As bodas de Caná

Quem vai ao Louvre pela primeira vez normalmente se orienta pelas placas e ruma direto e reto para a sala onde está a Mona Lisa. Vindo pela imensa galeria dos pintores italianos, dobra-se à direita e se vê, ao fundo, pequena, afixada numa enorme parede e protegida por um vidro à prova de balas, La Gioconda.

Claro, até chegar até ela você tem que atravessar a multidão que se forma diante do quadro de Da Vinci para tirar fotos ou simplesmente para contemplar a obra de arte. Se preciso, valendo-se dos cotovelos. A briga é tanta e o destaque dado à Mona Lisa é tão absurdamente desproporcional que a maioria deixa de perceber que, além daquele pequeno quadro instalado placidamente no meio do ambiente, há quase uma centena de obras de arte quase mendigando um pouquinho de atenção frente à Gioconda. Dentre elas, destaca-se uma das mais impressionantes (literalmente) pinturas já produzidas por um ser humano: As bodas de Caná, de Paolo Veronese.

The wedding at Cana

Curiosamente, o mais belo quadro daquela sala (pelo menos na opinião deste que vos escreve) encontra-se exposto de frente para a Mona Lisa, de tal modo que todo mundo que  a contempla fica de costas para As bodas de Caná. Quem não se digna a dar a volta em torno de si mesmo, não sabe o que está perdendo.

Primeiro, o quadro é imenso. Trata-se de um portento de aproximadamente 6m de altura por 9m de comprimento, o que resulta em impressionantes 54m2 de área pintada. Se a Mona Lisa ocupa apenas uma ínfima parte da parede suspensa no meio da sala – a indicar a desproporção com que é exaltada frente às demais obras – As bodas de Caná, apesar de ocuparem uma parede inteira, parecem quase apertadas dentro do imenso museu do Louvre.

Além do tamanho, o quadro impressiona pela precisão da pintura. O pincel renascentista de Veronese parece descrever com detalhes quase cinematográficos uma profusão de imagens mescladas numa mesma cena, de tal maneira que, embora à primeira vista tanta gente na cena conduza a uma certa confusão visual, a composição fique inteiramente harmoniosa.

O episódio é conhecidíssimo. Trata-se da cena bíblica na qual Jesus e Maria são convidados para um casamento na cidade da Caná. Durante a celebração, Maria percebe que o vinho se acabou. Preocupada, procura seu filho e anuncia que a bebida se esgotara. “Que queres de mim, mulher? Ainda não é chegada a minha hora”, responde Jesus. Ignorando a negativa do filho, Maria pede que os ajudantes tragam jarras cheias de água e as ponham diante de Jesus. Ao servirem os convidados, percebe-se que a água se transformara em vinho. Era o primeiro dos milagres de Jesus Cristo.

Veronese retrata as bodas de Caná segundo uma visão veneziana. Uma imensa festa, alegrada por gente tocando música e convivas bebendo e comendo à vontade. Há quem diga que o próprio Veronese se retrata no quadro. Seria ele o sujeito de branco, no centro da composição, tocando um celo. A regularidade das imagens contrasta com as cores fortes empregadas na composição. No centro, Jesus aparece envolto em uma aura, como se estivesse a prenunciar sua natureza divina. Ao seu lado, Maria, aquela por meio da qual os noivos intercederam para que o Cristo “antecipasse” a sua hora e produzisse o milagre da transformação de água e vinho.

Para quem vai ao Louvre, trata-se de uma visita obrigatória. E também de um lembrete de que ali, naquele imenso palácio, muitas outras obras de arte merecem a sua atenção, além da Gioconda.

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6 respostas para As bodas de Caná

  1. Kellyne disse:

    Gostei muito do “As quatro estações” do Archimboldo, que também está nas proximidade. Poderiam até estrelar seu próximo post sobre o Louvre, o que acha? rsrsrsrs Bjos

    • arthurmaximus disse:

      Nem eu me lembrava dos quadros do Arcimboldo no Louvre, Kellyne, hehehe. Não sei por que, mas sempre o associei ao Kunsthistorisches Museum, em Viena. Agora fiquei em dúvida sobre quais quadros estão em quais museus. Mas sem dúvida ele é um tema interessante para a seção de artes. Aguarde cenas dos próximos capítulos ;-), hehehe. Beijos.

  2. Mari Viza disse:

    Legal, Maximus! Tive essa mesma impressao no Louvre. Fique muito frustada ao ver alguns gatos pingados prestando atenção nas “Bodas de Canã”. Como podem as pessoas ficarem tão cegas diante de tamanha beleza e complexidade? Parabéns pelo texto! 🙂

  3. Glauber Silva disse:

    Excelente artigo. Lembro que fiquei muito mais fascinado por essa obra quando fui lá. Sempre indico aos amigos.

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