe o bicampeão do mundo e técnico do Botafogo: Mário Jorge Lobo Zagallo.

Zagallo vinha de uma experiência de muito sucesso como treinador do Botafogo. Mesmo assim, chegara cercado de desconfiança. Não só por conta das circunstâncias em que Saldanha foi demitido, mas, principalmente, porque seu primeiro ato como treinador foi justamente convocar Dadá Maravilha para a seleção.

Em tese, o time do Brasil estava montado. Saldanha deixara a seleção pronta e arrumada para a Copa. Na sua cabeça, restaria apenas o polimento e mais alguns ajustes. O resto já estaria feito. Mas Zagallo, por óbvio, tinha outros planos.

O time-base escalado por Saldanha era Félix; Carlos Alberto, Djalma, Joel e Marco Antônio; Piazza e Gérson; Jairzinho, Tostão, Pelé e Edu. Era um time de craques e muito bem equilibrado entre ataque e defesa. Mas havia um problema. Quem, em sã consciência, deixaria Rivellino no banco do time (e, de resto, de qualquer outro time)?

Do ponto de vista tático, o problema era insolúvel. O esquema-padrão naquela época era o 4-2-4, com dois volantes e dois pontas no ataque. O Brasil já tinha quatro camisas dez na sua escalação: Pelé (Santos), Gérson (São Paulo), Jairzinho (Botafogo) e Tostão (Cruzeiro). Acrescentar Rivellino  (o dez do Corinthians) à mistura significaria escalar meio time de camisas dez e rezar para que de alguma forma a combinação desse certo.

Zagallo, então, resolveu promover uma revolução tática, que não foi reconhecida à época e, até hoje, não foi inteiramente assimilada pela mídia esportiva. Mantido o goleiro (Félix), Zagallo mudou inteiramente a zaga. Deixou o capitão Carlos Alberto na lateral-direita e tirou o restante. Brito entrou como zagueiro central e Piazza foi recuado da posição de volante para a de quarto-zagueiro. Na lateral-esquerda, o contundido Marco Antônio deu lugar a Everaldo.

Mas foi do meio pra frente que Zagallo realmente chacoalhou o time. O meio seria formado por Clodoaldo e Gérson, o grande cérebro do time. Na frente, um assombro: Rivellino, Tostão, Pelé e Jairzinho. Todos craques, todos no auge da forma. Mas todos, salvo Pelé, jogando fora de posição.

Rivellino deixaria de ser o tradicional camisa 10 do Corinthians e passaria a atuar como ponta-esquerda. Um sacrilégio para a maioria, principalmente porque no banco havia dois dos maiores pontas-esquerda da história da seleção: Edu e Paulo César Caju. Tostão, 0 10 do Cruzeiro, atuaria como um “falso centroavante”, jogando de costas para o gol, de maneira a tabelar e armar as jogadas para quem vinha de trás. Já Jairzinho, 0 10 do Botafogo, fora arremessado para a ponta-direita. Só Pelé atuaria da forma com a qual estava acostumado, como 10 do Santos.

O que tinha tudo para ser um desastre revelou-se uma jogada de mestre. Com muito treino físico e três meses de intensivos treinos táticos, Zagallo conseguiu fazer com que meio time de camisas 10 jogasse como uma seleção de verdade. Se no papel o time estava montado como um 4-2-4, na prática jogava como um 4-3-3. Ou, para quem quiser ser mais moderno, como um 4-2-3-1.

Rivellino era oficialmente ponta-esquerda, mas recuava para compor o meio de campo como Clodoaldo e Gérson, ajudando na marcação e na armação das jogadas. Na zaga, Brito, Piazza e Everaldo plantavam seus pés no chão, o que liberava Carlos Alberto para avançar ao ataque quase como um ponta-direita, suprindo a “ausência” de Jairzinho como um típico ponta. Na frente, Pelé avançava de frente para o gol, enquanto Tostão ficava enfiado entre os zagueiros e de costas para a meta, ajudando nas tabelas e na armação do ataque.

