Trilha sonora do momento

Para manter a tradição.

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Aviso aos navegantes

Como de hábito, o Blog encontra-se no seu tradicional período de recesso de ano novo.

Com a graça do bom Deus, voltaremos às nossas atividades normais na semana do dia 18 de janeiro, para as comemorações dos 15 anos do Dando a cara a tapa.

Até lá, deixo-vos meu muito obrigado pela audiência e os votos de um 2026 melhor, mas muito melhor do que este 2025.

São os cumprimentos sinceros do

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“Comida”, ou A profundidade sócio-filosófica de Arnaldo Antunes

Que os Titãs são uma das maiores bandas de rock da história do país, ninguém discute. Que Arnaldo Antunes é um gênio da arte, tampouco é motivo de discussão. Mas quando a matéria é falar sobre uma música específica, aí o pau canta. E, nesse caso específico, talvez o Blog se arrisque mais do que o habitual ao cravar: é dos Titãs, pelas mãos de Arnaldo Antunes, que nasceu a canção sócio-filosófica mais profunda da Música Popular Brasileira: Comida.

Integrante do álbum Jesus não tem dentes no país dos banguelas, Comida também foi lançada como single em 1987, tal foi o sucesso que alcançou nas rádios. Mais do que uma mera crítica social, a música reflete uma obra filosoficamente densa, capaz de provocar uma reflexão profunda em quem se digna a prestar atenção na sua letra. Arnaldo Antunes começa a música já com uma voadora no meio dos peitos do ouvinte:

Bebida é água

Comida é pasto

Se à primeira vista o título poderia indicar a reivindicação de um direito básico de qualquer ser humano – alimentar-se -, não é preciso ser um grande literato para entender que, para Arnaldo Antunes, a existência humana não pode ser reduzida à mera sobrevivência biológica. Se fosse assim, bastaria – como basta para o gado – água e pasto. O buraco, para ele, é muito mais embaixo:

Você tem sede de quê?

Você tem fomo de quê?

Em um país recém-saído de uma atroz ditadura militar, Arnaldo Antunes começa a empilhar as verdadeiras necessidades do cidadão que enxergava a democracia com um misto de esperança e desolação:

A gente não quer só comida

A gente quer comida, diversão e arte

A gente não quer só comida

A gente quer saída para qualquer parte

Não seria exagero enxergar nessa enumeração de carências que transcende as necessidades orgânicas uma espécie de crítica à chamada “razão instrumental”, isto é, à lógica que reduz toda a existência humana a fins utilitários. Emulando um filósofo da Escola de Frankfurt, Arnaldo Antunes denuncia que, numa sociedade de consumo massificado, existe a necessidade de algo a mais do que uma vida na qual se trabalha para comprar comida, para poder manter-se vivo e trabalhar ainda mais. Essa perpetuação do nada conduz a um ciclo tão infinito quanto vazio. O ser humano não é – ou, pelo menos, não deveria ser – um animal cujo estômago domina plenamente suas ações.

A isso se segue o verso talvez mais radical e filosoficamente rico da canção:

A gente não quer só comida

A gente quer bebida, diversão, balé

A gente não quer só comida

A gente quer a vida como a vida quer

Embora alguém possa enxergar um certo caráter hedonista na enumeração de atividades aparentemente fúteis, como bebida, diversão e balé, o ponto central aqui está em recusar a vida de subsistência para reclamar “a vida como a vida quer”. Trata-se de um verdadeiro manifesto no qual Arnaldo Antunes estabelece à la Nietzsche uma vida em que o desejo puro se sobrepõe a regras sociais e à moralidade repressora. Essa linha fica ainda mais evidente no verso seguinte, no qual o compositor diz:

A gente não quer só comer

A gente quer comer, quer fazer amor

A gente não quer só comer

A gente quer prazer para aliviar a dor

Noves fora a evidente duplicidade de sentido estabelecida com o verbo “comer”, Arnaldo Antunes provoca o ouvinte a ir além da lascívia pura e simples do ato sexual. Também ele não pode ser reduzido à descarga hormonal da relação em si. É necessário ir além. Talvez o compositor não avance o suficiente para que se estabeleça um paralelo com o conceito de “vontade” de Schopenhauer, mas é razoável entender que ele define a premência de uma vida se amarras, autêntica, que não seja mero simulacro de regras preestabelecidas.

O último verso resume a crítica social de uma sociedade consumista, que é erguida e gira em torno de uma única coisa: dinheiro. Mas, como Arnaldo Antunes faz questão de frisar:

A gente não quer só dinheiro

A gente quer dinheiro e felicidade

A gente não quer só dinheiro

A gente quer inteiro e não pela metade

O ser humano, portanto, não se completa nem se contenta apenas com o material. Ele se nutre – “come” – também para o espírito. A vida é mais. A vida pode mais. É natural querer mais dela. Sem isso em mente, o homem fica confinado à mediocridade da existência e não se sacia nunca. Tudo que resta, por mais satisfeitas que estejam as necessidades básicas, é somente um imenso vazio.

