9 anos Dando a cara a tapa – Semana especial de aniversário: O Brasil em 2020

Dando sequência às comemorações de mais um aniversário do Blog, vamos hoje tratar do nosso Brasil velho de guerra. Depois de uma eleição problemática em 2018 e um 2019 pra lá de conturbado, o que afinal se deve esperar deste 2020 que se iniciou agora?

Não se trata de uma resposta fácil, é verdade. Regra geral, o primeiro ano de mandato normalmente serve para estabelecer os rumos de um novo governo. Até agora, o entorno do governo serviu ao Brasil uma estratégia de caos, que flerta abertamente com a degradação institucional. Até onde isso vai nos levar é incerto, mas o fato é que o “impeachment branco” (ou “parlamentarismo branco”, como queiram) já mostrou suas garras, com o Congresso abocanhando um espaço cada vez maior do orçamento e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, fazendo as vezes de primeiro-ministro do nosso presidencialismo torto.

Do ponto de vista da lógica tradicional, tudo indica que Bolsonaro terá um ano ruim pela frente. Sua base congressual é inexistente – o presidente não tem mais sequer partido, depois de ter implodido o seu PSL -, a economia segue em estado de animação suspensa e nem mesmo a mais baixa taxa de juros da história parece conseguir tirá-la da catatonia. Fora isso, há ainda os escândalos do laranjal do PSL, o adormecido caso Queiroz e os ultrajes ocasionais do segundo e terceiro escalão do governo, dos quais Roberto Alvim e seu cosplay de Joseph Goebbels é apenas o exemplo mais bizarro. Mas, como diversos analistas já apontaram, não estamos em tempos normais, nem muito menos se pode falar que o governo atual consiste em um governo normal.

Tentando seguir uma lógica bolsonariana, pode-se intuir que, ao contrário do que o senso comum diria, tudo está de acordo com a estratégia até então traçada. O presidente continua com grande parte de sua popularidade inabalada, os arroubos antidemocráticos dele e de sua trupe não têm tido qualquer consequência jurídica relevante e, olhando-se para 2022, o único “adversário” de Jair Bolsonaro com peso suficiente para desequilibrar a balança é justamente o ministro que exibe a maior vocação para engolir sapos: Sérgio Moro.

Do lado das tais “elites econômicas”, nada parece abalar a confiança do empresariado no governo. Enquanto o mercado financeiro opera em um mundo paralelo, batendo máximas sobre máximas mesmo com a venda maciça de ativos por parte dos estrangeiros, Fiesp, Fierj e afins continuam emprestando seu “prestígio” à agenda de Paulo Guedes, preferindo fazer vistas grossas às lembranças do AI-5 e a invocações fascistas do tipo Roberto Alvim (business as usual).

Os mais otimistas dirão que os mecanismos de freios e contrapesos têm funcionado de maneira razoável. Os repúdios às falas sobre o AI-5 e a própria demissão do ex-secretário nacional de Cultura seriam exemplo disso. A impressão, contudo, pode ser enganosa. Como já foi dito aqui anteriormente, as democracias modernas não sucumbem mais em piras monumentais, com tanques nas ruas e fechamento do Congresso. Elas são assadas lentamente em fogo brando, como um sapo dentro da panela, de maneira que o batráquio não se dê conta de que está fervendo.

Para quem duvida, basta ver o exemplo do próprio Roberto Alvim. Até semana passada, ninguém poderia imaginar um secretário de Cultura mimetizando Goebbels em um vídeo institucional. Hoje, as pessoas celebram a indicação de Regina Duarte para o cargo “porque ela não é nazista”. Sem nos darmos conta, “não ser nazista” passou a ser considerado um critério para indicação a altos cargos na República, quando o normal seria que essa distinção não pudesse sequer ser concebida.

Tudo indica, portanto, que 2020 nos reserva uma nova rodada de descidas a círculos ainda inexplorados do Inferno. O problema, portanto, não será descobrir quando atingiremos o fundo do poço. No fundo do poço nós já estamos. A grande questão é saber quando nós pararemos de continuar cavando.

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