Dali por diante, o que viu foi uma máquina de jogar bola. Sem dar chance a ninguém, jogando o futebol mais bonito que jamais se vira, a seleção canarinho foi derrubando um a um os adversário. De quebra, Pelé, no auge, brindava o mundo com os “quase-gols” mais bonitos de todos os tempos.

Como se tudo isso não bastasse, o encerramento dessa grande jornada, o grande fecho desse histórico time, deu-se com uma goleada de 4×1 contra a então bicampeã Itália. E não só isso. O último gol, uma pintura, é tido e havido como o gol mais bonito de todas as Copas do Mundo.

Ele começa com Tostão recuperando a bola na intermediária brasileira. Depois de rodar pela Zaga, Gérson e Pelé, Clodoaldo pega a bola e dribla quatro italianos em sequência, para só depois entregá-la a Rivellino. O “Reizinho do Parque” lançou imediatamente para Jairzinho.

Sabendo que a zaga italiana marcava homem-a-homem, Jairzinho saíra da ponta-direita e viera à ponta-esquerda, para receber a bola. Com ele, veio também Facchetti, o lateral-esquerdo italiano. Jairzinho passa então a bola para Pelé, majestoso no cabeça da área, como se dominasse todas as ações em campo.

Pelo canto do olho, o Rei vê Carlos Alberto vindo desembestado pela avenida deixada por Facchetti ao sair para marcar Jairzinho. Com toda a categoria que Deus lhe deu, Pelé simplesmente rolou a bola mansamente numa diagonal em direção ao ponto em que chegaria Carlos Alberto, como se dissesse: “Faz!”

Caprichosa, a bola ainda deu um pequeno salto antes do chute cruzado de Carlos Alberto, permitindo que o eterno “Capita” a pegasse “na veia”e encerrasse com chave de ouro a conquista mais sensacional que o futebol jamais conheceu. O melhor time, do melhor técnico, com os melhores craques, terminava sua participação naquela Copa conquistando o campeonato com o gol mais bonito de todos os tempos.

E tem gente que ainda não acredita em milagres…

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Trilha sonora do momento

Como neste ano infelizmente não poderemos pular as tradicionais fogueiras, vamos recorrer ao velho Lula pra poder animar essa noite de São João.

E rezar, porque dias melhores virão…

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Pensamento do dia

Se você me ligar de um número privado, eu respeitarei a sua privacidade e não vou atender.

#FicaaDica

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Rolo de carne moída recheado

Para desanuviar o ambiente e sair um pouco da mesmice dessa crise nossa de todo dia, vamos hoje recorrer à seção mais visitada deste espaço: a sempre deliciosa Culinária.

E, nesse caso, para apresentar-vos uma das mais recentes aquisições da cozinha maravilhosa do Blog: o Rolo de carne moída recheado.

Rolo de carne moída recheado

Típica receita portuguesa, o rolo de carne moída recheado é a saída perfeita para quem tem um monte de ingredientes inutilizados ou prestes a vencer na geladeira e precisa dar uma destinação mais nobre a eles do que a velha carne moída assada na panela. Para prepará-lo, você vai precisar de:

1 – 500g de carne moída;

2 – 1 cebola pequena cortada;

3 – 2 dentes de alho picados;

4 – 1 ovo;

5 – 100g de queijo muçarela (ou qualquer outro que esteja na geladeira a estragar);

6 – 100g de presunto (vale qualquer presunto, suíno ou de peru, mas definitivamente não recomendo nada defumado, muito menos o peito de peru, que simplesmente não orna com a mistura);

7 – Farinha de rosca;

8 – Sal e pimenta a gosto;

9 – Um colher de sopa de azeite.

Produzir um rolo de carne é algo fundamentalmente simples. Pegue a carne moída, o sal, a pimenta, a cebola, os dentes de alho, o azeite e o ovo e coloque tudo numa tigela grande. Meta a mão na massa. Literalmente. Eu sei, eu sei, não se trata de nada agradável ao tato e o aspecto da massa misturada à mão definitivamente não colabora com a expectativa do futuro almoço. Isso, porém, é mais do que necessário. É preciso que a mistura se aglomere bastante e que, também, se espalhe de forma homogênea. Do contrário, você terá partes do rolo com gostos diferentes do restante, o que pode detonar qualquer receita.

