A volta da galera antivax, ou O triste retorno do sarampo

Há doenças que a medicina já derrotou. Mas certos políticos teimam em ressuscitá-las. Tal é a conclusão a que se chega de quem acompanhou o que aconteceu no noticiário nacional e internacional na última semana e meia.

Ontem, o presidente norte-americano, Donald Trump, assinou uma ordem executiva reduzindo – sim, reduzindo! – o calendário de vacinação infantil nos Estados Unidos. Ladeado pela extravagante figura do seu secretário de saúde, Robert Kennedy Jr. – cujos tiques nervosos e balançar angustiante denunciam seu passado nada católico -, o Laranjão determinou a redução de 18 para apenas 11 doenças cobertas pelo sistema de vacinação dos EUA.

Não satisfeito, o Nero Laranja ainda demitiu todos os 17 membros consultivos do CDC e cancelou um financiamento de US$ 500 milhões destinados a pesquisas sobre pandemias futuras. O movimento antivax, portanto, fez barba (reduziu o esquema vacinal), cabelo (demitiu quem era responsável por geri-lo) e bigode (cortou o financiamento de pesquisas). Não será surpresa pra ninguém, portanto, constatar que, em pleno 2026, os Estados Unidos registraram a maior epidemia de sarampo desde 1991. São 2.370 casos, atingindo 45 dos 50 estados norte-americanos. 93% dos infectados não estavam vacinados.

Corta para o Brasil.

Nesta semana, a Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo confirmou 23 casos de sarampo em 2026. Dezesseis dos 23 pacientes não tinham histórico de vacinação ou estavam com o esquema vacinal incompleto. A cobertura vacinal da tríplice viral no estado está em 77,5% para a primeira dose e 65,5% para a segunda — bem abaixo da meta de 95% que garante a imunidade de rebanho. O Ministério da Saúde lançou campanha de multivacinação.

Para quem acha isso bobagem, na década passada o Brasil havia recebido o certificado internacional de eliminação do sarampo. Uma doença altamente contagiosa, capaz de matar ou de deixar sequelas permanentes em crianças, havia sido finalmente erradicada do país. Isso, claro, até vir o governo Bolsonaro.

Com seu ódio à ciência e seu projeto de transformar temas “comuns” em cavalos de batalha ideológicos, o governo de Jair reduziu desde o início a cobertura vacinal da população. Jair chegou ao limite até de retirar dos beneficiários do bolsa-família a obrigação de mostrar que suas crianças haviam sido vacinadas. O resultado, claro, não poderia ser outro. O Brasil não só perdeu o certificado internacional de eliminação do sarampo como agora vê, com ainda mais força, essa doença que há havia sido erradicada se espalhar de forma assustadora pelo país.

Nada disso, claro, aconteceu por acaso.

Quando veio a pandemia da Covid, Bolsonaro propagandeou até para as emas do Alvorada os supostos benefícios da cloroquina e da ivermectina no combate à doença. Esse combo transformou um remédio antiparasitário e outro para malária numa espécie de elixir milagroso que permitiria às pessoas saírem às ruas no meio da pandemia como se nada estivesse acontecendo. Resultado: 700 mil mortes, transformando o Brasil no país com o maior número de mortes pela doença no mundo, depois de quem? Sim, dos Estados Unidos.

Como o povo tem memória curta, todo esse blábláblá negacionista voltou agora com toda a força. Numa típica manobra diversionista de quem quer fazer a população desviar a atenção das fragilidades econômicas do país e da guerra perdida no Irã, Trump acionou seus cães de guarda no Senado norte-americano para tentar encurralar Anthony Fauci, o principal responsável pela campanha de combate à Covid durante a pandemia.

Sabendo que estaria jogando um jogo de cartas marcadas, Fauci resolveu invocar a Quinta Emenda da Constituição dos Estados Unidos para não responder às perguntas dos senadores. Foi o que bastou para a tropa de choque trumpista – macaqueada aqui no Brasil por gente como Nikolas Ferreira – denunciasse as “mentiras” sobre a pandemia, atacando os lockdowns e colocando em xeque até mesmo a quantidade de mortos pelo vírus.

