A condenação de Eduardo Bolsonaro, ou Crônica de uma derrota anunciada

Era a crônica da derrota anunciada.

Desde que resolveu se autoexilar nos Estados Unidos para lutar contra a “ditadura de toga” no Brasil, Eduardo Bolsonaro deixou de ser apenas mais um dos “filhos numerados” de Jair – o 03, no caso – para se tornar mais um pretendente à cadeia da outrora “Primeira Família” do governo brasileiro. Por isso mesmo, não causou nenhuma surpresa ou comoção o resultado do seu julgamento nesta semana pelo Supremo Tribunal Federal.

A bem da verdade, a coisa toda começou errada desde o princípio. Embora haja algo de poético na tragédia, não era preciso ser vidente ou especialista em Direito para entender que o famoso Dudu Bananinha havia se tornado em uma sentença esperando para ser prolatada. Ao fugir do país para pretender, a partir de uma nação estrangeira, pressionar o governo e o Judiciário do seu país para livrar o pai da degola, parecia óbvio que Eduardo Bolsonaro não conseguiria nem uma coisa nem outra. Mais que isso, ele estava arriscando o próprio futuro ao sustentar seus devaneios megalomaníacos.

Para entender o caso é preciso recuar um pouco no tempo.

Em 2025, o governo Trump impôs uma série de sobretaxas a produtos brasileiros, citando explicitamente o processo penal contra Jair Bolsonaro como uma das justificativas. Instalado nos Estados Unidos desde o início de 2025 sob o pretexto de “defender a família” da “perseguição política”, Dudu Bananinha tornou-se a ponte entre Brasília e ala mais radical do MAGA (Movimento Make America Great Again). Como essa turma só pensa no mundo – em especial a América Latina – como uma sucursal subserviente do Tio Sam, o quinta-colunismo dos Bolsonaro veio bem a calhar para quem queria, desde sempre, retomar o domínio sobre o seu “quintal”.

No meio de tudo isso, Eduardo Bolsonaro não só negou as articulações contra o governo e o STF comi ainda se jactou, em inúmeras postagens e entrevistas, da suposta “influência” que ele teria junto ao governo norte-americano para conseguir chantagear explicitamente as instituições do seu próprio país. Quando Alexandre “Xandão de Moraes” foi enfim incluído no rol da Lei Magnitsky, Dudu Bananinha parecia ter alcançado seu auge. Ele havia se vingado do algoz do seu pai, fazendo com que seu nome circulasse impropriamente ao lado de notórios facínoras da cena mundial, como traficantes de drogas e armas e ditadores mundo afora.

Mas, como tudo que é sólido se desmancha no ar, o sonho de uma noite de verão de Bananinha também foi lançado por terra. Graças à competência da nossa diplomacia e à “química” entre Trump e Lula, não só as tarifas foram posteriormente revogadas, como o nome de Alexandre de Moraes foi retirado da lista da Lei Magnitsky, na qual jamais deveria ter sido incluído. Eduardo Bolsonaro ficou, pois, com a brocha na mão.

Além de ter sido abandonado pelo Laranjão, toda a maquinação de Eduardo Bolsonaro serviu de nada em relação ao seu pai. Jair e sua trupe golpista foram condenados pelo Supremo em um julgamento histórico. Restou para o Bananinha, de presente curtir o próprio processo penal, dessa vez por coação no curso do processo (art. 344 do Código Penal).

Apesar de alegar “perseguição”, poucas vezes no Judiciário brasileiro se assistiu a um réu produzir com tanto afinco e esmero provas contra si mesmo. As evidências eram tamanhas e em tal abundância que o ministro Alexandre de Moraes chegou a se referir ironicamente à sustentação oral feita pela Defensoria Pública da União como o melhor libelo acusatório contra o ex-deputado.

No final das contas, restou à defesa de Eduardo Bolsonaro agarrar-se às duas únicas teses que lhe sobraram:

A primeira delas diz respeito à suposta nulidade do processo por falta de citação do réu. Uma vez que não foi citado pessoalmente, Eduardo Bolsonaro sustenta que o processo é nulo desde o começo. Todavia, o recurso à citação por edital existe justamente para casos como esse, em que o réu encontra-s em lugar incerto e não sabido.

