O novo golpe do “falso advogado”

Entre outras coisas, o Dando a cara a tapa desde sempre foi concebido para ser um espaço de utilidade pública. Coisas corriqueiras, que afetam diretamente o dia-a-dia do cidadão, mas que não recebem a devida atenção do mainstream midiático, acabam sendo publicadas aqui justamente para esse fim. Fazendo jus à sua herança nesse quesito, vamos tratar de divulgar agora – como forma de alerta – o novo golpe do “falso advogado”.

O golpe do “falso advogado” é um velho conhecido a essa altura. Quase todo mundo conhece alguém que caiu ou foi vítima de uma tentativa de 171 dos estelionatários profissionais. O sujeito tem uma ação na Justiça e recebe uma ligação ou uma mensagem por WhatsApp do “advogado”. Ele avisa – olha que coisa boa! – que a causa foi ganha e o dinheiro vai sair. Mas, antes de o pobre incauto receber o dinheiro, ele tem de depositar algum na conta do advogado. Os pretextos são vários, desde “custas do processo” a “expedição de alvará”, mas os vagabundos condicionam o recebimento da grana ao depósito prévio dos valores na conta dos estelionatários. Depois de transferir ou depositar o dinheiro, o “advogado” some e o pobre coitado fica com o prejuízo.

Como essa sistemática de estelionato já está meio batida, os meliantes surgiram agora com uma modalidade um pouco mais subreptícia e, portanto, mais esperta e mais difícil de ser detectada. A abordagem é basicamente a mesma: o advogado entra em contato e diz que a grana do processo saiu. Ao contrário do velho golpe, no entanto, nesse ele não pede depósitos prévios para custas, adiantamentos ou coisa que o valha. O que ele pergunta são apenas os dados para depositar o dinheiro que você vai receber (banco, agência e conta corrente).

Após o sujeito incauto repassar esses dados, vem o pulo do gato. Ele informa que será necessário participar de uma audiência de instrução no STJ. A suposta audiência será realizada por vídeochamada. Depois de “confirmada a sua identidade”, os valores a receber serão liberados em seu favor.

A primeira bizarrice surge com o STJ fazendo audiência de instrução. Instância máxima de interpretação da lei federal, ao STJ compete, entre outras coisas, julgar o chamado “recurso especial”, quando há contrariedade à lei federal ou divergência de interpretação dela entre tribunais de segunda instância. Somente nos pouquíssimos casos de competência originária – como, por exemplo, ações penais contra governadores de estado – é que o STJ faz instrução do processo. Em mais de 90% dos casos, sua tarefa é apenas revisar interpretação de lei, ou seja, ver papel.

A segunda bizarrice deriva do fato de você ter de fazer uma “vídeochamada” para confirmar dados. Quem conhece a praxe judicial sabe que nenhum serventuário da Justiça faz chamada de vídeo para confirmar o que quer que seja. Toda a documentação referente à parte já deve estar nos autos, e é a partir dela que se expede o “alvará”, isto é, o papel através do qual o juiz determina ao banco que libere o valor depositado judicialmente em favor da parte.

O novo golpe do falso advogado é engenhoso porque ele de certa forma “dribla” a suspeita já amplamente disseminada na população de dar dinheiro antes de receber alguma coisa. Como em princípio você não dá nada, que mal haveria em dar os seus dados bancários e fazer uma vídeochamada para fins de “confirmação”?

O que acontece é que, ao invés de roubar diretamente o seu dinheiro, eles estão literalmente roubando a sua cara. Ao fazer a vídeochamada, sempre “presidida” por um falso “assessor do ministro” ou um “técnico do STJ”, eles pedem que a pessoa confirme a identidade olhando para a câmera, virando o rosto, piscando e fazendo expressões faciais. Enquanto o pobre coitado acha que está participando de um ato solene do Judiciário, o que o vagabundo do outro lado está fazendo é “copiando” a sua biometria facial.

Daí pra frente, o estrago está feito. Com a biometria da vítima “pirateada” e os dados da conta corrente em mãos, os estelionatários entram no aplicativo do banco e acessam diretamente a conta do sujeito. Até que o sujeito descubra que foi ludibriado, sua conta já foi devidamente limpada pelos criminosos.

Como se proteger desse golpe?

Algumas dicas são evidentes, mas é importante transmitir para as vítimas mais potenciais desse tipo de golpe: nossos idosos. Vamos a elas:

1. A Justiça não liga

Não só não liga, como não faz vídeochamada nem entra em contato pelo WhatsApp pra dizer que “seu dinheiro saiu”. Se você tem advogado constituído, todas as comunicações processuais se dão através dele. Se o número através do qual o seu “advogado” entrou em contato não está na sua agenda, desconfie na hora. A “clonagem” das fotos ou das insígnias do escritório são táticas manjadas, mas que ainda enganam muita gente.

