“Mas…”, ou A ignomínia contra a mulher

“Mas”. Conjunção coordenativa adversativa mais popular do vocabulário corrente do brasileiro, o “mas” dos tempos de hoje acabou por adquirir uma estranha conotação machista, quase imbecilizante. Dois casos aparentemente desconexos dos últimos dias demonstram de forma muito clara o fenômeno que ora se aponta.

No primeiro, um secretário municipal de Itumbiara, em Goiás, assassinou a sangue frio seus dois filhos e depois se matou. O motivo? Uma suposta traição da esposa. Numa carta-despedida que embutia um nítido propósito de autocomiseração, o homicida fala de como era um “pai bom” e como a esposa, essa adúltera malvada, teria colocado tudo a perder (inclusive a vida dos dois filhos) para atender aos prazeres da carne.

A reação foi imediata. Ao invés de condenar e amaldiçoar por toda a eternidade o facínora que assassinara os próprios filhos, a turba voltou-se com fúria contra a mãe. Não bastasse ter sido privada de modo cruel e injustificado das crianças às quais dera a luz, a mulher foi alvo de ódio e xingamentos, a ponto de necessitar – vejam vocês – de escolta policial para enterrar as vítimas inocentes do marido sanguinário e psicopata.

“Ah, mas se ela não tivesse traído, nada disso teria acontecido”, foi o que mais se ouviu nos dias seguintes ao crime. A ninguém ocorreu ouvir a versão da mulher. Não houve quem se compadecesse de sua dor, ainda que traição tivesse ocorrido. Não houve sequer quem colocasse em xeque a versão do adultério. Preferiram ficar com a palavra de um homicida-suicida que cometera o crime mais abominável que um ser humano pode cometer. O “mas” valeu para passar pano para um duplo homicídio infantil, porém foi de utilidade nula para colocar pelo menos em dúvida o relato de um criminoso.

Poucos dias após o velório das crianças, a verdade veio à tona. Não houve adultério. O casal estava separado de fato desde dezembro. O marido “traído”, na verdade, não aceitava a separação, como de resto não a aceitam todos os “machos” pobres de espírito. Como desgraça pouca é bobagem, a separação de fato foi motivada por uma traição. Dele. Além de criminoso, bandido, psicopata e suicida, o canalha ainda era mentiroso.

“Por que isso acontece?”, deve estar se perguntando você. Um outro caso desta semana ajuda a ilustrar o porquê. Analisando o recurso de apelação de um sujeito condenado por estupro de vulnerável, o Tribunal de Justiça de Minas Gerais absolveu o estuprador por dois votos (dois desembargadores) a um (uma desembargadora).

À primeira vista, o caso não comportava sequer discussão. O condenado tinha 35 anos e praticou conjunção carnal com uma menina de doze – DOZE – anos. Portanto, tratava-se de aplicar a literalidade do art. 217-A do Código Penal e encerrar o assunto: “Art. 217-A. Ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com menor de 14 (catorze) anos”. Para que não haja dúvidas sobre a interpretação devida ao dispositivo, o §5º determinar que as penas desse delito “aplicam-se independentemente do consentimento da vítima ou do fato de ela ter mantido relações sexuais anteriormente ao crime”. A coisa já está tão batida que o STJ até editou uma súmula (593) dizendo mais ou menos a mesma coisa.

E o que aconteceu? Ao invés de aplicar a letra claríssima da lei e da jurisprudência sobre o tema, os desembargadores do TJMG vieram com “mas”. “Mas” havia vínculo afetivo; “mas” a família havia consentido; “mas” havia sido formada uma família. Assim como no caso do duplo homicídio de Itumbiara, aqui novamente o “mas” entra como fator de deslegitimação da proteção da mulher.

Nem convém falar sobre as acusações recém levantadas contra o relator do caso, de que teria sido acusado de assédio e abuso sexual. Inocente ou culpado, não importa. Numa câmara com três integrantes, ele não decide sozinho. No confronto entre a proteção feminina – e, mais importante, de uma criança de doze anos – e a leniência com a lascívia de despudorado, a Justiça preferiu ficar com a libidinagem.

Pode parecer coisa do outro mundo, mas não faz tanto tempo assim que foi banida em nosso ordenamento a possibilidade de arguição da “legítima defesa da honra” como justificativa para o feminicídio. Se a morte de Leila Diniz parece apenas um retrato desbotado na parede, esses dois acontecimentos recentes – de Itumbiara e do TJMG – demonstram que o Brasil evoluiu muito pouco nessa seara. Infelizmente, o machismo ainda encontra solo fértil, tanto na sociedade quanto na jurisprudência.

