O “familismo” no Judiciário brasileiro, ou Por regras de moralidade para os tribunais

O fenômeno não é novo, reconheça-se. Mas vem piorando – e se alastrando – com o tempo.

Desde sempre, parentes de pessoas em posição de poder procuram, de algum modo, se beneficiar das benesses que o cargo traz para os seus. Começando pela velha e boa nobiliarquia, que transmitia poder e fortuna por sucessão hereditária, passando por políticos que colocam os filhos na mesma carreira, até chegar em dirigentes esportivos que fazem o mesmo com a sua prole, o mal do “familismo” desconhece limites ou fronteiras.

Não se trata, por óbvio, de fenômeno restrito ao ambiente público. Que o digam as sucessões familiares em empresas. Não raro, marcas de alto renome desaparecem em poucos anos simplesmente porque os filhos do dono não souberam tocar o negócio tão bem quanto aqueles que os antecederam. Mas, no caso da seara pública, a coisa muda de figura. Afinal, não é dinheiro privado que está na jogada. É o dinheiro da Viúva. E quando o último baluarte da República – o Judiciário -, com sua vocação (na verdade, pretensão) de imparcialidade começa a entrar na roda, aí é que a porca literalmente entorta o rabo.

Quando um político – um senador, um governador ou até um deputado – resolve colocar seu filho na segunda profissão mais antiga do mundo, é óbvio que ele está tentando prolongar sua influência para outros ramos do Estado a partir da transfusão da sua influência política para seus sucessores. Ainda assim, pode-se dizer em favor deles que, no limite, vota no “Filho de Fulano” quem quer. O povo pode muito bem rejeitar a “indicação” e mandar o sujeito ir pastar. Se ainda assim o filho incapaz e incompetente de alguém é eleito, o problema está menos nele e mais na incapacidade do povo de discernir golpes quando eles se apresentam à sua frente.

No caso do Judiciário, não. Para além do fato de que a maioria dos juízes e desembargadores não ascende ao cargo por indicação política, mas por concurso público, o “filtro popular” deixa de existir. Resta à população acreditar que o sujeito cuja obrigação primária é “fazer cumprir a lei” não usar a toga para favorecer os seus. Quando isso acontece, o impacto de perda de credibilidade é muito maior do que o que acontece nos casos de “familismo político”. Uma instituição que permite — e, em certos casos, até estimula — que o prestígio do cargo seja monetizado pela família do titular pode ser tudo, menos uma instituição imparcial.

Não vale a pena aqui falar de casos recentes divulgados na grande imprensa em que parentes de membros do STF aparentemente fizeram uso dessa prática. A rigor, não há sequer ilegalidade patente nisso. A menos que se comprove, em um processo concreto, que houve tráfico de influência do ministro para direcionar o julgamento do caso em que atua o parente junto a outro colega magistrado, não há nada a se fazer. Mesmo assim, é difícil explicar pra população que um determinado advogado seja contratado por milhões “apenas” por sua competência, quando na estrutura do Judiciário existe algum parente seu vergando a toga.

Convém destacar que, muito tempo antes de chegar ao STF, o fenômeno do familismo já atingira em grau muito mais severo e descarado cortes quase tão poderosas quanto o Supremo, mas que, curiosamente, recebem menos holofotes. No Superior Tribunal de Justiça, por exemplo, os filhos de ministros ganharam até apelido: “Príncipes”. O que, aliás, casa bem com a origem nobiliárquica da prática.

Levantamento da Folha de São Paulo feito há alguns anos registrou que, dos 33 ministros da Corte no período investigado, pelo menos 10 tinham filhos com processos tramitando no STJ. A lei processual civil e penal obriga os magistrados a se declararem impedidos nos casos em que seus parentes atuam, mas ninguém tem como controlar a articulação que se passa fora dos autos, nos bastidores. A briga, nesse caso, não é pelo “melhor advogado”, mas, sim, por quem tem “mais acesso”.

Apesar de carregarem nas costas os ônus de quase todos os males do Judiciário brasileiro, não é somente nas cortes estaduais que viceja essa prática. Ela acontece também, e de forma até mais escancarada, nos Tribunais Regionais Federais. Por alguma razão desconhecida, contudo, o Judiciário Federal consegue se manter relativamente à margem da crítica da grande imprensa.

A questão, contudo, é a seguinte: o que fazer para acabar com essa prática?

Verdade seja dita: o Código de Processo Civil de 2015 bem que tentou moralizar um pouco mais a questão. Entretanto, o Supremo derrubou o artigo que previa a proibição de atuação dos advogados nesses casos por uma maioria de 7×4. O “argumento” era de que proibir parentes de advogar seria restringir em demasia o direito ao trabalho de terceiros.

