Pensamento do dia

Dormir é grátis. Acorda é que custa.

Publicado em Pensamentos do dia | Com a tag , , , | Deixe um comentário

(Mais uma) Crise militar, ou O papel dos militares numa democracia

De tédio ninguém morre neste país.

Dois fatos – a nota desairosa dos chefes militares contra Omar Aziz e a entrevista do comandante da Aeronáutica ao Globo – conseguiram deixar ainda mais conspurcado um ambiente que já se demonstrava tóxico há algum tempo. Somando-se a isso os xingamentos proferidos pelo Presidente Jair Bolsonaro à CPI que investiga o papel do governo na pandemia e ao presidente do TSE, Luís Roberto Barroso, tem-se um caldo perfeito para uma crise constitucional de proporções bíblicas.

Começando pelo primeiro, a nota assinada pelo Ministro da Defesa e pelos comandantes das três Armas contra o senador Omar Aziz revelou-se desproporcional na reação, deselegante na forma e intimidadora no gesto.

A nota foi desproporcional na reação porque em momento algum Aziz fez a “generalização” de que foi acusado. Por mais de uma vez, o presidente da CPI deixou bem claro que os indícios de corrupção se referiam a elementos individuais e que isso em nada maculava as Forças Armadas como instituições do Estado. E aí fica a dúvida: o problema foi de interpretação de texto ou a manifestação de Aziz foi somente o pretexto para uma expressar uma vontade que já se encontrava latente?

A nota foi deselegante na forma porque não cabe aos chefes militares se manifestarem politicamente sobre o que quer que seja, muito menos contra a atuação de uma comissão do Parlamento brasileiro. Manifestação, se necessária, deveria ser assinada somente pelo Ministro da Defesa, representante político das Armas. Fora isso, a nota deveria se ater a termos institucionais, jamais usar expressões do tipo “vil” ou “irresponsável”, comuns às disputas políticas do dia-a-dia.

Por fim, a nota foi intimidadora no gesto porque, ao colocar os comandos militares em rota de colisão com o Congresso, o braço armado do Estado “alertou” aos representantes eleitos pelo povo que “não aceitarão qualquer ataque leviano” às Forças Armadas. Faltou, contudo, explicar de que forma novos “ataques” não serão “aceitos”. Os militares vão colocar tanques e tropas nas ruas? A Marinha vai interditar os portos? A Aeronáutica vai bombardear o Congresso?

Como se a nota em si não bastasse, a entrevista posterior do Comandante da Aeronáutica, Carlos Almeida Baptista Junior, deixou o clima ainda mais pesado. Reforçando o que seria, na sua visão, um “alerta às instituições”, o Comandante da Aeronáutica deixou implícita a possibilidade de recorrer ao uso da força quando disse que “Nós não enviaremos 50 notas para ele (Omar Aziz). É apenas essa”.

Desde o começo, a mistura e o apagar de limites entre governo e Forças Armadas demonstrava que não daria certo. Gostosamente, os militares aceitaram de bom grado os milhares de cargos oferecidos pelo Presidente Jair Bolsonaro a fardados da reserva e da ativa. Agora, quando submetidos aos ônus que uma tal imersão política invariavelmente impõe – entre eles, a possibilidade de desvios de conduta -, não querem admitir que venham a ser acusados de coisa alguma.

Convenhamos, não se trata de uma posição aceitável. Ou bem os militares fazem parte do governo e arrastam consigo o ônus de ser governo, ou bem ficam de fora do jogo miúdo da política ordinária, e aí podem dizer à vontade que não se misturam com os pecadilhos do mundo civil. O que não dá é querer somente o melhor dos dois mundos: as benesses dos cargos civis com a suposta imaculabilidade do mundo militar.

Desde sempre, os militares costumam se colocar no Brasil como uma casta de seres iluminados, como se de algum modo os males mundanos que normalmente contaminam o ambiente civil não pudessem os atingir de forma nenhuma. Como já se escreveu aqui certa feita, essa idealização é uma tolice, porque pode-se roubar até na fabricação de hóstias. A única forma que as instituições militares têm de se manterem à margem do jogo baixo da política é justamente aquela de que se esqueceram quando resolveram entrar de cabeça no governo: manterem-se completamente afastadas do mundo político.

Na verdade, os militares não são nem mais honestos nem mais competentes do que os civis. Como seres humanos, são submetidos ao mesmo tipo de tentação que acomete qualquer cristão. E, invariavelmente, sempre haverá uma ou outra ovelha desgarrada que seguirá pelo mau caminho. Se – e destaque-se aqui o “SE” – foi o caso de algum dos militares que ingressou no governo, nada mais natural que o Congresso o investigue e, se for o caso, denuncie-o à Justiça. Recorrer à farda para escapar das vicissitudes da vida civil não pode representar outra coisa senão covardia.