Uma vez misturado tudo, pegue a farinha de rosca e coloque na mistura. Em regra, duas colheres de sopa rasas bastam, mas se você sentir que a massa não está firme, não é vergonha adicionar mais à sua receita. O ponto ideal é semelhante ao da massa da pizza. Tão logo ela comece a soltar da mão, já é sinal de que está no ponto.

Chegar até aqui, no entanto, é fácil. Agora é que são elas. Se misturar um monte de coisa numa tigela é algo que qualquer criança consegue fazer, esticar a carne e recheá-la para depois enrolá-la já requer uma certa habilidade. Como não há nenhum utensílio de cozinha que ajude nessa parte, só resta recorrer às suas mãos, mesmo.

Obviamente, será necessário papel-filme ou papel-alumínio para realizar essa tarefa. A escolha por um dos dois vai pelo gosto do freguês. O primeiro é mais arisco, no sentido de você conseguir esticá-lo em um formato retangular sem que ele “encolha” em alguma parte. O segundo faz isso naturalmente. No entanto, torna um pouco mais dificultoso o trabalho na hora H, de enrolar a carne moída.

Seja lá qual for a sua escolha, o que vem a seguir é fácil (ou, pelo menos, é fácil de explicar). Abra o papel-filme ou alumínio em um retângulo suficientemente grande para abrigar toda a mistura. Espalhe-a por toda a superfície, de maneira a fazer um retângulo com a massa de carne moída. A espessura fica a seu critério. Mas, quanto mais você espalhar, mais finos serão os círculos concêntricos do rolo. Consequentemente, melhor será o cozimento na hora de levá-lo ao forno.

Feito isto, é hora de colocar as fatias de queijo e de presunto por cima do retângulo de massa de carne moída. Somente depois disso chega o momento crucial: enrolar a mistura. Levante cuidadosamente uma das pontas e vá enrolando-a em direção à outra, tomando a precaução de não “quebrar” a massa nesse processo.

Se você conseguiu chegar até aqui sem dramas, já se pode considerar um vencedor; o pior já passou. Daí pra frente, é só colocar o rolo numa travessa e levá-lo ao forno por aproximadamente 30m. Para quem gosta, ainda é possível colocar um pouco de molho inglês por cima, de maneira a dar um toque diferente ao prato. Para acompanhar, salada e purê de batata são as sugestões mais indicadas.

Voilà. Um prato original, relativamente simples de fazer e que fará sucesso entre todas as idades.

Boa refeição a todos.

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Trilha sonora do momento

E pra quem não sabe, hoje é aniversário de Barry Alan Pincus. Ou, como é mais conhecido pelos íntimos, Barry Manilow.

Pra comemorar, aí vai uma das preferidas das minhas noites de dor de cotovelo.

Porque quem não ouviu Mandy à noite tocando no rádio, recluso no escuro do quarto, não sabe o que é adolescência…

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Pensamento do dia

Os loucos fazem castelos no ar, os paranóicos moram dentro deles e os psicólogos cobram o aluguel.

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Esse tal de “quantitative easing”, ou O truque por trás da emissão de dinheiro

Saindo um pouco da nossa crise política de todo dia, vamos abordar hoje um tema que de certa forma se tornou comum na última década nos mercados financeiros e ganhou ainda mais proeminência depois que a pandemia do Covid-19 deixou o mundo à beira de uma nova depressão: o quantitative easing.

Trazendo para o vernáculo, o quantitative easing poderia ser traduzido como algo como “afrouxamento quantitativo” ou “relaxamento quantitativo”. Trata-se, no fundo, de uma modalidade absolutamente heterodoxa de intervenção das autoridades monetárias (leia-se: bancos centrais) na economia. Seu propósito é estimular economias deprimidas com uma espécie de injeção de adrenalina, destinada a reanimar um paciente crítico.

Mas, afinal, o que é quantitative easing?

Para responder a essa questão, temos antes que voltar algumas casas no tabuleiro para explicar alguns conceitos básicos de economia.

