STF x Alessandro Vieira, ou Suprema treta em Brasília

A mais nova treta em Brasília envolve, para variar, um embate aberto entre Legislativo e Judiciário. Com o fim da CPI do Crime Organizado, o senador Alessando Vieira resolveu pedir o indiciamento por crimes de responsabilidade de ninguém mais, ninguém menos, que Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes e Dias Toffoli. Como a trinta de ministros do Supremo Tribunal Federal lhe parecesse pouco, Alessandro Vieira resolveu pedir também o indiciamento também do Procurador-Geral da República, Paulo Gonet. Sem querer querendo, Vieira pôs fogo no parquinho brasiliense.

Desde logo, esclareça-se que falar em “indiciamento” nesse caso é juridicamente impróprio. Conforme já foi explicado aqui há mais de dez anos, os tais “crimes de responsabilidade” previstos na Lei de Impeachment nada têm de crimes propriamente ditos. Ao contrário dos crimes comuns, dos quais da condenação resulta uma sanção pessoal traduzida numa pena privativa de liberdade ou restritiva de direitos, nos crimes de responsabilidade o máximo que pode acontecer é o sujeito perder o cargo e, dependendo do caso, ficar inelegível por oito anos. Esse, porém, não foi o único erro cometido por Alessandro Vieira em seu relatório.

Deixe-se de lado, por ora, o fato de o relatório da CPI do Crime Organizado não traz o nome de nenhum envolvido com PCC, Comando Vermelho et caterva. Deixe-se de lado, também, o fato de que o relatório de Alessandro Vieira não traz o indiciamento de nenhuma instituição financeira envolvida na lavagem de dinheiro dessas organizações criminosas. Deixe-se de lado até o fato de que não foi pedido o indiciamento nem de Daniel Vorcaro, o malfeitor que supostamente teria corrompido os ministros do Supremo. A pergunta é: havia base concreta para pedir o indiciamento deles no relatório final da CPI?

A resposta é um rotundo não.

Pra começo de conversa, não há sequer investigação sobre os supostos malfeitos de ministros do Supremo até aqui. Embora pululem estranhezas e relações ainda não explicadas com Daniel Vorcaro e sua tchurma, o fato é que pouco de concreto se tem até agora. Sabe-se que Dias Toffoli recebeu dinheiro de um fundo de investimento gerido pelo Master. Ele alega que foi pela venda de cotas do agora famoso resort de Tayayá.

Já Alexandre de Moraes estaria envolvido indiretamente através de sua esposa, cujos serviços foram contratados pelo Master pela bagatela de R$ 129 milhões. Quanto a Gilmar e a Gonet, pelo menos até agora, não há qualquer vestígio de relação com o banqueiro mafioso, ainda que seja certo que o PGR participou do convescote patrocinado por Vorcaro em Londres, regado a whisky Macallan e charutos caros.

Sob uma ótica estritamente jurídica, todo esse amontoado tem até o momento a consistência de uma gelatina. Não há, do ponto de vista legal, qualquer embasamento para uma acusação criminal contra qualquer dos ministros. Talvez por isso mesmo, Vieira tenha optado por “acusá-los” de crime de responsabilidade, uma modalidade difusa de responsabilização que só ganha corpo pelo seu caráter manifestamente político.

Se Vieira queria “lacrar” com seu relatório ainda é incerto, mas o fato é que a rebordosa veio a todo o vapor. Dias Toffoli ameaçou o senador com inelegibilidade, enquanto o decano Gilmar Mendes oficiou ao Procurador-Geral da República – também ele “denunciado” por Alessandro Vieira – para que investigasse criminalmente o senador sergipano. Salvo nas bolhas bolsonaristas, não houve voz responsável, na imprensa e no mundo político, que tenha chancelado o relatório de Vieira. O tiro, portanto, saiu pela culatra.

Ainda que seja certo que Alessandro Vieira extrapolou no seu relatório, ameaçá-lo com inelegibilidade ou, pior, pedir que seja processado criminalmente pelo seu relatório é uma reação exagerada. O caput do art. 53 da Constituição Federal é muito claro ao estabelecer que “deputados e senadores são invioláveis, civil e penalmente, por quaisquer de suas opiniões, palavras e votos”. Logo, por mais esdrúxula que tenha sido sua posição, Vieira não pode ser responsabilizado por ela, uma vez que cometeu a impropriedade no estrito exercício do seu mandato parlamentar.

O triste nessa história toda é ver que nenhum dos lados parece disposto a amainar os ânimos. A ninguém parece ocorrer que, quando a corda estica demais, ela invariavelmente chicoteia de volta. Vieira jogou para a platéia. E os ministros do Supremo responderam com o fígado. No meio disso tudo, o cidadão atarantado não sabe o que pensar das instituições. Se há um Senado disposto a produzir factóides irresponsáveis somente para fins eleitorais, há também um Supremo disposto a utilizar o peso da sua institucionalidade para esmagar dissidências.

O melhor a se fazer numa situação dessas seria todo mundo organizar um recuo estratégico, deixando o dito pelo não dito e fazendo com que a situação acalmasse. Entretanto, comedimento e moderação têm sido mercadorias escassas no Planalto Central nesses últimos tempos. Resta saber até quando os agentes públicos resolverão levar o país para bailar à beira do abismo. Em outubro há eleições.

E, a julgar pelas pesquisas, os prognósticos não são nada bons…

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Trilha sonora do momento

“Mas ele vai moderar”, eles dizem.

