Trolando o passeio

Papel dos mais difíceis na vida é o de ser guia numa atração turística. Normalmente, essa posição fica reservada para quem não conseguiu descolar um lugar melhor na cadeia alimentar do sítio. Quando a essas circunstâncias se somam a idéia de ser estrangeiro em terra alheia, a coisa torna-se ainda mais complicada. Para além da obrigação de se colocar a par até dos pormenores da região, o sujeito ainda tem de se adaptar aos costumes locais, para não causar embaraço ou constrangimento durante a visita.

Era esse o caso de José. Missionário sul-grandense, o pessoal da Ordem à qual ele pertencia resolveu despachá-lo para o Nordeste, na outra ponta do país. E não era qualquer estado nordestino, mas justamente o Ceará, terra do povo mais fuleiro do Brasil. Com as vagas mais interessantes todas já ocupadas pelos locais, restou a José se alojar justamente na função de guia do mosteiro. Convenhamos, nada muito animador.

Mas José se esforçava. Seguindo a máxima segundo a qual, se você está no inferno, deve abraçar-se ao capeta, o novo guia do mosteiro fazia das tripas coração para entreter os visitantes. Durante a semana, com menor movimento, era possível puxar conversa e transformar o passeio em algo mais intimista, como se o visitante estivesse a visitar uma casa alheia. Nos finais de semana, porém, a única forma de manter coesos grupos tão grandes e tão diversos era recorrendo ao esquema anedótico: entre uma informação e outra, José soltava uma piadinha para certificar-se de que o pessoal estava prestando atenção.

Era assim que, ao ingressar no refeitório, José confessava aos visitantes o apelido que os monges lhe haviam ironicamente concedido: “morte lenta”. A risada era geral. Ao visitar a sala de música, José falava dos dois grupos que disputavam a liderança da preferência do mosteiro: Inimigos do Ritmo x Monte de Bossa. E mais uma vez a galera caía na gargalhada.

Certa vez, contudo, um ser peculiar ingressou no grupo de visitação. Em pleno sábado de Aleluia, um pernambucano desaforado, de raciocínio rápido, misturara-se ao grupo de cearenses visitando o mosteiro no interior. Com eles, um grupo bastante numeroso de paulistas, sedentos por conhecer as curiosidades do Nordeste do Brasil. Eram não mais do que trinta pessoas, mas o suficiente para fazer com que José deixasse o esquema “intimista” de lado e acionasse o modo “Chico Anysio” para conduzir o grupo.

A visita transcorria tranquilamente, sem grandes sobressaltos. Uma caminhada aqui, uma risada acolá, José se aproximava do fim de mais um grupo de visitação sem qualquer sinalização de intercorrência. Foi quando a turma se dirigiu ao jardim do mosteiro. Entre as mudas de plantas e as árvores já crescidas, erguia-se um protótipo de capela. Improvisada com restos de construção e reciclagem de materiais, o esboço de local de credo ficava bem ao fundo do jardim, longe do prédio principal do mosteiro. Parecia tão distante o troço que José não hesitou em usar uma velha piada sobre o lugar:

“Pois é. Aqui, entre as matas, escondido de todo mundo, muita gente vem rezar de vez em quando. No meio da reza, às vezes aparece uma fumacinha. Ninguém sabe ao certo de onde vem a fumaça, mas é comum o pessoal voltar de lá com os olhos vermelhos. Deve ser a emoção”, dizia José, enquanto o grupo de visitação ria-se discretamente.

Nesse momento, o pernambucano resolveu sair do silêncio que se impusera:

“Esse tipo de reza deixa hosana nas alturas. Em nome de Jesus!”

O grupo não se conteve e explodiu em gargalhadas. Amuado, José calou-se e apenas conduziu o grupo para a saída.

E nunca mais o guia voltou a fazer piadas com grupos de visitação…

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Trilha sonora do momento

E qual outra hoje, senão esta?

