A rejeição de Jorge Messias, ou Crônica de uma derrota anunciada

“Sem precedentes”. “Inédito”. “Histórico”. Escolha o seu adjetivo. Qualquer um deles servirá para descrever o que aconteceu ontem no Senado Federal com a rejeição do Advogado-Geral da União, Jorge Messias, para o cargo de ministro do Supremo Tribunal Federal.

Como agora quase todo mundo sabe, o único paralelo com a decisão de ontem vem do século XIX, quando o Senado da República rejeitou cinco indicações ao Supremo feitas por Floriano Peixoto. A comparação, contudo, é enganosa. Além de as nomeações terem sido um escárnio público – Floriano nomeara um médico (Barata Ribeiro), um general (Ewerton Quadros) e o Diretor dos Correios (Demóstenes Lobo) para a Corte, todos sem qualquer formação jurídica – uma vez que os senadores se borravam de medo do “Marechal de Ferro”; a negativa se deu somente depois de ele deixar o poder, em 1894. Agora, não. A rejeição do Senado deu-se com um mandatário em pleno exercício do seu mandato e utilizando a máquina pública para angariar votos ao indicado.

O que levou o Senado a rejeitar Messias para o STF?

A melhor explicação veio de um ministro do próprio Supremo nos bastidores: assim como os acidentes da aviação, não há uma causa única que explique o desastre. Sabe-se, por exemplo, que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, ficara contrariado com a indicação do atual AGU no lugar do seu amigo senador, Rodrigo Pacheco. Isso, porém, é pouco para explicar a derrota de ontem.

Além da contrariedade de Alcolumbre, outros fatores podem ser citados como contribuintes diretos da derrota de ontem. São eles:

1 – O “apoio” de André Mendonça

“Terrivelmente evangélico” tal qual Messias, o ministro André Mendonça havia entrado de cabeça na articulação pela aprovação do atual ocupante da AGU para ser seu colega. À primeira vista, o apoio poderia parecer estranho, já que Mendonça foi indicado por Jair Bolsonaro para o Supremo. No entanto, na correlação interna de forças, o “apadrinhamento” de Mendonça sugeria que Messias formaria uma dobradinha evangélica na bancada do Supremo.

Vendo o risco de a correlação interna de forças na Corte virar na direção de Mendonça, Alexandre de Moraes (que já trocou altercações públicas com Mendonça) e Flávio Dino (que se intrigou com Messias desde a época de sua própria indicação ao Supremo) entraram em campo para cabalar votos contra o novo indicado. Nesse contexto, ao invés de remédio, o apoio de Mendonça acabou servindo de veneno para o AGU.

2 – O risco Master e o “recado ao Supremo”

Há um ditado em Brasília segundo o qual você pode pedir de tudo a um político, menos que cometa suicídio. Foi mais ou menos isso que deve ter passado na cabeça dos senadores do Centrão ao se verem no dilema de votarem a favor ou contra Messias para o Supremo. Além de Messias ser identificado com uma corrente mais “punitivista” do Direito, o apoio de André Mendonça – relator do caso Master no STF – fez todo mundo pensar que talvez não fosse uma boa “presentear” o ministro do Supremo com mais um aliado.

Como todo mundo ali sabe o que fez nos verões passados, a maioria deve ter pensado que era melhor rejeitar Messias e mandar um “recado” para o Supremo de que o Congresso vai reagir caso as investigações do caso Master sigam adiante. O fato de os votos contrários terem ultrapassado por um voto a maioria absoluta do Senado (42 senadores) é um indicativo claro de que os senadores queriam demonstrar aos ministros do STF que, se a coisa apertar muito, a palavra amaldiçoada “impeachment” poderá ser manejada contra eles.

3 – O erro de cálculo de Lula

Nenhum fator, entretanto, pesou mais para a rejeição de Messias para o Supremo do que o clamoroso erro de cálculo de Luís Inácio Lula da Silva. Ele, que fez fama e carreira sendo reconhecido como um político de faro fino e sentido político apurado, parece ter confiado nas análises irrealistas da sua corte palaciana de que o Advogado-Geral da União tinha votos para ser aprovado.

