Recordar é viver: “Copa das Copas?, ou Qualidade x Emoção”

Já não podemos dizer mais que tivemos a copa mais emocionante de todos os tempos.

E, ao contrário da Copa de 2014, essa agora tem aliado qualidade à emoção.

É o que você vai entender, lendo.

Copa das Copas?, ou Qualidade x Emoção

Publicado originalmente em 2.7.14

Quem dissesse que estava esperando o que se viu desde que a Copa do Mundo começou estaria mentindo. Tudo bem que ninguém esperava algo semelhante à horrorosa Copa de 2010, mas o nível de futebol praticado nas primeiras rodadas do Mundial do Brasil tem se mostrado assustadoramente alto. Jogadas geniais, viradas de placar e uma quantidade de gols que não se via desde a Copa de 1982. Enfim, todos os ingredientes para que se possa dizer, sem medo de errar, que, dentro de campo, a Copa tem sido um sucesso. Mas será esta a melhor Copa de todos os tempos, a “Copa das Copas”?

Nesse ponto, a porca entorta o rabo.

Deixemos de lado, por ora, a constatação evidente de que o Mundial ainda não se encerrou (ainda vamos assistir às quartas-de-final). Como a última impressão – nesse caso, o jogo final – é o que normalmente fica, é ainda arriscado fazer um prognóstico definitivo de como esta Copa será vista daqui a uma ou duas décadas. Mesmo assim, o apanhado geral já permite esboçar algum tipo de análise quanto ao tipo de futebol jogado até o momento

Diferentemente de outros mundiais, não há uma “seleção sensação”. Nenhum time encantou ainda o público, ou, pelo menos, nenhum o fez de forma consistente. Ao contrário, por exemplo, da Hungria de 54 e da Holanda de 74, que massacraram todos os seus adversários até perderem a final contra a Alemanha, não há nenhuma seleção impondo seu jogo às demais. Promessas da primeira fase, como a Holanda (5×1 na Espanha) e Alemanha (4×0 em Portugal), penaram nos jogos seguintes e, em ambos os casos, passaram às quartas com as calças na mão, jogando contra adversários teoricamente mais fracos (México e Argélia).

Por outro lado, esse aparente equilíbrio geral tem gerado partidas emocionantes. Tivemos quase 10 jogos com viradas de placar. Grande parte dessas viradas ocorreu nos últimos quinze minutos de partida. Pra melhorar, cinco dos oito jogos das oitavas foram à prorrogação, com as partidas sendo decididas nos derradeiros cinco minutos de disputa (vide os casos já citados de Alemanha e Holanda). Somando-se a isso tudo a boa média de gols até aqui, pode-se dizer que emoção é o que não está faltando na Copa de 2014.

Mas é possível dizer que esta é a melhor Copa de todos os tempos?

Bom, se nós entendermos “melhor” como a de “maior qualidade técnica”, a resposta é um sonoro não.

Em muitas partidas, vê-se uma quantidade razoável de gols, mas disso não decorre necessariamente um jogo de alto nível técnico. Por exemplo: Itália 2 x Inglaterra 1 foi um jogo muito melhor do que Argélia 4 x Coréia do Sul 2, embora tenha contado com metade dos gols desta partida.

Embora seja sempre temeroso comparar gerações distintas, a Copa de 1970 continua ostentando o primeiríssimo lugar no ranking de “Melhores Copas de Todos os Tempos”. Não só porque o Brasil tinha uma seleção com Pelé, Rivellino, Tostão e Gérson, mas porque a Alemanha tinha Beckenbauer, a Itália tinha Gigi Riva e até mesmo o modesto Peru tinha Cubillas para encantarem o público. Fora isso, os dois jogos mais emocionantes da história das Copas – segundo votação mundial realizada pela Fifa – são justamente da Copa de 70: Itália 4 x Alemanha 3 na semifinal; e Brasil 4 x Itália 1, na final.

Depois de 1970, a Copa de 82 aparece ainda em um mui honroso segundo lugar. Claro que, nesse quesito, pesa muito o Brasil do quarteto mágico Zico-Sócrates-Falcão-Cerezo. Mas há ainda de se considerar a França de Platini, Fernandéz e Tigana, a Argentina de Maradona e Passarella, a Alemanha de Matthäus e Müller e a própria Itália de Conti e Paolo Rossi. O posto vem não porque todos eram craques da bola, mas porque protagonizaram duelos tecnicamente impecáveis, como a semifinal Alemanha 3 x França 3 (5 x 4 nos pênaltis).

