O “descobrimento” do Brasil

Com 15 anos de existência, parece simplesmente imperdoável que não haja um post no Dando a cara a tapa para explicar o dia 22 de abril para os brasileiros. Para reparar tardiamente a omissão, vamos retomar uma das seções mais queridas deste espaço – a sempre maltratada História – para contar como se deu a tomada de posse do Brasil varonil pelos portugueses.

Quando éramos crianças, contavam-nos uma história da carochinha, segundo a qual Pedro Álvares Cabral e suas caravelas estavam indo para um lado (as Índias) e, quase sem querer, foram para o outro (as Américas). Um erro tão bizarro quanto inverossímil teria dado origem a este colosso de 8,5 milhões de km² chamado Brasil.

Para entender o 22 de abril de 1500, é necessário, antes, voltar alguns anos no tempo. Se durante algum tempo o mundo foi dividido entre Roma e Cartago, França e Inglaterra, e URSS e Estados Unidos, na metade do milênio passado as duas superpotências da época eram vizinhas de península ibérica. Acredite se quiser: quem dava as cartas no mundo naquele tempo eram Portugal e Espanha.

Pioneiros da navegação, em um período em que o comércio ultramarino era a base da riqueza mundial, portugueses e espanhóis disputavam o mundo como um tabuleiro de War. Numa disputa feroz pelo controle dos mares, os ibéricos literalmente foram ao Papa pedir para que o Santo Padre arbitrasse a disputa territorial-marítima entre eles.

Qual o problema?

O Bispo de Roma de então, Alexandre VI, atendia pelo nome de batismo de Roderic Borja. Embora tenha passado à história com o nome “italiano” de Rodrigo Bórgia, Alexandre VI era valenciano de nascimento. Na chamada Bula Inter Caetera (1493), Roderic Borja – fazendo jus às suas origens – traçou uma linha imaginária a 100 léguas do arquipélago de Cabo Verde. Para a direita, as terras seriam portuguesas. Para a esquerda, espanholas.

O que Portugal ganharia com isso? Acertou quem disse bilhões e bilhões de litros de água salgada. Os portugueses, claro, subiram nas tamancas. Já sabendo que havia terras muito além do limite traçado pela Bula Inter Caetera, os lusitanos foram pra cima dos espanhóis e renegaram o acerto papal. No ano seguinte, depois de mundo espernearem, os lusíadas conseguiram estender as 100 léguas iniciais para 370. O acerto entre os ibéricos ficou conhecido como Tratado de Tordesilhas.

A insistência com a qual Portugal renegou a intercessão papal e pleiteou a extensão dos limites que dividiam o Atlântico entre as duas potências navais da época indica, de forma incontroversa, que já se sabia da presença das terras que comporiam o que viria a ser conhecido como “Novo Mundo”.

Se isso fosse pouco, a explicação oficial para a expedição de Cabral era reforçar o comércio com as Índias. No entanto, para uma expedição, digamos, “de rotina”, os portugueses prepararam a maior frota já organizada até então. Eram 13 embarcações, com cerca de 1.500 homens a bordo. Tratava-se de um despropósito deslocar tanto poder de fogo se a idéia era somente mercadejar especiarias do Oriente. Por óbvio, tratava-se de uma jornada exploratória, não uma simples viagem comercial.

Para quem ainda não está convencido, a própria “viagem do descobrimento” denuncia as reais intenções por trás da empreitada. Após sair do Tejo e entrar no Atlântico, Cabral – um navegador mais do que experiente – traçou uma rota “curiosa”. Ao chegar na altura de Cabo Verde, virou à direita, afastando-se da África. O que seria um total contrassenso, se o objetivo fosse de fato contornar o continente africano para chegar nas Índias. Cabral não só “desviou” do que seria o curso natural como seguiu em frente. No dia 22 de abril, o Monte Pascoal deu as caras no horizonte baiano. Estava “descoberto” o Brasil.

Fora os indícios históricos que desmontam a versão portuguesa, o termo “descobrimento”, por si só, representa uma agressão à lógica. Não se descobre algo onde já vivem milhões de pessoas. No retrato da historiografia portuguesa, é como se os índios que aqui viviam fossem estrangeiros em sua própria terra. Não houve descoberta de coisa alguma. O que houve foi a tomada de posse decorrente de um acordo prévio entre potências imperialistas sobre um território alheio. A infame troca de “presentes” entre portugueses e índios é a metáfora mais ironicamente precisa do que de fato se passou naquele 22 de abril de 1500.

