Ich bin ein Berliner

Muita gente se recorda de John Fitzgerald Kennedy somente pela trágica circunstância de ter sido assinado em frente às câmeras. Quando muito, consegue associar sua morte a algum tipo de conspiração universal para assassinar o marido de Jackie Kennedy. De fato, quem só o conhece de nome ou por filmes como JFK, limita seu universo de conhecimento àquele infeliz 22 de novembro de 1963. No limite, é capaz até de acreditar numa bizarrice certa vez pronunciada por Arnaldo Jabor, segundo a qual Kennedy só era adorado pela população americana porque era bonito. Felizmente, o buraco é bem mais embaixo.

Na verdade, Kennedy foi muito mais do que um rostinho bonito na presidência. Aliando seu charme aos discursos que lhe eram escritos por Ted Sorensen e Richard Goodwin, Kennedy utilizou com sucesso os palcos do mundo para aumentar o poder de influência dos Estados Unidos no mundo.

Um dos maiores exemplos do que estou querendo dizer aconteceu em 26 de junho de 1963, às portas do Rathaus Schoneberg, ou a prefeitura da cidade de Berlim.

Rathaus Schoneberg

22 meses antes, a Alemanha Oriental mandara erguer o famigerado Muro de Berlim, cujo objetivo era um só: impedir que seus cidadãos imigrassem para a Alemanha Ocidental. Encravada à época no meio da DDR (Deutsche Demokratische Republik), Berlim Ocidental era um verdadeiro enclave capitalista no meio do mundo comunista. Exatamente por isso, funcionava também como porta de saída àqueles que desejavam abandonar as agruras da Alemanha Oriental e experimentar um pouco da prosperidade do lado Ocidental. Berlim era, portanto, a fonte mais próxima e provável de atrito entre americanos e soviéticos.

Divisão de Berlim

Com o muro erguido, Kennedy foi a Berlim sob uma atmosfera conspurcada. Seus cidadãos literalmente se sentiam presos numa ilha, cercada de inimigos por todos os lados. A tensão estava no ar, e a confiança dos alemães ocidentais sobrevivia por um fio. Foi nessa hora que Kennedy e Ted Sorensen tiveram a idéia de mostrar aos cidadãos de Berlim que eles não estavam sós.

Depois de fazer os cumprimentos de praxe, Kennedy vai direto ao ponto:

Two thousand years ago the proudest boast was “civis Romanus sum.” Today, in the world of freedom, the proudest boast is “Ich bin ein Berliner.”

(Há dois mil anos, não havia frase que se dissesse com mais orgulho do que civis romanus sum (“Sou um cidadão romano”). Hoje, no mundo da liberdade, não há frase que se diga com mais orgulho que ‘Ich bin ein Berliner'(“Eu sou um cidadão berlinense”).

Usando seu conhecido senso de humor, Kennedy se escusa de seu alemão sofrível agradecendo ao seu intérprete por “traduzir o meu alemão”.

Logo depois, JFK fala ao moral dos berlinenses. Citando uma a uma as diferenças entre o “mundo livre” e o “mundo comunista”, Kennedy convoca aqueles que as ignoram a vir a Berlim (“Let them come to Berlin“), para então levar a multidão ao delírio ao dizer a mesma frase em “inglemão”: Lass’ sie nach Berlin kommen.

Afiando a língua, Kennedy vai direto ao ponto da razão pela qual ele está ali: “Freedom has many difficulties and democracy is not perfect, but we have never had to put a wall up to keep our people in, to prevent them from leaving us

(“A liberdade tem muitas dificuldades e a democracia não é perfeita, mas nós nunca tivemos de erguer um muro para manter nosso povo nele, para impedi-los de nos deixar“).

Jack Kennedy também não deixa de dar uma estocada nos soviéticos, que, em nome da pretensa igualdade entre os homens, negam-lhes o direito mais básico do ser humano: o direito de escolha: “What is true of this city is true of Germany—real, lasting peace in Europe can never be assured as long as one German out of four is denied the elementary right of free men, and that is to make a free choice

(“O que é verdade para esta cidade é verdade para a Alemanha – paz real e duradoura na Europa nunca poderá ser assegurada enquanto a um entre quatro alemães for negado o elementar direito do homem livre, que é o direito a fazer uma escolha livre“).

JFK caminha para o final do discurso com o propósito de de deixar uma mensagem de esperança aos cidadãos de Berlim. É quando ele diz:

Freedom is indivisible, and when one man is enslaved, all are not free. When all are free, then we can look forward to that day when this city will be joined as one and this country and this great Continent of Europe in a peaceful and hopeful globe. When that day finally comes, as it will, the people of West Berlin can take sober satisfaction in the fact that they were in the front lines for almost two decades“.

(“A liberdade é indivísvel, e quando um homem é escravizado, todos não são livres. Quando todos os homens forem livres, então nós poderemos imaginar o dia em que esta cidade estará reunida como uma só e este país e este grande continente europeu estarão em um pacífico e esperançoso mundo. Quando esse dia finalmente chegar, como chegará, o povo de Berlim Ocidental poderá encher-se de firme satisfação no fato de que ele esteve na linha de frente por quase duas décadas“)

Para encerrar, Kennedy termina o discurso por onde começou, isto é, exaltando o povo de Berlim Ocidental:

All free men, wherever they may live, are citizens of Berlin, and, therefore, as a free man, I take pride in the words “Ich bin ein Berliner!”

(“Todos os homens livres, onde quer que eles possam viver, são cidadãos de Berlim, e, desse modo, como homem livre, eu me orgulho das palavras “Ich bin ein Berliner“).

O discurso ficou tão marcado no imaginário alemão que foi erguida uma placa em homenagem a ele na sede da prefeitura.

Placa comemorativa

Claro, nada disso teria muito efeito ou importância se os caminhos apontados por Kennedy não apontassem na direção correta. Era sobretudo por  sua visão particular de mundo que os americanos – pelo breve período de sua presidência – passaram a gozar de apoio quase irrestrito no mundo Ocidental (e até em parte do Oriental). Nunca antes, e possivelmente nunca depois, alguém chegou a exercer com tamanha precisão o conceito de soft power.

Infelizmente, desde que Kennedy se foi, nunca mais apareceu um norte-americano à altura daquele jovem presidente de primeiro mandato. Ficou, no entanto, o exemplo. Quem sabe, um dia, alguém não se inspira nele?

Abaixo, vai a íntegra do discurso pronunciado por Kennedy (infelizmente sem legendas):

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4 respostas para Ich bin ein Berliner

  1. Mourão disse:

    É meu caro Senador, por mais que os comunistas tentassem sofismar contra a Democracia ocidental, intitulada por eles de democracia formal ( o totalitarismo talvez fosse a formal), nunca conseguiram bem explicar por que não permitiam a seu povo o direito de ir e vir; de manifestar-se livremente; de escolher seus representes sem a intermediação do partido único; de ter a sua religião, ou seja, de sentir-se livre. Embora não haja dúvida de que o capitalismo também oprime os que pouco ou nada têm, mas não elimina definitivamente a aspiração comum do ser humano de ter, quando possível, o real direito de escolha. Para os que nada têm saciar a fome é o limite, porém logo que o fizer nascerá o natural desejo de conforto, de lazer, da liberdade de ir e vir. Isso, sem se aprofundar na questão , contribuiu para a decadência comunista após décadas de apogeu em que parecia indestrutível.
    Boa noite

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