Tensão pré-campanha, ou O jogo ainda por jogar

A campanha pra Presidente da República ainda nem começou e já tem gente precisando tomar tranquilizante a cada nova pesquisa publicada. Em qualquer lugar do mundo, a seis meses da eleição, qualquer enquete presidencial estaria fadada ao fracasso. No Brasil, onde até o passado é incerto, queimar pestana por pesquisas de intenção de voto a essa altura do campeonato é pura perda de tempo.

Desde o final do ano passado, quando Jair Bolsonaro indicou seu filho 01 como herdeiro político do clã, muita gente supostamente bem orientada e a galera da Faria Lima alimentou a esperança de que o lançamento de Flávio Bolsonaro não passasse de mais uma jogada do ex-presidente. A idéia seria negociar melhores condições de apoio com Tarcísio de Freitas, o atual governador de São Paulo. Preferido dessa turma, Tarcísio encarnaria um “bolsonarismo sem Bolsonaro” e poderia, segundo esse raciocínio, atrair o voto do centro democrático que optou por Lula em 2022 para impedir que o Brasil se precipitasse numa ditadura bozística.

Conforme foi alertado aqui, deram todos com os burros n’água. Atormentado pela paranóia persistente de que sempre será traído, Bolsonaro não confiou sequer na própria mulher, Michelle, para indicar como sucessora. Como imaginar que poderia confiar em alguém de fora da família como Tarcísio para indicar como sucessor? Nesse sentido, a escolha de Flávio Bolsonaro não era apenas previsível. Era quase óbvia.

Com Tarcísio fora de jogo e Ratinho Jr. tendo desistido da parada (cf. aqui), o desenho da direita já está mais ou menos estabelecido. Há o bolsonarismo-raiz, encarnado por Flávio Bolsonaro, e o bolsonarismo “light”, que será disputado por Ronaldo Caiado (certo) e Romeu Zema (que tentará cavar uma vaga de vice do filho 01). Correndo na mesma faixa, a hipótese mais provável é que Flávio Bolsonaro mantenha liderança folgada e, com o tempo, os dois pretendentes do bolsonarismo light acabem ou aderindo ou sendo canibalizados pela candidatura principal.

Na esquerda, Lula conseguiu interditar todas as vias. Ele, que sempre eclipsou esse lado do eleitorado com a força de sua popularidade, agora literalmente corre sozinho na raia jacobina do espectro político. Nem sequer o PSOL, que concorreu em todas as eleições presidenciais desde que foi criado, lançará candidato ao Planalto. Para quem tem ojeriza aos Bolsonaro ou milita à esquerda, não restará outra alternativa senão votar no babalorixá petista mais uma vez.

Fora essas duas certezas, todo o resto é dúvida. É certo que a desaprovação de Lula pesa sobre sua candidatura como uma bola de ferro atada ao tornozelo. É difícil, porém, dizer o quanto disso é de fato avaliação de julgamento sobre os méritos do seu governo e quanto é simplesmente anti-petismo arraigado desde 1989 na mídia e em parte dos eleitores. Contudo, imaginar que um sujeito que ganhou cinco eleições presidenciais (três em nome próprio e duas por interposta pessoa), sentado na cadeira, não seja o favorito, é de uma miopia atroz.

Brincando com os números, pode-se fazer diversos tipos de cálculo. Pode-se contabilizar o quanto um governante qualquer tem de ter de aprovação a essa altura do campeonato para ser reeleito. Os estatísticos costumam falar em 45% de popularidade como piso, percentual do qual o atual inquilino do Planalto ainda está distante. Pode-se, também, verificar o histórico da última reeleição, quando Bolsonaro tinha um saldo negativo de 26% entre aprovação e desaprovação (Lula tem 11% de saldo negativo) e acabou perdendo.