A carta de Pero Vaz de Caminha, muitas vezes lida como um texto literário ingênuo, é, na verdade, um relatório técnico de um auditor fiscal da Coroa. Ele descreve a terra, a ausência de ouro imediato e a “inocência” dos nativos, o que facilitaria a conversão dos nativos ao cristianismo — ou, em termos menos eufemísticos, a submissão cultural e laboral. Demonstrando que o Brasil já nasceu com vícios antigos, Caminha aproveitou o final do documento para pedir ao Rei um favor pessoal: o perdão ao seu genro, que fora degredado para a Ilha de São Tomé.

Nos primeiros 30 anos após a data, Portugal tratou o Brasil como um entreposto comercial de quinta categoria. O foco era o lucro imediato das especiarias asiáticas. O Brasil era apenas uma reserva extrativista de pau-brasil e um porto de parada. A “certidão de nascimento” do país foi escrita com o sangue da exploração que viria a seguir e fundamentada em um jogo de bastidores que ignorou completamente a existência dos verdadeiros donos da terra.

Falar, portanto, em “descobrimento do Brasil” é subestimar a inteligência dos navegadores portugueses e ignorar a cronologia dos fatos. O Brasil não foi encontrado. Foi anexado conforme planejado. A história oficial gosta de pincelar heroísmo onde houve apenas cartografia, ganância e um tratado assinado seis anos antes da primeira âncora cair em Porto Seguro. O resto é puro marketing colonial.

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Trilha sonora do momento

E hoje é o dia, né?

Para homenagear a tomada de posse de Pindorama pelos portugueses, vamos com o segundo hino nacional brasileiro, composição de Ary Barroso na voz irretocável dela.

(E o nome dela é Gal).

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Pensamento do dia

A democracia moderna resolveu o problema do tirano, mas não resolveu o problema do povo que o elege.

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Trilha sonora do momento

Foi ontem, mas para não deixar passar em branco…

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Pensamento do dia

O dinheiro confere ao homem qualidades que ele não possui.

By Karl Marx

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Recordar é viver: “Oscar no Hall da Fama”

Obviamente, o post da seção mais nostálgica deste espaço hoje não poderia ser outro senão este, né?

É o que você vai entender, lendo.

Oscar no Hall da Fama

Publicado originalmente em 9.9.13

Semana passada, em meio a notícias de espionagem e possível nova guerra no Oriente Médio, uma notícia muito relevante para o esporte nacional acabou passando meio despercebida: a eleição de Oscar para integrar o Hall da Fama do Basquete.

Para quem não sabe, o Naismith Memorial Basketball Hall of Fame é uma homenagem a James Naismith, criador do basquetebol. Deixando de lado os títulos conseguidos na quadra, a escolha para integrar o Hall da Fama é a maior honraria a qual pode almejar um jogador de basquete. Desde sua criação em 1959, apenas 285 cidadãos foram eleitos para integrá-lo. E, desse total, apenas 135 eram jogadores. Os demais distribuem-se entre técnicos, árbitros e colaboradores do esporte. Oscar, portanto, passou a integrar um panteão para o qual qual, entre todos os jogadores de basquete de todos os tempos, pouco mais de 130 foram eleitos.

Não que Oscar tenha sido exatamente um pioneiro. Afinal, Hortência em 2005 e Ubiratan em 2010 já tinham aberto as portas do Hall da Fama aos brasileiros. Mesmo assim, o reconhecimento de Oscar marca também o reconhecimento de uma das melhores gerações que o Brasil já teve no esporte da bola ao cesto.

Em primeiro lugar, Oscar era a peça principal do time que conseguiu a vitória mais fantástica do basquete brasileiro: os Jogos Pan-americanos de 1987, em Indianápolis. Pode não ser maior do que os dois títulos mundiais que o Brasil ganhou nos tempos de Amauri, Wlamir Marques e Ubiratan (1959 e 1963), mas certamente foi a mais decisiva para uma mudança no esporte mundial. Depois da derrota para o Brasil naquela final, os Estados Unidos abandonaram sua política de mandar o time juvenil para as Olimpíadas e montaram aquele que seria o melhor time de basquete de todos os tempos: o Dream Team.

