Especial semanal – Autópsia do bolsonarismo: Os pilares do regime bolsonarista

Como toda a tragédia, o bolsonarismo não fez “sucesso” somente por conta de seu apoio popular. Ainda que baseado em um fanatismo de fundo quase religioso pela figura do “Mito”, o fato é que o plano de ocupação do poder dos Bolsonaros e agregados obedeceu a uma lógica bem estruturada. Se não fosse assim, não teria sobrevivido no poder, muito menos chegado a onde chegou, às beiras da reeleição. Na mui feliz definição do cientista político Christian Lynch, o bolsonarismo assenta-se fundamentalmente no tripé mentira-suborno-intimidação.

O primeiro pilar do regime bolsonarista é, por óbvio, a mentira. Até aí, nada de novo sob o Sol, porque mentir é algo tão natural para um político quanto o ato de respirar. Mesmo assim, há algo de diferente na forma de expressão e de propagação da mentira no bolsonarismo. Para que alcançasse o tamanho e a projeção que alcançou, foi fundamental para o regime dos Bolsonaro a movimentação do famigerado “Gabinete do Ódio”.

O Gabinete do Ódio, como todo mundo sabe, funcionava a partir de uma cadeia de comando muito bem definida. Era nele que eram gestadas e depuradas as teorias das conspirações mais fantasiosas que rolavam no zap profundo. Com um esquema profissional de difusão, as mensagens eram primeiramente centralizadas e unificadas no centro nervoso do Gabinete do Ódio (onde operava o onipresente Carlos Bolsonaro, o Carluxo).

A partir de então, eram distribuídas através de diversos canais de comunicação a “influenciadores digitais” nas mais diversas plataformas: WhatsApp, YouTube, Facebook, Instagram, Twitter, etc. Como cada um desses influenciadores mantinha uma legião de seguidores, a mentira chegava praticamente “intacta” na ponta da rede, permitindo que a “tropa bolsonarista” mantivesse a “ordem unida”. Ao contrário do que ensina a regra do telefone sem fio, segundo a qual a passagem do cometa Halley, visível a olho nu a cada 76 anos, se transforma na festa 76 anos dos Halley e seus cometas com todo mundo nu, a mensagem que saía do Gabinete do Ódio chegava rigorosamente a mesma na “Tia do Zap”.

Se você duvida do poder que essa sistemática detém, basta observar o que aconteceu nos últimos três dias que antecederam a votação para presidência do Senado. O que se avizinhava como um passeio tranquilo de Rodrigo Pacheco pela reeleição subitamente virou uma espécie de “drama”, com gente calculando que o presidente do Congresso ganharia por uma margem mínima de dois votos e poderia, no limite, até mesmo perder a reeleição. A “guerra psicológica” foi tão eficiente que o Planalto, que jurara não interferir nas eleições do Congresso, mandou ministros e operadores a campo para “garantir” a vitória de Pacheco. Contados os votos, o atual presidente bateu o bolsonarista Rogério Marinho por 49×32, mais ou menos o que se projetava desde a semana passada. Ou seja: o “acirramento” da disputa ou mesmo a “virada” de Marinho nunca passou de um sonho de uma noite de verão.

Outro pilar importantíssimo do bolsonarismo foi o suborno. Valendo-se de um autêntico vale-tudo institucional, Bolsonaro e seus asseclas não tinham o menor pudor em “comprar” quem se dispusesse a ser comprado. A verdade – é triste reconhecer – é que, nessa seara, o bolsonarismo encontrou terreno fértil para prosperar, tal a quantidade de autoridades dispostas a se vender suas consciências por quaisquer 30 moedas de prata.

Obviamente, grande parte desse esquema não operou na base da troca de dinheiro pura e simples (embora ela tenha ocorrido aos montes, como faz prova a vergonhosa sistemática do orçamento secreto). Na verdade, a maior parte do “suborno” veio através de promessa de recompensas (nomeações para futuros cargos, por exemplo) ou ofertas de prebendas (sinecuras no exterior, por exemplo).

Foi assim que Jair Bolsonaro conseguiu uma blindagem institucional jamais vista por essas paragens, a ponto de ele absolutamente deixar de sequer fingir que estava submetido à lei como qualquer outro cidadão. Nem sequer multa de trânsito o sujeito levava, e olha que não faltaram motociatas para que os agentes da lei fizessem cumprir a legislação. Esse foi talvez o maior sintoma da disfunção institucional a que nos submetemos por infindáveis quatro anos.

