Pensamento do dia

Se alguém é capaz de chorar de rir, é capaz também de rir para esconder a tristeza.

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Recordar é viver: “Há, a, à”, ou A morte do verbo haver”

Com a Língua Portuguesa cada vez mais maltratada nos dias de hoje, talvez seja uma boa idéia revisitar um post de dois anos atrás, quando se tratou da morte do verbo haver. E, infelizmente, ele parece ter sido enterrado sem as exéquias devidas.

É o que você vai entender, lendo.

“Há, a, à”, ou A morte do verbo haver

Publicado originalmente em 5.12.22

Faz um bom tempo desde a última vez em que aqui se escreveu sobre nossa tão amada e maltratada língua portuguesa. Para reparar a falta e resgatar do limbo a seção preferida da minha amiga Icsa, vamos oferecer aqui novamente Dicas de Português. Neste caso, para tratar de um dos maiores males das redes sociais em geral, e da comunicação através do WhatsApp, em particular: a virtual morte do verbo haver.

Utilizado em regra na sua modalidade transitiva direta, o verbo haver pode assumir múltiplas acepções em um discurso qualquer. Por exemplo, ele pode ser utilizado na forma reflexiva, com o sentido de “entender-se” ou de “ajustar contas”(Se algo der errado, ele vai se haver comigo). Ele também pode ser empregado no sentido de “dignar-se” ou “resolver”(Eu hei por bem não xingar pessoas na rua).

Outro uso bastante difundido do verbo haver ocorre quando ele é utilizado em tempos compostos, com o sentido de “ter”. Os exemplos são vários: “Havíamos comprado todos os doces que existiam na loja” ou “havíamos feito de tudo para impedir a derrota”. Em ambos os casos, o verbo haver, na condição de verbo auxiliar, é flexionado normalmente, enquanto o verbo a indicar a ação principal obrigatoriamente coloca-se no particípio.

Até aí, tudo bem; todo mundo mais ou menos compreende e erra pouco. O problema começa a aparecer quando o verbo haver assume o mesmo sentido do verbo “existir”, “ocorrer” ou “acontecer”. É aí que a porca entorta o rabo.

Quase todo mundo aprende no primário que o verbo haver, quando possui o sentido de “existir”, é impessoal. Isso significa, em resumo, que o verbo não será conjugado conforme a pessoa, como ocorre em regra com os verbos “normais”. Poucas pessoas são capazes de errar, por exemplo, conjugações simples, como “o jogador participou da jogada”, mas “os jogadores participaram da jogada”. Mas quando o verbo haver entrada na parada, a coisa fica mais complicada.

Quando o verbo haver é empregado com o sentido de existir ou indicar passagem de tempo, ele deixa de respeitar as regras básicas de concordância e somente se conjuga na 3ª. pessoa do singular. Por exemplo: “Houve muitas faltas naquela partida” ou “Eu fiz isso há dois anos” (e, por favor, deixe de lado a forma redundante “atrás”, uma vez que a idéia de passado é intrínseca ao próprio verbo). Em outras palavras, faça chuva ou faça sol, você sempre utilizará o verbo haver conjugado na terceira pessoa do singular, independentemente do sujeito empregado na frase.

Entretanto, sabe-se lá Deus por quê, o fato é que o verbo haver foi praticamente assassinado nas comunicações instantâneas nossas de cada dia. Por alguma razão que foge à nossa compreensão, a conjugação básica do verbo haver para indicar a passagem de tempo passou a ser “substituída” de forma bizarra pelo artigo definido “a”. Quando o interlocutor é, digamos, mais “refinado”, o velho e bom “há” curiosamente cede passo ao “à”(como se de alguma forma o emprego da crase fosse admitido nesse caso).