Em segundo lugar, Oscar era um exemplo de dedicação à camisa da seleção brasileira. Em um tempo no qual até unha encravada é capaz de fazer um jogador pedir dispensa da seleção, a exaltação de Oscar serve como um bálsamo para os que ainda acreditam no basquete brasileiro. Pelas regras da FIBA então vigentes, se Oscar optasse por jogar na NBA, jamais poderia voltar a vestir a camisa da seleção. Selecionado no draft de 1984 pelo New Jersey Nets, Oscar abdicou do que provavelmente seria uma carreira de muito sucesso – e de muito dinheiro – na badalada liga profissional norte-americana para jogar no basquetebol europeu.

Em terceiro lugar, Oscar foi um fenômeno de pontuação. Aproveitando-se criação da regra dos 3 pontos a partir de 1979, Oscar se especializou nos chutes de longa distância. Não por acaso, ele detém os dois maiores recordes do esporte nessa área: mais de 1.093 pontos em Olimpíadas (o único com mais de 1.000 pontos em jogos olímpicos) e 49.737 pontos em toda a carreira (mais de 10.000 à frente do segundo colocado, Kareem Abdul-Jabbar.

De certa maneira, a imensa qualidade de Oscar como pontuador acabou se transformando em um mal para a seleção brasileira. Dependente de seu talento e de seus tiros de três pontos, a seleção acabou abdicando do jogo coletivo e das infiltrações no garrafão como opção primeira para jogados ofensivas. Não à toa, desde que Oscar participou de sua última Olimpíada em 1996, o Brasil ficou órfão de jogadas. Ficava-se à busca do “novo Oscar”, o que jogava uma imensa pressão sobre jogadores que não tinham um décimo de sua capacidade de arremesso. Nessa onda, o ficamos 16 anos sem participar de jogos olímpicos no basquete. Só voltamos em 2012, depois que Rúbens Magnano assumiu o comando da seleção e fez o Brasil redescobrir as virtudes do jogo coletivo e do jogo embaixo da cesta.

Tendo Larry Bird – seu maior ídolo no esporte – como mestre de cerimônias, Oscar foi ovacionado no Naismith Memorial Basketball Hall of FameUma justa homenagem para quem fez tanto pelo esporte. A lamentar somente que não exista algo semelhante no Brasil.

Afinal, não é todo dia que aparece um Oscar Schmidt no basquete brasileiro.

Larry Bird e Oscar

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Trilha sonora do momento

Em homenagem ao eterno Mão Santa que nos deixou hoje, uma trilha sonora apropriada para uma carreira tão vitoriosa.

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Pensamento do dia

É melhor ter bom nome do que má fama.

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STF x Alessandro Vieira, ou Suprema treta em Brasília

A mais nova treta em Brasília envolve, para variar, um embate aberto entre Legislativo e Judiciário. Com o fim da CPI do Crime Organizado, o senador Alessando Vieira resolveu pedir o indiciamento por crimes de responsabilidade de ninguém mais, ninguém menos, que Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes e Dias Toffoli. Como a trinta de ministros do Supremo Tribunal Federal lhe parecesse pouco, Alessandro Vieira resolveu pedir também o indiciamento também do Procurador-Geral da República, Paulo Gonet. Sem querer querendo, Vieira pôs fogo no parquinho brasiliense.

Desde logo, esclareça-se que falar em “indiciamento” nesse caso é juridicamente impróprio. Conforme já foi explicado aqui há mais de dez anos, os tais “crimes de responsabilidade” previstos na Lei de Impeachment nada têm de crimes propriamente ditos. Ao contrário dos crimes comuns, dos quais da condenação resulta uma sanção pessoal traduzida numa pena privativa de liberdade ou restritiva de direitos, nos crimes de responsabilidade o máximo que pode acontecer é o sujeito perder o cargo e, dependendo do caso, ficar inelegível por oito anos. Esse, porém, não foi o único erro cometido por Alessandro Vieira em seu relatório.

