A radicalização de Flávio Bolsonaro, ou A farsa do “Bolsonaro moderado”

Era algo que estava mais ou menos escrito.

Desde quando começou a campanha, Flávio Bolsonaro quis vender a imagem de moderação. A começar pela distância tomada na questão da vacina contra a Covid – “Ele não tomou. Eu tomei duas doses” – o filho 01 de Jair procurava construir uma persona pública que, a um só tempo, mimetizasse a figura do pai (por razões eleitorais) e dela se afastasse (pelos mesmos motivos).

Essa mágica seria inédita, algo como tirar a cartola de dentro do coelho, justamente em um momento em que a população está p da vida por ter acreditado em ilusionismos. Por conta disso, tinha tudo para dar errado. E de fato deu.

Do ponto de vista da embalagem, o raciocínio até que fazia sentido. Afinal, Flávio é mais jovem que o pai, parece ser menos impulsivo e construiu sua carreira política nas franjas do Centrão. O filho 01 buscaria o eleitor desgarrado da direita, aquele que não aguentava mais ver as lives de Jair defendendo armas, ameaçando o STF e entupindo o governo de generais na tentativa de intimidar os outros poderes com “as minhas Forças Armadas”. Em outras palavras, Flávio queria ser o Bolsonaro que o pessoal da campanha imagina dele que parte do eleitorado queria que o pai tivesse sido. Daí Flávio ter reduzido os ataques a Alexandre de Moraes, negociado com partidos de centro e ter até criado uma IA para seduzir o eleitorado feminino.

O problema com esse raciocínio é que ele ignora o único princípio verdadeiramente estrutural desse movimento. É dizer: o bolsonarismo não existe sem tensão institucional permanente. Não se trata de um adorno lateral. É a pedra de toque do ecossistema que o mantém vivo. Para manter-se relevante, o bolsonarismo precisa de um inimigo declarado, da sensação de cerco, da sombra do “comunismo” ou coisa que o valha, porque é essa adrenalina que mantém a sua base mobilizada. Um Bolsonaro que não briga com o STF, que não questiona as urnas, que não declara guerra a alguém antes do café da manhã, não passa de uma imitação barata do original. De certo modo, o eleitor bolsonarista-raiz estava órfão de representante nesta eleição.

Agora não está mais.

Depois de ser alvejado sucessivamente pelo caso Dark Horse, pelo vídeo de Michelle Bolsonaro, pelas tarifas de Donald Trump e, agora, pelas notas fiscais mal explicadas do Banco Master, Flávio Bolsonaro parece ter preferido jogar fora a versão pirata do sistema e rodar o programa original. Se cada um desses episódios isoladamente poderia ser administrável, o seu conjunto praticamente obrigou o filho 01 de Jair a buscar socorro no eleitorado cativo do bolsonarismo: aquele eleitor hidrófobo, que acredita em fantasmas vestidos de vermelho e de vez em quando reza pra pneu.

O primeiro passo dessa nova tendência foi dado ontem. Em um discurso a diplomatas, Flávio Bolsonaro retomou a velha cantilena de Jair contra as urnas eletrônicas. Levantando os mesmos argumentos já desmentidos pelos fatos inúmeras vezes – como, por exemplo, a acusação mentirosa de que uma empresa venezuelana as teria produzido -, o filho 01 de Jair pediu o envio do “máximo possível” de observadores estrangeiros para acompanhar a eleição de outubro. Trata-se rigorosamente do mesmo roteiro de 2022, com o mesmo propósito: justificar uma derrota futura.

O movimento, no entanto, produziu o efeito colateral mais previsível possível: União Brasil e PP, que negociavam apoio à candidatura, recuaram e anunciaram neutralidade no pleito de outubro. Lideranças do Centrão passaram a qualificar o discurso de “tóxico” em conversas reservadas. Ao se despir da fantasia de “moderado”, Flávio Bolsonaro rifa qualquer possibilidade de aproximação dos eleitores independentes. Por diminuta que seja essa espécime no cenário nacional, são eles que decidem a eleição.