2. Desconfie sempre da pressa

Golpistas repetem a palavra “urgente” como uma espécie de mantra. Tudo é pra ontem. A grana sai hoje mesmo, ou, no máximo, em 24 horas (antes a Justiça fosse tão rápida assim). Se você não fizer o que eles pedem, eles dizem que “você vai estar abrindo mão do dinheiro” ou “vou registrar que você não tem interesse no recebimento”. A idéia, por óbvio, é criar o sentido de urgência para que o sujeito caia no golpe sem refletir antes sobre o que está fazendo.

3. Jamais compartilhe quaisquer dados pessoais ou fotos

Nunca mande nenhum dado seu. “Ah, mas com isso eles não vão fazer nada!” Pode até ser. Mas esse pouco que você entrega pode ser usado contra você mais na frente. Lembre-se: se os criminosos pudessem tirar sua grana sem lhe contactar, eles fariam isso. O contato surge justamente porque eles precisam que você faça alguma coisa – tire uma selfie, baixe um “aplicativo”, transfira algum dinheiro, enfim – para que o golpe tenha sucesso. Se você não fizer nada, nada vai acontecer.

Nessas horas, sempre é bom recordar que, se a tecnologia veio para ficar, ela também acabou por criar novas formas does golpistas passarem a pena em você. A regra de ouro é simples: se pedirem seus dados ou seu dinheiro, é fim de papo. Desligue, bloqueie e denuncie. Sua cara e sua conta bancária agradecem.

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Trilha sonora do momento

Entendedores entenderão.

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Pensamento do dia

Não faça do medo um muro. Se a vida abrir uma porta, atravesse-a.

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Trilha sonora do momento

Dureza… :-/

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Pensamento do dia

Eu sou sincero. Caso você não queira saber a verdade, nunca pergunte a minha opinião.

#FicaaDica

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Trilha sonora do momento

A data oficial foi ontem, mas, como aqui todo dia é dia de homenageá-las, aqui vai um clássico do late seventies para dar os parabéns às nossas queridas mulheres.

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Pensamento do dia

A gente só entende a importância do momento quando ele se torna lembrança.

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Recordar é viver: “Dos xás aos aiatolás: uma breve história do Irã”

Não deu nem tempo de anivesariar e já estamos aqui novamente.

É o que você vai entender, lendo.

Dos xás aos aiatolás: uma breve história do Irã

Publicado originalmente em 24.6.25

Já que agora falar do Irã virou moda (não pelos melhores motivos, é fato), vamos retomar nossa velha e querida seção de História para que os 123 seguidores deste espaço possam argumentar com mais profundidade sobre (mais um) imbróglio que se desenrola na antiga Pérsia.

Assim como quase tudo no Oriente, a história do Irã representa milênios de uma civilização única. Conhecido como Pérsia até 1935 – ou seja, até ontem, em padrões cronológicos -, o território por ele representado sobreviveu às conquistas de Alexandre, o Grande, às invasões árabes, aos turcos e até os mongóis. Durante todo esse tempo, mantiveram a língua e a rica cultura como manifestações concretas da identidade nacional. No grande cisma do islamismo, escolheram abraças o xiismo contra o sunismo no século XVI, já que o sunismo era expressão de outro grande império da época, o Império Otomano.

O problema, como você mesmo pode intuir, foi quando descobriram que em suas terras havia petróleo. Aí a porca entortou o rabo. Rússia e Reino Unido, duas grandes potências do começo do século XX, dividiram o território persa em duas zonas de influência, passando por cima das autoridades locais. Com o fim da II Guerra Mundial, a débâcle da Grã-Bretanha devastada pelo bombardeio alemão acabou precipitando um processo de independência em toda a região. O Irã, obviamente, não fugiu à regra.

Governado desde antes da independência por uma dinastia política que tentava se vincular à herança do antigo Império persa, assumiu como primeiro-ministro do Irã, em 1951, um sujeito chamado Mohammad Mossadegh. No contexto dos anos 50, nacionalizar as empresas de petróleo era a vibe (não nos esqueçamos da nossa famosa campanha O Petróleo é Nosso!, da mesma época). No caso dos países do Oriente Médio, tratava-se não só de uma moda, mas de uma questão de sobrevivência. Mossadegh entendeu bem isso e partiu para nacionalizar a Anglo-Persian Oil Company.

Como vocês podem imaginar, os britânicos não gostaram muito da idéia. Ajudados pelos Estados Unidos, o Reino Unido impôs um bloqueio econômico ao país. Como desgraça pouca é bobagem, os dois serviços secretos anglófonos – CIA e MI6 – arquitetaram um golpe de Estado em 1953. A idéia foi a de sempre: semear o caos para, no meio da confusão, dar um golpe. Maquiavelicamente, o plano deu super certo. Mossadegh foi preso e, em seu lugar, o xá Reza Pahlevi deixou de ser rainha da Inglaterra e passou a ser ditador de facto do país, embora todo mundo soubesse que o xá era apenas uma figura teleguiada a partir de Londres e Washington.

