O mito da caserna, ou Por que os governos militares não dão certo

Sem nenhuma dúvida, o 7 de setembro é a data mais importante do calendário cívico brasileiro. Desprezando-se qualquer juízo de valor sobre a data, o fato é que a declaração de independência representa o marco temporal do surgimento do Brasil-Nação. Até então, éramos apenas parte integrante do Reino de Portugal. Primeiro, como colônia. Depois, como vice-reino. E, por um breve período após as invasões napoleônicas, como “Reino unido” a Portugal. Com a declaração de independência, enfim o Brasil passou a literalmente a se governar, a comandar os próprios rumos.

Embora a história por trás do 7 de setembro seja por demais conhecida, com todas as (justas) críticas que se possa fazer a ela, historiadores de todas as matizes costumam ignorar solenemente uma sombra que paira sobre o Brasil desde, pelo menos, outra data importante: a Proclamação da República. Se a Independência transformou o país numa “monarquia cercada de repúblicas por todos os lados”, na feliz definição de Lili Schwarcz, permitindo que o mal da escravatura sobrevivesse ao longo de todo o Oitocentos, o golpe que destronou a monarquia foi igualmente responsável por um dos mais deletérios efeitos da nossa democracia: a sombra dos governos militares.

Que o XV de Novembro foi um golpe, não há a menor dúvida. Uma quartelada que começara inicialmente com uma reivindicação de mudança no Conselho de Ministros terminou com o Imperador derrubado e uma nova forma de governo instaurada no país. A tudo isso, o povo assistiu “bestializado”, segundo o testemunho histórico de Aristides Lobo. Claro, porque tudo ali se deu à margem de qualquer participação popular (assim como a própria Independência).

Desde então, o que se viu no Brasil foram surtos, maiores ou menores, de intervenção dos militares no poder. Ao longo de toda a República, sempre pairou a sombra dos militares como “salvadores da Pátria”, seja para salvar o país da “corrupção” (risos), seja para salvar a Nação do “comunismo” ou coisa que o valha.

Quando não estavam a governar o Brasil diretamente, como o fizeram ao alvorecer da República (República da Espada) e durante a ditadura militar, faziam-no por interposta pessoa, como ocorreu na Ditadura Vargas (ele próprio um líder dos “tenentistas”), e, de certo modo, na República Velha, um simulacro de democracia que foi encerrado não por acaso com outro golpe militar (Revolução de 30).

No brevíssimo período em que se permitiu ao país experimentar de fato o que seria ser governado sob um regime democrata, o Brasil foi sucessivamente governado por um general (Eurico Gaspar Dutra) e um ex-ditador (Vargas, sempre ele). JK saiu do script e quase não toma posse, só vindo a fazê-lo depois do contra-golpe da Novembrada. Jânio Quadros foi eleito em seguida e deu no que deu.

Desde então, mesmo com a queda da ditadura, o mito dos militares no poder sobreviveu impassível aos novos ares da redemocratização. Viúvas daquele tempo sempre exaltavam o quanto o país “era melhor” naquela época e como os governos da caserna seriam “honestos”, como o país vivia “em ordem” e como eles haviam conseguido colocar o Brasil no “rumo do desenvolvimento”. A verdade, entretanto, é que tudo isso não passa da uma grande falácia.

Pra começo de conversa, o país dos militares – seja em qualquer época – não era em qualquer coisa melhor do que o país que temos hoje, após a redemocratização. Por qualquer métrica que se escolha, a comparação será risível. Analfabetismo e desenvolvimento humano eram absurdamente piores nos anos 70, que dirá nos anos 30.

Já o tão propalado “milagre econômico” é falso como uma nota de 3 reais. Além de nos legar a mais brutal concentração de renda no globo, ele foi baseado numa espécie de pirâmide financeira, através da qual empréstimos antigos eram pagos com a contratação de empréstimos novos. As duas crises do petróleo (1973 e 1979), juntamente com a marretada que Paul Volcker deu nos juros americanos para conter a inflação, estouraram a festa no começo dos anos 80. Resultado: o Brasil quebrou, ficando com a maior dívida externa no planeta, uma década perdida de crescimento e uma espiral hiperinflacionária que levou quinze anos e oito planos econômicos para ser superada.

Falar em militares como “representantes da ordem” é, ao menos do ponto de vista histórico, uma piada. Noves fora o fato de que os golpes, de per si, eram manifesta expressão do contrário, mesmo nos períodos democráticos o país não ficou a salvo das desordens da caserna. Além da Novembrada em 55, houve o “quase-golpe” contra a posse de João Goulart em 61. Durante a ditadura, então, foi que o caos imperou realmente. Os levantes eram tão frequentes quanto as postagens de “influencers” no Instagram. Apenas para ficar nos “melhores momentos”, houve balbúrdias seguidas em 1965 (AI-2),1968 (AI-5), 1969 (junta militar) e 1977 (demissão de Sílvio Frota). Não por acaso, Ernesto Geisel, o sujeito que restaurou o primado da autoridade presidencial sobre as Forças Armadas, planejava o fim da ditadura porque a tachava de uma “grande bagunça” (Elio Gaspari).

Por fim, o mito dos militares no poder sobrevive propalando uma “honestidade” acima de qualquer suspeita de seus membros, como se alguma instituição, por definição, pudesse ter gente mais honesta do que outra. Isso é uma tolice, porque pode-se roubar até na fabricação de hóstias, e a história da Igreja Católica é prenhe de exemplos de como os pecados mundanos costumam se sobrepujar mesmo à fé mais exaltada. Fora isso, quem defende a suposta “incorruptibilidade” dos militares haveria de explicar como eles governaram o país por 21 anos associados a gente como José Sarney, Antônio Carlos Magalhães e, crème de la crème, Paulo Salim Maluf, o grande ícone da corrupção do nosso país.

Não há, portanto, qualquer razão para acreditar no mito da caserna. E, para quem não acredita em História, lança-se aqui um desafio: entre todas as grandes potências do mundo, quantas cresceram e chegaram ao seu status atual governadas por militares?

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