Energia nuclear: sim ou não?

Atendendo a uma sugestão de um dos leitores mais assíduos do Blog – Rômulo – vou me aventurar na polêmica sobre o sim ou não à energia nuclear.

Há prós e contras, como acontece com todas as outras formas de produzir energia elétrica. Mas a paixão que envolve as centrais nucleares é algo curioso. É evidente que o ranço contra a energia nuclear deve-se à memória dos bombardeios atômicos sobre Hiroshima e Nagasaki. De fato, o princípio básico da fissão nuclear é o mesmo. Mas de um ponto (produção de energia elétrica) a outro (fabricar bombas nucleares) vai uma grande distância. Uma coisa não leva necessariamente a outra. Prova disso é o próprio Japão: tem várias usinas nucleares, tem a tecnologia para fabricar um artefato nuclear, mas opta voluntariamente por não o fazer.

Muita gente já deve ter visto nas matérias sobre Fukushima, mas vai aqui a lembrança, de todo modo. Centrais nucleares nada mais são do que usinas termoelétricas movidas a energia nuclear. Ao invés do carvão ou do gás natural normalmente utilizados para aquecer a água, é a fissão dos atómos de urânio que provoca o aquecimento da água, transformando-a em vapor, vapor este que move as turbinas de energia, que são afinal os instrumentos que produzem energia a ser transmitida pela rede elétrica. Abaixo, um pequeno esqueminha didático:

Ao contrário das usinas movidas a gás natural ou a carvão, a reação em cadeia libera na atmosfera apenas vapor d´água; nada mais. Não há qualquer poluição atmosférica. Exatamente por isso, alguns ambientalistas chegaram a desenvolver transtorno bipolar nessa matéria: numa hora, são fervorosamente a favor; noutra (especialmente depois de acidentes), radicalmente contrários. Em tempos de mudanças climáticas provocadas pela ação do homem, essa é a principal vantagem das usinas nucleares.

Contra elas, pesa a velha pergunta: o que fazer com os resíduos nucleares? Depois de um tempo, as pastilhas de urânio ficam, por assim dizer, “gastas”. É necessário trocá-las. Como pastilha de urânio não se decompõem como pastilha Hall´s, fica um pouco complicado jogá-las fora simplesmente. É necessário acondicioná-las em um recipiente apropriado, selado, num local especialmente designado para receber o lixo nuclear. E lá ficará por mais de um século, tempo necessário para que a radiação emitida pelos restos de combustível atômico percam sua capacidade degenerativa.

Além disso, pesa a favor da energia nuclear a sua segurança. Sim, apesar de Fukushima, a energia nuclear continua sendo um das mais seguras do mundo. Basta ver o histórico.

As usinas nucleares começaram a ser construídas em meados da década de 50. Lá se vão 60 anos ou mais. Hoje, há aproximadamente 450 centrais nucleares em operação no mundo. Até hoje, só há registro de três acidentes graves envolvendo-as: Three Mile Island, nos EUA (1979); Chernobyl, URSS (1986); e agora Fukushima, no Japão.

No primeiro caso, o acidente foi causado principalmente por erros humanos. No segundo, erros humanos associados a falhas no projeto de construção da usina (e ao fato de que ficava na URSS). No último, “falhas” no projeto da usina. E “falhas”, assim, entre aspas, mesmo, porque considerar como falhas a ausência de medidas de segurança “não adotadas” para casos apocalípticos não chega a ser propriamente uma falha.

O fato é mesmo esses acidentes contribuíram para se desenvolverem medidas de segurança ainda maiores para as centrais nucleares. Utilizá-las hoje é mais seguro do que foi ontem, e menos do que será amanhã.

Apesar de ter grande fartura de água para encher o país de centrais hidrelétricas, acho que o Brasil deve seriamente repensar sua política energética. Temos tecnologia e matéria-prima de sobra para sermos auto-suficientes em energia com o auxílio das centrais nucleares.Além de não poluirem o ar, as centrais nucleares não estão sujeitas a fatores sazonais (chuvas e períodos de estiagem), não inunda grandes áreas de terra (como as hidrelétricas), e o lixo atômico, por pior que seja, é produzido em quantidades pequenas e compactas; armazená-lo não chega a ser um grande problema.

No futuro, com as mudanças climáticas, é bem provável que a água seja mais importante ter a água dos reservatórios para um uso mais nobre (consumo humano) do que a simplesmente para produzir energia. Nessas horas, farão diferença as decisões tomadas hoje sobre que tipo de energia queremos para o nosso futuro.

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