Trilha sonora do momento

Mantendo a tradição.

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Pensamento do dia

Algumas saudades deixam vazios que nunca mais serão preenchidos.

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Recordar é viver: “Por mudanças penais de verdade, ou Por que não vale a pena enquadrar traficante como terrorista”

Bom, pelo menos dessa vez a desgraça não foi culpa nossa.

Veio de fora, por obra e graça do Laranjão.

E, claro, cortesia da extrema-direita bolsonarista.

É o que você vai entender, lendo.

Por mudanças penais de verdade, ou Por que não vale a pena enquadrar traficante como terrorista

Publicado originalmente em 4.11.25

Depois do surto coletivo pós-trauma do massacre no Rio de Janeiro, toda sorte de maluquice começou a aparecer na política e no noticiário. Como de hábito, os “especialistas” de plantão vêm com respostas simples para problemas complexos. De novidade, mesmo, apenas a retomada desenvergonhada do slogan “bandido bom é bandido morto”.

A nova panacéia da segurança pública no Brasil atende agora pelo nome de “terrorismo”. Bastaria passar a qualificar os traficantes do Comando Vermelho, Primeiro Comando da Capital e facções afins como “terroristas” para que, em um passe de mágica, tudo começasse a se resolver nessa seara. Infelizmente, contudo, o buraco é mais embaixo.

Do ponto de vista estritamente legal, a mudança na conceituação dos envolvidos com atividades criminosas resultaria basicamente no aumento de pena dos condenados. Ao invés de serem enquadrados na Lei nº. 11.343/06 (Lei de Drogas), os traficantes agora seriam sorteados no milhar 13.260/16 (Lei antiterrorismo). Concretamente, as penas sairiam dos atuais 2 a 20 anos de cadeia, dependendo das circunstâncias, para 12 a 30 anos. Fora isso, a progressão de regime seria um pouco mais demorada, mas ainda assim ocorreria.

Isso, então, resolve?

Claro que não.

Para além do fato de que o aumento de penas em si pode ocorrer por simples mudança legislativa – sem necessariamente mudar o enquadramento do traficante para “terrorista” –, existem muitas outras opções mais concretas e mais efetivas para se combater as organizações criminosas.

Uma proposta bem simples seria a criação de um tipo penal específico para os homicídios praticados no contexto das organizações criminosas. Seja por acerto de contas, seja por “justiçamento” (nos famosos “tribunais do tráfico”), seja por simplesmente tocar o terror na população, a maior parte dos assassinatos cometidos por esses criminosos não está relacionado propriamente ao bem jurídico “vida”.  Na verdade, o que está em jogo muitas vezes é uma estratégia de tensão, visando ao amedrontamento da população dominada, ou simplesmente o interesse pecuniário (dívidas de drogas ou coisa parecida).

Hoje, os homicídios praticados por integrantes de facções criminosas são julgados pelo tribunal do júri. Compostos por cidadãos comuns, a decisão dos jurados é movida pela convicção íntima. Em outras palavras, ela não precisa ser fundamentada. Por isso mesmo, não raro facínoras acabam sendo absolvidos em júris apesar das provas em contrário, só porque os jurados ficaram com medo de votar pela condenação. Em cidades pequenas, esse fenômeno é ainda mais potencializado, por razões óbvias.

Deixando de caracterizar os homicídios praticados no contexto das organizações criminosas como “crimes dolosos contra a vida”, esses crimes deixariam de ser julgados pelo tribunal do júri. A exemplo do que acontece nos latrocínios (roubo seguido de morte), os réus passariam a ser julgados por juízes de carreira. E aí a pena variaria de acordo com o gosto do freguês. No homicídio, varia de 6 a 30, a depender se o crime for ou não qualificado. No latrocínio, a pena varia de 20 a 30 anos de reclusão. A pena mínima, portanto, seria inclusive maior do que a prevista para o crime de terrorismo.