Quando a mentira e o suborno não funcionavam, o bolsonarismo recorria à sua forma mais bruta e radical: a intimidação. Garantida virtual imunidade para todo tipo de atrocidade que se propalava sob o pálio manto da “liberdade de expressão”, quem não se perdia na mentira ou se rendia ao suborno, passava a ser intimidado, muitas vezes fisicamente, para que não pusesse qualquer empecilho à consolidação de poder do grupo bolsonarista.

Pode parecer banal, mas não é comum (e menos ainda neste Brasil varonil) ver gente, em público ou em rede social, ameaçando agredir ou mesmo matar outra pessoa. Por mais que a violência não chegasse às vias de fato, a questão é que a mera ameaça já era suficiente muitas vezes para demover alguém ou alguma autoridade de fazer algo que desagradasse os bolsonaristas. Tal perspectiva é agravada pelo fato de que eram pouquíssimas, quase nulas, as chances de que o agressor viesse a responder criminalmente pela ameaça.

Para além dos casos pontuais, a intimidação também se dava em nível institucional. Os rompantes de Bolsonaro (“Acabou, p….!”, “Sai, Alexandre de Moraes! Deixa de ser canalha!”, e tantos outros) sempre traziam consigo uma ameaça velada de que, no limite, o então Presidente poderia invocar as “suas” Forças Armadas para dar um golpe e fechar de vez o regime. O 8 de janeiro demonstrou que a maioria dos militares preferiu seguir dentro da legalidade, mas seria de uma ingenuidade atroz imaginar que não houvesse em suas fileiras, na ativa e na reserva, quem desejasse o mesmo fim aterrorizante para a democracia brasileira.

O Brasil salvou afinal o seu regime democrático?

Sim. Mas, numa escala de 0 a 10, o país se sairia no máximo com uma nota 5, com suas famosas “instituições” precisando urgentemente de reformas profundas para enfrentar uma recuperação que se avista como extremamente difícil. A eleição de hoje no Senado é a prova mais cabal disso.

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Trilha sonora do momento

Quando fevereiro chegar…

Geraldinho Azevedo, pra começar animado este novo mês que se inicia…

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Pensamento do dia

Não pense como um derrotado. Pense como um boleto, porque o boleto sempre vence.

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Especial semanal – Autópsia do bolsonarismo: O bolsonarismo como fenômeno psicológico

Que todo bolsonarista é, por definição, um fanático, já parece suficientemente explicado no post de ontem. Mas por que uma “ideologia” (o termo não se aplica exatamente ao fenômeno, mas o admitamos assim por ora) tão bizarra quanto a bolsonarista conseguiu angariar o apoio e a simpatia de tanta gente? Como justificar que o pior governo disparado da história do Brasil – e, possivelmente, da história do mundo – tenha conseguido arregimentar em torno de si um contigente tão grande de pessoas, a ponto de desequilibrar a balança política brasileira e levá-la até a extrema direita?

Não é, por óbvio, uma pergunta fácil de se responder. Há uma imensa gama de possibilidades para procurar entender como o fenômeno foi criado, como ele se desenvolveu e como, afinal, chegou ao tamanho que alcançou. É certo que nenhuma causa particular explicará sozinha o surgimento do monstro, nem como ele foi cevado a ponto de se transformar neste flagelo do qual padecemos por intermináveis quatro anos. Podemos, contudo, começar afastando o cascalho que nos impede de ver o caminho a seguir.

Em primeiro lugar, descarte-se a possibilidade de o bolsonarismo ter chegado a onde chegou pela entrega de resultados. Essa hipótese não resiste à mais perfunctória análise. A uma, porque o fenômeno em si é anterior à ascenção de Bolsonaro ao governo (as falas racistas, homofóbicas e o desejo de “metralhar a petralhada” são ainda da campanha de 2018, por exemplo). A duas, porque, a menos que a pessoa esteja sob efeito de um poderoso psicotrópico, não há entrega alguma que justifique Bolsonaro ter alcançado quase metade dos votos válidos no segundo turno da última eleição presidencial. Bolsonaro, por exemplo, colocou militares na Saúde e deu no que deu. Depois, colocou militares na Funai, para “cuidar” dos índios. E deu no que está dando.