Somente poderemos dizer que atingimos um patamar mínimo de dignidade na proteção das mulheres quando, em casos assim, ao ouvir o primeiro “mas”, a maioria retrucar do outro lado:

“Não tem ‘mas’, p….!”

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Trilha sonora do momento

Na bateria e na vida.

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Pensamento do dia

Há dias em que parece que a vida tá me testando para saber até quando eu aguento.

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Trilha sonora do momento

E hoje seria o aniversário do grande Wilson Simonal.

Como pouca gente vai se lembrar disso, aqui vai a singela homenagem do blog a esse verdadeiro ícone da MPB.

Ao som de uma das minhas favoritas da mais tenra infância. 😉

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Pensamento do dia

Não se importar é melhor do que se vingar.

#FicaaDica

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Recordar é viver: “As tarifas de Donald Trump contra o Brasil, ou O falso patriotismo bolsonarista”

Agora que a Suprema Corte norte-americana derrubou de vez as tarifas impostas pelo Laranjão, talvez seja uma boa ocasião para revisitar um post de quase um ano atrás.

É o que você vai entender, lendo.

As tarifas de Donald Trump contra o Brasil, ou O falso patriotismo bolsonarista

Publicado originalmente em 13.3.25

No Brasil das correntes de Zap, das bandeiras hasteadas em carros de luxo e dos discursos inflamados sobre “amor à pátria”, existe uma regra não escrita: quanto mais alguém grita “Brasil acima de tudo”, mais provável é que esteja prestes a vender o país por um punhado de likes. Tal é a sensação de quem observa o comportamento dos bolsonaristas após a imposição de tarifas de importação a produtos brasileiros por Donald Trump.

Para quem não sabe, o Nero dos nossos tempos resolveu aplicar uma tarifa de 25% sobre alumínio, chapas de aço e produtos metalúrgicos em geral exportados pelo Brasil aos Estados Unidos. Mesmo que a corrente de comércio entre os dois países seja largamente superavitária para os ianques, ainda assim o Brasil entrou de roldão no bolo das tarifas retaliatórias do Laranjão. Com dinheiro e, mais importante, empregos brasileiros em jogo, os “patriotas” da Bozolândia saíram em defesa de….Donald Trump.

Até aí, nada de novo. Jair Bolsonaro e sua trupe transformaram o “patriotismo” em um triste espetáculo de hipocrisia. E isso não é de agora. Quando assumiu como presidente, o primeiro lugar para o qual o ex-presidente se abalou foi justamente os Estados Unidos. Tal qual um fanboy diante de um ídolo de reality show – o que, ironicamente, não estava muito distante da realidade –, Bolsonaro sorriu e tirou fotos ao lado do seu “amigo”.

E qual foi a retribuição de Trump a esse espetáculo grotesco de tietagem explícita? Impor tarifas sobre a importação do alumínio brasileiro. O que faria um verdadeiro patriota diante de um escárnio desses? No mínimo reclamar, né? Bolsonaro, ao revés, preferiu manter-se em obsequioso silêncio, com receio de contrariar seu ídolo. O mesmo homem que acusa esquerdistas de “entreguismo” não titubeou em entregar nosso alumínio — e nossa dignidade — a um governo que enxergava o Brasil como mero fornecedor de commodities baratas.

Não espanta, portanto, que agora, quando o Laranjão volta a impor tarifas de importação contra produtos brasileiros, Bolsonaro venha a público defendê-lo. Ao ser questionado sobre seu “patriotismo” depois de mais esse ataque de Donald Trump ao país que supostamente ele defende, Bolsonaro – com todo seu “conhecimento” de economia – tuitou que os Estados Unidos estavam “taxando empresas estrangeiras, não o próprio país”.

Se o pai continua um mestre na arte da subserviência, o filho Bananinha, Eduardo Bolsonaro, elevou o nível da bajulação à décima quinta potência. Enquanto o Brasil tenta reconstruir sua imagem após os anos de negacionismo e ataques à democracia, o deputado federal decidiu fazer uma turnê pelos EUA para difamar as próprias instituições brasileiras. Sim, você leu certo: um representante eleito do Brasil viajou ao exterior – com despesas pagas pelo Congresso – para atacar o Supremo Tribunal Federal (STF), o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e qualquer órgão que tenha se insurgido contra os desmandos do desgoverno bolsonarista.