Brasília, toda a gente sabe, é uma cidade que convida à bolha. No deserto vermelho do Planalto Central, a falta de humidade do ar parece provocar dificuldades nas sinapses, fazendo com que até gente boa fique refém das próprias convicções. Quando a essa circunstância geográfica se junta a bolha da esquerda petista, os riscos de acreditar numa realidade imaginária ficam ainda mais perigosos. Foi o que aconteceu no caso de Messias.

4 – O “candidato errado” no timing errado

Essa culpa, porém, não reside somente da bolha petista palaciana. Ela também é do próprio Lula. Eleito com a promessa de uma “Frente Ampla” para superar o desgoverno bolsonarista, Lula parece ter esquecido que não foi ele quem ganhou a eleição; foi Bolsonaro quem perdeu. Só isso explica a soberba de indicar para as duas primeiras vagas abertas na Suprema Corte seu advogado pessoal (Cristiano Zanin) e seu Ministro da Justiça (Flávio Dino). A indicação do advogado-geral da União para a terceira vaga deixou claro que Lula não estava em busca de indicar o melhor candidato para o Supremo, mas, sim, de construir uma bancada particular no STF para não passar pelos mesmos perrengues que passou, por exemplo, com Dias Toffoli, também ele seu ex-AGU.

Uma indicação assim, tão partidária, só faria sentido se o governo dispusesse de grande apoio popular (Lula II, por exemplo) ou, sendo impopular, tivesse absoluto controle do Congresso (como Michel Temer). Lula está em um dos pontos mais baixos de popularidade de toda a sua carreira e nunca, neste terceiro mandato, conseguiu sequer ter uma base minimamente estável no parlamento. Mesmo assim, Lula achou que dava pra trucar o presidente do Senado. Alcolumbre pagou pra ver. O governo não tinha cartas.

A rejeição de Jorge Messias, portanto, coroa uma sucessão de erros primários difíceis de serem compreendidos quando se trata de alguém em seu terceiro mandato presidencial e um partido que está na quinta gestão da presidência. Messias não era exatamente o mais popular dos candidatos, mas não caiu por defeitos próprios, mas, sim, por culpa da falta de articulação do governo.

Se há alguma lição a se tirar dessa derrota histórica é fazer com que o Planalto saia do seu estado catatônico de alienação total da realidade e caia na real. Ainda dá tempo de mudar de rumo e impedir uma derrota desastrosa na eleição de outubro. Desde que assumiu, Lula preferiu ficar circunscrito ao nicho eleitoral de uma certa esquerda, que vive dentro de uma bolha, ao invés de governar para a maioria que o elegeu.

Deu no que deu.

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E já que amanhã é dia do trabalho…

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Pensamento do dia

Atribuir à vontade divina aquilo que nasce da ação humana é uma forma de escapar ao próprio juízo.

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Trilha sonora do momento

Será que a ficha cai agora?

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Pensamento do dia

Saudade é um barulho ensurdecedor no volume zero.

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Reflexões sobre a ascensão da IA, ou Os riscos da criação de um “obsoletariado”

Assim como a criação do computador pessoal nos anos 80, o surgimento da Internet nos anos 90 e a explosão das redes sociais nos anos 2000, a ascensão da Inteligência Artificial do último ano para cá promete transformar completamente a realidade econômica e a sociedade em que vivemos. Hoje, a “disputa” entre IAs já abandonou o campo do embate capitalista para ganhar feições quase de afeto. Tal qual um time de futebol ou o político de preferência, por exemplo, já há gente discutindo que a “sua” IA é melhor do que a do outro.

Mas alguém já parou para pensar nos riscos envolvidos com a transformação prometida pela Inteligência Artificial?

Foi o que fez o colunista da Folha de São Paulo Álvaro Machado Dias. Em um vídeo que tem circulado no Instagram e afins nos últimos dias, o neurocientista propõe um desafio inquietante: analisar os impactos que a IA trará não só para a economia, mas também para a própria democracia mundo afora.

Não se trata, por óbvio, de desenhar cenários apocalípticos, como a Skynet de O Exterminador do Futuro ou as máquinas de Matrix assumindo o controle da humanidade. O desenho proposto por Álvaro Machado Dias é bem mais banal e prosaico, embora (quase) igualmente pessimista e assustador.