Deixe-se de lado, por ora, o fato de o relatório da CPI do Crime Organizado não traz o nome de nenhum envolvido com PCC, Comando Vermelho et caterva. Deixe-se de lado, também, o fato de que o relatório de Alessandro Vieira não traz o indiciamento de nenhuma instituição financeira envolvida na lavagem de dinheiro dessas organizações criminosas. Deixe-se de lado até o fato de que não foi pedido o indiciamento nem de Daniel Vorcaro, o malfeitor que supostamente teria corrompido os ministros do Supremo. A pergunta é: havia base concreta para pedir o indiciamento deles no relatório final da CPI?

A resposta é um rotundo não.

Pra começo de conversa, não há sequer investigação sobre os supostos malfeitos de ministros do Supremo até aqui. Embora pululem estranhezas e relações ainda não explicadas com Daniel Vorcaro e sua tchurma, o fato é que pouco de concreto se tem até agora. Sabe-se que Dias Toffoli recebeu dinheiro de um fundo de investimento gerido pelo Master. Ele alega que foi pela venda de cotas do agora famoso resort de Tayayá.

Já Alexandre de Moraes estaria envolvido indiretamente através de sua esposa, cujos serviços foram contratados pelo Master pela bagatela de R$ 129 milhões. Quanto a Gilmar e a Gonet, pelo menos até agora, não há qualquer vestígio de relação com o banqueiro mafioso, ainda que seja certo que o PGR participou do convescote patrocinado por Vorcaro em Londres, regado a whisky Macallan e charutos caros.

Sob uma ótica estritamente jurídica, todo esse amontoado tem até o momento a consistência de uma gelatina. Não há, do ponto de vista legal, qualquer embasamento para uma acusação criminal contra qualquer dos ministros. Talvez por isso mesmo, Vieira tenha optado por “acusá-los” de crime de responsabilidade, uma modalidade difusa de responsabilização que só ganha corpo pelo seu caráter manifestamente político.

Se Vieira queria “lacrar” com seu relatório ainda é incerto, mas o fato é que a rebordosa veio a todo o vapor. Dias Toffoli ameaçou o senador com inelegibilidade, enquanto o decano Gilmar Mendes oficiou ao Procurador-Geral da República – também ele “denunciado” por Alessandro Vieira – para que investigasse criminalmente o senador sergipano. Salvo nas bolhas bolsonaristas, não houve voz responsável, na imprensa e no mundo político, que tenha chancelado o relatório de Vieira. O tiro, portanto, saiu pela culatra.

Ainda que seja certo que Alessandro Vieira extrapolou no seu relatório, ameaçá-lo com inelegibilidade ou, pior, pedir que seja processado criminalmente pelo seu relatório é uma reação exagerada. O caput do art. 53 da Constituição Federal é muito claro ao estabelecer que “deputados e senadores são invioláveis, civil e penalmente, por quaisquer de suas opiniões, palavras e votos”. Logo, por mais esdrúxula que tenha sido sua posição, Vieira não pode ser responsabilizado por ela, uma vez que cometeu a impropriedade no estrito exercício do seu mandato parlamentar.

O triste nessa história toda é ver que nenhum dos lados parece disposto a amainar os ânimos. A ninguém parece ocorrer que, quando a corda estica demais, ela invariavelmente chicoteia de volta. Vieira jogou para a platéia. E os ministros do Supremo responderam com o fígado. No meio disso tudo, o cidadão atarantado não sabe o que pensar das instituições. Se há um Senado disposto a produzir factóides irresponsáveis somente para fins eleitorais, há também um Supremo disposto a utilizar o peso da sua institucionalidade para esmagar dissidências.

O melhor a se fazer numa situação dessas seria todo mundo organizar um recuo estratégico, deixando o dito pelo não dito e fazendo com que a situação acalmasse. Entretanto, comedimento e moderação têm sido mercadorias escassas no Planalto Central nesses últimos tempos. Resta saber até quando os agentes públicos resolverão levar o país para bailar à beira do abismo. Em outubro há eleições.

E, a julgar pelas pesquisas, os prognósticos não são nada bons…

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Trilha sonora do momento

“Mas ele vai moderar”, eles dizem.

Tem quem acredite…

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