Foi o que restou a Eduardo Leite, infelizmente.
Uma pena…
Foi o que restou a Eduardo Leite, infelizmente.
Uma pena…
Se você me quer em sua vida, coloque-me nela. Não sou eu quer deveria estar lutando.
Há exatamente um ano, a análise era essa.
Passados doze meses, a conclusão continua a mesma. Só está mais reforçada.
É o que você vai entender, lendo.
Publicado originalmente em 6.3.25
Da onde menos se espera, daí é que não vem mesmo. Tal é o sentimento de quem assiste aos movimentos erráticos de Donald Trump nos últimos dias. À semelhança de um elefante numa loja de porcelanas, o Nero Laranja parece firme no propósito de desestruturar todo o sistema geopolítico estabelecido após o final da II Guerra Mundial. Para explicar melhor o tamanho da confusão em que o Laranjão está nos metendo, vamos voltar um pouquinho no tempo.
Desde antes da descoberta das Américas, as grandes potências do mundo – todas européias – digladiavam-se pelo domínio dos mares, dos continentes e, portanto, da riqueza produzida no globo. Nessa época, o mundo assistiu, sucessivamente, países como Portugal, Espanha ou Holanda brigando pelo monopólio do comércio de especiarias ou simplesmente pela produção do açúcar derivado da cana.
Com o tempo e o desenvolvimento de novas tecnologias, essa briga passou para outras coisas, como ouro e pedras preciosas. O pano de fundo, porém, continuava o mesmo: às potências coloniais importava dominar mais e mais territórios para, com isso, ganhar mais e mais dinheiro, que, por sua vez, financiaria o domínio de mais territórios. Foi com essa “metodologia”, por exemplo, que o Reino Unido tornou-se o “Império onde o sol não se põe”.
Obviamente, tudo isso não veio de graça. Uma vez que a “repartição” do mundo não se dava à margem de disputa entre as próprias potências, era essencial que elas se armassem até os dentes para enfrentar a oposição externa. Foi essa corrida armamentista que deu origem à I Guerra Mundial e, apenas vinte anos depois, à II Guerra Mundial.
O desmantelo causado pela segunda grande guerra foi tão gigantesco que as grandes potências vencedoras daquele conflito – Estados Unidos, de um lado, e União Soviética, do outro – resolveram que era preciso dar um basta nisso. Nas duas principais conferências realizadas após o fim da guerra – Yalta e Potsdam – definiu-se que o mundo seria basicamente dividido em duas zonas de influência: uma, comandada pelos americanos; outra, comandada pelos soviéticos.
Mas como essa ordem seria estruturada?
Simples: os países mais “problemáticos” – Alemanha e Japão – seriam literalmente ocupados, para que não se rearmassem e trouxessem caos de novo ao mundo. A Alemanha foi retalhada em quatro pedaços (EUA, França, Inglaterra e URSS). Já o Japão ficou sob domínio norte-americano até 1952, quando o chefe da ocupação, General Douglas MacArthur, outorgou a constituição pacifista que vigora até hoje em solo nipônico. O resto do planeta ficaria sob a proteção do bedel do seu lado (EUA ou URSS)
Obviamente, houve custos nesse rearranjo mundial. Para que nenhum desses estados se sentisse tentado a se rearmar com base na ameaça de uma invasão soviética, os americanos resolveram assumir o papel de “polícia do mundo”. Em caso de necessidade (uma invasão soviética, por exemplo), os americanos se comprometiam a entrar na parada para defendê-los. Daí as dezenas de bases americanas espalhadas pelo continente europeu e pela Ásia, inclusive com a instalação de mísseis nucleares, para fazer frente ao colosso soviético. Fora isso, criou-se um fórum mundial para discutir as coisas a nível diplomático – a famosa Organização das Nações Unidas –, de modo a pelo menos tentar evitar que o mundo se precipitasse novamente no abismo de um conflito mundial.
Pode-se reclamar da preponderância de apenas dois países e de muitas outras coisas nessa ordenação geopolítica. Um fato, porém, é incontestável: oitenta anos depois da rendição do Japão, nunca mais o mundo presenciou uma guerra a nível mundial. O que Trump está fazendo nos últimos dias, em resumo, é jogar tudo isso fora.
“Para colocar o que no lugar?”