Autoexilado nos Estados Unidos, o irmão de Flávio Bolsonaro, Eduardo, também resolveu gravar um vídeo para entrar na onda. Na gravação, o famoso Dudu Bananinha exibe orgulhoso um documento impresso, no qual ele diz ter obtido isenção de vacinação para a filha numa escola local. Isso, detalhe, mesmo sendo certo que o Texas é o principal foco do surto de sarampo nos Estados Unidos, com mais de 500 casos confirmados.

As mentes mais evoluídas gostariam muito de crer que isso fosse derivado apenas de convicção genuína. Seria mais fácil enquadrar o caso na hipótese de “burrice alheia” (ou “vergonha alheia”, como queiram). Apesar de ser sedutora, essa alternativa seria por demais ingênua. O que há é simplesmente uma tentativa nem um pouco dissimulada de gerar distração com temas que excitam a malta, especialmente aquela mais engajada de extrema-direita. Enquanto a gente fica discutindo vacina, ninguém discute a inflação nos Estados Unidos, a guerra no Oriente Médio ou os R$ 134 milhões que Flávio Bolsonaro pediu a Daniel Vorcaro.

No meio dessa guerra cultural idiota, vemos o país estar às voltas com uma doença que havia sido erradicada há mais de dez anos. Enquanto gente como Nikolas Ferreira vai às redes dizer que tudo – governo, ciência e vacina – é mentira, mas a fucking cloroquina funciona, temos mais de duas dezenas de crianças sofrendo os efeitos de uma doença que pode causar pneumonia, encefalite e, no limite, até a morte.

E é essa reflexão que vai estar em jogo nas urnas em outubro: queremos passar por tudo isso de novo?

Porque o sarampo já voltou.

O resto está apenas na fila, esperando para acontecer…

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Trilha sonora do momento

E já que hoje é Dia do Advogado, vamos a esse clássico do The Clash.

Porque se tem uma coisa que advogado faz é brigar com a lei…

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Pensamento do dia

Se você não encontrar um caminho, abra-o.

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Trilha sonora do momento

Pearl Jam é, sem dúvida, uma das minhas principais “falhas curriculares” em termos musicais.

Para reparar um pouco essa falta, eis aqui uma das melhores deles.

E bem na vibe, aliás…

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Pensamento do dia

Love is giving someone the power to destroy you and trusting they won’t use it.

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Recordar é viver: “Qual o sentido do “cristão conservador” brasileiro?”

Em tempos de eleição, essa figura caricata voltou a das as caras por aqui.

Dizer que é cristão e conservador a um só tempo fácil. Difícil é ser de fato qualquer uma dessas coisas.

É o que você vai entender, lendo.

Qual o sentido do “cristão conservador” brasileiro?

Publicado originalmente em 1º.8.22

Já faz algum tempo que o mundo político foi brasileiro foi tomado pela expressão “cristão conservador”. Muitas vezes substituída ou acompanhada pela indefectível variante “cidadão de bem”, os adjetivos designativos de certa parcela do povo brasileiro – quase sempre a sua elite -, acabaram tomando um rumo diferente daqueles a que designam os dicionários correntes da língua pátria. E, não raro, descobrimos “cidadãos de bem” quando eles surgem nas manchetes dos jornais, praticando atos como pedofilia, feminicídio, estupro y otras cositas más.

Não que isso fosse de todo inesperado. Afinal, se há algo que acompanha o cristianismo desde sempre é o seu correlato antípoda: o farisaísmo. Pessoas que falam sobre Deus sem saber ou sem ligar para os seus ensinamentos coabitam conosco desde que o mundo é mundo. O traço distintivo dessa aparente vertente de “neofariseus” é a submissão de todo o discurso religioso a um determinado sentido político, quase sempre enviesado. Se o sujeito está contra alguém (“meu político de estimação”), estará, por conseguinte, também “contra Deus”, como se uma coisa implicasse necessariamente a outra.

Nada mais falso.

