Mesóclises? Evitá-las-ei, ou Os problemas da colocação pronominal

Faz tempo que a seção preferida da Icsa não dá as caras por aqui. Por isso, e também para manter o sentido de utilidade pública deste espaço, voltemos à nossa velha e boa língua portuguesa.

O tema de hoje diz respeito a uma das coisas mais simples e mais mal explicadas da língua de Camões: a mesóclise.

Não só ela, mas a colocação pronominal em seu conjunto é um dos fantasmas que mais atormenta as pessoas. Os jovens, na época de provas e no vestibular. Os adultos, na hora de escrever textos formais. No entanto, se as pessoas sabem mais ou menos bem quando usar a próclise – quando o pronome pessoal oblíquo átono vem no começo – e a ênclise – quando ele vem no final -, ninguém consegue entender direito quando deve usar a mesóclise.

O primeiro passo para entender a mesóclise é óbvio, e o próprio nome indica. Haverá mesóclise quando o pronome pessoal oblíquo átono vir intercalado entre o verbo e a sua  terminação verbal. Um exemplo clássico: dize-me com quem andas (ênclise) e dir-te-ei quem és (mesóclise).

O segundo passo é procurar entender quando se usa a mesóclise. Para isso, você haverá de se lembrar que a regra é a ênclise, isto é, o pronome colocado depois do verbo. Ex: Assim que Fulana chegar, diga-lhe para me ligar. A próclise, ou seja, a colocação do pronome antes do verbo depende de partículas atrativas, como as palavras de sentido negativo. Ex: Não se faz uma coisa dessas. Ou ainda: Jamais me diga para fazer o que não quero.

Pois bem. Sendo a ênclise a regra, quando é que se vai utilizar a mesóclise?

Basicamente, utiliza-se a mesóclise em todos os casos de ênclise, mas nos quais os verbos estejam conjugados ou no futuro do presente ou no futuro do pretérito. Ex: A música? Cantá-la-ei quando estiver ébrio. Ou então: O trabalho? Fá-lo-ei amanhã.

Mas é justamente aí que a porca entorta o rabo para a maioria das pessoas. Todo mundo fica meio encucado quando chega a hora de formar o verbo colocando o pronome oblíquo átono entre o verbo e a terminação verbal. Para desespero geral, grande parte dos professores de português não ensina uma regra simples, que ajuda horrores na hora de formar corretamente a mesóclise.

Tudo passa pela noção de que o futuro do presente e o futuro do pretérito tem como primos distantes os tempos compostos. Há muito tempo, a linguagem corrente diria que “Eu hei de fazer alguma coisa”, e não que “Eu farei alguma coisa”. Formava-se o verbo no futuro a partir da variação do verbo auxiliar haver. Ex: Ela há de ser uma grande pessoa. Ou ainda: Nós haveremos de ser campeões. Com o tempo, claro, os tempos do modo indicativo acabaram por se impor na linguagem corrente, de maneira que as pessoas passaram a falar “Ela será uma grande pessoa” ou “Nós seremos campeões”.

Pois bem. Sabendo isso, para formar corretamente uma mesóclise, basta entender que o antigo verbo auxiliar haver dos tempos compostos é jogado para o final do verbo. Melhor explicando: forma-se uma ênclise com o verbo e o pronome oblíquo e depois se colocar o verbo auxiliar haver conjugado, mas sem o “h”.

Explicando assim pode parecer difícil, mas um exemplo mostrará como a coisa fica fácil. Vejamos o primeiro caso citado, o do “dir-te-ei”.

Antigamente, numa conversa corrente, o sujeito diria: “Hei de dizer-te”. Para formar a mesóclise, basta pegar o “hei” e lançar para depois do “dizer-te”, retirando-se o “h”. Assim, tem-se o “dir-te-ei”.

Outro exemplo: “Comer pouco angustiar-te-á”. Lembrando a antiga forma de conjugação, teríamos: “Comer pouco há de angustiar-te”. Joga-se o “há” sem o “h” para depois de “angustiar-te” e ter-se-á (que beleza!) “angustiar-te-á”.

A mesma regra e dica se aplicam aos verbos conjugados no futuro do pretério. Só que, nesse caso, pega-se apenas a terminação verbal do auxiliar. Exemplo: “Procurar-me-iam se estivesse perdido” torna-se “Haveriam de me procurar se estivesse perdido”. Retira-se o “haver” e se joga o “iam” para depois de “procurar-me” e se terá “procurar-me-iam”.

Pronto. Viram como não é tão difícil?

Espero que vos tenha ajudado a superar esse pequeno trauma do ensino secundário.

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19 respostas para Mesóclises? Evitá-las-ei, ou Os problemas da colocação pronominal

  1. Mourão disse:

    Boa explicação, meu caro Senador. Observo porém que no Português do Brasil, prevalece a próclise e não a ênclise.

  2. percy silva disse:

    Muito bom!!

  3. EU SOUBE QUE SE USAR MESÓCLISE EM REDAÇÕES PERDE PONTO. E O TEMER FALOU UM DIA DESSES.

  4. Shirley Nominato disse:

    “…mas guardá-las-ei na lembrança e as levarei comigo” esta construção está correta?

  5. Shirley Nominato disse:

    Gostaria de saber com certa urgência se a construção “,….mas guardá-las-ei na lembrança e as levarei comigo” está correta?

  6. carinha da mesóclise disse:

    Gosto muito dessa ferramenta da nossa língua. Afinal, é muito mais simples dizer “beijá-la-ei” do que falar “vou beijar ela”. Pena que poucos entendem, então evito… 😦

  7. Albert Garland disse:

    Os AMIGOS apoiá-los-ei ou apoiá-lo-ei sempre, e por quê?

    • arthurmaximus disse:

      Primeiro, Albert, é necessário colocar uma vírgula entre “Os AMIGOS” e o restante da frase, já que se trata de um objeto direto pleonástico.
      Dito isto, o correto é “Os AMIGOS, apoiá-los-ei sempre”. A razão é porque o objeto direto refere-se a “Os AMIGOS”. Logo, sendo plural, o pronome oblíquo correspondente deve também ser flexionado no plural: “os”. Por razões de eufonia, coloca-se um “l” antes de “os”. Assim, chega-se a “apoiá-los-ei”. Um abraço.

  8. RAFAEL disse:

    Uma dúvida: “Quando se usa tal coisa? Usá-la-ás quando necessário.” Essa “usá-la-ás” com os dois acentos está correta?

    • arthurmaximus disse:

      Está correta, sim, Rafael. É um dos casos mais interessantes da língua portuguesa, que normalmente não contém palavras com dois acentos. Nesse caso, como você deve ter percebido, a primeira parte deve terminar com acento agudo no ‘a’ (usá), e o final deve encerrar com ‘ás´(supondo que você esteja se referindo à segunda pessoal do singular). Nesse caso, isso se dá por se considerar a expressão como um todo como uma palavra composta. Por isso, a aceitação excepcional de dois acentos. Um abraço.

  9. Diego disse:

    Ótima explicação! Texto extremamente claro, exemplos utilizáveis no dia a dia e ótima menção a forma da linguagem entre o passado e o presente.

  10. Marina disse:

    Urgente! pode ter dois acentos? como no seguinte caso: “levará o Jorge?” –> levá-lo-á
    é assim mesmo? ou estou fazendo a colocação de forma incorreta?

  11. Marina disse:

    Já vi que responderam isso antes!!! perdão!!!
    Abraço e obrigada por essa informação

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