A riqueza circula na economia de diversas formas. A mais comum delas é a transmissão de dinheiro (moedas e cédulas de papel). Como a disponibilidade física de dinheiro é limitada (não há dinheiro impresso em quantidade equivalente à riqueza gerada na economia), a maior parte das transações dá-se através de meios eletrônicos, como transferências bancárias, cheques e cartões de crédito. É dessa forma, por exemplo, que a cédula de R$ 10,00 que você usou para pagar o pão se transforma em R$ 10,00 na conta do padeiro, que por sua vez se transforma em um empréstimo de R$ 10,00 para uma costureira comprar linha e agulha para sua manufatura and so on…

Pois bem. Sabendo que a riqueza gira através da circulação de dinheiro, pode-se intuir que, em princípio, quanto mais dinheiro, maior será a circulação de riqueza e, consequentemente, maior será a atividade econômica daí decorrente (mais pessoas compram, mais bancos emprestam, mais gente se financia, etc).

Por que, então, não imprimir simplesmente montanhas de dinheiro e assim garantir que todo mundo fique rico, mantendo a atividade econômica sempre numa dinâmica ótima?

Porque, assim como em qualquer outro recanto do sistema econômico, também aqui prevalece a lei da oferta e da procura. Se há muito dinheiro em circulação, a oferta ficará maior do que a procura, gerando, por conseguinte, uma desvalorização desse ativo. Em termos mais simples, fica muito “fácil” ter dinheiro e, por conta disso, ninguém precisará fazer muito esforço para tê-lo. E, quando alguém quiser, por exemplo, vender o pão feito com o suor do seu rosto, não vai mais se contentar com os mesmos R$ 10,00 de antes. Agora, o padeiro vai querer R$ 20,00 para fazer valer o seu esforço. Quando isso acontece em situações normais, esse fenômeno de “dinheiro fácil”, mas com valor real cada vez menor, resulta numa velha conhecida dos brasileiros: a inflação.

Justamente em razão disso, as autoridades monetárias costumam controlar rigidamente a circulação de dinheiro na economia. Elas não só limitam a quantidade física de dinheiro, como também atuam para limitar a reprodução eletrônica ilimitada de riqueza (como exemplificado acima no caso dos R$ 10,00 do padeiro). O principal instrumento para esse efeito chama-se compulsório (para entender mais sobre compulsório, clique aqui).

Em situações extremas, no entanto, essa lógica deixa de funcionar. Quando, por exemplo, uma crise bancária de proporções desconhecidas – como foi o caso do crash de 2008 – ou uma pandemia assola um país ou o mundo, a tendência natural de qualquer cidadão é retrair-se: guardar o dinheiro no colchão, deixar de gastar o que gastava antes, economizar, porque, afinal, ninguém sabe como será o dia de amanhã. E aí, quando todo mundo resolve de uma vez só consumir menos, instaura-se um círculo vicioso: com menos consumo, haverá menos produção, consequentemente menos lucro, consequentemente menos empregos, consequentemente menos impostos recolhidos pelo Governo… Em suma, todo mundo perde.

É justamente para romper esse círculo vicioso que os bancos centrais, no desespero, costumam – pelo menos desde 2008 pra cá – recorrer ao afrouxamento monetário para quebrar uma espiral econômica depressiva. Se numa situação normal o dinheiro em circulação é controlado de forma estrita, “afrouxa-se” ou “relaxa-se” esse controle através da emissão de mais moeda. Daí o nome quantitative easing.

Mas como exatamente isso funciona?

Imagine, por exemplo, um banco qualquer que tenha R$ 100 bilhões de títulos variados em sua “conta”. Esse dinheiro rende, digamos, 10% a.a. Se o banco central ao qual a casa bancária estiver vinculada resolver partir para um quantitative easing, o que ele fará será simplesmente criar – sim, “criar”, do verbo “produzir do nada” – R$ 100 bilhões em dinheiro em suas próprias disponibilidades financeiras. Com esses R$ 100 bilhões de dinheiro em espécie que o BC produziu do nada, ele vai lá na conta do banco e “troca” os R$ 100 bilhões que ele tinha em títulos variados pelos R$ 100 bilhões em espécie.