Hoje, pelo menos na minha modesta opinião, o terceiro lugar fica com a Copa de 1998. O Brasil nem tinha uma seleção das melhores, mas várias seleções apresentaram um futebol de primeira, que dava gosto de ver: Inglaterra (Beckham), Argentina (Verón), Dinamarca (Laudrup) e, obviamente, a França (Zidane). Alguns jogos ainda não me saíram da memória e entrariam fácil na lista dos mais-mais das paradas: Brasil x Dinamarca, Inglaterra x Argentina e Brasil x Holanda, só pra citar três.

Com alguma sorte, se as retrancas inevitáveis das fases finais não atrapalharem, podemos passar a Copa da França e tomar-lhes o terceiro lugar. Mas é quase um sacrilégio desportivo chamar esta Copa de “a melhor da história”. Poderemos nos orgulhar, no entanto, de termos sediado o Mundial mais emocionante de todos os tempos.

E esse título, pelo menos pelo que se viu até agora, já está no papo. É só esperar pra ver

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Trilha sonora do momento

Simplesmente “A” história da Copa até agora.

Cabo Verde deixará muita sodade

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Pensamento do dia

Quando alguém não é pra você, vai te machucar até que você entenda.

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A Noite das Astronautas, ou A hipocrisia do mundo político brasileiro

Reza a lenda que as duas profissões mais antigas do mundo são a política e a prostituição. Em ambas, mercadejam-se corpos (ou mentes) em troca de dinheiro. Se elas cresceram através da História em mundos paralelos, é certo que, em determinadas esquinas, elas acabam por se cruzar. É a conclusão a que se chega de quem procura analisar a famigerada Noite das Astronautas.

Para quem ainda não está por dentro do babado, o caso é relativamente simples. Em maio de 2024, durante a Brazil Week em Nova York — um convescote de ricaços, políticos e lobistas —, Daniel Vorcaro, então dono do Banco Master, organizou uma sequência de eventos de luxo para, digamos, “entreter” seus convidados. O esquema era semelhante às antigas festas dos gregos ao Deus do vinho, Dionísio. “Importado” para Roma, Dionísio virou “Baco”, e o substantivo das festas em seu louvor ganharia o nome que seria conhecido pela infâmia: bacanal.

Para uma dessas festas, os organizadores da Vorcaro Suruba & Eventos preparam algo especial. Numa suíte presidencial de um famoso hotel da 5ª Avenida, russas e ucranianas circulavam com macacões prateados e capacetes de astronauta. De acordo com o ex-governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho, o “ritual de escolha” era simples: como se estivesse em um buffet de carne humana, o convidado aproximava-se da cortesã, levantava a viseira do capacete e anunciava “essa aí que eu quero”.

Além dos Farialimers de sempre e toda a fauna que costumava cercar o ex-dono do Banco Master, também esteve presente ao evento a nata da elite política brasileira. Dentre eles, inclusive, gente que supostamente “defende a família”, segundo o relato de Garotinho. A conta da brincadeira chegou a quase R$ 4 milhões, de acordo com a Polícia Federal.

Vorcaro, é bom lembrar, não é simplesmente um banqueiro esbanjador que gostava de torrar grana em festas nababescas. É o ex-controlador do Banco Master, investigado por organização criminosa, corrupção e fraudes bilionárias que causaram um rombo estimado em dezenas de bilhões ao Fundo Garantidor de Créditos. E, ao que tudo indica, enquanto desviava bilhões de pessoas físicas incautas, usava parte do ervanário para bancar festas com autoridades públicas em Manhattan.

“E daí?”, pode estar se perguntando você.

Daí, respondo eu, que a coisa vai além dos bacanais propriamente ditos. Toda vez que aparece alguma coisa do gênero no meio de um escândalo político, a galera faz uma espécie de “pacto de silêncio” em torno do assunto. Não se trata, apenas, dos adversários políticos, mas engloba boa parte da imprensa, da polícia e até da população. O argumento, claro, é de que isso não seria de “interesse público”, pois estaria inserido na esfera da vida privada dos envolvidos. Poucas coisas podem ser mais cínicas do que esse “entendimento”.

Quando um bandido como Daniel Vorcaro gasta R$ 4 milhões de reais numa só noite para “entreter” parlamentares, o nome que se dá a isso não é “hospitalidade”. É “cooptação”. Ainda que o caso ficasse restrito ao pagamento de prostitutas para satisfazer a lascívia imoral – e não há razão alguma para crer que o negócio acabaria por aí -, ainda assim estaríamos tratando de propina gasta por um empresário inescrupuloso na esperança de obter algum benefício futuro de autoridades públicas.