É importante destacar, também, que o bolsonarismo não é – ou, pelo menos, não foi até 2018 – um fenômeno de massas. Pelo contrário. Era um nicho altamente restrito da sociedade, engolido ou abraçado afoitamente por parte de uma direita não esclarecida assumidamente anti-petista, capaz de fazer de tudo para não reeleger mais um exemplar da espécie. Conforme já foi analisado aqui, as circunstâncias que levaram à eleição de Bolsonaro em 2018 foram únicas e somente a partir da conjunção de todas elas é possível explicar sua vitória sobre Fernando Haddad praticamente sem fazer campanha, convalescendo numa cama de hospital. Tanto isso é verdade que, em 2022, montado no uso mais despudorado da máquina pública de que se tem notícia, sentado na cadeira e com a caneta na mão, Bolsonaro ainda assim não conseguiu se reeleger. E isso enfrentando um oponente que grande parte da população foi ensinada a odiar na última década e meia.

Se o fenômeno do bolsonarismo não se explica pelas regras normais do pragmatismo (governo absolutamente desastroso), nem tampouco a partir dos ensinamentos ordinários da ciência política (não existia antes como fenômeno de massa), como então compreender o que fez da “ideologia bolsonarista” algo tão sedutor, capaz de atrair tanta gente para com ela cerrar fileiras?

Nesse caso, a explicação talvez passe pela análise do bolsonarismo como um fenômeno psicológico.

Como todo mundo sabe, políticos no mundo inteiro ganham e perdem eleições com base na manipulação das emoções, do sentimento do eleitorado. Pois bem. O que há de diferente no bolsonarismo é que ele não manipula exatamente os sentimentos, mas os ressentimentos das pessoas. Toda a gente, em qualquer tempo e lugar, possui ressentimentos. Os rancores acumulados ao longo da vida vão se empilhando, tendo como pano de fundo toda sorte de infortúnio que tenha se abatido contra o sujeito.

Na maior parte dos casos, os azares da vida decorrem das ações do próprio sujeito. No entanto, como ninguém por hábito reconhecer isso, sempre se escolhe um “culpado” para levar a culpa pelo que ocorreu de ruim à vida da figura. E nesse balaio entra todo mundo: governo, família e até os estrangeiros. Isso é o que explica, por exemplo, a xenofobia tão presente em alguns países supostamente “desenvolvidos” mundo afora. No final das contas, a diferença entre uma pessoa crescer ou ficar atrasada na vida é justamente a forma com a qual ela encara e consegue superar esses ressentimentos.

A grande “sacada” por assim dizer do bolsonarismo, portanto, foi catalizar uma miríade absolutamente gigantesca de diferentes modalidades de ressentimentos e mobilizá-los numa única direção. Nesse sentido, o caldo de anti-petismo certamente foi um fator decisivo a contribuir para a disseminação do fenômeno. O desastre do governo Dilma e a corrupção descoberta nos episódios do Mensalão e do Petrolão acabaram funcionando como catalizadores do ódio da população quando a débâcle econômica do meio da década passada se tornou evidente.

E foi assim que o PT se transformou na “Geni” da política brasileira. Na condição de grande bode expiatório dos males do país, tudo que acontecia de ruim com alguém, a culpa era atribuída ao “Petê”. Se a pessoa perdeu o emprego, a culpa foi do PT. Se o sujeito gastou demais e ficou com dívida no banco, a culpa foi do PT. E até se a mulher o deixou para ficar com outro, a culpa também foi do PT.

Foi nesse caldo de anti-petismo que o bolsonarismo conseguiu infiltrar uma série de ressentimentos, alguns movidos por preconceitos escancarados, para fins de mobilização política. Assim é que o pessoal do “ogronegócio”, com raiva de trabalhadores em terra e ambientalistas em geral, abraçou-se ao bolsonarismo. Da mesma forma, garimpeiros e grileiros da Amazônia que odeiam os índios fizeram o mesmo. E até gente ordinária e pacata, mas com pouca instrução política, passou a acreditar que alguns dos males da modernidade eram culpa do método Paulo Freire e da “cultura esquerdista” nas escolas (logo, culpa do PT).