Obviamente, tudo isso é feito hoje de forma eletrônica. Não há a “impressão física” de R$ 100 bilhões. Todavia, do ponto de vista prático, o efeito é o mesmo. O banco, que tinha R$ 100 bilhões em títulos que rendiam 10% a.a., agora terá R$ 100 bilhões em cash, que não rendem absolutamente nada.

Por que fazer isso?

Simples. Porque bancos podem ser tudo, menos doidos. Se o banco tinha um título que rendia 10% a.a. e agora só tem dinheiro em cash na sua mão, o que ele irá fazer? Emprestar aos agentes econômicos para poder remunerar esse dinheiro que está em caixa. Afinal, é daí que vêm os lucros que o sustentam. A idéia, portanto, é forçar as casas bancárias – que normalmente se retraem em cenários de depressão braba – a emprestar dinheiro para empresas e pessoas. Assim, reativa-se a circulação de riqueza e tenta-se abreviar o ciclo recessivo.

Obviamente, essa é apenas uma explicação geral e propedêutica. No mundo real, a coisa é um pouco mais complexa do que isso. No entanto, o princípio fundamental do quantitative easing é rigorosamente o mesmo em qualquer cenário: “imprimir” dinheiro para reativar a economia.

Em 2008, essa estratégia funcionou com relativo sucesso depois da crise do subprime. Como, depois da quebra do Lehman, todos os bancos ficaram com medo de emprestar uns aos outros por receio de não receber o dinheiro de volta, a impressão de dinheiro produzida pelo FED acabou resolvendo a parada.

Hoje, contudo, o buraco é mais embaixo. Não estamos mais somente numa crise bancária. Estamos numa crise sanitária e de saúde pública de proporções jamais vistas. A crise, portanto, não é de Wall Street, mas de Main Street. A estratégia de mandar rodar a Casa da Moeda terá efeito em tal cenário?

Aí já são, literalmente, outros quinhentos…

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Trilha sonora dos momentos

O Dia dos Namorados é só na sexta, mas como não teremos posts daqui pra lá, vai hoje mesmo…

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Pensamento do dia

A melhor forma de prever o futuro é criá-lo.

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“Esse negócio de golpe”

Foi Ernesto Geisel quem ensinou há bastantes anos:

“Esse negócio de golpe é muito difícil. Vi sete, posso falar”.

Como Elio Gaspari conta na sua série Ilusões Armadas, o Alemão gostava de repetir essa frase sempre que era instado a comentar pela enésima vez a demissão de seu ministro do Exército, Sylvio Frota, assim como para rebater a possibilidade de um hipotético levante militar contra a posse de Tancredo Neves. Tendo participado ativamente de todos, desde tenente até general, a contabilidade de Geisel incluía quatro vitórias (1930, 1937, 1945 e 1964) e três derrotas (1955, 1961 e 1965).

Naquele que eventualmente seria o oitavo golpe de sua vida – a demissão de Frota -, novamente levou. Com a vitória, o mais marcial dos generais-ditadores acabou com a anarquia nos quartéis e restaurou o primado da autoridade presidencial sobre as Forças Armadas. Não foi pouca coisa. Desde então, não se ouvia sussurro sobre militares interferindo na agenda política e quase ninguém sabia o nomes dos generais de turno. Tudo isso acabou com a eleição de Jair Bolsonaro.

Self made man, Bolsonaro elegeu-se com uma candidatura nanica, desprovida de apoio parlamentar relevante e sem base social construída. Por instinto ou por temperamento, parecia claro que ele recorreria às Forças Armadas para preencher os cargos que ele, por ojeriza à tal “velha política”, recusava-se a compartilhar com o chamado “Centrão”. Sem golpe e pela via do voto, os militares estavam de volta ao poder, a ponto de o ministério de Bolsonaro contar com mais ministros de farda do que qualquer dos generais de 64.

Seja pelo histórico ostensivamente antidemocrático, seja por declarações do seu autoproclamado “núcleo ideológico”, o fato é que muita gente boa teme que Bolsonaro se valha das Forças Armadas para subjugar os demais poderes e poder governar sem as amarras impostas pela Constituição de 1988.