Em primeiro lugar, as tentativas ridículas de indicar um candidato – qualquer que seja ele – como “enviado de Deus” ou “preferido do Senhor” violam diretamente o primeiro mandamento: Amar a Deus sobre todas as coisas. Embora o enunciando original tenha se destinado a condenar o politeísmo vigente naquela época, o sentido religioso do mandamento segue o mesmo: condenar toda e qualquer forma de idolatria, inclusive e especialmente aquela que pretende transformar os piores pecadores mundanos em substitutos do próprio Deus.

Em segundo lugar, que tipo de cristianismo se está a professar quando se prega a morte ou a destruição do outro? Não haverá uma viv’alma dentre os “cristãos conservadores” que tenha tomado ciência do segundo mandamento de Cristo (Amarás ao próximo como a ti mesmo)? O discurso de ódio vai na mão contrária de tudo o que os ensinamentos da Bíblia representam. Quem prega o extermínio de adversários, seja no sentido figurado, seja no sentido literal, pode chamar-se de qualquer coisa, menos de cristão.

Em terceiro e último lugar, que suposto pensamento cristão pode fazer com que pessoas aparentemente corretas passem pano para políticos que defendem tortura? Ou por acaso esses “cristãos” terão se olvidado de que o próprio Jesus foi Ele mesmo vítima de tortura; brutal, desumana e ignominiosa como o são todas as torturas? Não se sabe ao certo que livro guia esses “adoradores de Cristo”, mas certamente a Bíblia é que não deve ser.

É evidente que, por mais laico que seja o Estado, política e religião misturam-se em algum grau. Nunca é demais recordar que Jesus Cristo foi – Ele próprio – condenado à crucificação por um motivo político: subversão. Daí a plaquinha aposta por sobre a cruz em que o Cordeiro de Deus foi imolado: INRI – Iesus Nazarenus Rex Iudeaorum – Jesus de Nazaré, Rei dos Judeus. Todavia, o discurso religioso não pode funcionar como biombo para atitudes manifestamente anticristãs, que se valem da ignorância e da crença do povo mais humilde para servir a outros propósitos que não os de Deus.

A verdade – é triste reconhecer – é que o “cristão conservador” tupiniquim tornou-se uma caricatura muito sem graça e terrível dele mesmo. Elevado ao patamar de bonus pater familias, esse exemplar curioso da fauna política nacional exala hipocrisia, ostenta malvadez e chega ao cúmulo se orgulhar da própria boçalidade. E, se há alguém que possa estar feliz com isso, pode estar certo de que não é o cara lá de cima.

Já o cara lá de baixo…

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Trilha sonora do momento

E hoje é dia dele: o único, o inigualável, o insofismável, o gigantesco Mestre Caetano Veloso.

Gênio da arte, orgulho da terra, Mestre Caê é provavelmente a figurinha mais carimbada desta seção do Blog.

Como fã declarado, vou me dar o direito de escolher uma das minhas favoritas dele, que, se a minha memória não falha, curiosamente nunca apareceu por aqui.

Porque Caetano é, de fato, um Milagre do Povo.

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Pensamento do dia

Quem começa a rir quando tudo ao redor está dando errado é porque já descobriu em quem pôr a culpa.

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A retirada do visto da embaixadora brasileira nos EUA, ou Até onde vai o Laranjão?

Da onde menos se espera, daí é que não vem mesmo. Tal é a conclusão de quem acompanhou mais uma rodada na escalada dos Estados Unidos contra o Brasil.

Depois do tarifaço visando a ajudar Flávio Bolsonaro, agora o Departamento de Estado norte-americano revogou o visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti. Diplomata de carreira, Viotti é ex-chefe de gabinete do Secretário-Geral da ONU, António Guterres, e já chegou a presidir, em nome do Brasil, o Conselho de Segurança das Nações Unidas.

A justificativa oficial dada pelo governo dos EUA é uma suposta “ação recíproca” pela demora do governo brasileiro em conceder o agrément ao indicado de Trump para a embaixada americana em Brasília, o deputado estadual Daniel Perez, presidente da Câmara da Flórida. Conversa fiada. O que houve foi (mais um) caso de malcriação internacional do governo do Nero Laranja.

