O fator Doria, ou O caminho para a terceira via – Parte II

Depois de uma semana de recesso involuntário, eis que as confusões decorrentes do post publicado há quinze dias obrigam-me a volver ao assunto das eleições do ano que vem.

Naquela ocasião, defendeu-se aqui a tese segundo a qual, se houver terceira via, esta deve tentar abrir picada através da densa selva da extrema direita ocupada pelo Presidente Jair Bolsonaro. Na mesma toada, arguiu-se que os dois candidatos mais fortes – Lula e Bolsonaro – eram simultaneamente os mais fracos, pois, apesar de serem favoritos disparados no primeiro turno, tenderiam a perder impiedosamente numa eventual segunda ronda, caso o adversário fosse outro que não um dos dois. Nesse caso, humildemente, devo reconhecer que o Blog errou.

Não que o erro tenha sido proposital ou mesmo tenha sido um erro de todo, que fique claro. Na verdade, o Blog foi injusto tanto com Bolsonaro quanto com Lula ao dizer que as chances deles no segundo turno seriam mínimas caso enfrentassem um terceiro candidato. Com efeito, não é exato dizer que nem o Presidente nem o eterno líder do PT teriam poucas chances de se eleger contra qualquer adversário. Há, pelo menos, uma exceção a essa regra. E ela atende pelo nome de João Dória.

Com uma ascensão meteórica no cenário político, João Doria Jr. saiu da posição de dublê de jornalista e apresentador para se tornar prefeito da maior cidade do país. Apoiado pelo então governador Geraldo Alckmin, Doria derrubou no primeiro turno Fernando Haddad, que era candidato à reeleição em 2016. Dois anos depois, saiu da prefeitura e substituiu o próprio Alckmin no governo de São Paulo, não sem antes se insinuar – de maneira nada discreta – para tomar o posto do próprio “Picolé de Chuchu” na corrida presidencial de 2018.

Seja pela velocidade da subida, seja pela voracidade com que correu para abocanhar cada naco de poder que se apresentava à sua frente, Doria ficou marcado para o público em geral como um carreirista ambicioso e incorrigível. Para além disso, o fato de ter tentado passar a perna no padrinho que o levara à cadeira de prefeito foi o suficiente para ficar marcado com uma das piores pechas que pode existir no mundo político: “traidor”. E, se tudo isso não fosse o bastante, sua persona pública traz consigo a imagem de uma pessoa a um só tempo deslumbrada e arrogante, com capacidade zero de gerar empatia com o eleitor.

Pra piorar, Doria tem movimentado-se de forma errática e pouco inteligente no tabuleiro político-eleitoral. Ao filiar o seu vice, Rodrigo Garcia, ao PSDB, atraiu a ira do DEM, seu partido anterior e parceiro preferencial dos tucanos desde 1994. O MDB tampouco morre de amores por Doria, não só porque com ele não tem grandes lanços de convivência, mas também porque o governador paulista anda se estranhando com Ricardo Nunes, que assumiu a prefeitura de São Paulo após a triste partida de Bruno Covas. E, como desgraça pouca é bobagem, o PSD de Gilberto Kassab sente de longe o cheiro do fiasco e está disposto a qualquer coisa – até a lançar uma bizarra candidatura de Rodrigo Pacheco, presidente do Senado, à Presidência -, menos a se aliar a Doria.

Por todas essas razões, Doria é de longe o pré-candidato mais inviável para sentar na cadeira presidencial a partir de 2023. Sem trânsito na esquerda, Doria seria uma espécie de “sub-Ciro” no espectro mais jacobino do eleitorado. E, depois de se tornar um dos principais inimigos do Presidente, tampouco seria imaginável que conseguisse dominar a parte mais conservadora dos eleitores. Tendo lançado – para depois rejeitar – o famigerado “BolsoDoria”, é difícil até mesmo crer que Doria pudesse angariar a simpatia daquela direita mais civilizada, que detesta o PT, mas sabe usar os talheres à mesa. Em um hipotético segundo turno, Doria seria o candidato perfeito para fazer de seu adversário o próximo presidente do Brasil.

Para que uma terceira via eleitoralmente viável se forme, portanto, é necessário antes de mais nada resolver o fator Doria. Se Doria não pode ser o candidato de uma “frente ampla”, tampouco se pode simplesmente alijá-lo do processo eleitoral. Querendo-se ou não, o governador de São Paulo sempre tem algum nível de influência na eleição presidencial. E não seria bom pra quem precisa brigar por votos com Lula e Bolsonaro somar o governador paulista ao rol de inimigos.

A melhor saída, claro, seria os tucanos conseguirem aprumar as suas plumas e chegar a um acordo através do qual ou Tasso Jereissati ou Eduardo Leite fossem aclamados como candidatos de consenso no partido. O DEM indicaria o vice (provavelmente Henrique Mandetta), arrastando consigo o PSD e, com alguma sorte, talvez o MDB. Nesse arranjo, Doria concorreria à reeleição (sem nenhuma garantia de que vá ganhar, ressalte-se), mas garantiria um palanque de peso para seu candidato no maior eleitoral do país.

Pelos sinais emitidos, entretanto, nada indica que Doria aceitará qualquer acordo. O mais provável é que quebre lanças para se lançar candidato de qualquer jeito, por mais inviável que seja a sua candidatura. Nesse processo, não é preciso ser gênio para imaginar que o governador paulista deixará o tucanato ainda mais fraturado e dividido do que já é, sem que nenhum dos demais partidos do tal “centro” se anime a ingressar numa canoa que todos reconhecem como furada.

A “terceira via”, portanto, pode morrer antes mesmo de começar…

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