Para além disso, não faz sentido o Bananinha alegar que, como fugiu do país, deveria ter sido expedida carta rogatória para que fosse citado nos Estados Unidos. Como bem observou Xandão durante o julgamento, não se pode admitir que quem foge deliberadamente da ciência do processo possa alegar em sua defesa justamente a necessidade da citação pessoal. Trata-se, tão-somente, da aplicação do velho brocardo segundo o qual ninguém pode alegar em sua defesa a própria torpeza.

A segunda tese – reproduzida de forma acrítica por certos “analistas” da preguiçosa imprensa brasileira – diz respeito à própria configuração do crime de coação no curso do processo. Segundo essa tese, faltaria à conduta o elemento de “violência” para caracterizar o tipo penal. Ocorre, no entanto, que esse crime específico se concretiza não somente quando há violência, mas, também, quando o réu se vale de “grave ameaça”. Dessa forma, a menos que se queira argumentar que incluir o nome de alguém numa lei que, no limite, pode levar essa pessoa à “morte financeira” (Lei Magnitsky) não caracteriza “grave ameaça”, a defesa não tem como prevalecer.

No final das contas, o caso era muito claro. Eduardo passou meses anunciando publicamente, com orgulho arrogante de quem acha que manda no governo dos Estados Unidos, que sua influência sobre autoridades estrangeiras iria forçar uma mudança no desfecho do processo contra o pai. A cronologia apresentada por Alexandre de Moraes durante o julgamento demonstrou de forma clara a coincidência cronológica entre os marcos da ação penal e as declarações de Eduardo. O problema, portanto, não foi de falta de prova, mas, sim, de excesso delas.

Eduardo Bolsonaro queria entrar para a História como homem que atravessou o Atlântico para convencer o homem mais poderoso do planeta para salvar seu pai de uma condenação certa. Reconheça-se que pelo menos parte do objetivo ele alcançou. Dudu Bananinha vai, sim, entrar para a história. Só não vai ser como um vingador ultramarino. Ele vai ser lembrado como alguém que cavou a própria cova pensando que estava a fazer política externa.

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Trilha sonora do momento

Mais um pro saco.

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Pensamento do dia

Chega uma fase na vida em que você começa a entender por que o galo já começa o dia gritando.

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Trilha sonora do momento

E como ninguém nem deve se lembrar de Barry Manilow (muito menos que hoje é aniversário dele), vamos a uma das minhas favoritas da adolescência, que embalou muitas noites com dor de cotovelo…

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Pensamento do dia

Não me afasto de ninguém. Quem me afasta é a própria pessoa. Apenas respeito as prioridades de cada um e ajo com reciprocidade.

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O “acordo de paz” do Irã, ou A esmagadora derrota dos Estados Unidos na guerra contra o Irã – Parte II

Não foi por falta de aviso.

Tal como escrito aqui há pouco mais de três meses, o TACO (Trump Always Chickens Out – Trump sempre arrega) de Trump ao recuar da ameaça de “obliterar” o país persa naquela oportunidade era a prova mais evidente de que a guerra acabara. O que aconteceu de lá até agora foram meras fricções de um conflito que os Estados Unidos já sabiam perdidos. A dúvida era apenas em que condições seria sacramentada a derrota. A julgar pelo que saiu na mídia dos últimos dias, foi muito pior do que o mais pessimista dos americanófilos poderia imaginar.

Desde abril, estava dado que, não importava o que acontecesse ou o nível de “ameaça” do Laranjão aos aiatolás. Na última hora, ele sempre recuaria. Nesse meio tempo, entre ameaças e recuos, Trump e sua galera devem ter ganhado uma boa grana especulando com os ativos nas bolsas de valores, a ponto de até a mais trumpista das emissoras – a Fox News – ter anunciado que o mercado estava sendo manipulado pelas notícias vindas da Casa Branca.

Para além disso, também ficou claro que a “paz” seria negociada nos termos dos iranianos. Como o recuo do Nero Laranja havia deixado claro que os riscos de uma débâcle econômica eram maiores do que o orgulho ferido por não conseguir dobrar o país persa à sua imperial vontade, todo mundo sabia que o Irã iria ditar as condições para que o conflito fosse encerrado. Resta a Trump agora tentar minimizar os danos à sua imagem, coisa que os tweets em letras garrafais até agora foram incapazes de fazer.