Não custa também recordar que, como outorgados do monopólio da força estatal, os militares são – ou deveriam ser – completamente apolíticos na vida institucional. Do cadete ao general, qualquer um pode ter a opinião política que for. Mas, quando se trata da instituição militar (Exército, Marinha e Aeronáutica), é indispensável que os militares não tomem partido. Do contrário, a delicada balança do equilíbrio institucional pode se desequilibrar, com os resultados que todos nós já conhecemos.

Para finalizar, nada melhor do que relembrar o célebre do discurso do General Mark Milley. Colocado contra à vontade no meio de um “escândalo” simplesmente por aparecer fardado ao lado do então presidente Donald Trump, Milley proferiu um discurso histórico para demarcar os limites das instituições armadas no jogo democrático. Comandando as Forças Armadas mais profissionais do planeta, Milley ensinou:

“Nós não prestamos juramento a um indivíduo. Prestamos juramento à Constituição”.

Abaixo, um trecho desse discurso, para quem se interessar(infelizmente sem legendas):

Publicado em Direito, Política nacional | Com a tag , , , | Deixe um comentário

Trilha sonora do momento

Mentiras sinceras me interessam…

Publicado em Trilha sonora do momento | Com a tag , , , | Deixe um comentário

Pensamento do dia

Difícil em um relacionamento não é dividir o closet, mas o carregador do celular.

#FicaaDica

Publicado em Pensamentos do dia | Com a tag , , , | Deixe um comentário

A declaração de homossexualidade de Eduardo Leite, ou A projeção da psiqué no debate público

O mundo político foi sacudido nessa semana pela declaração pública do governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, de que é gay. Como os rumores sobre a sua sexualidade já corriam à boa pequena pelo submundo do Zap profundo, Leite achou melhor sair de vez do armário e assumir a sua homossexualidade perante todo mundo. Numa só tacada, Leite se tornou um símbolo da resistência contra a homofobia, aumentou o seu cacife numa eventual futura disputa presidencial e – provavelmente sem querer – ajudou a iluminar ainda mais a hipocrisia e a pobreza de espírito no debate público dos dias de hoje.

Como pré-candidato à presidência da República pelo PSDB, Leite não poderia ter tomado melhor atitude. Se continuasse a guardar para si essa condição, não é preciso ser nenhum gênio para imaginar que as redes insociáveis bombariam numa eventual disputa eleitoral com insinuações de todo o gênero sobre os tipos de relação sexual que o atual governador do Rio Grande do Sul mantém. Liberando-se do ultrajante silêncio a que muitos, pessoas públicas ou não, condenam-se por vergonha ou por “conveniência”, Eduardo Leite deixa de estar exposto à chantagem pública e a potenciais dossiês sobre a sua vida íntima, numa disputa que todos sabemos ser a mais encarniçada de todo o país.

Evidentemente, esse tipo de revelação não vem sem algum tipo de desgaste. À direita, Leite foi criticado por supostamente querer transformar uma questão íntima numa questão político-eleitoral. À esquerda, o governador foi cobrado pelo apoio dado na eleição de 2018 a Jair Bolsonaro, político com fama de homofóbico.

O saldo, no entanto, é amplamente positivo, não só por ter atirado no que viu – ele mesmo, compreensivelmente, revelou-se “aliviado” por ter tornado pública sua condição de homossexual -, mas também por ter acertado onde não viu. Ao se assumir como gay, Leite trouxe à baila uma discussão que de há muito deveria estar na pauta do dia do debate público do país: a hipocrisia descarada de determinados setores do espectro político ao tratarem da vida sexual alheia.

Há algumas semanas, por exemplo, foi noticiado que Jorge Antônio Batalino Riguette foi condenado a quase 13 anos de cadeia por ser um dos maiores distribuidores de pornografia infantil na Internet. Militar da reserva, com 67 anos de idade, Jorge Riguette era o protótipo do “cidadão de bem”: conservador, honesto e defensor dos “valores da família e da propriedade”.

Mas quem vem a ser o dito cujo?

Na campanha de 2018, Jorge Riguette transformou-se em um dos maiores difusores nas redes sociais do insultante “Kit Gay”, uma das fake news preferidas do Zap bolsonarista para desancar Fernando Haddad, então candidato do PT à presidência. A acusação era de que Haddad, enquanto Ministro da Educação, teria mandado distribuir kits nas escolas “orientando” as crianças a “serem homossexuais”. Na verdade, o “kit” em questão se referia a um projeto chamado “Escola sem Homofobia”, destinado a combater o preconceito contra LGBTs. Produzido por ONGs, o tal “Kit” nunca chegou a ser verdadeiramente distribuído, mas serviu como uma luva – ao lado da infame “mamadeira de piroca” – para transformar o candidato petista numa espécie de encarnação do anti-Cristo para a direita mais hidrófoba.

