A crise na Ucrânia, ou Teremos guerra?

Da onde menos se espera, daí é que não vem mesmo, já ensina a sabedoria popular. Tal é o sentimento do cidadão aflito ao assistir ao noticiário internacional no dia de hoje.

Para quem veio de Marte ou recém despertou de um coma profundo, Rússia e o Ocidente medem forças em pleno território ucraniano. Ex-integrante da União Soviética, a Ucrânia é, a um só tempo, o palco de um dos acidentes mais terríveis já presenciados pelo ser humano (Chernobyl) e um ponto de ligação estratégico entre o “continente russo” e a Europa. De quebra, a Ucrânia ainda é uma potência agrícola e um produtor relevante de ferro, manganês, gás e petróleo. Há muitos intere$$es, portanto, rondando a região.

Assim como previsto aqui, o desenlace da crise ucraniana envolveria grandes emoções de lado a lado. Como pano de fundo, a discussão é relativamente simples. Com o fim da União Soviética, a Rússia se ressente de seu outrora glorioso passado de superpotência e deseja assim ser tratado pelos demais players internacionais. Mesmo com a economia em franca decadência desde pelo menos a década de 70, os russos ainda mantêm consigo o segundo maior arsenal atômico do planeta. Convenhamos, não é pouca coisa.

Do lado do Ocidente, a idéia – como sempre – é jogar os russos para o mais Oriente possível do mundo, afastando-os da Europa. Daí a quebra dos acordos não firmados após a dissolução do império soviético, de que os aliados não iriam mais ao leste da Alemanha Oriental na sua disputa por áreas de influência no mundo. Era o “preço” cobrado pelo Exército Vermelho para não colocar areia na reunificação alemã. Promessa jogada fora, as repúblicas bálticas (Estônia, Letônia e Lituânia), Polônia, Hungria, Eslováquia, Romênia e Bulgária – todas elas ex-integrantes da “Cortina de Ferro”-, viraram a casaca e passaram a jogar com as cores da OTAN, a entidade ocidental antípoda ao falecido “Pacto de Varsóvia”. Parecia claro que era só questão de tempo até a Rússia querer dar o troco.

Pois parece ser justamente isso que está acontecendo agora. Jogando numa estratégia de tensão, os russos alegam – não sem alguma dose de razão – que não podem permitir a introdução de armamento pesado ocidental em nações com as quais fazem fronteiras. Mal comparando, seria o mesmo que os Estados Unidos admitirem a instalação de mísseis em Cuba, no seu quintal de casa. Esse mesmo caso já aconteceu em 1962 e foi o mais perto que o mundo esteve da Terceira Guerra Mundial (pelo menos até o momento).

Desde a derrubada do presidente ucraniano pós-Moscou em 2014, Vladimir Putin vem tentando expandir sua influência na região. E a melhor forma de fazer isso, ao menos sob a sua perspectiva, é exibir os músculos do Exército Vermelho. Daí a anexação da Criméia em 2014 e o apoio aos separatistas ucranianos das regiões de Donetsk e Luhansk, cujos territórios o presidente russo, no dia de hoje, reconheceu como independentes.

Cartas na mesa, resta saber agora o que o Ocidente vai fazer. Do ponto de vista prático, é difícil imaginar uma ação armada contra os russos, mesmo em caso de uma ampla invasão e anexação do território ucraniano por Putin. Para além do risco do “fim do mundo” (uma guerra nuclear aberta), não faz sentido que os membros da OTAN saiam em defesa de um país que nem sequer é integrante da organização. Ademais, seria no mínimo duvidoso entrar numa parada assim, tão encarniçada, para enfrentar um inimigo militarmente mais poderoso, que “joga em casa”, para tão-somente reafirmar a independência de um possível-sabe-se-lá-mas-não-há-muita-certeza aliado.

O mais provável, portanto, é que a briga continue no campo das sanções econômicas. Por mais “soviéticos” que os russos queiram ser, o fato é que a economia mundial, hoje, é muito mais integrada do que era na Guerra Fria. Está certo que um eventual apoio da China pode fazer alguma diferença, mas a Rússia vai precisar de muito mais do que isso para sobreviver economicamente se a porca entortar o rabo. Fechar o acesso aos mercados mundiais dos bancos e das empresas russas (especialmente as do setor de energia) pode causar um estrangulamento econômico progressivo que nem as boçais reservas em dólar do Banco Central Russo serão capazes de enfrentar. E aí teremos que ver quem vai piscar primeiro: o Ocidente ou os russos.

Convém, entretanto, colocar as barbas de molho. Quando o estudante bósnio Gavrilo Princip puxou o gatilho da sua arma para assassinar Francisco Ferdinando, herdeiro do Império Austro-Húngaro, ninguém imaginou que os balcãs pudessem valer mais do que os ossos de um granadeiro pomeraniano (Bismark).

Deu no que deu.

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