E tem mais. Supondo que de fato existam os tais vídeos sobre as festas de que todo mundo – inclusive Anthony Garotinho – fala, quem garante que todo essa orgia coletiva não passava apenas de um instrumento simples de chantagem? Político mentir para seu eleitor é arte que o sujeito aprende tão logo veste o paletó. Mentir para a mulher com a qual compartilha o leito são outros quinhentos. E, nesse caso específico, as consequências tendem a ser muito mais funestas.

Como se isso não bastasse, segundo consta a Noite das Astronautas não foi um episódio isolado. Até agora ele é “apenas” o mais famoso. A PF já documentou uma agenda inteira de “eventos de entretenimento político” patrocinada por Vorcaro em cidades como Londres, Nova York e Trancoso. O que se sabe, portanto, é nada. O que está por vir provavelmente será muito pior.

Não por acaso, foi nesse ambiente que Michelle Bolsonaro resolveu jogar no ventilador seu vídeo contra Flávio Bolsonaro. Na segunda-feira, a ex-primeira-dama repostou o vídeo de Garotinho nos seus stories com uma frase enigmática: “A verdade de Jesus Cristo vai prevalecer”. O post sumiu logo depois, mas o recado ficou.

No contexto da crise políticacom o enteado — que a teria “humilhado e maltratado ao telefone” —, a mensagem de Michelle não precisava de legenda. Para piorar, Flávio vestiu a carapuça da acusação. Disse o filho 01 de Bolsonaro que “nunca esteve em festinha de astronauta de Vorcaro”, no típico erro de quem proclama inocência sem ter sido formalmente acusado.

Se Flávio Bolsonaro estava ou não na festa, é algo que saberemos mais hora, menos hora. O fato é que, segundo relatos unânimes de quem já viu o material, cabeças coroadas do sistema político brasiliense foram convivas da esbórnia patrocinada por Daniel Vorcaro. “Quantas e quais?”. Só a investigação poderá revelar.

Ao contrário do que a prega a regra do silêncio sobre a “vida pessoal” dos políticos, a melhor coisa a se fazer no momento seria a Polícia Federal ir a fundo para descobrir quem de fato esteve nessas orgias coletivas patrocinadas pelo ex-dono do Banco Master. Libertinagem paga com dinheiro de banco investigado por fraude bilionária não é “intimidade”. É elemento de crime. Onde há vídeo com autoridade pública em situação comprometedora, de duas, uma: ou há prova de pagamento de propina; ou há um instrumento potencial de chantagem. E mais: se alguém tem cópia desse material, o que está pedindo em troca para não divulgá-lo?

No final das contas, a Noite das Astronautas diz muito mais sobre a nossa política do que qualquer pesquisa eleitoral. Ela comprova que o problema do Brasil não é que seus políticos defendam a família enquanto frequentam orgias pagas por banqueiro preso. Isso é hipocrisia, mas é trivial. O problema é que ninguém — absolutamente ninguém — parece ter achado que havia algo de errado em aceitar o convite.

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Trilha sonora do momento

Se dinheiro na mão é vendaval, imagine em livros ocos de Direito.

Em qualquer caso, teremos aí um Pecado Capital.

#EntendedoresEntenderão

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Pensamento do dia

Evite pessoas que respeitam só quem é rico.

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Trilha sonora do momento

Fiquei triste, não vou mentir…

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Pensamento do dia

Há quem escolha acender uma vela na escuridão. E há quem escolha ser a própria chama.

By Friedrich Nietzsche

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O jus soli norte-americano, ou A decisão da Suprema Corte contra Donald Trump

Já faz muito tempo, mas vale recordar.

Em 1895, um jovem chamado Wong Kim Ark tentou entrar nos Estados Unidos após uma visita à China. Nascido em São Francisco, filho de imigrantes chineses que trabalhavam legalmente no país, Ark foi barrado na fronteira. O argumento era simples: como os pais de Ark não eram cidadãos norte-americanos, ele tampouco o seria.

O problema era que a 14ª emenda dizia o exato oposto. Logo na sua primeira seção, ela diz que “todas as pessoas nascidas ou naturalizadas nos Estados Unidos, e sujeitas à sua jurisdição, são cidadãos dos Estados Unidos e do Estado em que residem”. Depois de uma grande briga nos tribunais, o caso foi parar na Suprema Corte dos Estados Unidos. Em um precedente que entraria para a história como United States v. Wong Kim Ark, a Suprema Corte decidiu que todo indivíduo nascido em solo americano é cidadão. Ponto. Pouco importa, para esse efeito, a situação migratória dos seus pais.

