No Direito Civil, há uma regra secular segundo a qual é vedado negociar-se a herança de pessoa viva (art. 426 do atual Código Civil). Desde sempre o ordenamento rejeita validade ao chamado “Pacto Corvina”, numa referência explícita aos corvos que sobrevoam animais moribundos à espera de se tornarem carniça. Na política, contudo, esse tipo de pacto não somente existe como é largamente utilizado por diferentes espectros ideológicos. É o que se passa agora com o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Em prisão domiciliar há exatos 90 dias, Bolsonaro ainda está longe de ser considerado morto. A despeito das inúmeras mazelas que o acometem, até onde se sabe o ex-presidente tem melhorado de seus padecimentos. Há até mesmo quem defenda que o Ministro Alexandre de Moraes encerre o refresco da prisão humanitária por questões de saúde, remetendo-o de volta à Papuda. Do ponto de vista político, entretanto, seu espólio já está sendo disputado a tapa nas redes sociais. Tal é a conclusão a que se chega de quem assistiu ontem ao vídeo de sua mulher, Michelle, detonando o enteado e candidato a presidente Flávio Bolsonaro.
Para quem não acompanhou a lavação pública de roupa suja da outrora “primeira família”, minutos antes da partida entre Brasil e Escócia pela Copa do Mundo, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro soltou um vídeo em que explica as razões pelas quais tem se mantido ao largo da campanha do filho 01 do marido.
Rememorando o episódio das críticas que fez da aliança do PL cearense a Ciro Gomes, Michelle disse que Flávio Bolsonaro telefonou pra ela em termos pouco amigáveis. Disse que a madrasta “não entendia nada de política”, que deveria ficar de fora das decisões sobre aliança e deixar para os profissionais (ou seja, os homens) tocar o barco da campanha presidencial.
Como se essas revelações não fossem tóxicas o suficiente, Michelle ainda acrescentou que o enteado foi “ríspido” com ela, fazendo com que ela se sentisse “humilhada”. Para quem está atrás nas pesquisas e luta desesperadamente para tentar reverter a rejeição do eleitorado feminino, o tiro disparado pela madrasta foi de calibre até maior do que o do áudio vadio em que Flávio Bolsonaro cobra do notório Daniel Vorcaro o restante da grana que o banqueiro pilantra prometera para financiar o filme Dark Horse.
Apoplética diante do vídeo-bomba de Michelle Bolsonaro, a direita bolsonarista – e até mesmo o campo não bolsonarista – correu para entender por que a ex-primeira-dama resolveu jogar a relação conflituosa com o enteado no ventilador justamente agora. O timing não poderia ser pior. Depois de ter sido alvejado gravemente com a revelação do pedido de dinheiro a Vorcaro, o filho 01 de Jair estava curtindo um refresco no noticiário negativo. Menos por mérito próprio, é verdade, e mais pelo fato de que a rede vorcárica capturou um peixe grande do outro lado: Jacques Wagner, o líder do governo Lula no Senado. Agora, todo o esforço de fazer com que Flávio Bolsonaro colocasse o nariz para fora da água foi pelo ralo.
Obviamente, ninguém pode cravar com 100% de certeza as razões que motivaram Michelle a explodir a campanha do 01. Podemos, no entanto, especular hipóteses. E, dentre as possibilidades mais prováveis, está o fato de que ambos – Michelle e Flávio Bolsonaro – estão a disputar o espólio político do marido/pai que ainda não morreu.
Deixemos de lado, por ora, a constatação óbvia de que Michelle ficou chateada por não ter sido a escolhida por Jair para concorrer à presidência com a franquia do nome “Bolsonaro”. Se isso deixaria qualquer pessoa normal contrariada, imagine-se dentro do cenário radioativo da ex-primeira-família, um lugar onde um dos filhos manda o próprio pai ir “chupar caju”, acusando-o de ser um “ingrato do baralho” (foram efetuadas alterações no palavreado de baixo calão para manter-se minimamente o nível deste espaço).
Só isso, contudo, não é capaz de explicar a bomba lançada por Michelle Bolsonaro. Afinal, se Jair não a escolheu antes para concorrer à presidência, não será agora que o fará, ainda mais depois de ela ter queimado seu filho mais velho e detonado as relações com os outros dois. Excluindo-se a hipótese de sabotagem aberta ao primeiro-filho com o propósito de tomar-lhe o lugar, o que resta?
Resta a conclusão de que Michelle não está pensando na eleição de 2026. Aliás, pode até estar pensando, mas não no sentido que a maioria pensa. Ao contrário de quem julga que esse movimento poderia ser uma tentativa de tirar Flávio Bolsonaro da jogada e fazer com que ela saísse candidata, Michelle Bolsonaro parece estar fazendo o cálculo de que, para ela, é melhor que o enteado perca do que ganhe a eleição.
“Como assim?”
Com apenas 45 anos de idade, se Flávio Bolsonaro ganha a próxima eleição, naturalmente será candidato a um novo mandato em 2030. Supondo que ele se reeleja, qualquer sucessão dentro da família teria de esperar até 2034, quando o 01 teria de apontar um sucessor. Só que, como parece óbvio até para as emas do Alvorada, se Michelle não foi escolhida por Jair agora como sucessora, não seria depois de oito anos de presidência que seu enteado o faria. Se Jair não se sentiu obrigado a nomear a mulher como candidata, por que razão o filho mais velho – com o qual ela nunca se deu bem – a indicaria?
Olhando por esse prisma, mais vale para Michelle apostar numa derrota de Flávio Bolsonaro agora e tentar articular para si um papel de proeminência na oposição a um novo mandato de Lula. Uma vez que o torneiro bissílabo de São Bernardo não poderá concorrer mais a coisa alguma em 2030, Michelle poderia passar quatro anos tentando cavar para si a vaga que, hoje, é ocupada por Flávio Bolsonaro.
Não se trata de um movimento estapafúrdio ou impensado. Dentro do PL, Michelle conta com o apoio nada velado do dono do partido, Valdemar da Costa Neto, que nunca engoliu direito a indicação de Flávio Bolsonaro. Evangélica, Michelle conta com a simpatia de gente como Silas Malafaia e boa parte do mundo religioso. Fora isso, caso perca a eleição, Flávio Bolsonaro estaria sem mandato e, portanto, sem qualquer caixa de ressonância para reverberar o seu discurso. A hipótese de que ela se torne uma líder da oposição a Lula está longe de ser um devaneio.
Seja como for, o movimento de Michelle Bolsonaro foi, até agora, o movimento mais ousado e explícito de dissenso no campo bolsonarista. Se ele será capaz de enterrar de vez a candidatura de Flávio Bolsonaro, não se sabe ao certo. A única coisa que se pode ter certeza é que esse movimento não deve ficar sem resposta. As pontes foram explodidas de tal sorte que é difícil imaginar que possam ser reconstruídas. Apertem os cintos e peguem a pipoca.
A guerra da sucessão na extrema-direita já começou.