A bem da verdade, seja quais forem os números de agora e o tipo de brincadeira que se queira fazer com eles, o histórico das últimas eleições não autoriza sequer especular o que vai ser do próximo pleito. Apenas nas últimas três eleições, tivemos: morte de um candidato (Eduardo Campos), tentativa de assassinato de outro (Bolsonaro) e libertação de um ex-preso cujos direitos políticos estavam suspensos (Lula). Com um retrospecto tão bizarramente imprevisível como esse, quem se arrisca a dizer quem será o novo Presidente da República?

O jogo das eleições de 2026, portanto, ainda está por ser jogado. Resta saber que tipo de baralho será distribuído e quais cartas serão sorteadas aos participantes. Até lá, grandes emoções nos aguardam.

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Trilha sonora do momento

ALL.

Entendedores entenderão.

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Pensamento do dia

Com as redes sociais, as pessoas que não tinham nada a dizer agora têm mil e uma formas de fazê-lo.

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Trilha sonora do momento

Entendededores entenderão.

Ice, ice, baby!

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Pensamento do dia

Nenhum homem pode ter uma face para si mesmo e outra para a multidão sem, ao final, confundir qual delas é a verdadeira.

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Recordar é viver: “Os limites da realidade, ou Até quando o povo vai se deixar enganar pela extrema-direita?”

Agora que o deputado federal André Fernandes foi flagrado jogando lixo em frente ao Paço Municipal de Fortaleza somente para gravar um vídeo lacrador “denunciando” a sujeira da cidade, talvez seja uma boa hora para recordar esse post do ano passado.

É o que você vai entender, lendo.

Os limites da realidade, ou Até quando o povo vai se deixar enganar pela extrema-direita?

Publicado originalmente em 28.10.25

O que aconteceu hoje no Rio de Janeiro é o retrato mais bem acabado dos males que a extrema-direita representa para o país. Numa operação verdadeiramente Tabajara, o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, resolveu mandar a polícia a campo para prender integrantes do Comando Vermelho. Sem qualquer espécie de planejamento maior, os representantes das forças do Estado foram às ruas como um Exército que se dirige a uma luta campal. Até o momento, o saldo é de 8o suspeitos presos e 64 mortos, sendo quatro destes policiais que participavam da operação.

Uma simples comparação com outra operação recente contra o crime organizado é capaz de dimensionar o tamanho do desastre. Na “Carbono Oculto”, seis pessoas foram presas e mais de 350 foram alvos do inquérito. Utilizando-se de inteligência e estratégia, os promotores e a polícia conseguiram desvendar uma rede que teria lavado nada menos do que R$ 46 bilhões, através de um intricando esquema com fundos da famosa Faria Lima (que adora gritar contra a corrupção dos outros). Nenhum morto. Nenhum ferido.

Sopesando a operação de agora com a Carbono Oculto, o leitor amigo poderá concluir: qual das duas causou mais dano ao crime organizado? A que prendeu 80 e matou 60 soldados do crime? Ou a que estourou a boca da lavagem de dinheiro?

Embora Cláudio Castro não seja ele próprio um extremista, é certo que bajula a extrema-direita bolsonarista visando a um cargo no Senado Federal nas próximas eleições. Sem ter o que apresentar para a população e tendo de brigar pela única vaga da direita restante (a outra está reservada ao 01 do clã Bolsonaro, Flávio), Cláudio Castro deve ter pensado que sair pro pau com o crime organizado poderia lhe render votos no ano que vem. Se a idéia era essa, é bem possível que o tiro tenha saído pela culatra.

O exemplo da guerra campal aberta contra a bandidagem no Rio de Janeiro é emblemático do modus operandi da extrema-direita brasileira. Como sua, digamos, “atividade política” é restrita à tática do “causar”, o grosso do que essa galera faz é simplesmente produzir vídeos em série para “lacrar” nas redes sociais. Olhando-se a fundo, não existe um só caso de parlamentar da extrema-direita que tenha produzido algo efetivamente relevante para a população que o elegeu.

