O jogo para 2022, ou O caminho da terceira via

Não é de agora, nem tampouco vai parar por aí. Mas, daqui pra 2022, pesquisas sobre cenários eleitorais sobre a próxima eleição presidencial devem fazer doravante parte do nosso cotidiano político. Semana sim, outra também, os institutos de pesquisa sairão às ruas para sentir o pulso do eleitorado. E, como de hábito, as peças do tabuleiro partidário irão se ajustando aos poucos aos movimentos dos resultados.

De acordo com as pesquisas mais recentes, Lula é hoje, disparado, o candidato mais bem posto para a disputa presidencial do ano que vem. De pequenas diferenças ou mesmo empates técnicos no primeiro turno, o eterno candidato petista salta com mais de 10 pontos percentuais sobre o atual inquilino do Planalto quando se trata de medir as intenções de voto no segundo turno. A grande dúvida, contudo, é: até que ponto dá pra confiar nessa medição eleitoral?

Deixemos de lado, por ora, as eternas dúvidas sobre a confiabilidade das pesquisas eleitorais. Este espaço mesmo é um crítico histórico das medições tomadas pelos institutos de pesquisa. Não que o Autor seja adepto de alguma exótica teoria da conspiração ou dos entendimentos de que há má-fé por trás da compilação desses dados, mas por um dado muito mais simples da realidade: a maioria dos institutos tem se demonstrado crônica e historicamente incompetentes para apurar previsões minimamente confiáveis. Se isso é um padrão que se repete ao longo do tempo, que dirá quando se fala de uma eleição presidencial que ocorrerá daqui a 16 meses, no meio dos quais tudo (inclusive nada) pode acontecer.

Desde quando a reeleição foi instituída no Brasil, nenhum candidato a assumir novamente o próprio posto deixou de ganhar a refrega reeleitoral. Nenhum. Nem mesmo Dilma Rousseff, que foi o desastre que foi. Fora isso, mesmo em democracias consolidadas e maduras, como nos Estados Unidos, o evento de não reeleição de um presidente incumbente é algo extremamente raro. Nos últimos 100 anos, por exemplo, esse “privilégio” coube a somente cinco candidatos: Herbert Hoover, Gerald Ford, Jimmy Carter, Bush Pai e Donald Trump. Logo, pode-se dar de barato que um candidato a reeleição, seja ele quem for, é naturalmente um candidato forte a ganhar a disputa contra qualquer adversário.

Obviamente, uma eventual disputa entre Lula e Bolsonaro teria ingredientes diferentes, que tornariam a refrega mais imprevisível. Afinal, não seria o confronto de um atual ocupante do posto contra uma “incógnita”, mas, sim, contra alguém que já foi presidente por dois mandatos. Pior. Alguém que já foi presidente com dois mandatos e que saiu do cargo elegendo sua sucessora, com mais de 80% de popularidade. As boas lembranças da “Era Lula” são algo bem mais palpável e concreto para se contrapor ao governo Bolsonaro do que simplesmente a esperança de uma “mudança” que ninguém saiba qual seja.

Mesmo assim, a parada está longe de poder ser considerada um passeio para o torneiro bissílabo de São Bernardo. Lula está com grande vantagem nas pesquisas, é verdade. Mas há dois fatores a considerar. Primeiro, Bolsonaro está em seu pior momento de todo o mandato, com uma economia anêmica, a pandemia descontrolada e uma CPI sangrando seu governo quase todo dia. Segundo, Lula não está em campanha. Jogando parado, o babalorixá petista resguarda-se (inteligentemente) das muitas críticas que ele e os governos petistas podem receber quanto ao seu pesado passado de corrupção y otras cositas más. Em outras palavras, temos nessa disputa um candidato que só está apanhando (Bolsonaro) e outro, que flana sem ser importunado (Lula).

Sem precisar operar grandes exercícios de quiromancia, pode-se intuir que, daqui até 2022, o cenário será bem outro. A vacinação, bem ou mal, já terá avançado o suficiente para permitir que a vida retome algum nível de normalidade. E, em conjunto com isso, a economia, que anda mais parada do que água de poço, terá dado sinais de melhora (ou “despiora”, como queiram). Logo, não é esdrúxulo concluir que o patamar ora ostentado por Bolsonaro seria uma espécie de “piso” das suas intenções de voto, com um amplo espaço para melhorar até outubro do ano que vem.

Bolsonaro é, então, um candidato imbatível para 2022?

Não, absolutamente. Longe disso.

O grande e mais curioso dado para a eleição presidencial de 2022 é que os dois candidatos mais fortes – e, consequentemente, mais bem posicionados nas pesquisas – são simultaneamente os dois candidatos mais fracos nessa parada. Qualquer candidato que dispute contra Bolsonaro em 2022, que não seja Lula, torna-se automaticamente franco favorito para destroná-lo do cargo, haja vista que ele facilmente reuniria os votos da direita não bolsonarista e da esquerda. De outra banda, qualquer candidato que dispute contra Lula no ano que vem, que não seja Bolsonaro, também será automaticamente franco favorito a ser eleito, pois, além dos próprios votos, a eles agregaria facilmente os votos que hoje são depositados em favor do atual inquilino do Planalto.

Por isso mesmo, tanto à esquerda quanto à direita, Lula e Bolsonaro agem para tentar restringir a disputa a eles mesmos. Ambos sabem que suas chances de vitória – duvidosa, em qualquer cenário – dependem necessariamente do fato de que se encontrem para um duelo final no segundo turno da eleição presidencial. Se essa polarização for quebrada pela ascensão de um terceiro candidato – Ciro Gomes, Tasso Jereissati ou seja lá quem for -, as chances de vitória vão pelo ralo.

Uma vez que as vias pela esquerda se encontram interditadas por Lula, que, sozinho, reúne quase 1/3 do eleitorado, o caminho de uma terceira via teria, necessariamente, de ser aberto pela direita. Isso significa, em outras palavras, que qualquer candidato que pretenda de fato ganhar a disputa presidencial do ano que vem terá de começar a bater, desde já, no atual Presidente. A idéia seria conseguir atrair a maior parte da centro-direita – os “nem-nem”, nem Lula, nem Bolsonaro – e, quem sabe, uma parte da esquerda envergonhada (pode me chamar de “centro-esquerda”). Somando-se essas duas parcelas, seria possível pensar em algo inimaginável em tempos normais: tirar um presidente candidato a reeleição da segunda ronda eleitoral.

Trata-se de uma tarefa inglória, é verdade. Como se viu, presidentes candidatos a reeleição são naturalmente um poderoso imã eleitoral. Todavia, não há muita alternativa além dessa. Com a interdição do debate pela via jacobina do eleitorado, pois Lula eclipsa qualquer outro candidato desse lado do espectro político, a única salvação para a chamada “terceira via” é tentar tirar Bolsonaro do jogo.

Mas haverá alguém com força e disposição suficiente para enfrentar essa batalha?

Aí, só Deus sabe…

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