No final das contas, não há grandes dificuldades na utilização do verbo haver tributando o devido respeito ao bom uso da norma culta. Basta um pouquinho de atenção para saber quando empregar “há”, “a” ou “à”. No caso de indicar-se transcurso de tempo, sempre você vai utilizar “há” (O Brasil foi pentacampeão HÁ vinte anos). Quando a idéia for individualizar de forma precisa alguma coisa do gênero feminino, será o caso de recorrer o artigo definido “a” (Ganhamos a partida mais importante das nossas vidas). Se, no entanto, houver uma preposição “a” antecedendo o artigo definido “a”, aí, sim, será o caso de empregar o acento grave (ou o famoso “a craseado” – Vamos à farmácia) (para saber mais sobre o uso da crase, clique aqui).

A despeito de seu virtual assassinato nas redes insociáveis, é nosso dever como amantes da língua ressuscitar o correto emprego do verbo haver nas nossas comunicações instantâneas. Não é difícil, o esforço é mínimo e, com o tempo, o uso correto acaba por se impor a essas estranhas modalidades utilizadas no nosso dia a dia.

Do contrário, sabe-se lá aonde vai parar a nossa derradeira flor do Lácio…

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Trilha sonora do momento

Encerrando a semana de homenagens à moça, vamos desse clássico do Guns ‘n Roses…

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Pensamento do dia

A medida mais eficaz para impulsionar o setembro amarelo até agora foi a suspensão do Twitter.

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Twitter x Moraes – Parte III, ou Afinal, foi legal a suspensão do X?

Como toda boa telenovela da vida real, a briga entre o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes e o bilionário dono do Twitter Elon Musk não poderia prescindir de um capítulo de encerramento. Já tendo abordado aqui as partes um e dois dessa batalha, talvez seja o caso de encerrar essa trilogia falando de uma temática que foi apenas abordada lateralmente nos posts anteriores: a legalidades das decisões de Alexandre “Xandão” de Moraes nesse imbróglio todo.

Do ponto de vista estritamente jurídico, a decisão sobre a suspensão do Twitter (ou do X, como queiram) tem muito pouco a ser atacada. Segundo o Marco Civil da Internet, toda empresa que ganhe a vida a partir da coleta de dados de usuários submete-se, obrigatoriamente, à legislação brasileira (art. 11 da Lei nº. 12.965/14). E, para que essa submissão possa ser aplicada na prática, o próprio Marco Civil da Internet determina que tais empresas devam manter representação legal no país (art. 12 da mesma lei).

A razão de ser da norma é óbvia, sob dois prismas distintos:

Primeiro, sendo os dados de navegação do usuário um “ativo” – isto é, um bem que pode ser apropriado economicamente para exploração por terceiros – não é de se espantar que o Brasil tenha direito a dar pitaco sobre a matéria. Ou alguém por acaso defenderia por aí, de cara limpa, que uma mineradora estrangeira pudesse cair de pára-quedas para explorar diamantes na Amazônia sem se submeter às leis nacionais?

Segundo, para que as eventuais determinações da Administração Pública ou do Poder Judiciário possam ser implementadas, é evidente que a empresa deve ter um cantinho para chamar de seu no Brasil. Do contrário, como fazer para fiscalizar as atividades da empresa, cobrar impostos ou reclamar indenizações em caso de descumprimento dos direitos dos usuários? Seria necessário toda vez mandar uma cartinha rogatória pedindo aos Estados Unidos que, pelo amor de Deus, intime a figura a cumprir as leis brasileira? É óbvio que não.

Assentadas essas premissas, resta claro que a manipulação do bilionário mimado do Twitter não passava de uma jogada claramente política. Tendo violado por reiteradas vezes as determinações para exclusões de posts ou usuários (para saber mais sobre os limites da liberdade de expressão, confira aqui), Musk esticou a corda até o ponto de não retorno quando decidiu retirar a representação da empresa que mantinha no Brasil. Restava a Xandão, portanto, somente aplicar a lei: suspender as atividades do Twitter por estas praias (art. 12, inc. III, do Marco Civil da Internet).

Daí pra frente, o que se viu foi o velho e surrado festival de desinformação patrocinado pela extrema-direita de sempre. Para além dos já batidos gritos de “abaixo à censura” e “contra a ditadura do Judiciário”, foi engraçado ver os supostos “patriotas” se alinharem a um bilionário forasteiro que atua abertamente contra as instituições do país. Usar Musk como “paladino da liberdade de expressão” é tão ridículo quanto orar pra pneu ou pedir intervenção alienígena para dar cabo ao “comunismo” no Brasil.