Peguemos os casos de Carlos e Eduardo Bolsonaro, por exemplo. Tendo começado a vida parlamentar praticamente adolescentes, os hoje marmanjos Carluxo e Dudu Bananinha apresentaram e conseguiram aprovar um total de zero – isso mesmo: ZERO – proposições legislativas que tenham trazido algum impacto positivo para o povo. Entre tweets ininteligíveis, escritos numa língua que se aproxima muito do português, e conspirações contra a própria pátria, nem o filho 02 nem o filho 03 aprovaram qualquer coisa em benefício da população. Considere-se, entretanto, que estão apenas a seguir o exemplo do pai, Jair, que, ao longo de quase 30 anos friccionando a região escrotal, tampouco aprovou ou propôs qualquer coisa digna de nota na Câmara dos Deputados.

Essa característica é tão forte que mesmo a “nova geração” da extrema-direita segue na mesma toada. Nikolas Ferreira e André Fernandes, duas figurinhas carimbadas dos vídeos desinformativos do TikTok, vão completar um quadriênio só na base do dedo no c* e gritaria. Nada, absolutamente nada do que eles fizeram durante seus mandatos reverteu em algum benefício concreto para a população brasileira.

Como o caso das tarifas sobre os produtos brasileiros está a ensinar, essa tática ridícula encontra um limite na realidade. Bananinha pode vociferar à vontade contra Lula e inventar um “Xadrez 52-D”, no qual Donald Trump estaria apenas produzindo uma “armadilha genial” contra o babalorixá petista, mas o fato incontornável é que, desde que se autoexilou nos Estados Unidos, ele não tirou sequer uma foto sendo recebido pelo Laranjão. Lula, ao contrário, tem uma.

Ainda haverá quem siga acreditando nas baboseiras e invencionices dessa malta escroque. Como nunca há nada de concreto a apresentar, a extrema-direita se sustenta numa eterna expectativa hypeada do porvir. Todavia, o número de crédulos nessa bizarra fantasia é cada vez menor. Mesmo para quem odeia a esquerda até a medula é difícil se manter no looping infinito “aguarde 72h – nada acontece – aguarde mais 72h”.

Nessa quadra, a única pergunta que resta é:

Até quando o povo vai se deixar enganar pela extrema-direita?

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Trilha sonora do momento

Com a volta do pessoal da Artemis, vamos de Paralamas do Sucesso pra encerrar esta sexta em alto astral.

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Pensamento do dia

No mundo de hoje, tem muita gente com a testa oleosa se achando mente brilhante.

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Trump x Leão, ou A ameaça de Avignon 2.0

A guerra do Irã definitivamente não fez bem a Donald Trump. Não satisfeito em tretar com meio mundo por conta do estúpido conflito que iniciou no Oriente Médio, agora o Laranjão partiu pra cima de ninguém mais, ninguém menos do que Sua Santidade, o Papa Leão XIV.

De acordo com notícias divulgadas pela imprensa americana, o Nero Laranja teria ficado com raivinha das críticas que o Bispo de Roma pronunciara contra a chacina perpetrada por americanos e israelenses em solo persa. Em “resposta”, o subsecretário de Defesa dos Estados Unidos, Elbrigde Colby, convocou ao Pentágono o núncio apostólico da Santa Sé no país, Cardeal Christophe Pierre.

Noves fora o fato de que a convocação, se devida fosse, deveria ter sido feita pelas vias diplomáticas normais, não pelo Departamento de Defesa, a “mensagem” entregue por Colby ao cardeal Pierre foi o puro suco de arrogância, delírio e ameaça típicas do movimento trumpista: “Os Estados Unidos têm o poder militar para fazer o que bem entender no mundo. A Igreja Católica faria melhor em alinhar-se conosco”. Como desgraça pouca é bobagem, Colby ainda mandou que o núncio transmitisse ao Santo Padre – um cidadão norte-americano de nascimento – um recado nada sutil: se ele continuasse a insistir nas críticas, o governo do Laranjão acionaria o “protocolo de Avignon”.