O caso desse militar da reserva espelha bem um fenômeno que sempre existiu e que só vem se agravando nos últimos tempos. Trata-se daquilo que a psicologia costuma designar como projeção.

A projeção, como se sabe, constitui um dos mais primitivos mecanismos de defesa elaborados pela mente humana. Ao invés de assumir para si os ônus de determinada conduta, é mais fácil para o indivíduo literalmente jogar a culpa no outro (ou “projetá-la”, para ficarmos no jargão psicanalítico). Culpas ou desejos reprimidos são transferidos da própria psiqué para o ambiente externo, normalmente canalizando-se esses sentimentos em pessoas específicas ou mesmo em coletividades (como a “esquerda” ou a “comunidade gay”, por exemplo).

Embora o fenômeno seja estudado pela psicologia, não se trata de algo desconhecido do público em geral. Pelo contrário. Mesmo pessoas com pouca vivência conseguem identificar com clareza quando uma pessoa está “projetando” seus sentimentos internos. Os exemplos são vários. Se um sujeito ataca os homossexuais direto, pode ir atrás; o cidadão em questão é gay. Se o sujeito se diz “imbrochável” ou costuma se gabar aos quatro ventos sobre sua própria virilidade, pode ir atrás; o cidadão no caso é impotente. Se o sujeito vocifera contra a corrupção e adora se jactar da própria honestidade, pode ir atrás; temos aí um corrupto de marca maior.

É certo que a hipocrisia sempre foi um fenômeno associado à política desde que o mundo é mundo. Mesmo assim, perde-se um pouco da humanidade quando se permite que questões íntimas, como a sexualidade alheia, possam permear o debate público em um misto de ignorância e preconceito, valendo-se, na maioria dos casos, da baixa escolaridade e percuciência do eleitorado.

Melhor seria, para o Brasil e para o mundo, se as pessoas passassem a se preocupar menos com a vida alheia e mais com questões concretas do quotidiano. Quem sabe assim, despindo-nos de qualquer carga de preconceito, seria possível realmente construir uma sociedade justa e solidária. A declaração de Eduardo Leite representa um pequeno, mas importante, tijolo nessa direção. Que outros mais sigam o seu exemplo.

Publicado em Política nacional, Variedades | Com a tag , , , | Deixe um comentário

Trilha sonora do momento

Cai, o Rei de espadas
Cai, o Rei de ouros
Cai, o Rei de paus
Cai, não fica nada!!

#piadapronta

Publicado em Trilha sonora do momento | Com a tag , , , | Deixe um comentário

Pensamento do dia

A democracia não é um sistema feito para que os melhores sejam eleitos, mas, sim, para impedir que os piores fiquem pra sempre.

By Margaret Thatcher

Publicado em Pensamentos do dia | Com a tag , , , | Deixe um comentário

O fator Doria, ou O caminho para a terceira via – Parte II

Depois de uma semana de recesso involuntário, eis que as confusões decorrentes do post publicado há quinze dias obrigam-me a volver ao assunto das eleições do ano que vem.

Naquela ocasião, defendeu-se aqui a tese segundo a qual, se houver terceira via, esta deve tentar abrir picada através da densa selva da extrema direita ocupada pelo Presidente Jair Bolsonaro. Na mesma toada, arguiu-se que os dois candidatos mais fortes – Lula e Bolsonaro – eram simultaneamente os mais fracos, pois, apesar de serem favoritos disparados no primeiro turno, tenderiam a perder impiedosamente numa eventual segunda ronda, caso o adversário fosse outro que não um dos dois. Nesse caso, humildemente, devo reconhecer que o Blog errou.

Não que o erro tenha sido proposital ou mesmo tenha sido um erro de todo, que fique claro. Na verdade, o Blog foi injusto tanto com Bolsonaro quanto com Lula ao dizer que as chances deles no segundo turno seriam mínimas caso enfrentassem um terceiro candidato. Com efeito, não é exato dizer que nem o Presidente nem o eterno líder do PT teriam poucas chances de se eleger contra qualquer adversário. Há, pelo menos, uma exceção a essa regra. E ela atende pelo nome de João Dória.