Tem quem acredite…

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Pensamento do dia

Jamais diga uma mentira que não possa provar.

By Millôr Fernandes

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Trilha sonora do momento

Com Wagner Moura na lista de 100 personalidades mais influentes da Time, talvez seja a hora de fazer uma versão masculina desse clássico de Dorival Caymmi…

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Pensamento do dia

As pessoas te dão o que elas são, não o que você merece. O que você merece é você quem se dá.

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Tensão pré-campanha, ou O jogo ainda por jogar

A campanha pra Presidente da República ainda nem começou e já tem gente precisando tomar tranquilizante a cada nova pesquisa publicada. Em qualquer lugar do mundo, a seis meses da eleição, qualquer enquete presidencial estaria fadada ao fracasso. No Brasil, onde até o passado é incerto, queimar pestana por pesquisas de intenção de voto a essa altura do campeonato é pura perda de tempo.

Desde o final do ano passado, quando Jair Bolsonaro indicou seu filho 01 como herdeiro político do clã, muita gente supostamente bem orientada e a galera da Faria Lima alimentou a esperança de que o lançamento de Flávio Bolsonaro não passasse de mais uma jogada do ex-presidente. A idéia seria negociar melhores condições de apoio com Tarcísio de Freitas, o atual governador de São Paulo. Preferido dessa turma, Tarcísio encarnaria um “bolsonarismo sem Bolsonaro” e poderia, segundo esse raciocínio, atrair o voto do centro democrático que optou por Lula em 2022 para impedir que o Brasil se precipitasse numa ditadura bozística.

Conforme foi alertado aqui, deram todos com os burros n’água. Atormentado pela paranóia persistente de que sempre será traído, Bolsonaro não confiou sequer na própria mulher, Michelle, para indicar como sucessora. Como imaginar que poderia confiar em alguém de fora da família como Tarcísio para indicar como sucessor? Nesse sentido, a escolha de Flávio Bolsonaro não era apenas previsível. Era quase óbvia.

Com Tarcísio fora de jogo e Ratinho Jr. tendo desistido da parada (cf. aqui), o desenho da direita já está mais ou menos estabelecido. Há o bolsonarismo-raiz, encarnado por Flávio Bolsonaro, e o bolsonarismo “light”, que será disputado por Ronaldo Caiado (certo) e Romeu Zema (que tentará cavar uma vaga de vice do filho 01). Correndo na mesma faixa, a hipótese mais provável é que Flávio Bolsonaro mantenha liderança folgada e, com o tempo, os dois pretendentes do bolsonarismo light acabem ou aderindo ou sendo canibalizados pela candidatura principal.

Na esquerda, Lula conseguiu interditar todas as vias. Ele, que sempre eclipsou esse lado do eleitorado com a força de sua popularidade, agora literalmente corre sozinho na raia jacobina do espectro político. Nem sequer o PSOL, que concorreu em todas as eleições presidenciais desde que foi criado, lançará candidato ao Planalto. Para quem tem ojeriza aos Bolsonaro ou milita à esquerda, não restará outra alternativa senão votar no babalorixá petista mais uma vez.

Fora essas duas certezas, todo o resto é dúvida. É certo que a desaprovação de Lula pesa sobre sua candidatura como uma bola de ferro atada ao tornozelo. É difícil, porém, dizer o quanto disso é de fato avaliação de julgamento sobre os méritos do seu governo e quanto é simplesmente anti-petismo arraigado desde 1989 na mídia e em parte dos eleitores. Contudo, imaginar que um sujeito que ganhou cinco eleições presidenciais (três em nome próprio e duas por interposta pessoa), sentado na cadeira, não seja o favorito, é de uma miopia atroz.

Brincando com os números, pode-se fazer diversos tipos de cálculo. Pode-se contabilizar o quanto um governante qualquer tem de ter de aprovação a essa altura do campeonato para ser reeleito. Os estatísticos costumam falar em 45% de popularidade como piso, percentual do qual o atual inquilino do Planalto ainda está distante. Pode-se, também, verificar o histórico da última reeleição, quando Bolsonaro tinha um saldo negativo de 26% entre aprovação e desaprovação (Lula tem 11% de saldo negativo) e acabou perdendo.

A bem da verdade, seja quais forem os números de agora e o tipo de brincadeira que se queira fazer com eles, o histórico das últimas eleições não autoriza sequer especular o que vai ser do próximo pleito. Apenas nas últimas três eleições, tivemos: morte de um candidato (Eduardo Campos), tentativa de assassinato de outro (Bolsonaro) e libertação de um ex-preso cujos direitos políticos estavam suspensos (Lula). Com um retrospecto tão bizarramente imprevisível como esse, quem se arrisca a dizer quem será o novo Presidente da República?

O jogo das eleições de 2026, portanto, ainda está por ser jogado. Resta saber que tipo de baralho será distribuído e quais cartas serão sorteadas aos participantes. Até lá, grandes emoções nos aguardam.

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Trilha sonora do momento

ALL.

Entendedores entenderão.

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Pensamento do dia

Com as redes sociais, as pessoas que não tinham nada a dizer agora têm mil e uma formas de fazê-lo.

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Trilha sonora do momento

Entendededores entenderão.

Ice, ice, baby!

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Pensamento do dia

Nenhum homem pode ter uma face para si mesmo e outra para a multidão sem, ao final, confundir qual delas é a verdadeira.

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