Não é por acaso, portanto, que o “bolsonarista-raiz” espelha frequentemente aquilo que o brasileiro em geral tem de pior. Todos aqueles grandes pecados que nossa imagem cordial costuma esconder atrás do armário subitamente se viram acolhidos por esse novo “movimento”. Qualquer sujeito, por mais racista, misógino, violento, homofóbico e preconceituoso que fosse, seria bem recebido, desde que fosse “contra o PT”. Daí deriva uma sensação de pertencimento que torna praticamente impossível remover o sujeito atraído pelo encanto dessa “libertação” da bolha em que ele se inseriu. Por isso discutir com um minion é por vezes cansativo, quase sempre uma perda de tempo.

Ao concluirmos que, mais que um fenômeno político, o bolsonarismo é antes do mais um fenômeno psicológico, podemos passar a entender como podemos sair desse labirinto onde nos enfiamos.

Como?

É o que será analisado no decorrer desta semana.

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Trilha sonora do momento

E hoje vai de qualquer coisa, mesmo.

O que, em se tratando de Caetano Veloso, já é muita coisa…

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Pensamento do dia

Pense duas vezes antes de seguir alguém, porque esta pessoa também pode estar perdida.

#FicaaDica

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Especial semanal – Autópsia do bolsonarismo: Qual a fronteira do fanatismo?

Assim como prometido no começo deste ano, passada a tradicional comemoração de aniversário do Blog, nesta semana teremos um especial sobre o flagelo que se abateu sobre o país nestes últimos quatro anos. Sim, porque se a Bíblia fosse ser reescrita nos dias de hoje, seriam 11 as pragas do Egito, com o Bolsonarimo ocupando algum lugar entre a 9ª e a 10ª posição na ordem dos piores castigos enviados por Deus à Terra.

Antes de mais nada, contudo, deve-se dizer que há algo de exagero no emprego do vocábulo “autópsia”. Ao contrário do que a expressão sugere – e como parece bem claro, pois está à vista de todo mundo -, o bolsonarismo não morreu. Muito pelo contrário. Em alguns aspectos, ele continua mais vivo do que nunca, tamanha foi a sua capacidade de dominar corações e mentes pelo país, até se entranhar definitivamente na vida política nacional.

Não, meus caros, “autópsia” não está aqui no seu sentido vulgar, daquilo que costumamos conhecer como o exame detalhado de uma pessoa morta. O sentido que este texto pretende emprestar ao termo diz mais respeito à dissecação do fenômeno, de modo a tentar entender de onde vem a sua força e como ele deitou raízes tão profundas na sociedade brasileira. Com alguma sorte, a compreensão de alguns conceitos permitirá que possamos encontrar uma saída para esse labirinto no qual nos aprisionamos e, quem sabe, poder olhar pra frente com mais esperança.

O primeiro passo para tentar compreender o bolsonarismo como fenômeno social demanda uma resposta apriorística: quem é o “fanático bolsonarista”?

A maioria de nós conhece ou mesmo possui na família pessoas que podem ser enquadradas no gênero “bolsonarista”. Mas é certo que serão poucos aqueles que terão firmeza para declarar que determinada pessoa é uma “fanática”.

A dificuldade para esse, digamos, “diagnóstico”, deriva da própria fluidez do termo “fanático”. É dizer: quem pode ser caracterizado como “fanático”? Há gente que passa fake news sobre Lula ter morrido e um sósia com 10 dedos nas mãos teria ocupado seu lugar. Nenhuma dessas pessoas se reconhecerá a si mesma como “fanática”. Para elas, possivelmente quem foi à frente dos quartéis pedir um golpe de Estado contra o “comunismo” ou coisa que o valha é que talvez possa ser enquadrada como “fanática”.

Todavia, dificilmente quem foi aos quartéis se assumirá como fanático. Talvez essas pessoas apontem o dedo do fanatismo para o “patriota do caminhão”, o sujeito que se atraca à frente de uma carreta e nela circula pendurado por 50km numa rodovia em alta velocidade. O patriota do caminhão, por sua vez, jamais se reconhecerá como fanático. Ele provavelmente apontará o dedo para os criminosos que promoveram o terror no dia 8 de janeiro, vandalizando as sedes dos três poderes em Brasília.

Para sair do casuísmo e permitir compreender melhor o fenômeno, a única saída é estabelecer um critério objetivo para determinar a fronteira do fanatismo. Do contrário, o que teremos será sempre pessoas que se recusam a assumir o rótulo infame, afirmando-se não serem “fanáticas” e apontando o dedo do fanatismo para coisas ainda mais bizarras, na esperança de com isso justificar as suas próprias ações.

