E já que estamos nos aproximando dos festejos mominos, que há muito abandonaram o conceito cristão do início da quaresma para se tornarem a maior festa popular do país, talvez valha a pena revisitar uma das seções mais antigas deste espaço: a sempre incompreendida Religião. Como normalmente o carnaval está associado a pecados mundanos e, em alguns casos, a excursões mais radicais pelos nove círculos do inferno, essa é uma boa oportunidade para revisitar dois grandes mitos que, até hoje, são difundidos como “verdade” nas igrejas deste mundo.
Para um mito tão aterrorizante, o inferno tem uma origem surpreendentemente modesta. Na origem, ele não passava de um lixão nos arredores de Jerusalém. O Vale de Hinnom — “Geena”, em grego — era o local onde corpos de criminosos eram incinerados e o lixo comum era queimado. O ambiente era pútrido, fétido e sobretudo desagradável. Não havia nada ali que sugerisse que, um dia, ele se tornaria berço do império subterrâneo de um fantasioso tirano portando um tridente.
Com efeito, a criação do mito do inferno é um caso clássico de sincretismo teológico. Antes de Cristo, a noção hebraica de pós-vida era o Sheol, uma existência subterrânea e desbotada onde todos — justos e ímpios — partilhavam o mesmo destino. Não havia fogos eternos, muito menos hierarquia de suplícios. Foram influências persas (zoroastrismo), gregas (Hades) e a memória traumática dos sacrifícios infantis no Vale de Hinnom que gradualmente moldaram o que hoje chamamos de “inferno”.
Quando abrimos o Novo Testamento, a palavra “inferno” é uma tradução problemática para três conceitos distintos: Hades (o submundo grego), Tártaro (abismo) e Geena (o vale). É nesta última que Jesus mais se apóia. Mesmo assim, a idéia de um submundo eterno de tortura, sistematizado e hierarquizado, é obra de séculos de elaboração teológica posterior, não de exegese bíblica.
Se o inferno é um lixão que foi “promovido”, o diabo é um funcionário público demitido sem justa causa. A figura que hoje conhecemos como “Príncipe das Trevas” e que ocupa o lugar teológico de “adversário direto de Deus” é, na verdade, um mosaico formado por peças que originalmente não lhe pertenciam.
No Antigo Testamento, Satanás não é o arqui-inimigo de Deus. Ele é simplesmente ha-satan (“o adversário”). Trata-se de um título, não de um nome próprio. Curiosamente, nos textos mais antigos das Escrituras Hebraicas, não há sequer vestígio de um arqui-inimigo divino. Foi somente a partir do “encontro” com o zoroastrismo, durante o exílio persa, que se introduziu no imaginário judaico o conceito de uma dualidade cósmica entre o “Bem” e o “Mal”.
Como se isso não bastasse, as passagens bíblicas mais comumente referenciadas como a descrição do “anjo caído” – Isaías, capítulo 14; e Ezequiel, capítulo 28 – nada dizem sobre anjos rebeldes. Seus destinatários originais eram reis terrestres (o soberano da Babilônia e o príncipe de Tiro). Foram leituras muito posteriores, ávidas por encontrar um enredo para o protagonista que então se desenhava, que transformaram trechos poéticos sobre monarcas caídos numa biografia não autorizada do demônio. Há, na criação desse mito, uma tentativa nem um pouco disfarçada de se criar uma “guerra celestial” que o texto original da bíblia desconhecia.
Mas o mais espetacular equívoco desta história toda atende pelo nome de “Lúcifer”.
De fato, em Isaías 14.12, o texto em hebraico traz a palavra helel, um termo raríssimo que significa “estrela da manhã” ou “astro brilhante”. Quando São Jerônimo traduziu a Bíblia para o latim (a nossa famosa “Vulgata”), verteu helel como lucifer — que, em latim, significa simplesmente o nome do planeta Vênus ao amanhecer. Não há, portanto, qualquer conotação “demoníaca” no texto original em hebraico.
Como desgraça pouca é bobagem, séculos depois os tradutores da versão em inglês da King James’ Bible, ao se verem diante de uma palavra tão incomum, resolveram não a traduzir. Simplesmente fizeram a transliteração da palavra do latim para o inglês. Resultado: “lúcifer” deixou de ser um fenômeno astronômico e tornou-se “Lúcifer”, um nome próprio.
E sabe qual o detalhe mais constrangedor? Na Segunda Epístola de São Pedro, o mesmo termo (lucifer) é usado por São Jerônimo para se referir a Jesus Cristo. No original de 2 Pedro 1:19, “donec dies elucescat, et lucifer oriatur in cordibus vestris” (“até que o dia amanheça e o lucifer se levante em vossos corações”). Ou seja: os mesmos tradutores que batizaram Satanás também chamaram Jesus de “estrela da manhã”. Obviamente, ninguém até hoje sugeriu que o apóstolo Pedro estivesse a fazer invocação do demônio nessa passagem.
Há algo de tragicômico nisso. A mais famosa alcunha do Tinhoso nasceu de um tradutor que não quis se comprometer e de uma equipe editorial que optou pelo caminho mais preguiçoso. Se tivessem traduzido corretamente, leríamos Isaías 14:12 como uma sátira a um imperador megalomaníaco, não como o currículo do “Príncipe das Trevas”.
A bem da verdade, a Igreja Católica não inventou os mitos do inferno e do diabo do nada. Com a paciência de séculos, ela tomou emprestado um lixão judaico, um deus persa do mal, um título de cortesia celestial e um erro de tradução renascentista, e costurou tudo num sistema teológico tão coeso quanto fictício. Imaginária na concepção, a estratégia revelou-se brilhante na sua eficácia. Povos inteiros aprenderam a temer um local que não existe, governado por uma entidade que começou a carreira como inspetor de conduta e foi promovido a imperador das trevas por engano.
Se Lúcifer foi um erro de tradução, talvez devêssemos considerar seriamente uma campanha pelo resgate da memória de São Jerônimo. Afinal, não é todo dia que um monge erudito cria, sem querer, o maior antagonista da história ocidental simplesmente por descrever o céu da manhã.