Ninguém sabe. Não se sabe sequer se o Laranjão possui alguma estratégia de fundo, para além da destruição pura e simples do atual sistema de governança global. Para quem olha de fora, parece simplesmente que o Nero dos nossos tempos quer simplesmente botar fogo no circo, tacar um VSF pro mundo e liberar o “cada um por si” geopolítico.
Os riscos dessa nova “era” parecem evidentes, mesmo para quem não entende bulhufas de geopolítica. Se a Rússia pode invadir um país menor em busca de expansão territorial e da posse de suas riquezas – e, ainda assim, sair impune e vitoriosa dessa empreitada -, o que impedirá, por exemplo, a China de tentar o mesmo com Taiwan? Até o último presidente norte-americano, havia a certeza de que os Estados Unidos viriam em socorro da “província rebelde” chinesa. Agora, quem pode dar essa garantia?
Sempre é bom lembrar que a metáfora da geopolítica como um “jogo de xadrez” global é bastante imprecisa. O mundo não é um tabuleiro dividido entre peças pretas e brancas. Cada “movimento” possui impactos diretos na vida do cidadão comum. As decisões que são tomadas nesse contexto vão muito além de um xeque para induzir o adversário em erro. Elas são capazes de alterar profundamente o modo como o futuro à nossa frente se constrói.
A idéia vendida por Trump de que os Estados Unidos vêm sempre em primeiro lugar e agora é cada um por si pode até render um bom slogan de campanha, mas pode muito bem voltar-se como um bumerangue contra os próprios interesses norte-americanos. Se ninguém pode mais confiar nos Estados Unidos como aliados, quem vai voltar a fazer negócio com eles? O tratamento ora dispensado a México e Canadá desaconselha qualquer país com o mínimo de senso a se aproximar dos americanos.
No fim das contas, as mudanças que Donald Trump está trazendo para a geopolítica não são só uma questão de política interna norte-americana. Assim como previsto aqui, elas são um sinal de que estamos entrando em uma nova era, de caos e desordem. E a pergunta que fica é: estamos preparados para essa nova ordem global?
É isso.
O Mounjaro veio para provar que a galera do “aceite seu corpo” nunca aceitou coisa nenhuma. Era só preguiça de fazer dieta e de treinar.
A entrada dos Estados Unidos na guerra do Vietnã foi um desastre em slow motion. Começou com o envio de “observadores” para a antiga Indochina sob domínio francês, após as tropas gaulesas se retirarem do país. Com receio de que a região inteira caísse sob o jugo comunista – afinal, a China maoísta estava ali ao lado -, os americanos pouco a pouco foram expandindo suas operações em terras vietnamitas, até que o famoso incidente no Golfo de Tonkin, quando um contratorpedeiro norte-americano foi supostamente afundado por barcos vietcongues, fez o caldo entornar de vez.
Dali em diante, todos os presidentes americanos só tinham uma resposta para problemas no Vietnã: mandar mais tropas. Quanto mais gente morria, mais soldados eram enviados. Quanto mais soldados morriam, mais os ianques bombardeavam a população civil vietnamita. Quando a situação já alcançara patamares horrorosos, mas ainda não desesperadores como seriam no final, um senador republicano do estado de Vermont veio com uma “solução” genial: os americanos deveriam simplesmente declarar vitória e tirar o time de campo.
Obviamente, a declaração foi ridicularizada à época. Ninguém acreditava que seria possível dizer que havia ganhado uma batalha que os americanos estavam claramente perdendo e dar o caso por encerrado. Olhando em retrospecto, contudo, é impossível negar que teria sido melhor adotar essa saída fajuta do que permanecer numa guerra perdida, sabendo que milhares de pessoas iriam morrer. Esse, talvez, é o pensamento que esteja perpassando pela mente do staff de Donald Trump.
Tendo começado uma guerra sem base concreta que amparasse os ataques, nem muito menos objetivos predefinidos, o Laranjão agora vê-se na delicada situação de estar metido numa enrascada sem saber como sair dela. A idéia inicial era óbvia: matar toda a liderança iraniana pensando que, assim, os persas se dobrariam à vontade da Roma dos tempos modernos. Deu certo na Venezuela, com o sequestro de Maduro, por que não daria certo no Irã, com o assassinato de Khamenei? Quase um mês depois de iniciado o conflito, o Nero Laranja está descobrindo da pior forma possível que, nas areias quentes do Oriente Médio, o buraco é mais embaixo.