Nesse caso, o recurso mais objetivo talvez seja recorrer ao próprio sentido vernacular do termo. Na sua acepção mais comum, o fanatismo está ligado à paixão a algo que pode levar a atos extremos de intolerância. Entretanto, fanatismo não é só isso. Sob um aspecto puramente político, fanatismo também pode significar a adesão cega a algum sistema ou doutrina. Significa um tal alheamento da realidade que seus olhos (e, mais importante, seu cérebro) afastam-se dos caminhos normais do raciocínio para enxergar uma realidade enviesada. E aí, meus amigos, o bolsonarismo encontra seu mais perfeito espelho.

Do ponto de vista puramente objetivo, não existe qualquer parâmetro através do qual seja possível a uma pessoa dizer, de maneira racional, que votar em Lula seja pior do que votar em Bolsonaro, em especial e sobretudo se a matéria analisada fosse corrupção. Salvo os passadores de pano regiamente pagos para dizerem asneiras em favor do “Mito”, ninguém em sã consciência pode acreditar que, d’algum modo, a corrupção petista foi maior do que a corrupção no governo Bolsonaro. O orçamento secreto e a farra do cartão corporativo são apenas os exemplos mais concretos dessa afirmação. E se mais não foi descoberto ainda é por conta dos malditos sigilos decretados pelo ex-presidente em tudo que lhe pudesse causar inconveniente.

Na pior das hipóteses, portanto, se a pessoa não quisesse de forma nenhuma ter de escolher entre as duas alternativas, a única possibilidade coerente seria votar nulo. Não há, repita-se, sob qualquer aspecto que se faça a comparação, uma única alternativa que pudesse justificar racionalmente a escolha de Bolsonaro no lugar de Lula. Para fazer a opção pelo 22, a pessoa teria que deliberadamente ficar cega para todos os tipos de parâmetros, inclusive ao fato basilar de que, até como ser humano, Lula é uma pessoa melhor, mas muito melhor do que Bolsonaro.

A fronteira que o Blog propõe para divisar o fanatismo, portanto, é delimitada claramente pela opção do sujeito na hora de depositar o seu voto na urna. Quem votou em Bolsonaro no segundo turno (no primeiro, a dúvida estaria de qualquer maneira fora de questão), é, por definição, um fanático. Quem anulou o voto ou simplesmente optou por não comparecer, encontra-se fora do âmbito do fanatismo.

Será essa uma definição por demais polêmica?

Sem dúvida.

Mas o propósito deste espaço não foi sempre dar a cara a tapa?

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Trilha sonora do momento

Quase 55 anos depois, é justo prestar homenagem ao último concerto ao vivo do Fab Four como tal…

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Pensamento do dia

O senso comum é o menos comum de todos os sensos.

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12 anos Dando a cara a tapa – Semana especial de aniversário: O mundo em 2023

Chegando ao fim desta semana especial de doze anos do Dando a cara a tapa, vamos saber o que o Blog espera para este novo ano que se inicia neste pequeno pontinho azul perdido na imensidão do espaço.

Olhando-se a questão a partir do nosso próprio umbigo, é evidente que a “grande” notícia deste 2023 é a volta do Brasil ao mundo. Depois de um quadriênio no qual os contatos diplomáticos do Brasil restringiram-se a Estados Unidos (até a derrota de Trump), Israel (até a derrota de Netanyahu) e Hungria, agora podemos voltar a conversar com nossos vizinhos e a Europa sem ser na base da patada. Tal qual aconteceu com os Estados Unidos quando Joe Biden foi eleito (para saber mais, clique aqui), o retorno do Brasil ao mundo é talvez a grande novidade deste ano que começa.

Mas qual a razão das aspas?

As aspas se justificam em razão de o Brasil possuir pouca ou nenhuma relevância no cenário global. Quatro anos ostentando a condição de virtual pária mundial – cortesia da “diplomacia” (risos) alucinada de Ernesto Araújo – são a prova mais cabal de que o mundo caminha muito bem, obrigado, se o governo brasileiro resolver voluntariamente se excluir do contexto das organizações internacionais. A rigor, o Brasil precisa muito mais do mundo do que o mundo do Brasil.