Com uma ascensão meteórica no cenário político, João Doria Jr. saiu da posição de dublê de jornalista e apresentador para se tornar prefeito da maior cidade do país. Apoiado pelo então governador Geraldo Alckmin, Doria derrubou no primeiro turno Fernando Haddad, que era candidato à reeleição em 2016. Dois anos depois, saiu da prefeitura e substituiu o próprio Alckmin no governo de São Paulo, não sem antes se insinuar – de maneira nada discreta – para tomar o posto do próprio “Picolé de Chuchu” na corrida presidencial de 2018.

Seja pela velocidade da subida, seja pela voracidade com que correu para abocanhar cada naco de poder que se apresentava à sua frente, Doria ficou marcado para o público em geral como um carreirista ambicioso e incorrigível. Para além disso, o fato de ter tentado passar a perna no padrinho que o levara à cadeira de prefeito foi o suficiente para ficar marcado com uma das piores pechas que pode existir no mundo político: “traidor”. E, se tudo isso não fosse o bastante, sua persona pública traz consigo a imagem de uma pessoa a um só tempo deslumbrada e arrogante, com capacidade zero de gerar empatia com o eleitor.

Pra piorar, Doria tem movimentado-se de forma errática e pouco inteligente no tabuleiro político-eleitoral. Ao filiar o seu vice, Rodrigo Garcia, ao PSDB, atraiu a ira do DEM, seu partido anterior e parceiro preferencial dos tucanos desde 1994. O MDB tampouco morre de amores por Doria, não só porque com ele não tem grandes lanços de convivência, mas também porque o governador paulista anda se estranhando com Ricardo Nunes, que assumiu a prefeitura de São Paulo após a triste partida de Bruno Covas. E, como desgraça pouca é bobagem, o PSD de Gilberto Kassab sente de longe o cheiro do fiasco e está disposto a qualquer coisa – até a lançar uma bizarra candidatura de Rodrigo Pacheco, presidente do Senado, à Presidência -, menos a se aliar a Doria.

Por todas essas razões, Doria é de longe o pré-candidato mais inviável para sentar na cadeira presidencial a partir de 2023. Sem trânsito na esquerda, Doria seria uma espécie de “sub-Ciro” no espectro mais jacobino do eleitorado. E, depois de se tornar um dos principais inimigos do Presidente, tampouco seria imaginável que conseguisse dominar a parte mais conservadora dos eleitores. Tendo lançado – para depois rejeitar – o famigerado “BolsoDoria”, é difícil até mesmo crer que Doria pudesse angariar a simpatia daquela direita mais civilizada, que detesta o PT, mas sabe usar os talheres à mesa. Em um hipotético segundo turno, Doria seria o candidato perfeito para fazer de seu adversário o próximo presidente do Brasil.

Para que uma terceira via eleitoralmente viável se forme, portanto, é necessário antes de mais nada resolver o fator Doria. Se Doria não pode ser o candidato de uma “frente ampla”, tampouco se pode simplesmente alijá-lo do processo eleitoral. Querendo-se ou não, o governador de São Paulo sempre tem algum nível de influência na eleição presidencial. E não seria bom pra quem precisa brigar por votos com Lula e Bolsonaro somar o governador paulista ao rol de inimigos.

A melhor saída, claro, seria os tucanos conseguirem aprumar as suas plumas e chegar a um acordo através do qual ou Tasso Jereissati ou Eduardo Leite fossem aclamados como candidatos de consenso no partido. O DEM indicaria o vice (provavelmente Henrique Mandetta), arrastando consigo o PSD e, com alguma sorte, talvez o MDB. Nesse arranjo, Doria concorreria à reeleição (sem nenhuma garantia de que vá ganhar, ressalte-se), mas garantiria um palanque de peso para seu candidato no maior eleitoral do país.

Pelos sinais emitidos, entretanto, nada indica que Doria aceitará qualquer acordo. O mais provável é que quebre lanças para se lançar candidato de qualquer jeito, por mais inviável que seja a sua candidatura. Nesse processo, não é preciso ser gênio para imaginar que o governador paulista deixará o tucanato ainda mais fraturado e dividido do que já é, sem que nenhum dos demais partidos do tal “centro” se anime a ingressar numa canoa que todos reconhecem como furada.

A “terceira via”, portanto, pode morrer antes mesmo de começar…

Publicado em Política nacional | Com a tag , , , | 1 Comentário

Trilha sonora do momento

E como amanhã é Dia de São João…

Publicado em Trilha sonora do momento | Com a tag , , , | Deixe um comentário

Pensamento do dia

Nenhuma sensação é mais reconfortante do que ver alguém mentindo quando você já sabe de toda a verdade.

Publicado em Pensamentos do dia | Com a tag , , , | Deixe um comentário