De acordo com as normas costumeiras internacionais, toda vez que se resolve nomear um embaixador para outro país há um ritual silencioso através do qual, antes de noticiar o nome na imprensa, o governo do país estrangeiro consulta informalmente o governo que receberá seu embaixador dizendo, em termos mais polidos: “E aí, você tem algum problema se eu nomear Fulano?”. É a isso que se dá o nome de “agrément”.

Tratando-se de uma decisão soberana de cada Estado dizer se vai ou não receber alguém para representar um governo estrangeiro em seu próprio país, a nação que vai receber o embaixador tem o direito de recusar quem quer que seja sem sequer ser obrigado a declinar as suas razões. Trata-se de previsão expressa da Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas de 1961 (art. 4º).

Isso já aconteceu, por exemplo, com o próprio Brasil. Em 2021, o governo de Jair Bolsonaro indicou Marcelo Crivella para a embaixada do Brasil na África do Sul. Sobrinho de Edir Macedo e ex-pastor da Universal, a idéia era usar o cargo para tentar resolver os problemas que que IURD tinha na África. O governo sul-africano sentou em cima do pedido, numa forma elegante de dizer “não mandem este sujeito pra cá”. Seis meses depois, Bolsonaro revogou a indicação.

Ao justificar a revogação do visto da embaixadora brasileira por conta da suposta demora na concessão do agrément a Daniel Perez, os Estados Unidos passaram por cima solenemente das regras mais básicas de diplomacia. Não só por ignorar que o Brasil poderia simplesmente não conceder o agrément, mas principalmente por tentar ditar um prazo para que isso acontecesse, coisa que não se encontra em qualquer convenção internacional sobre o tema.

Se isso não bastasse, ao revogar o visto de uma embaixadora já credenciada e em pleno exercício das suas funções, os Estados Unidos adotaram uma decisão completamente girafa em termos de jurisdição internacional. Se a idéia era expulsar a diplomata do país como forma de retaliação, o governo norte-americano deveria tê-la declarado persona non grata. Ao revogar o visto e, ao mesmo tempo, não a expulsar, o governo norte-americano pratica uma espécie de bullying diplomático, porque a embaixadora pode ficar no país, mas, caso saia dele por qualquer razão (uma viagem de férias, por exemplo), não terá como regressar, por falta de visto válido.

É sabido que o (ir)responsável por essa decisão foi o Secretário de Estado Marco Rubio. Já tendo em outras ocasiões revogado o visto dos ministros do STF e incluindo o nome de Alexandre de Moraes no rol da Lei Magnitsky, Rubio apenas está dando curso a sua estratégia de dobrar a América Latina inteira aos seus ditames.

Não se trata de um capricho isolado ou de algo impensado, em termos de estratégia. Ele já conseguiu fazer isso por bem na Argentina, com Javier Milei encenando gostosamente o papel de capacho. E já conseguiu fazer isso por mal na Venezuela, sequestrando Nicolas Maduro e instaurando em seu lugar um governo títere, com Delcy Rodríguez, a fantoche que responde pela presidência do país caribenho. Caso consiga inclinar a balança eleitoral em favor de Flávio Bolsonaro nas eleições brasileiras, Rubio terá praticamente a América do Sul inteira em suas mãos.

No caso de Daniel Perez, pesa o fato de ele ser um político de segundo escalão, sem qualquer experiência diplomática e com o risco na negligenciável de, sendo oriundo da mesma Flórida de Marco Rubio, ser apenas mais um agente na tentativa de gerar instabilidade no país às vésperas da eleição de outubro. A idéia, como parece claro, era usar a embaixada americana para tentar influir favoravelmente à pretensão dos Bolsonaro nas eleições. Colocar a indicação de tal sujeito na geladeira não era apenas uma medida recomendável; era quase uma medida de legítima defesa diplomática.

Ao revogar o visto de Maria Luiza Viotti e anunciar publicamente o nome de Daniel Perez como indicado, sem consultar previamente e quebrando a tradição secular do agrément, os Estados Unidos fizeram como o sujeito que invade a casa do vizinho e reclama que não recebido efusivamente. O problema, portanto, não é apenas diplomático. É de educação, mesmo.

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Trilha sonora do momento

E ela deve valer para todos, mesmo.

Inclusive ministro do STJ.

#ProntoFalei

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