Todavia, com suas dimensões continentais e mais de 200 milhões de habitantes, é evidente que o Brasil de alguma forma tem capacidade de inserção global, nem que seja em alguns nichos estritos. Nossa grande vitrine, sem dúvida, é a Amazônia. Nesse sentido, a eleição de Lula (ele mesmo um líder mundialmente conhecido) e a posterior indicação de Marina Silva para o Ministério do Meio Ambiente têm, sim, capacidade de colocar o Brasil de volta no jogo. As doações da Alemanha e da Noruega ao Fundo Amazônia são apenas o exemplo mais concreto da diferença que faz termos gente que sabe juntar lé com cré em áreas chaves, no lugar de um ministro que defende madeireiros ilegais e um presidente que coloca a culpa pelas queimadas na floresta nas ONGs ou no Leonardo Di Caprio.

Mesmo assim, colocando a questão em perspectiva, seria pretensioso ou talvez até ingênuo acreditar que o fato de Lula ter sido eleito presidente faça com que o Brasil, em um passe de mágica, mude de patamar no cenário global. Se por um lado voltaremos a ter voz e vez em questões ambientais ou mesmo em discussões comerciais (alô, agronegócio!), é claro que ninguém vai esperar para ouvir a “voz do Brasil” quando tiverem de ser tomadas medidas mais relevantes no contexto mundial. Voltamos ao palco? Sim. Mas continuaremos a ser, por muito tempo, coadjuvantes nesse teatro.

Quanto aos papéis principais, todo mundo está careca de saber por onde a trama se desenrolará. A guerra entra a Rússia e a Ucrânia confirmou-se como o atoleiro previsto aqui, e não há qualquer perspectiva de fim no horizonte. Um cenário de vitória completa de qualquer dos lados parece descartado, seja pela aparente exaustão das forças russas, seja pela falta de homens e equipamentos por parte do exército ucraniano. Mesmo a possiblidade de entrega de tanques de guerra por parte da Europa e dos Estados Unidos não terá efeito imediato no conflito. Afinal, para além da demora na efetiva entrega dos tanques, há ainda a necessidade de treinamento por parte dos soldados ucranianos. Dessa forma, é razoável pensar que dificilmente haverá qualquer resolução de paz no primeiro semestre, quiçá neste próprio ano.

Em outra briga de cachorro grande, Estados Unidos e China devem continuar com sua Guerra Fria 2.0, dançando um balé de elefantes em torno de Taiwan, a ilhe rebelde para a qual fugiram Chiang Kai Sheck e seus nacionalistas em 1949. Dadas as condições atuais da China, com o imenso impacto tardio da pandemia de Covid, a desaceleração de sua economia e uma inflação que sempre traz alguma inquietação, é difícil imaginar que Xi JiPing resolva partir pro conflito aberto a essa altura do campeonato. Aliás, os aparentes distúrbios na transição entre um “regime de revezamento” entre líderes e um novo “Império do Meio”, com Xi JiPing na condição de “novo Mao”, tornam ainda mais duvidosa a possibilidade de uma guerra contra Taiwan e os Estados Unidos. O mais provável, portanto, é que continuemos com fricções ocasionais e “demonstrações de força” esporádicas de lado a lado, mas sem jamais passar o ponto de não retorno do conflito armado.

Em relação à Europa, desde o Brexit o continente tem experimentado uma certa decadência no cenário global. Não que seja possível dizer que países como a França ou a Alemanha sejam irrelevantes, mas não seria exagero dizer que, hoje, os principais players europeus jogam numa espécie de segunda divisão da diplomacia mundial. Às voltas com os intermináveis problemas do Euro e com uma inflação renitente (coisa que os europeus não vivem a sério há pelo menos duas gerações), é difícil imaginar que a Europa volte a dar as cartas em algum momento nesse pôquer mundial. Ademais, há ainda a guerra da Ucrânia e o problema da eterna dependência do gás russo para resolver. Tudo isso somado, devemos ver mais uma vez os europeus caminhando a reboque dos Estados Unidos quando estiverem em discussão as grandes questões internacionais.

O que se desenha para o mundo neste ano de 2023, portanto, é algo como mais do mesmo. Sem grandes emoções, mas também sem grandes sustos, as ressalvas correm por conta daquelas coisas imprevisíveis que de vez em quando surgem em países como a Coréia do Norte, por exemplo. De resto, devemos esperar algo mais parado e menos emocionante.

No contexto atual, já está mais do que de bom tamanho…

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