Dando a cara a tapa – Semana especial das eleições: “A derrota”

Que Lula ganhou a eleição é um fato.

Salvo os imbecis que andam a pregar golpe militar em frente aos quartéis, ninguém mais contesta sua vitória a sério. Nem sequer as Forças Armadas. Arrastadas para o centro do debate eleitoral por uma manobra a um só tempo pueril e estúpida do Ministro Luís Roberto Barroso, nem os militares encontraram qualquer registro digno de nota que pudesse conspurcar a inviolabilidade das urnas eletrônicas. Elas continuam sendo – agora mais do que nunca – um grande motivo de orgulho nacional, como mui bem frisou o presidente do TSE, Alexandre “Xandão” de Moraes.

Mas por que Bolsonaro perdeu?

É claro que houve méritos na campanha petista e que Lula, a despeito de todo o pesado histórico de corrupção que se abateu sobre ele e seu partido, seria um candidato competitivo em qualquer circunstância. Todavia, também é certo que, desde que se implantou criminosamente a reeleição no país, não havia até então registro de incumbente que tivesse sido derrotado na missão de conseguir mais quatro anos na cadeira presidencial. Fernando Henrique e Lula se reelegeram. Michel Temer não quis (ou não pôde) concorrer. Dilma Rousseff – que era Dilma Rousseff – fez o diabo na eleição de 2014, com resultados conhecidos, mas conseguiu bater Aécio Neves no segundo turno.

O que fez de Bolsonaro, portanto, uma avis rara da espécie presidencial? Por que só ele não conseguiu ganhar mais um mandato do povo nas urnas?

Para responder a essa pergunta, é necessário voltar um pouco no tempo e desmontar algumas das “verdades” vendidas acriticamente pela mídia nacional.

A primeira delas é que existiria uma polarização entre “bolsonarismo” e “petismo”. Isso é falso como uma nota de três reais. Nunca houve polarização entre bolsonarismo e o que quer que seja, simplesmente pelo fato de que o bolsonarismo é uma, digamos, “ideologia” que nunca existiu em nossa República. O que há – e sempre houve, pelo menos desde 1989 – é o petismo e o anti-petismo. Não por acaso, Lula e o PT foram ao segundo turno ou ficaram em segundo lugar em todas as eleições presidenciais desde a redemocratização. A disputa por corações e mentes nas eleições presidenciais sempre se deu entre um pólo mais à esquerda (representado pelo PT) e um pólo mais à direita (papel que coube, sucessivamente, a Fernando Collor, Fernando Henrique e o PSDB).

A simplificação embutida nessa “análise” falseia o debate na medida em que ignora as circunstâncias excepcionais que tornaram um possível um deputado absolutamente inexpressivo, integrante do baixíssimo clero congressual, cuja única “relevância” no cenário nacional consistia em “causar” em programas do nível de uma Luciana Gimenez, tornar-se um candidato competitivo na campanha presidencial. Não nos esqueçamos de que Bolsonaro elegeu-se: 1) sem estrutura partidária relevante (o então nanico PSL); 2) sem tempo de TV (8 segundos);  3) sem apoio de nenhum governo estadual; 4) passando a metade da campanha numa cama de hospital, por conta da facada que recebera em Juiz de Fora. Ou bem Bolsonaro era um fenômeno “adormecido” no nosso Congresso, cuja potência eleitoral representaria caso único na história da humanidade, ou bem haveria alguma outra explicação lógica para explicar o que aconteceu.

E qual seria essa explicação?

O anti-petismo.

Depois de vencer quatro eleições presidenciais, cavalgando inúmeros casos de corrupção nas costas e um desastre econômico na forma de “Nova Matriz Macroeconômica”, o partido da estrela vermelha provocou uma tal reação de ojeriza no eleitorado que qualquer um que pudesse encarnar de fato o repúdio ao que o PT representava se tornaria, automaticamente, um forte candidato nas eleições de 2018. A Lava Jato e a interferência espúria de Sérgio Moro naquele pleito foram apenas a cereja no bolo de anti-política daquela eleição. Bolsonaro, portanto, não se elegeu em 2018. Ele foi literalmente eleito naquele ano. Qualquer um que estivesse na ponta oposta a Haddad e que abraçasse fervorosamente o conservadorismo se elegeria naquela eleição da mesma forma.

Bolsonaro, portanto, perdeu porque as circunstâncias que tornaram possível a sua eleição em 2018 não estavam mais presentes em 2022. Quando isso aconteceu, restou a Bolsonaro lutar no campo da política comum. É dizer: como candidato à reeleição, teria de ter o que mostrar ao povo. E tudo que ele tinha para expor na vitrine era sua “gestão” na pandemia e o “legado” de Paulo Guedes na economia. Convenhamos, não era a mais auspiciosa das campanhas eleitorais. Quanto ao anti-petismo, a Vaza Jato e a derrocada moral incontornável de Sérgio Moro fizeram o resto do trabalho.

Haverá, claro, quem possa argumentar que Bolsonaro conseguiu, afinal, 49% dos votos válidos no segundo turno. É fato: o atual Presidente logrou conseguir 58 milhões de votos nas urnas. Mas quantos desses votos são realmente dele? Isto é, quantos eleitores escolheram Bolsonaro porque viram nele a melhor opção para o país? Quantos desses votos representam apenas o resultado da derrama de dinheiro às vésperas da eleição? E quantos desses votos são por puro e simples governismo do eleitor (“se há governo, eu sou a favor”)?

Não há ainda nenhuma pesquisa que permita cravar qual o percentual de cada um desses fatores no balaio de votos arregimentado por Bolsonaro na eleição deste ano. Uma suspeita, contudo, se sobrepõe a todas elas: quantos votos foram dados a Bolsonaro simplesmente para impedir mais uma vitória de Luiz Inácio Lula da Silva?

Essa é a pergunta que terá de ser respondida, para saber se nos próximos anos ainda existirá um “bolsonarismo” eleitoralmente viável, ou se, ao contrário, outras forças surgirão para se contrapor ao domínio petista no Planalto.

O futuro, portanto, ainda é uma grande incógnita. Algumas pistas, contudo, permitem-nos imaginar o que pode acontecer daqui até 2026.

“O que o governo Lula nos reserva?”

Essa é a pergunta que procuraremos responder amanhã, no post final da nossa série especial.

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