Numa toada que mistura o funk ao rock, a música brilha com seu arranjo eletrônico, que acompanha sonoramente a letra entoada por seu compositor. Escrita numa época de inflação alta e desabastecimento, a canção transformou-se quase em um hino atemporal contra a miséria intelectual e espiritual que aflige a sociedade moderna. E é por isso mesmo que ela é celebrada até hoje.

Abaixo, o clip original, para quem quiser tirar a prova dos nove:

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Trilha sonora do momento

That’s it.

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Pensamento do dia

Corra atrás de sonhos, não de pessoas.

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Trilha sonora do momento

Vida que segue…

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Pensamento do dia

O futuro é criado pelo que você faz hoje, não pelo que fará amanhã.

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Recordar é viver: “Pacificar o quê?, ou O falso debate da anistia”

Com a aprovação dessa patuscada da dosimetria, vale a pena recordar um post de três meses atrás.

É o que você vai entender, lendo.

Pacificar o quê?, ou O falso debate da anistia

Publicado originalmente em 30.9.25

A mais nova piada que corre nos ares desérticos do Planalto Central é a história da “pacificação”. Suposta panacéia para todos os males nacionais, a tal da pacificação viria através da “anistia”. Por meio de um projeto de lei do Congresso, a idéia seria perdoar todos os golpistas do 8 de janeiro – inclusive a cúpula do golpe e seu beneficiário-mor, Jair Bolsonaro -, como se nada do que aconteceu e do que se descobriu até aqui tivesse acontecido. Vendida como remédio, a solução é veneno.

Pra começo de conversa, os defensores da “anistia ampla, geral e irrestrita” têm o dever de explicar o que é que se pretende pacificar exatamente com esse projeto. Por acaso o país está conflagrado? Estamos numa guerra civil fratricida, contando centenas de mortos por dia? Há greves ou desabastecimento generalizado? Há pelo menos piquetes nas ruas?

Não, nada disso. O país vive em sua mais plena normalidade democrática. Na verdade, a maior normalidade democrática de sua breve história de quarenta anos de redemocratização. Pela primeira vez desde a Proclamação da República, generais e civis golpistas foram às barras dos tribunais serem condenados por atentarem contra o Estado de Direito. As ruas permanecem tranquilas e, salvo o saudável exercício da democracia que terminou no enterro da PEC da Bandidagem, continuam quietas. Oficiais de quatro estrelas foram sentenciados a duas dezenas de anos de cadeia e não se ouviu sequer murmúrio vindo das Forças Armadas contra o STF.

Cadê o conflito? Cadê a confusão? Salvo as arruaças promovidas pela turma do dedo no c* e gritaria da extrema-direita congressual, não existe um único elemento sequer que autorize pensarmos numa anistia para “pacificar” o país. No final das contas, a “pacificação” não passa de um discurso fajuto destinado a passar pano para quem tentou, por meio da força. derrubar a ordem democrática após ter perdido a eleição. Para além de Bolsonaro e seus generais golpistas, a ninguém – absolutamente ninguém – interessa o perdão generalizado aos crimes que foram cometidos.

Ademais, discutir anistia nos termos em que estão sendo propostos é um acinte até mesmo a quem tem ojeriza à esquerda. Qualquer tipo de perdão tem de começar, necessariamente, com o reconhecimento da parte a ser perdoada de que errou. Em todos os casos e em todas as épocas que se decidiu pela anistia verdadeira, houve um processo de distensão entre dois lados que partiram para os extremos. Para promover uma reconciliação nacional, perdoam-se todos e vida que segue.

Aqui, não. Não há dois lados que se atacaram mutuamente, à margem da legalidade. O que há, de um lado, são terroristas bandidos que tentaram abolir o Estado de Direito e, do outro, um lado que simplesmente quer ver a lei aplicada. E o que é pior: os golpistas nem sequer reconhecem que tentaram um golpe de Estado. O que eles querem, no fundo, é somente a impunidade pelos crimes que cometeram. Como, então, cogitar-se de anistia?

Na verdade, o que existe é um balé de elefantes, no qual um liberticida mimado encontra-se em franco desespero por, pela primeira vez na vida, ver-se diante da possibilidade de responsabilização pelos seus atos; e, do outro, o Centrão dinheirista, interessado somente no cesto de votos que Bolsonaro tem para tentar eleger um tecnocrata que possa ser comandado pelo grupo a partir de 2027. O favorito dessa galera é o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, mas eles topam fazer negócio pelo do Paraná, Ratinho Jr.

O problema, como foi antecipado aqui, é que falta combinar com os russos. Ou, mais especificamente, com os Florida Boys, Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo. Se o Centrão se arranjar com o chefe do clã, Dudu Bananinha já avisou que se lançará sozinho à presidência, liderando o que ele mesmo diz ser uma “linha mais ideológica”. Variante do Talibã, a extrema-direita “eduardista” pretende correr na faixa aberta por Paulo Marçal, canibalizando uma possível concorrência da “direita permitida”, expressa nas candidaturas de Tarcísio de Freitas ou Ratinho Jr.

O que fica claro, portanto, é que o único setor nacional que precisa de pacificação é a extrema-direita bolsonarista. Quanto ao resto do país, vai bem, obrigado.

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Trilha sonora do momento

The graduate.

Entendedores entenderão.

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Pensamento do dia

A decisão certa também dói.

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