Há três perguntas fundamentais que funcionam como intercessão entre os domínios da Ciência, da Religião e da Filosofia: 1) da onde viemos?; 2) para onde vamos?; e 3) será que lá tem Internet?
Da onde viemos é mais ou menos sabido. Sabe-se que havia uma sopa primordial de partículas extremamente densa e extremamente quente, com tamanho menor do que um átomo. Do nada, ela começou a se expandir de forma acelerada e tomou a forma do universo tal qual o conhecemos hoje. É a famosa “Teoria do Big Bang”.
“Se lá vai ter Internet?” também já é sabido. Afinal, já inventamos a tecnologia e, doravante, não se imagina que caminhemos para trás, só pra frente. Se as pessoas ainda estarão “farmando aura” nessa altura é pouco provável, mas certamente a conexão através da qual elas postarão conteúdos infames no Instagram ou no TikTok será muito melhor que a atual.
Mas para onde vamos? Essa pergunta ainda permanece um mistério. Por mais que saibamos com precisão aritmética o que aconteceu até um trilionésimo de segundo depois do Big Bang, o que acontecerá quando o “fim” chegar – se é que um dia haverá de fato um “fim” – ainda é um tema envolto em profundo mistério.
Do ponto de vista da Física moderna, tudo gira em torno basicamente da Segunda Lei da Termodinâmica, segundo a qual a entropia – isto é, o processo de desorganização das partículas em um sistema fechado – tende sempre a aumentar. Traduzindo isso para o nosso dia a dia, é essa lei que explica por que o cubo de gelo derrete, por que o café esfria, por que você não consegue colar de volta um copo que se espatifou no chão.
Saindo do cotidiano e trazendo esse problema para a cosmologia, a idéia básica é a de que, mais hora, menos hora, o Universo terá um fim. A questão apenas é saber como será esse fim. Até o momento, três teorias são as principais candidatas a assumir o posto.
A primeira – e mais provável segundo o consenso científico atual – é conhecida pelo singelo nome de “Morte Térmica”. A lógica dela é bem simples. Sabe-se que o Universo só se expande desde quando surgiu, há 13,7 bilhões de anos. Curiosamente, ao contrário do que ditaria o senso comum, essa expansão não só continua como tem se acelerado. A “culpada” por essa aceleração ainda é uma ilustre desconhecida, à qual os cientistas resolveram dar o nome de “energia escura”. Ela seria responsável por quase 70% de toda a massa da energia. O “problema” é que ninguém nunca conseguiu observar empiricamente a energia escura e não existe sequer prova de que ela realmente exista.
Mas, supondo que a energia escura exista e atue da forma como as observações da expansão do Universo têm sugerido, todas as galáxias hoje existentes se afastarão para tão longe umas das outras que simplesmente será impossível enxergá-las. Para piorar, as estrelas – todas elas, seja de que tamanho forem – já terão consumido todo o seu combustível e terão se apagado. Nem mesmo os buracos negros sobreviverão, dada a lenta perda de massa através da radiação Hawking (em homenagem ao físico britânico Stephen Hawking). O que restará, em resumo, será apenas um vastíssimo espaço frio, escuro e absolutamente vazio.
Se essa alternativa lhe pareceu um pouco tediosa, a Ciência nos brinca com outra possibilidade, digamos, mais “dramática”. O nome já diz tudo: Big Rip, ou “O grande rasgo” (que também pode ser interpretado como Big RIP: Rest in Peace). Supondo que a expansão do Universo continue a crescer de forma indefinida no tempo, ela poderia acelerar até o ponto em que as forças que hoje mantêm não só o Universo estável como “inteiro” não seriam mais capazes de operar para manter a matéria reunida. Haveria, então, um “rasgo” no tecido do espaço-tempo, pois os átomos que compõem o Universo não seriam mais capazes de se manterem íntegros diante da expansão acelerada do próprio Universo.
A última opção, embora menos dramática que a anterior, é igualmente cataclísmica. Ela sugere que, a partir de algum ponto no futuro, a energia escura irá perder sua dinâmica, permitindo que a gravidade voltasse a dar as cartas no Universo. Como consequência, a expansão do Universo não só desacelararia, como pararia e – pasmem – se inverteria. Isso significa que o Universo à nossa volta passaria a encolher. Encolhendo, ele ficaria cada vez mais denso e mais quente, até o ponto em que atingiríamos uma singularidade muito semelhante ao próprio Big Bang. O Big Crunch (“O Grande Colapso”), contudo, é a menos provável das três hipóteses ventiladas.
A “vantagem” do Big Crunch é que ele seria de certa forma poético. O Universo voltaria ao seu ponto inicial, para depois novamente inverter a equação e começar a expandir-se novamente, em um novo e eterno Big Bang. Tudo teria como início e fim o mesmo ponto. E se você quiser chamar esse ponto de “Deus” não haveria nenhum físico intelectualmente honesto para contraditá-lo.
Seja como for, há uma única certeza que atravessa qualquer um dos três cenários e que dispensa matemática avançada para ser compreendida: o Sol já está na metade da sua vida útil. Perto do seu fim, ele se tornará uma estrela gigante vermelha e engolirá a Terra em aproximadamente. Não haverá sequer Terra para sabermos como isso tudo vai acabar.
A verdade, em resumo, é que não sabemos ainda como Universo decidiu como vai terminar. Mas aparentemente ele já decidiu que nós não estaremos lá para ver.