Tramita no Congresso Nacional quase uma dezena de projetos de lei tentando restabelecer essa proibição. No PL nº. 2.736/2025, do senador Jorge Kajuru, por exemplo, estabelece-se ser vedada a advocacia de parentes até o terceiro grau nos mesmos tribunais nos quais o familiar veste a toga. Claro que isso não resolveria os casos de tráfico de influência em outras cortes, mas já seria um avanço. O andamento desses projetos, entretanto, esbarra no lobby pesado da OAB e dos magistrados a quem interessa que esse estado de coisas se mantenha.

Ninguém desconhece o papel heróico que o Judiciário brasileiro – em especial o STF – teve nos últimos anos na garantia e expansão dos direitos previstos pela Constituição e até na própria manutenção do sistema democrático. Esse respeito e admiração genuínos não podem ser maculados pela tolerância com uma prática que há décadas corrói em silêncio a credibilidade desse poder, dando margem a questionamentos sobre a falta de imparcialidade ou mesmo a lisura dos julgamentos realizados. Nesse caso, vale a máxima da mulher de César:

Não basta ser honesto. É preciso também parecer honesto.

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Trilha sonora do momento

Pobre Marrocos…

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Pensamento do dia

Nenhum pensamento é suficiente para quem já decidiu emocionalmente aquilo em que deseja acreditar.

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Trilha sonora do momento

É tarifa contra o Brasil. É cartão revertido na Copa do Mundo. É bomba (de novo) no Irã.

Toda a gente quer mandar no mundo, mas, pelo visto, só o Laranjão de fato consegue… :-/

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Pensamento do dia

Não é possível embalar a vida pra viagem. Ou você come agora, ou o tempo devora.

By João de Barros

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Mais um fracasso na Copa, ou Haverá futuro para a seleção brasileira?

Ninguém pode dizer que foi surpresa.

Exatamente como esperado, a seleção brasileira de futebol naugrafou mais uma vez no caminho para o hexa. Tal como previsto aqui, o Brasil de Ancelotti foi derrotado de forma incontestável por uma Noruega que, se não tem tanta tradição, mostrou muito mais qualidade em campo. Diante da camisa amarela com 5 estrelas no peito, os noruegueses não amarelaram e acabaram com qualquer ilusão que a vitória sofrida contra o Japão pudesse ter incutido no torcedor brasileiro.

É verdade que a data – 5 de julho, a mesma da fatídica Tragédia de Sarrià – não trazia bons augúrios. Mesmo assim, o que se viu em campo foi um Brasil irreconhecível, preso atrás numa estratégia de contra-ataque que jamais foi tentada de forma tão ostensiva quanto agora. Não por acaso, a seleção exibiu o menor percentual de bola numa partida de Copa do Mundo desde quando essa estatística começou, na Copa de 1966.

Também é verdade que o Brasil teve suas chances. Tivesse Bruno Guimarães mais competência – ou se Vini Jr. tivesse exibido mais cojones para reclamar o papel de batedor – o pênalti no início do jogo poderia dar outra cara à partida. Da mesma forma, a chance bisonhamente desperdiçada por Endrick cara a cara com o goleiro, quando o jogo ainda estava 0x0, poderia fazer com que a estratégia suicida de Ancelotti afinal resultasse. Mas, como vimos, a sorte não sorriu pra gente.

E por falar em Ancelotti, é sobre ele que deve recair a maior parte das críticas pela eliminação tão prematura da seleção neste mundial. Se ele já havia errado ao convocar Neymar para a Copa, colocá-lo em campo contra um time bem armado contra a Noruega, estando o jogo 0x0, foi de uma temeridade à toda prova.

Com a alteração, todo o esquema tático que o próprio Ancelotti tinha armado para o jogo foi desfeito. Antes, Rayan voltava para cobrir Danilo, improvisado na lateral da direita. Sem Rayan, coube a Endrick – que não tem cacoete nenhum pra tarefa – o papel de ajudar na marcação pelo lado direito da defesa brasileira. Resultado: os dois gols da Noruega saíram justamente depois das alterações do técnico italiano. E ambos pelo lado direito do Brasil.

Engana-se, porém, quem acha que o Brasil perdeu só agora, dentro das quatro linhas. Na verdade, o resultado do jogo de domingo já estava escrito há muito tempo. Poderia ter sido antes, caso o Japão soubesse segurar a bola. Ou poderia ter sido depois, caso o ataque brasileiro não fosse tão pródigo em perder chances de gol. Desde 2002 o Brasil não sabe o que é chegar numa final de Copa do Mundo. Seria muita ingenuidade creditar a um técnico que tem pouco mais de um ano no cargo a responsabilidade por quase um quarto de século de fracassos futebolísticos. Nossos problemas são de outra ordem, e não será nenhum técnico – nacional ou estrangeiro – quem irá resolvê-los.