No fundo, a grande questão por trás das redes sociais e dos limites aos quais elas devem se submeter passa pela compreensão básica de como funciona o jogo nesse tipo de arena. Imagine, por exemplo, o sujeito erguer um estádio para explorar comercialmente o que se faz lá dentro. Se no campo tá rolando só jogo de futebol, beleza; o Estado assiste do lado de fora e deixa o pau cantar lá dentro.

Agora, se dentro dessa arena tem gente defendendo abertamente o nazismo (crime), trocando conteúdo de pedofilia (crime) ou articulando contra o Estado Democrático de Direito (crime também), ou o dono do estádio põe ordem no galinheiro, ou então a polícia entra para estourar a boca. No limite, ante a inércia do proprietário, interdite-se a bodega, até que o sujeito que quer ganhar dinheiro com a explorando-a resolva se submeter às leis brasileiras.

Claro, a decisão de Alexandre de Moraes não veio sem efeitos colaterais indesejados. Assim como no exemplo do estádio acima, muita gente usava o Twitter legalmente, para fins de informação e compartilhamento de pensamentos (inclusive este que vos escreve). Como não havia hipótese de a Justiça intervir diretamente para excluir somente os criminosos, só restou a alternativa de fechar a birosca por inteiro. E aí 20 milhões de usuários que não tinham nada a ver com a briga de Musk com Moraes tiveram de migrar para o BlueSky ou outro aplicativo assemelhado.

Terá sido esse o último capítulo dessa briga toda?

É difícil dizer. Afinal, para que o Twitter volte a ser liberado no Brasil, basta Elon Musk nomear um representante legal da empresa e cumprir as determinações do Supremo quanto à exclusão de determinados posts e usuários. Entretanto, como a Musk parece interessar somente a lacração típica dos extremistas, não é negligenciável a possibilidade de este tenha sido o fim da rede no país.

Seja como for, o importante é entender que, se você for realmente patriota, numa briga entre um bilionário mimizento e um ministro responsável por, quase sozinho, salvar a democracia brasileira, só há um lado ao qual se alinhar.

E, convenhamos, essa definitivamente não é uma escolha muito difícil…

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Trilha sonora do momento

E como a semana é toda dela, vamos de Stevie Maravilha, com a música escrita pra Aisha…

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Pensamento do dia

Os primeiros cinco dias da semana são sempre os mais complicados.

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Trilha sonora do momento

Foi ontem, mas, para manter a tradição…

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Pensamento do dia

Quando um pai ou uma mãe dizem que estão cansados, em geral é só isso mesmo. Eles não estão querendo doar os filhos.

#FicaaDica

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Recordar é viver: “The Social Dilemma, ou Qual o problema das redes sociais?”

Com a batalha entre Xandão e Elon Musk atingindo o ponto de ebulição, talvez seja uma boa hora para revisitar um post do começo da década, sobre um documentário que expõe os meandros através dos quais as redes sociais mexem com a nossa mente.

É o que você vai entender, lendo.

The Social Dilemma, ou Qual o problema das redes sociais?

Publicado originalmente em 30.9.20

Desde a semana passada, estourou na boca do povo uma das mais recentes produção da Netflix. Ao contrário do que o senso comum ditaria, não se trata de um filme de suspense aterrorizante, como Bird Box, ou um épico cheio de estrelas hollywoodianas, do naipe de um O Irlandês. Não, não. Dessa vez, a grande estrela do sistema de streaming mais famoso do momento é – acredite você – um documentário: The Social Dilemma.

The Social Dilemma": O Paradoxo Das Redes Sociais • OBarrete

O tema, claro, não poderia ser mais atual. As redes sociais revolucionaram nossa forma de interação e vêm redefinindo o próprio conceito de relação social desde pelo menos a metade da década passada. Com a pandemia, sua função cresceu exponencialmente, a ponto de, hoje, ser virtualmente impossível encontrar alguém que não tenha um perfil conectado a pelo menos uma delas.