Mas o que levaria Flávio Bolsonaro a adotar uma postura que, no limite, pode lhe custar a eleição?

A resposta é simples: porque a idéia deles não é ganhar a eleição, mas manter o monopólio da direita. Caso um candidato – qualquer candidato – venha a superar Flávio Bolsonaro nas intenções de voto no primeiro turno, esse candidato será imediatamente alçado ao posto de “anti-Lula”. E aí esse lugar da cena eleitoral brasileira, ocupado provisoriamente pelo patriarca dos Bolsonaro, será transferido de propriedade. Trata-se, portanto, de uma estratégia de sobrevivência do clã.

O risco, claro, é que essa meia-volta pode ficar pelo caminho. No afã de tentar se salvar, Flávio Bolsonaro pode alcançar a façanha de produzir o pior dos dois mundos: perder definitivamente o eleitorado independente, sem garantir o retorno do núcleo duro do bolsonarismo. Afinal, o eleitor radical não vota em um nome. Vota no primeiro da fila que demonstrar viabilidade para tirar Lula do poder.

Flávio Bolsonaro passou o primeiro semestre todo tentando ser o Bolsonaro que não existia. Agora, está tentando ser o Bolsonaro que já existe. O problema é que esse Bolsonaro foi derrotado e está inelegível. Com seu discurso de radicalismo, o risco concreto é de que a cópia termine tão derrotada e inelegível quanto o original.

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Trilha sonora do momento

É oficial: estamos vivendo o Dia da Marmota. #EpicFail

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Pensamento do dia

Quem mente ganha o primeiro round. O problema é que a verdade ganha todos os outros.

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Trilha sonora do momento

De novo essa história, bicho?

Não tem quem aguente…

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Pensamento do dia

Toda vez que você dá um passo pra frente, alguma coisa acaba ficando pra trás.

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“A maior Copa de todos os tempos”, ou O saldo da Copa do Mundo de 2026

Há uma tradição da mídia esportiva que insiste em afirmar, edição após edição, que a Copa do Mundo em curso é a melhor de todos os tempos. Foi assim com a Copa de 2006, na Alemanha. Foi assim com a Copa do Mundo na África do Sul, em 2010. E foi assim até com a Copa do Brasil, em 2014 (chamada à época de “Copa das Copas”).

Trata-se de marketing puro, ninguém duvida. O raciocínio por trás dessa equação de grandiosidade é lógico: quão mais grandioso o evento possa parecer, maior tende a ser a audiência; quanto maior a audiência, mais caro o intervalo comercial; quanto mais caro o intervalo comercial, mais grana no bolso de quem veicula o evento. Com a CazéTV assumindo a lideranças das transmissões, não seria a Copa de 2026 que fugiria à regra. Mas, se no quesito quantitativo a afirmação de que esta foi a “maior Copa de todos os tempos” parece correta – afinal, foi a primeira a contar com 48 seleções -, em outros quesitos não foi exatamente assim.

No quesito técnico, há de se reconhecer que esta Copa superou em muito o que dela se esperava. Quando a maioria dos analistas receava um padrão técnico de várzea, pela quantidade absurda de seleções incluídas no certame – o que levou inclusive ao ajuste bizarro da fase de “dezesseis-avos-de-final” (sic) -, a Copa da América do Norte apresentou um nível técnico absolutamente surpreendente.

Compará-la à Copa do México em 1970 é heresia, tanto quanto comparar Messi a Pelé. Mesmo assim, a Copa deste ano está longe de fazer feio a outras edições históricas, como a de 1982 na Espanha, ou mesmo a sempre subestimada Copa da França, em 1998. Além de ser superior na média de gols (2,91 por partida, contra 2,81 em 1982 e 2,67 em 1998), a Copa deste ano consagrou um nível de paridade entre as equipes poucas vezes visto em campeonatos desse gabarito. Ou alguém haverá de esquecer que a finalista Argentina quase caiu em dois jogos épicos, para a estreante Cabo Verde e para o Egito (zero tradição em Copas)?

Se no campo a Copa foi uma festa, fora dele a coisa muda de figura.