A “lógica” por trás do começo da guerra estava errada desde sempre. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, há muito cultivava o sonho de acabar com programa nuclear iraniano. Esse desejo misturava um interesse de segurança genuíno de Israel com um cálculo político doméstico bastante conveniente. Uma vez que Bibi é um ser acossado por escândalos de todos os lados, se ele perder as eleições parlamentares quando a guerra terminar, a cadeia será o seu destino inevitável. Trump, por sua vez, tinha prometido ao eleitorado americano duas coisas: que nunca deixaria o Irã ter a bomba e que, se necessário, mudaria o regime dos aiatolás. O problema, contudo, é que a realidade possui o mau hábito de não se curvar aos desejos do Laranjão.

Do ponto de vista norte-americano, a idéia de “acabar” com o programa nuclear iraniano era de uma estupidez atroz. Afinal, o governo Obama havia conseguido colocar o regime dos aiatolás sob rígido controle internacional quando firmou o JCPOA (Plano de Ação Conjunto Global). Negociado ao longo de dois anos por seis potências mundiais, esse plano estabelecia limites verificáveis ao enriquecimento de urânio iraniano, permitia inspeções internacionais e suspendia sanções de forma gradual. Trump, entretanto, rasgou o acordo em seu primeiro mandato.

Seis anos depois, após uma guerra de mais de 100 dias com resultados militares duvidosos e conturbação econômica incontestável, Trump e os aiatolás assinaram agora um “memorando de entendimento”. Os termos ainda não são inteiramente conhecidos, mas, do que já se divulgou, a conclusão é de que ele consagra uma derrota que seria cômica, se não fosse trágica.

Pra começo de conversa, o programa nuclear iraniano – um dos anunciados objetivos primordiais da guerra – não foi desmantelado. Pelo contrário. Teerã sequer assumiu compromissos imediatos sobre a questão. As negociações nucleares foram adiadas para uma segunda fase a ocorrer somente após sessenta dias, período no qual os diplomatas tentarão encontrar uma esperada solução para o impasse que não apareceu até agora.

Isso, porém, não é o pior. O agora famoso Estreito de Hormuz, por por onde passa boa parte do petróleo mundial, permanecerá sob controle iraniano, talvez com um mecanismo de cobrança de taxas sobre o tráfego marítimo (taxas que não existiam antes). Na prática, os EUA reconheceram a soberania do Irã sobre a passagem. Fora isso, US$ 24 bilhões ativos iranianos congelados serão liberados. Se isso ainda fosse pouco, anuncia-se também um plano de reconstrução de pelo menos trezentos bilhões de dólares a ser financiado pelos Estados Unidos e seus aliados do Golfo. É barba, cabelo e bigode.

Depois de toda a destruição causada, obviamente Trump está a cantar vitória. O Nero Laranja chegou ao cúmulo de alegar que o acordo de agora é “muito melhor” do que aquele firmado por Barack Obama. Acredite nisso quem conseguir argumentar que é melhor trocar um sistema verificável de contenção nuclear por outro, em que se reconhece o domínio persa sobre o estreito de Hormuz, desembolsa-se bilhões de dólares em favor dos iranianos e protrai a discussão sobre o seu regime nuclear para “Deus sabe quando”.

Construiu-se, assim, uma situação esquizofrênica. Milhares de pessoas morreram, danos econômicos e de infraestrutura foram causados em toda a região e no mundo inteiro para, no final, ter-se um regime ainda mais fortalecido do que antes e um programa nuclear cujo futuro ninguém em sã consciência é capaz de prever.

E, se ainda houver alguém que venha a discutir quem de fato ganhou essa guerra, você poderá contra-argumentar o seguinte:

Em qual outra guerra na história da humanidade foi o vencedor quem teve de pagar indenização ao vencido?

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Trilha sonora do momento

E como hoje é aniversário do Ivan Lins, aí vai uma das minhas favoritas dele.

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Pensamento do dia

Você vai irritar muita gente quando começar a fazer o que é melhor pra você. Faça mesmo assim.

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Trilha sonora do momento

Não perguntei, mas imagino que ela certamente aprovaria essa.

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Pensamento do dia

Você só percebe que seus pais te deram uma boa educação quando você pisa no mundo e se dá conta da quantidade de gente doida e sem noção que existe.

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