De lá pra cá, nada mudou em termos legais. A Constituição dos Estados Unidos seguem as mesmas. O Nero dos nossos tempos, contudo, preferiu adotar um caminho alternativo. Levando às raias do paroxismo sua “política” de responsabilizar os imigrantes por tudo de mau que há no país, Donald Trump baixou uma ordem executiva dizendo que a cláusula da 14ª emenda que garantiria cidadania a aos nascidos no solo norte-americano porque os filhos de imigrantes irregulares não estariam “sujeitos à jurisdição” americana no sentido que os criadores do texto teriam em mente.

Agindo como o pretendente a imperador que é, o Laranjão pretendeu literalmente reescrever o texto constitucional numa canetada. Obviamente, as cortes inferiores se insurgiram contra a medida. Afinal, a letra da 14ª emenda é muito clara, e mesmo para juízes com inclinações políticas favoráveis ao Nero Laranja sentem-se constrangidos a negar a literalidade do que o vernáculo do texto constitucional diz. Restava, entretanto, a última palavra sobre o assunto da highest court in the land. E ela saiu hoje.

Por 6 votos a 3, a Suprema Corte dos Estados Unidos reafirmou o precedente de 130 anos atrás, quando Wong Kim Ark foi bater às portas do tribunal. Designado por si mesmo para redigir a opinião majoritária, o Chief Justice John Roberts anotou com muita propriedade que “a cidadania é o direito de ter direitos”. Contrariando o que normalmente ocorre em julgamentos de interesse do Laranjão, dois juízes nomeados por ele – Amy Coney Barret e Brett Kavanaugh – alinharam-se aos progressistas para garantir a salvaguarda do texto constitucional.

Do lado contrário, os três dissidentes – os “ídolos” do ultraconservadorismo originalista americano -, Clarence Thomas, Samuel Alito e Neil Gorsuch votaram a favor do Nero Laranja. Para quem tem acompanhado a atuação da Suprema Corte desde quando Trump assumiu pela segunda vez a Casa Branca, a novidade foi zero. Tal qual a antiga banda de música da UDN, esse “trio” nunca desaponta quando a matéria é decepção jurídica.

A reação do Laranjão foi a de sempre. Com o celular na mão, Trump literalmente xingou muito no Twitter. O Nero dos nossos tempos defendeu que o Congresso deveria “começar hoje” a trabalhar numa legislação que acabasse com o direito à cidadania por jus soli, porque, de acordo com ele, “nenhuma Emenda Constitucional longa e trabalhosa é necessária”.

O problema é que, ao contrário do que vociferou o Laranjão nas redes insociáveis, é justamente uma emenda constitucional que garante esse direito. Só se fosse aprovada outra, negando a anterior, que (talvez) seria possível rever o direito à cidadania por direito de solo. A questão é que aprovar uma emenda por lá é muito mais difícil do que aqui no Brasil. São necessários 2/3 de ambas as casas do Congresso, além da ratificação por 3/4 dos estados federados. Não por acaso, os Estados Unidos só têm 27 emendas em 200 anos de Constituição, enquanto nós já vamos com mais de 140 em pouco mais de 40 anos (and counting…).

É curioso lembrar que Trump ficou famoso por difundir, durante a presidência de Barack Obama, uma fake news segundo a qual o então presidente dos Estados Unidos não poderia ocupar o cargo de presidente, por ter supostamente nascido em Gana. Quando confrontado com a certidão de nascimento de Obama, registrado no Havaí, o Laranjão costumava replicar que a certidão não seria prova suficiente de cidadania. Por 6×3, a Suprema Corte acabou de confirmar novamente hoje que sim. Basta para o sujeito nascer lá.

Trump conseguiu, assim, a façanha de ser derrotado duas vezes na mesma causa, com um intervalo de dez anos entre elas: na primeira, quando Obama mostrou sua certidão de nascimento; e hoje, quando a Suprema Corte reafirmou a sua validade. Só resta dizer ao Laranjão e sua trupe:

Parabéns aos envolvidos.

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Trilha sonora do momento

Com a briga escancarada entre Flávio Bolsonaro e Michelle, acho que só tocando Taylor Swift pra ajudar a galera a desopilar um pouco…

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