Outra proposta relativamente simples diz respeito à criação de um banco nacional de informações, contendo os dados de todos os membros já identificados de facção. Com a divisão do combate ao crime em secretarias de segurança pública estaduais, não é raro acontecer de um faccionado ser preso em outro estado por um crime “menor” – como porte ilegal de armas – e sair livre na audiência de custódia simplesmente porque não se sabe da ligação dele com a facção criminosa. É impressionante que, em pleno 2025, isso ainda aconteça no Brasil.

Outra providência para ontem seria a obrigatoriedade de cumprimento da pena em presídios federais de segurança máxima. Ao contrário das penitenciárias estaduais, que na maioria das vezes são mais vazadas do que peneiras, os presídios federais ainda conseguem funcionar a contento quando o assunto é isolamento do preso da sociedade (e da rede de criminosos ao qual ele está associado).

Nessa esteira, seria interessante pensar também na possibilidade de gravação das visitas recebidas pelos presos dentro das penitenciárias. Hoje, mesmo para os que se encontram em regime de isolamento, não é raro ver chefes de facção distribuindo ordens mesmo quando estão encarcerados. E, no mais das vezes, isso acontece por meio dos “pombos-correios” que eles recebem nos presídios.

Fora isso, poderia ser inclusive estabelecido um novo tipo penal: portar celular dentro da cadeia. Assim, isso deixaria de ser mera infração disciplinar no cumprimento da pena e passaria a resultar em mais condenação para os criminosos.

Como se vê, soluções práticas e legais existem aos montes. Falta talvez coragem para enfrentar de frente o problema. Da mesma forma que só discurso bonito não vai resolver, tampouco será solução adotar medidas ilusionistas de caráter midiático, como a equiparação de traficantes a terroristas.

É hora de a população sair da catarse promovida pelo banho de sangue no Rio de Janeiro e começar a cobrar dos governantes medidas concretas para resolver a questão. Ou a gente faz isso, ou virão muitas outras matanças do tipo enxugar gelo, tal qual foi a da semana passada.

Vamos aprender com os erros do passado, ou estaremos condenados a repeti-los?

Só o tempo dirá.

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Trilha sonora do momento

JOÃO

FUCKING

FONSECA

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Pensamento do dia

Nunca subestime o poder de sedução de um vocabulário decente.

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O fim da escala 6×1, ou Enfim, um descanso para o trabalhador

As boas coisas também acontecem. Tal é a conclusão de quem assistiu ontem à aprovação na Câmara dos Deputados do fim da desumana escala do 6×1, de modo a garantir a todo e qualquer trabalhador pelo menos dois dias de folga por semana. Trata-se do maior avanço para a qualidade de vida geral do operário-padrão brasileiro desde a promulgação da Constituição de 1988, com seu extenso rol de direitos sociais.

Para quem está acostumado a ver a seção política como sublegenda da seção policial dos jornais, chega a assustar quando o Congresso Nacional demonstra alguma utilidade para o bem estar da população. Afinal, quando a esmola é demais, o santo desconfia. Tudo bem que ainda falta a coisa passar pelo Senado, mas, dada a esmagadora maioria na sessão de ontem, quando nem sequer duas dezenas de deputados tiveram a pachorra de votar contra a medida, é difícil imaginar que os senadors tenham coragem de barrar a iniciativa.

Como tudo que é bom nestas terras ao sul do equador, a conquista não veio de graça. A extrema-direita bolsonarista fez de tudo para barrar a medida. O deputado federal Sóstenes Cavalcante, líder do PL e autoproclamado paladino da família, lutou bravamente para garantir que o trabalhador continuasse chegando em casa a tempo apenas de ver os filhos dormindo. Ao seu lado, a dupla dinâmica do “dedo no c* e gritaria”, André Fernandes e Nikolas Ferreira, recorreu ao truque regimental de tentar impor a votação da escala 4×3 como forma de deixar tudo como está. Nikolas Ferreira chegou ao cúmulo de dizer que aprovar a escala 4×3 levaria à demissão de milhões de trabalhadores e que esse dia, quando chegasse, seria “maravilhoso”.