Em eventos ao lado de figuras da extrema direita americana — incluindo adeptos de teorias conspiratórias e negacionistas —, Eduardo transformou-se em um lobista da desordem. Seu discurso? Um mix de vitimismo, fake news e ataques à Justiça brasileira, apresentada como “ditatorial” simplesmente porque não se curvou aos interesses da família Bolsonaro. É como assistir a um filme de terror onde o vilão é o próprio protagonista, que sabotou a casa onde mora e depois culpa os bombeiros pelo incêndio.

O mais grotesco é que essa campanha de difamação ocorre em solo estrangeiro, alimentada por dinheiro público e apoio de grupos que desprezam a soberania nacional. Enquanto Eduardo acusa o STF de “ativismo”, ele mesmo pratica o ativismo mais sujo: o de quem mina a credibilidade do país lá fora para alimentar teorias fantasiosas sobre uma suposta perseguição. Supondo que houvesse de fato uma perseguição injusta aqui dentro, um patriota de verdade lutaria por reformas dentro das regras do jogo, não participando de conferências de teóricos da conspiração contra o “globalismo” e o “marxismo cultural”.

É nesse contexto que se conclui que o núcleo duro do bolsonarismo ama símbolos nacionais, desde que sejam vazios de significado. Bandeiras do Brasil são usadas como cortinas para esconder a falta de políticas públicas; hinos são entoados para calar críticos; verde e amarelo viram cores de um clubismo que exclui quem ousa pensar diferente. Mas quando a questão é defender interesses reais do povo brasileiro, a retórica patriótica se transmuta em claque para o Nero Laranja dançar.

No fundo, Bolsonaro e sua trupe transformaram o Brasil num reality show de hipocrisia, onde o enredo é sempre o mesmo: gritar “ame-o ou deixe-o” enquanto sabotam o que há de mais valioso no país. Resta aos verdadeiros patriotas — aqueles que trabalham, protestam e acreditam na democracia — limpar a sujeira deixada por quem confunde nação com ego e proselitismo político.

No século XVIII, o escritor inglês Samuel Johnson escreveu que o “patriotismo é o último refúgio do canalha”. Não contava ele, contudo, que o adágio seria complementado aqui no Brasil pelo genial Millôr Fernandes, que acrescentou:

“Mas no Brasil é o primeiro”.

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Trilha sonora do momento

Em homenagem à Carol Solberg.

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Pensamento do dia

Eu sempre desconfio das pessoas que falam da “vontade de Deus”. Na verdade, a maioria está falando da vontade delas.

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Os mistérios da luz

Já faz tempo que não rola nada de Ciências aqui neste espaço. Aproveitando o pós-carnaval, nesse período de relativa calmaria que precede a tormenta, vamos explicar uma das coisas mais mal compreendidas quando se fala de Teoria da Relatividade: a velocidade da luz.

Até Einstein, os conceitos de velocidade eram mais ou menos compreensíveis a qualquer um. Partindo do pressuposto que tempo e espaço eram invariáveis, Newton descobriu as leis da mecânica e demonstrou, através de fórmulas, o que qualquer criança poderia intuir. Se eu estou indo em direção a um objeto, a velocidade é uma. Se esse mesmo objeto também estiver vindo na minha direção, a velocidade dele se soma à minha e a resultante será a velocidade de aproximação entre os dois. No sentido contrário, se eu ou algum objeto está indo na direção contrária, as velocidades se subtraem. Assim é que, se eu corro a 20km/h e um carro vem na minha direção a 80km/h, nós dois nos aproximamos a 100km/h (20+80). Da mesma forma, se eu corro a 20km/h atrás de um carro que foge de mim a 80km/h, isso significa que ele está se afastando de mim a 60km/h (80-20).

Com a luz, contudo, coisas estranhas aconteciam. Ao contrário do que a intuição e as leis de Newton ensinava, a luz fazia pouco caso se os objetos estavam indo um em direção ao outro ou se afastando. Qualquer que fosse a direção ou o sentido dos objetos a serem tomados como parâmetro, a velocidade medida era sempre a mesma: cerca de 300 mil km/s. Isso deixava todo mundo atônito, sem ter como explicar como isso acontecia.