À primeira vista, a chamada “Revolução Branca” parecia popular. O xá aboliu o véu imposto às mulheres pela lei islâmica, permitiu-lhes a educação e – suprema heresia – até o trabalho. Nos porões do regime, contudo, o pau comia. Gente que ficou de fora da festa, assim como os conservadores islâmicos, não ficaram nada satisfeitos com essa “ocidentalização” do povo persa.

Para piorar, o xá achou que seria uma boa gastar a grana do petróleo numa festa para comemorar os “2500 anos do Império Persa” (essa, pelo menos, era a propaganda e a justificativa oficial do banquete). Com menu concebido pelo Maxim’s de Paris, o xá organizou aquele que viria a ser conhecido como maior regabofe da história. 15 mil árvores foram importadas da França, enquanto 50 mil pássaros trazidos da Europa para ornamentar a festa morreriam dias depois sob o intenso calor de Teerã. Convidados do mundo inteiro puderam se deliciar com faisão recheado com foie gras e trufas frescas da Provence, enquanto bebiam Château Lafite 1945 e champagne Dom Pérignon 1959.

Com o tempo, a raiva foi se acumulando até que, em 1979, uma revolução pôs abaixo a ditadura do xá. Em seu lugar, assumiu outra ditadura (ou uma teocracia, como queiram), liderada por um clérigo xiita que vivia no exílio: o aiatolá Khomeini.

A Revolução Islâmica teve como alvo, claro, o “Grande Satã”, também conhecido como “Estados Unidos da América”. Quando os americanos aceitaram receber o xá exilado para um tratamento médico em Nova York, o caldo entornou de vez. Khomeini tocou as trombetas, denunciando o recebimento de Pahlevi como parte de uma conspirata visando a um futuro novo golpe no Irã. Em fúria, alguns estudantes e rebelados – convenientemente não reprimidos pelas forças policiais iranianas – invadiram a embaixada norte-americana em Teerã. Tinha início a crise que culminou com o esgarçamento definitivo das relações entre Estados Unidos e Irã.

Os iranianos diziam que só libertariam os reféns caso os Estados Unidos deportassem Pahlevi para ser julgado no Irã. Alguns funcionários da embaixada conseguiram fugir. Algum tempo depois, eles foram repatriados às escondidas, numa operação retratada de forma alegórica no filme Argo. Os reféns restantes permaneceram presos na embaixada. A crise foi tão grande que fulminou a campanha à reeleição de Jimmy Carter. O acordo para libertação dos reféns só foi assinado dois anos depois, em 1981, já com Ronald Reagan como inquilino da Casa Branca.

Nesse meio tempo, como forma de vingança, os americanos acharam que seria uma boa idéia apoiar um país vizinho, de maioria sunita, para lutar contra o Irã. Seu presidente? Um sujeito chamado Saddam Hussein. Nascia, assim, a Guerra Irã-Iraque, que duraria oito anos (1980-1988) e custaria um milhão de mortos. Dois anos depois, endividado e embriagado pelo poder de ter se tornado a maior potência bélica da região, Saddam usaria as mesmas armas fornecidas pelos americanos para invadir o Kwait. A Guerra do Golfo não foi a mais sangrenta, mas provavelmente foi a mais irônica da história moderna.

De lá pra cá, toda a vez que os americanos resolveram meter o dedo no Oriente Médio, o resultado foi desastre. Foi assim com a invasão do Iraque. Foi assim com a invasão do Afeganistão. Vinte anos depois, os americanos parecem não ter aprendido nada. Só isso explica o bombardeio às instalações nucleares iranianas. Não importa que tenham feito isso para supostamente “salvar” Israel da ameaça atômica. Nenhuma paz é possível ou sustentável se for montada com base na força das baionetas. Somente um acordo que permita aos iranianos levantarem as sanções econômicas mediante o compromisso de inspeção de suas instalações nucleares pode resultar numa paz duradoura. Com os bombardeios da semana passada, tudo isso está mais longe.

Nesse contexto, é curioso observar que persas e judeus – hoje inimigos declarados – fazem parte da história um do outro, e não de uma forma desagradável. Afinal, foi Ciro, o rei da Pérsia, que entrou para a história – inclusive bíblica – como herói dos judeus, ao libertá-los do cativeiro da Babilônia.

Como diria Morpheus: fate, it seems, is not without a sense of irony.

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Trilha sonora do momento

80 anos de uma das maiores lendas do rock, do pop, da música mundial, enfim.

Parabéns, David Gilmour. Você é o cara.

Para homenageá-lo, uma das melhores do Floyd, naquela que foi a última apresentação da formação clássica da banda.

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Pensamento do dia

As pessoas estão tão acostumadas a ouvir mentiras que sinceridade demais choca e faz com que você pareça arrogante.

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