Pra começo de conversa, o Brasil não forma mais jogadores de elite. Isso é um fato, não é opinião. Em 2002, tínhamos dois jogadores que já haviam sido escolhidos melhores do mundo (Ronaldo e Rivaldo) e outro que o seria logo depois (Ronaldinho). Além deles, havia ainda Roberto Carlos, que, mesmo ocupando a lateral, já havia ficado em segundo no ranking, atrás apenas do próprio Fenômeno. Em 2006, tínhamos Ronaldinho, Ronaldo (pesando 400kg, mas ainda conseguindo gingar à frente do goleiro, ao contrário de Endrick) e Kaká, fora gente do quilate de Adriano Imperador e Juninho Pernambucano.

E de lá pra cá? Por que o Brasil não forma mais craques fora de série como no passado?

Se há um lugar óbvio para apontar a responsabilidade por esse estado de coisas é a Confederação Brasileira de Futebol. Organizada numa estrutura anacrônica e recheada de acusações de corrupção, a toda-poderosa CBF representa, hoje, o principal mal a acometer o outrora glorioso futebol brasileiro. As federações estaduais encontram-se povoadas por feudos familiares ou algum consórcio de compadres. O atual presidente, o desconhecido-até-outro-dia Samir Xaud, chegou ao cargo por obra e graça de uma “herança” familiar. Seu pai, Zeca Xaud, havia sido presidente da Federação Roraimense por 42 anos. Depois, repassou o cargo ao filho.

Candidato único em 2025, Xaud foi eleito presidente da CBF com o voto de 25 das 27 federações estaduais. 21 dos maiores clubes do país boicotaram a eleição em protesto contra o sistema que dá às federações peso triplo em relação aos clubes na hora de votar. Desde sua eleição, Xaud notabilizou-se apenas por duas coisas: a primeira, contratar Carlo Ancelotti para comandar a seleção canarinho; a segunda, levar a esposa para a Copa do Mundo, instalando-a no México; assim como sua amante, que foi instalada em Nova Iorque.

Como esperado, ninguém foi demitido (muito menos Xaud). Nenhuma federação se pronunciou. Os jogadores e Ancelotti guardaram obsequioso silêncio. Não se convocou ninguém para uma CPI no Congresso. Não houve sequer quem criticasse a falta de “isonomia” entre as instalações em que ficaram a esposa e a amante. A imprensa esportiva, como de hábito, tratou o assunto como fofoca e seguiu em frente.

Para que as coisas comecem de fato a mudar no futebol brasileiro, não adianta simplesmente focar no que ocorre dentro das quatro linhas. Há exatos 12 anos o Brasil sofreu a maior humilhação futebolística de sua história (o famigerado 7×1) e nada mudou. Quantos anos terão de passar até que a população se dê conta de o problema de verdade está fora do campo?

É preciso acabar pra ontem com o poder desproporcional das federações estaduais no sistema eleitoral da CBF, abrir a gestão para profissionais que realmente entendam de futebol – a começar pelas seleções de base – e exigir transparência financeira plena de uma entidade que move bilhões de reais de ano à custa da maior paixão esportiva do país sem prestar contas a praticamente ninguém.

Tendo em vista que esse cenário ainda vai demorar a se concretizar, o torcedor brasileiro – na sua infinita capacidade de sátira – resolveu extravasar a frustração através de um canal inusitado: o Reclame Aqui. Nos dias seguintes à eliminação, milhares de torcedores acorreram ao famoso site de reclamações de consumidores para registrar queixas formais contra a CBF.

Não se pode dizer que a iniciativa seja de todo equivocada. Olhando para a atual estrutura do futebol brasileiro, não restam muitas outras opções para que o torcedor possa extravasar a sua raiva. Reclamar no Reclame Aqui pode não mudar nada. Mas, convenhamos, é exatamente esse nível de “solução” que essa CBF que está aí merece.

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Trilha sonora do momento

Apesar do sangue argentino, confesso que o grito ficou preso na garganta.

Paciência…

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Pensamento do dia

Tem gente que está no mundo em busca de coisas caras. Eu prefiro buscar coisas que não tem preço.

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Trilha sonora do momento

A gente joga bola e não consegue ganhar!

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Pensamento do dia

A pressão não cria defeitos. Ela apenas revela os que já existem.

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