Para os primeiros físicos que começaram a estudar o universo, a luz se comportaria como uma onda. Qual o problema? Sendo a luz uma “coisa” que se “propaga”, ela precisaria de um “meio”. Da mesma forma que o som precisa do ar para se difundir e as ondas em um lago irradiam a partir do ponto em que você joga uma pedra na água, também a luz precisaria de um “caminho” para poder ir de um ponto a outro do universo. Daí surgir uma das teorias mais bizarras da história da ciência: a noção de que o vácuo do espaço era, na verdade, preenchido por éter.

Substância invisível que preencheria todo o universo, o éter estaria para a luz como o mar está para as ondas que rebentam na praia. Ele seria o meio através do qual a luz se propagaria. O problema é que ninguém jamais encontrou evidência de que o esse éter espacial existisse. Pior. Experiências científicas repetidamente demonstravam que a idéia do éter como meio de propagação da luz era muito parecida com a do éter dos lança-perfumes de antigamente: não passava de lombra.

Einstein, contudo, partiu de um pressuposto completamente diferente. Deixou a bad trip de lado e imaginou algo que, para a época, seria revolucionário: e se simplesmente não houvesse éter? Nesse caso, a velocidade da luz seria constante não porque seria algo “viajando” através de um “meio” no espaço, mas, sim, porque seria ela mesma uma característica intrínseca da própria estrutura do espaço-tempo.

Assim é que Einstein conseguiu explicar por que a velocidade da luz sempre era constante, independentemente de outro referencial. Sendo a luz uma constante universal, a única forma de explicar que sua velocidade não varie é que, quando um objeto qualquer se desloca, tanto o tempo quanto o espaço se alteram em função desse deslocamento. Melhor explicando: se a velocidade da luz é a mesma para todos os observadores, alguém (ou, mais precisamente, “algo) precisa ceder. E esse algo são as nossas noções intuitivas de espaço e de tempo.

Assim é que, se você estiver em uma nave se aproximando de um feixe de luz, a física clássica diria que o feixe deveria chegar até você mais rápido (c + sua velocidade). Mas isso não acontece. O que ocorre, na verdade, é que seu tempo passa mais devagar e suas distâncias se contraem na direção do movimento. E essa diferença é rigorosa e precisamente o suficiente para que, ao medir a velocidade da luz com seus instrumentos (que também estão contraídos e com tempo dilatado), você obtenha o mesmo valor de velocidade da luz. Quanto maior a velocidade ou a massa desse objeto, maior será a alteração no espaço-tempo, para que a luz mantenha sua velocidade constante.

A bem da verdade, a própria noção de que a luz “viaja” pelo espaço é controversa. Como explica Richard Feynman, não se trata de imaginar um fóton como uma bolinha que atravessa uma sala como uma bala se desloca em um stand de tiro até o alvo. Na verdade, o que chamamos de “luz” não passa de uma perturbação em campos eletromagnéticos que preenchem todo o universo. Ao invés do esotérico “éter”, esses campos eletromagnéticos se excitam em sequência, como uma carreira de dominós derrubando-se uns aos outros.

Dessa forma, quando uma fonte – uma estrela, por exemplo – emite luz, ela não está “soltando” algo que carrega consigo a velocidade da fonte. Basta pensar no exemplo da pedra jogada em um lago: as ondas geradas não carregam consigo a velocidade da pedra, mas, sim, a velocidade determinada pelas propriedades da água. Da mesma forma, o fóton é uma excitação no campo eletromagnético, e a velocidade dessa excitação é determinada pelas propriedades do próprio campo e do vácuo. O vácuo não é o “nada” absoluto, mas antes o estado fundamental desses campos.

A velocidade constante da luz é, portanto, uma propriedade emergente da estrutura do nosso universo. A luz, em resumo, é a régua através da qual medimos tanto o espaço quanto o tempo à nossa volta. Ela não se comporta como os objetos materiais porque não é um objeto material. O fóton não “viaja” no sentido clássico da palavra. Ele se manifesta ao longo do caminho através de interações com os campos, e sua velocidade é uma assinatura da geometria do espaço-tempo. Se você se move em direção a um feixe de luz ou no sentido contrário, quem se ajusta é o seu espaço e o seu tempo, não o fóton. No final das contas, ele não está nem aí pra você.

E essa é a dura realidade, não só para o universo como para sua vida…

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Trilha sonora do momento

85 anos do grande Smokey Robinson.

O normal seria ir de Cruisn’.

Mas, como fã inveterado dos Tempos Dourados, vamos com esse clássico dueto dele com o Rick James.

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