Para quem não pegou a sutileza da ameaça, o “Papado de Avignon” retrata um dos capítulos mais infames da história da Igreja Católica. Por sete décadas, de 1309 a 1377, a sede papal – que por definição estava estabelecida desde sempre em Roma – foi compulsoriamente transferida para a cidade de Avignon, no sul da França. A violência teve como origem um entrevero entre o Papa Bonifácio VIII e Felipe IV, rei da França. Com egos proporcionais aos seus títulos reais, Felipe IV fez valer seu poderio militar para tentar dobrar a Igreja aos interesses da coroa francesa.

Não bastasse a transferência da Santa Sé para Avignon, Felipe IV exigiu que todos os papas dali pra frente fossem franceses. E assim foi. Com o Sacro Colégio Cardinalício sitiado por tropas gaulesas, de Clemente V a Gregório IX, todos os sumos pontífices eleitos eram franceses. Por isso mesmo, esse período é referido jocosa e ironicamente como “Cativeiro Babilônico da Igreja”.

Em Avignon, o papado, embora centralizado administrativamente e próspero financeiramente (para desespero de muitos que viam nisso simonia e corrupção), operava sob a sombra do poder monárquico, transformando-se, aos olhos de muitos cristãos, em um mero apêndice da política francesa. Essa perda de autonomia e a subsequente crise de legitimidade não apenas geraram o escândalo da ausência papal de Roma, mas também semearam as sementes para o Grande Cisma do Ocidente, quando foram eleitos dois sumos pontífices: um papa em Roma (Urbano VI); e outro, “antipapa”, em Avignon (Clemente VII).

A mensagem transmitida pelo governo dos Estados Unidos, portanto, foi clara como água de bica: se a Igreja não se dobrasse, talvez um “Papado de Mar-a-Lago” pudesse ser arquitetado. A ironia de um império “moderno” flertando com a barbárie medieval para intimidar o sucessor de São Pedro seria cômica, se não fosse trágica.

Para o Laranjão, pode ser que a ameaça fizesse algum sentido. Afinal, Leão é o “novato” que surprendeu os vaticanistas ao ser eleito Papa no ano passado. Como disse Stalin durante a II Guerra Mundial, o Bispo de Roma não dispõe de tropas para impor sua vontade. O Nero Laranja, contudo, esqueceu-se de que a força de um pontífice não vem das armas (que não têm), mas da moral e da força de sua palavra.

Submetido à afronta, ao invés de recuar, Leão resolveu dobrar a aposta. Primeiro, o Papa cancelou a visita de Estado prevista para as celebrações dos 250 anos dos Estados Unidos. Depois, pisando no acelerador, o Papa reiterou sua condenação à guerra, classificando-a como “injusta”. Mais que isso. Tachou as ameaças de inaceitáveis e conclamou os fiéis católicos do país – cuja população tem crescido nos últimos tempos – a “ligarem para os seus representantes no Congresso”, visando a pressionar o governo.

No final das contas, a cruzada de Trump contra o Papa Leão XIV apenas expõe a fragilidade de um governo acuado pelos seus próprios erros. Se o Laranjão precisa recorrer à ameaça militar para prevalecer diante de uma crítica puramente moral, é sinal de que a batalha da comunicação já está completamente perdida.

Enquanto o Nero Laranja tenta reescrever a história eclesiástica com mísseis e ultimatos, o Papa – com a autoridade de quem não tem exércitos, mas tem o poder da palavra – recorda que o poder bélico não compra a dignidade humana, nem silencia a consciência da fé católica. E, por mais que tentem, não há força militar capaz de transformar uma guerra injusta numa cruzada divina. A Igreja, ao que parece, ainda tem a capacidade de rugir.

E este Leão não parece disposto a ser domesticado…

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Trilha sonora do momento

Ê, Rio de Janeiro….

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