Deixemos de lado, por ora, a análise sobre se o Presidente e seu entorno de fato desejam e articulam algo do gênero. A questão é: até que ponto esse receio é fundado? Ou, mais especificamente, qual seria a possibilidade de um golpe – ou autogolpe – vingar no Brasil de hoje?

O primeiro ponto a ser destacado é o mais óbvio: o Brasil de 2020 não é o Brasil de 1964. Mais do que um truísmo, essa constatação palmar indica uma montanha de dificuldades que simplesmente não existia há 60 anos e que tornam no mínimo duvidoso o sucesso de qualquer empreitada golpista nos dias de hoje.

Pra começo de conversa, o fim do mundo da Guerra Fria acabou com a “desculpa” no mundo ocidental de que mais valia uma ditadura amiga ao seu lado do que um regime esquerdista inimigo apoiado (ou não) por Moscou. Esse foi o pretexto, por exemplo, para que os norte-americanos apoiassem a deposição de João Goulart, no Brasil, e de Salvador Allende, no Chile.

Hoje, o custo político de semelhante apoio é impensável. Nem mesmo a suposta “amizade” que Bolsonaro alega ter com Donal Trump impediria uma condenação imediata dos Estados Unidos e a imposição de sanções por parte do congresso norte-americano (como, de resto, de todo o mundo ocidental civilizado). Se algo semelhante se passasse, o país seria automaticamente lançado à condição de pária do mundo, com suspensão de relações diplomáticas e corte de transações comerciais e financeiras. O dólar, que andou se comportando nos últimos dias, explodiria, assim como a bolsa transformaria em pó o dinheiro de acionistas e investidores, fato que lançaria os empresários e a galera do dinheiro grosso imediatamente na oposição.

Em segundo lugar, as vias de exceção em mundo moderno são cada vez mais estreitas. Uma coisa era colocar tropas nas principais emissoras de televisão ou rádio e cortar as transmissões do país enquanto o golpe evoluía (fato que nem sequer foi necessário em 64, porque a mídia em peso aderiu ao golpe). Hoje, com redes sociais, YouTube e WhatsApp, o que os golpistas fariam? Derrubariam a Internet? Para fazê-lo, teriam que não só invadir os provedores de acesso à rede, mas também apreender os celulares de toda a gente, pois cada smartphone tem, em si, o mundo inteiro.

Se tudo isso não bastasse, a disposição atual de forças não contribui para qualquer movimento de deposição. Melhor explicando, o fato de Bolsonaro estar sentado na cadeira de Presidente limita abertamente sua margem de manobra, se de fato ele estivesse pensando em golpe.

Uma coisa, por exemplo, é querer depor um governo impopular, caótico e despreparado como era o de Jango. Sempre haveria quem se dispusesse a trocar o timoneiro do navio sob o argumento de tentar desviá-lo do iceberg. Mas quando a articulação se destina a manter o mesmo comandante no navio, o golpe viria a troco de quê? Para tirar o Congresso, que não tem feito mais do que ajudado o governo com reformas várias e a aprovação relâmpago do “orçamento de guerra”? Ou para destronar o Supremo, cujo trabalho técnico até aqui tem se limitado a desbaratar a criminosa rede de fake news que ataca a corte?

Não há de se esquecer que o governo Bolsonaro encontra-se em fase de franca queda de apoio popular. Ao contrário da curva da Covid-19, que só sobe, a curva de apoios ao governo só cai, a ponto de o Presidente ser obrigado pelas circunstâncias a negociar o apoio do outrora famigerado “Centrão” para escapar de um eventual processo de impeachment ou de uma improvável denúncia formulada pelo Procurador-Geral da República.

Não parece razoável, portanto, supor que, em semelhantes circunstâncias, um golpe dessa natureza pudesse resultar no Brasil. Com a maior parte da mídia contra o seu governo, sem suporte de 70% do eleitorado e com a galera do dinheiro grosso absolutamente contra qualquer tipo de marola, uma quartelada a essa altura do campeonato desafiaria não somente noções básicas de ciência política. Desafiaria a própria inteligência dos militares.

Não custa, entretanto, ficar de olho aberto. Afinal, cautela e canja de galinha nunca fizeram mal a ninguém.

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