O documentário começa de forma enigmática: “Qual o problema?”, pergunta o locutor à mais dezena de entrevistados que compõem o mosaico do filme. Entre risos sem graça e olhares perdidos para o alto, a pergunta fica em aberto e nunca chega a ser verdadeiramente respondida pelos documentaristas. E vamos sendo apresentados, passo a passo, às entranhas das redes sociais.

O ponto principal de todo o documentário é a estruturação de um sistema que busca uma coisa – e uma única coisa – de seus usuários: a atenção. Através do desenvolvimento de logaritmos e recursos tecnológicos avançadíssimos, as redes sociais elaboram métodos que se destinam não somente a chamar a atenção do internauta, mas, sim, a “viciá-lo” naquilo. A idéia é que uma coisa puxe a outra, de maneira que o sujeito que ia encerrar seu passeio virtual olhe para si mesmo e diga: “Só mais esse…”, ou “Só mais um pouquinho…”

Mas por que tanta tecnologia envolvida na elaboração de mecanismos destinados a, literalmente, prender a atenção do usuário?

É aí que o documentário brilha. “Quando você não paga pelo produto que você está usando, então você é o produto”. Apontando didaticamente o sistema de funcionamento das redes sociais, os documentaristas explicam como o ser humano acabou transformado numa espécie de bem natural do qual redes como Facebook, YouTube e Twitter extraem a grande commodity dos tempos modernos: a atenção.

Por quê?

Porque é através da atenção que você dispensa a determinado conteúdo que os logaritmos das redes sociais conseguem extrair quais são os seus interesses pessoais. E quando alguém que sabe transformar os seus inocentes cliques ou os seus segundinhos preciosos gastos em um vídeo do YouTube em predisposição a compras, viagens ou relacionamentos, o resultado é um só: dinheiro, muuuuiiiitttooo dinheiro.

Até aí, nada de mais, pode estar pensando você. Afinal, a busca pelo dinheiro está presente desde que o mundo é mundo, e o que as redes sociais estariam fazendo não seria muito diferente do que as agências de propaganda fizeram durante todo o século XX, por exemplo.

A questão é que, para alcançar esse objetivo de prender a atenção do usuário, as redes sociais costumam desenvolver instrumentos através dos quais o sujeito fica confinado numa espécie de bolha, na qual ele só tem acesso a quem fala, sente e pensa exatamente como ele. A mimetização do pensamento é a forma mais simples e eficaz de fazer com que o sujeito sempre caia na tentação de dar “só mais um clique”, ou assistir a “só mais um vídeo”. Por que quem iria querer continuar em um lugar onde alguém te contrariasse o tempo todo, não é mesmo?

Não por acaso, o mundo de hoje é o mais dividido, polarizado e instrumentalizado de todos os tempos. No mundo das bolhas virtuais, os fatos são transformados em “narrativa”, e a “verdade” passou a ser apenas uma questão de “opinião”. E dá-lhe teorias malucas como Terra plana, Pizzagate ou a famosa “conspiração globalista do marxismo cultural”, liderada pelo Papa, com auxílio luxuoso dos onipresentes Bill Gates e George Soros. Isso para não falar, claro, do ídolo máximo dos conspiradores internéticos: Leonardo Di Caprio.

The Social Dilemma desenvolve-se de maneira elegante, tratando um tema áspero de forma bastante leve. Em que pese a inteiramente dispensável encenação teatralesca que margeia os depoimentos dos especialistas, o documentário é bem enxuto e não deixa nada a dever aos melhores do gênero. Melhor que isso, traz o depoimento – e, às vezes, o arrependimento sincero – de altos executivos responsáveis por montar essa mesma estrutura cujo uso agora eles recomendam evitar.

“Qual o problema?”, pergunta o documentário.

“O problema é o homem”, conclui qualquer um que o assista.

Abaixo, o trailer oficial do filme, para quem estiver interessado.

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