Sem ter como retaliar diretamente os Estados Unidos do ponto de vista militar, os iranianos resolveram atacar na parte mais sensível do corpo humano: o bolso. Fechando o estreito de Hormuz, o Irã fez disparar o preço do petróleo. Pode parecer pouca coisa para quem não é versado em economia mundial, mas sendo o mundo basicamente movido a ouro negro, o aumento do preço dessa commodity impacta diretamente quase todos os outros preços da economia. Subindo o preço, sobe a inflação. Subindo a inflação, sobem os juros. Logo, as dívidas – inclusive as dos governos – ficam mais caras e a população tende a gastar menos. A persistência desse cenário conduz inevitavelmente a uma recessão econômica, o pior dos cenários para qualquer político, como é o caso de Donald Trump.
Sabendo disso, o Laranjão trabalhava com o cenário de uma guerra curta, duas a três semanas no máximo. Mataria todo mundo, tocaria o terror geral e, depois, mudaria o regime dos aiatolás. Se isso não acontecesse, no “pior” cenário os persas colocariam no governo alguém disposto a dobrar os joelhos aos norte-americanos, como aconteceu com a vice de Nicolas Maduro, Delcy Rodrigues.
Não aconteceu nem uma coisa nem outra. Nem houve mudança de regime (nem há qualquer sinal de que isso venha a acontecer no futuro próximo), nem a liderança que emergiu após o assassinato de Khamenei se mostrou disposta a negociar com os agressores ianques. Pelo contrário. Os ataques não só recrudesceram o regime dos aiatolás, como, ainda, deram-lhe de presente uma posição de imensa vantagem. Ao fechar o estreito de Hormuz e interromper o fluxo de 1/5 das exportações mundiais de petróleo, os iranianos agora encontram-se numa situação em que, se a guerra se prolongar, a situação piora não para eles, mas para os Estados Unidos.
Exatamente por conta disso, temos assistido a movimentos completamente erráticos do Laranjão nos últimos dias. Primeiro, ele deu um “ultimato” de que, caso os iranianos não liberassem o estreito de Hormuz em 48h, ele iria bombardear toda a infraestrutura de energia do país (o que é crime de guerra, de acordo com a Convenção de Genebra). Com os mercados financeiros em pânico, ele “adiou” o ultimato perto do fim do prazo, estendendo o prazo até esta sexta-feira. Agora, às vésperas de vencer novamente o prazo, agora adiou o “ultimato” para o dia 6 de abril.
Curiosamente, nos dois casos a justificativa para o recuo do ultimato foi o fato de que estaria havendo negociações entre os Estados Unidos e uma suposta “cúpula” do Irã. Entretanto, o Irã não confirmou que estivesse disposto a fazer um acordo. Pior. Negou até que conversas entre os dois países estivessem ocorrendo. Desmontando a farsa armada, os iranianos apontaram a alegação de supostas conversas de paz como uma estratégia do Laranjão para ganhar tempo e evitar uma subida do preço do petróleo.
A preços de hoje, a verdade é que o Irã não tem qualquer razão para fazer um acordo. O país foi atacado, sim, e grande parte de sua infraestrutura militar está devastada. Contudo, o regime não caiu (longe disso) e os contra-ataques com mísseis e drones fizeram estrago suficiente na vizinhança. Fora isso, o maior instrumento de pressão que ele tem é justamente manter o preço do petróleo elevado. Se eles assinam um cessar-fogo agora, o preço desaba no minuto seguinte. Para “vencerem” a guerra, eles precisam manter a pressão elevada na economia mundial.
Rodopiando no palco como barata tonta e com falas cada vez mais desconexas, Trump insiste que os iranianos estariam “desesperados” para fazer um acordo. Com um ego que só não é maior do que o seu topete, Trump jamais admitiria publicamente que “recuou” ou que foi batido. Talvez em algum momento, entretanto, algum assessor tenha que lhe soprar no ouvido:
“Presidente, por que o senhor não declara simplesmente vitória e dá o fora dali?”
Vai ser igualmente patético, mas pelo menos o estrago econômico e a quantidade de vidas perdidas seria menor.
A gente joga bola e não consegue ganhar!
Se o sistema é desumano, mantenha-se humano. Isso é resistência.
E já que hoje é Data Magna do meu querido Ceará, vamos a esse clássico da terra do Ednardo.
Não adianta nada meditar uma hora por dia e ser babaca nas outras vinte e três.
#FicaaDica