Com a principal sede sendo nos Estados Unidos de Donald Trump, boa coisa não seria de se esperar. E boa coisa foi o que não veio. Antes mesmo da bola rolar, houve o bizarro impedimento imposto à seleção do Irã para pernoitar em solo norte-americano. Isso contrariava não só o bom senso, como também o próprio regulamento da Fica para a Copa. A palhaçada de cunho estritamente político – lembrando que foi o Laranjão quem atacou o Irã primeiro, e não o contrário – obrigou o escrete iraniano a instalar em Tijuana, no México, para em todo dia de jogo cruzar a fronteira e estar apta a voltar para a sua concentração. Esse, porém, não seria o único favor que a Dona Fifa faria aos donos da casa.

Numa situação estapafúrdia e sem precedentes na história das Copas, o atacante da seleção norte-americana Balogum teve o cartão vermelho aplicado pelo árbitro brasileiro Raphael Claus simplesmente anulado por Gianni Infantino após receber uma ligação do Nero Laranja pedindo para passar a mão na cabeça do rapaz. Mesmo com o histórico de décadas da Fifa propalando aos quatro ventos que as suas decisões disciplinares eram isentas de qualquer pressão política, o presidente da Fifa passou por cima de todo mundo na entidade para atender aos caprichos do Laranjão. Felizmente, a bola fez justiça e a seleção norte-americana foi eliminada por inapeláveis 4×1 para a Bélgica.

Para piorar, o alinhamento ideológico de Javier Milei a Trump e o potencial comercial e midiático de Lionel Messi levaram a acusações sistemáticas de favorecimento da Argentina pelas arbitragens nos jogos. Foram vários os episódios em que intervenções discutíveis dos árbitros levaram a decisões discutíveis dentro de campo. O exemplo maior talvez tenha ocorrido no jogo contra o Egito, no qual uma suposta falta não marcada no início da jogada levou a uma anulação estranhíssima do VAR de um gol que, para todo mundo que estava assistindo à partida, pareceu mais do que legítimo.

E por falar em Argentina, a final merece uma análise à parte. Embora a Copa inteira tenha sido pródiga em nos brindar com jogos emocionantes e de grande qualidade técnica, a disputa pela taça foi quase um anti-clímax do campeonato. Trata-se da final mais desequilibrada desde pelo menos quando as Copas passaram a ser transmitidas pela ao vivo pela televisão. De maneira patética, a Argentina renunciou ao futebol e deu seu primeiro ao chute a gol somente nos acréscimos do segundo tempo da prorrogação. Não fossem os dois gols anulados de maneira duvidosa, o placar teria sido de justíssimos 3×0. Fora isso, o anti-jogo dos argentinos levou ainda a seis cartões amarelos, uma expulsão e uma confusão típica de jogo de várzea após consolidada a derrota.

Para a posteridade, pode-se intuir que o os livros de história terão dificuldade em organizar um legado único e coerente sobre esta Copa de 2026. Dentro de campo, o torneio foi prenhe em qualidade e viu desfilar alguns dos melhores atletas de todos os tempos – casos de Haaland, Mbappé, Lamine Yamal e do próprio Messi. Nas arquibancadas, cobraram-se os ingressos mais caros da história, cortesia do modelo de “preços dinâmicos” que a Fifa adotou ao estilo Uber. E, fora de campo, assistimos com clareza quase cínica à desfaçatez de um sistema corrompido e decadente de administração do esporte mais popular do planeta.

Em 1970, o México entregou a Copa mais bonita da história. Em 2026, os Estados Unidos entregaram uma Copa quase tão bonita, mas tão suja quanto as piores que a Fifa já produziu. A diferença foi que, dessa vez, ao menos ninguém fingiu que não estava vendo.

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Trilha sonora do momento

An eye for an eye?

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Pensamento do dia

O quintal onde a gente brincou é maior do que a cidade. A gente só descobre isso depois de grande.

By Manoel de Barros

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Trilha sonora do momento

Justíssimo.

Não tem nem o que discutir.

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Pensamento do dia

Apenas quem se importa consegue te ouvir quando você está calado.

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