A “justificativa” para tentar barrar essa medida era aquela de sempre: dar mais direitos aos trabalhadores vai levar a mais desemprego. O problema é que a realidade teima em desmentir essa teoria toda vez que ela é colocada em prática. Em 1962, por exemplo, João Goulart instituiu o “abono de Natal”, popularmente conhecido como 13º salário. Numa manchete que entraria para a história (no mau sentido), o jornal o Globo decretou:

Passados mais de sessenta anos, o vaticínio catastrofista do jornal carioca não só se concretizou como ainda ficou claramente desmoralizado. Hoje, ninguém imagina um trabalho com carteira assinada que não assegure ao trabalhador o agora sagrado 13º salário, uma das maiores fontes de renda do próprio comércio quando chega o final do ano.

Ao contrário do que pregavam os profetas do Apocalipse, o que aconteceu na prática foi que aquele dinheiro extra em dezembro foi injetado direto na academia. Ele aquece o varejo e provoca o que os economistas costumam chamar de aumento da demanda agregada. Quem poderia imaginar que um consumidor com dinheiro no bolso é muito melhor para os negócios do que um consumidor miserável, não é?

Não é necessário sequer voltar tanto no relógio do tempo para ver que os discursos contra o aumento dos direitos dos trabalhadores normalmente vêm das classes que querem apenas manter o estado de miséria geral do sofrido proletariado. No Brasil dos anos 2000, por exemplo, uma das maiores políticas públicas de transferência de renda para a população mais pobre foi a política de valorização real do salário mínimo. À época, dizia-se a mesma coisa: “o país vai quebrar”, “os empresários vão demitir”, “no final isso vai acabar sendo ruim para o trabalhador”. Um quarto de século depois, pela primeira vez na história o Brasil alcançou o índice de alto desenvolvimento humano das Nações Unidas.

Para quem reclama da produtividade, achando que “gestão” é sinônimo de “chicote”, parece claro que um trabalhador exausto, que só tem tempo para trabalhar e cair na cama desmaiado, será bem menos produtivo do que um que consegue minimamente descansar e ter tempo para cuidar da família. É evidente que trabalhadores descansados erram menos, adoecem menos, faltam menos e, por conseguinte, entregam mais. Países com jornadas menores lideram sistematicamente os rankings globais de produtividade, de que são exemplo Noruega, Dinamarca e Alemanha. Não se cuida aqui de defender ideologia. Cuida-se, apenas, de defender a matemática básica.

O que a vitória da escala 5×2 escancara é que trabalhador não é insumo. É gente. E gente descansada consome, movimenta o mercado e, de quebra, gera mais lucro para os mesmos empresários que tanto espernearam contra a mudança. A maior ironia disso tudo é que, no final das contas, os profetas do fim do mundo no Congresso lutaram contra os interesses financeiros dos próprios patrões que idolatram.

Mas não precisamos esquentar a cabeça. Daqui a algum tempo, quando a escala 5×2 tiver alcançado o mesmo patamar do 13º salário no ranking de direitos básicos conquistados pela sociedade, alguma nova conquista trabalhista surgirá no horizonte. Quando ela aparecer, os arautos do Apocalipse estarão a postos para garantir que, agora sim, o Brasil afunda. Não se trata de profecia.

É simplesmente a tradição…

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Trilha sonora do momento

O golpe tá aí.

Cai quem quer.

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Pensamento do dia

Pensar demais é a arte de criar problemas que não existem.

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Trilha sonora do momento

Será que o Congresso derruba a escala 6×1?

A conferir.

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Pensamento do dia

Às vezes eu sei que estou errado, mas continuo pelo simples prazer de discutir.

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