O colunista da Folha começa sua tese rememorando o que aconteceu com a República Romana após o triunfo definitivo sobre Cartago. Com o fim das guerras púnicas, Roma expandiu de maneira absurda seus domínios e viu seu mercado interno ser inundado por uma quantidade colossal de escravos. À primeira vista, parecia o paraíso econômico. Os escravos constituíam uma mão de obra abundante (eram muitos) e barata (não se pagava a eles, exceto por sua parca subsistência). Era o sonho de qualquer executivo neoliberal: baixíssimo custo de manutenção da força de trabalho e alta rentabilidade para os donos do negócio.

Tudo muito bom, tudo muito bem, certo?

Errado.

Com a abundância de escravos, obviamente houve uma diminuição da demanda por trabalho assalariado. Como resultado, os cidadão romanos das classes menos abastadas começaram a experimentar um problema muito familiar aos cidadãos do mundo inteiro hoje em dia: desemprego estrutural em massa.

Embora não se pudesse dizer que ali havia o capitalismo como ideologia econômica, o fato é que as consequências do cálculo matemático à época eram os mesmos de agora. Por que um patrício rico pagaria o salário de um agricultor, de um criado ou de um ferreiro quando havia centenas de escravos aptos a realizar o mesmíssimo trabalho de graça?

O resultado dessa equação não poderia ser outro senão a destruição da pirâmide social e perda de coesão do tecido social. Os ricos ficaram absurdamente mais ricos, monopolizando terras e a produção em grandes latifúndios, enquanto os pobres ficaram ainda mais miseráveis. No meio disso tudo, a classe média romana sofreu o que podemos chamar de um profundo esvaziamento existencial. Seus membros não eram mais necessários para fazer a engrenagem da economia girar. Sem trabalho e sem capital, seus membros foram reduzidos a meros espectadores da própria história.

Como era de se esperar, o esmagamento da classe média, o aumento abissal da desigualdade e a insatisfação crônica da população criaram o caldo perfeito para o populismo extremo. De acordo com Álvaro Machado Dias, a República Romana, que antes se orgulhava de suas próprias instituições, soçobrou diante do peso ressentimento social. O caos abriu as portas para o fim da República e para o surgimento do Império. Nascia a “era dos 12 Césares”, com a supressão das liberdades cívicas em troca de uma suposta ordem e estabilidade.

Nesse contexto, o paralelo com os dias atuais não parece muito forçado. Pelo menos em um primeiro momento, não teremos robôs destinados a substituir humanos em trabalhos braçais (até porque os robôs que passam roupa e varrem a casa custam caríssimo). Entretanto, gente como o contador, o redator, o programador júnior, o analista financeiro e o advogado júnior devem começar a colocar suas barbas de molho. A Inteligência Artificial, em um futuro bem próximo, poderá substituir toda essa gente, como uma nova força de trabalho inesgotável e quase sem custo.

São justamente as pessoas cujos ofícios entrarão em xeque com a ascensão da IA que o colunista Álvaro Machado Dias identifica como integrantes de uma futura nova classe social: o “obsoletariado”. Ele será formado por pessoas altamente qualificadas, que estudaram durante anos em escolas, faculdades e especializações, mas descobrirão de forma mais cruel possível que suas inteligência orgânicas “comuns” não serão páreo para o custo-benefício de servidores que rodam em nuvem.

Assim como ocorreu na Roma Antiga, os riscos são de que empurrar uma parcela gigantesca da sociedade para a “obsolescência” laboral e, consequentemente, econômica, redundará em desespero. Uma classe média empobrecida, esvaziada economicamente e sem perspectiva de futuro é um prato cheio para populistas autoritários que prometem soluções mágicas.

Não por acaso, todos – TODOS – os casos de fascismo no século XX (e também no século XXI) ocorreram através do surgimento de líderes messiânicos em cenários de convulsão social. Se não debatermos seriamente como lidaremos com o advento desse novo “obsoletariado”, corremos o sério risco de reviver os horrores dos anos 20 e 30 do século passado. Dessa vez, porém, será pior.

Muito pior.

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Trilha sonora do momento

Tem horas que só Cazuza salva…

Vamos pedir piedade

Senhor, piedade…

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Pensamento do dia

Talvez a vida seja sobre se rodear de arte e pessoas queridas para se sedar em meio aos horrores deste mundo.

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Trilha sonora do momento

Entendedores entenderão.

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Pensamento do dia

Até um par de asas se torna um peso quando não se tem coragem.

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