#Piadapronta

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Pensamento do dia

O futuro não é um destino para o qual estamos indo, mas um lugar que estamos criando.

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Recordar é viver: “A questão da produtividade, ou O nó econômico brasileiro”

Semana que vem haverá nova reunião do Copom, o famoso Comitê de Política Monetária do Banco Central. E, assim como na última reunião, mais uma vez os diretores do BC devem ceder aos caprichos de “O Mercado” e subir – sem fundamento técnico algum – a taxa básica de juros.

Para entender um dos nós que explicam – mas não justificam – esse eterno Dia da Marmota econômico brasileiro, vamos recordar um post de dez anos atrás, quando o mundo e o Brasil ainda prometiam tanto.

É o que você vai entender, lendo.

A questão da produtividade, ou O nó econômico brasileiro

Publicado originalmente em 3.6.14

Seguindo na fila da pauta represada pela minha ausência, hoje vamos abordar assuntos econômicos

Boa parte deve ter ignorado a notícia, mas, no primeiro trimestre deste ano, a economia brasileira cresceu modestíssimos 0,2%, em comparação com o mesmo período do ano passado. Desde o espetacular crescimento de 7,5% em 2010, o PIB brasileiro parece ter entrado em marcha lenta e, a continuar nesse ritmo, daqui a pouco arrisca-se a engatar uma marcha à ré. A pergunta que todo mundo se faz nessas horas: qual é o problema da economia brasileira?

Como tudo na vida, reducionismos são arriscados, porque mesmo os pequenos acontecimentos não conhecem apenas uma causa da existência. Ou, por outras palavras, a vida é demasiadamente complexa para apontarmos a apenas uma coisa a explicação para todos os problemas. Mas, dentre todos os fatores que movem a economia brasileira para trás, arrisco-me a dizer que nenhum é mais relevante do que a questão da produtividade.

Muita gente criou aversão ao tema desde que ele se tornou panacéia na boca dos “çábios” do mercado. Aliado aos indefectíveis “fazer as reformas” e “incrementar a inserção externa”, o aumento da produtividade acabou virando uma frase de efeito em um discurso monotemático, cujo objetivo implícito era um só: “Queremos que o Governo aumente os juros para ganharmos mais dinheiro sem correr nenhum risco”. Nesse caso, todavia, o buraco é mais embaixo.

“Produtividade”, em economês, significa a relação entre a produção e os fatores de produção utilizados. En cristiano, “produtividade” significa saber a quantidade de bens, pessoal e maquinário utilizado para fabricar uma quantidade determinada de produtos. Quanto menos gente e coisas você precisa para fabricar uma mesma quantidade de produtos, maior será a produtividade. Na mão contrária, quanto mais gente e matéria-prima você utilizar para produzir a mesma quantidade de produtos, menor será a produtividade.

A essa altura, você, nobre leitor, já deve ter intuído que a produtividade está diretamente associada a dois fatores: primeiro, a capacitação do trabalhador; segundo, o investimento em tecnologia. Obviamente, um trabalhador mais bem treinado consegue fazer o mesmo trabalho em menos tempo do que um que não foi treinado. Logo, a produtividade dele é maior. Da mesma forma, quando uma máquina que produz dez carros por hora é substituída por uma mais moderna, que produz vinte automóveis no mesmo período, a produtividade da fábrica aumenta.

Até aí, tudo bem; todo mundo consegue mais ou menos entender o esquema. Mas de que maneira a produtividade se relaciona com o conjunto da economia, a ponto de influenciar no seu desempenho global?

Imagine, por exemplo, um marceneiro que produz duas mesas de mogno por dia. Aplicando-se o custo da madeira, os gastos com maquinaria e eletricidade e o próprio salário do marceneiro, o dono da fábrica de móveis estima o preço unitário de cada mesa em R$ 10.000,00, já incluído o seu lucro.

Imagine, agora, no entanto, um trabalhador que fez um curso de especialização em marcenaria. Com sua capacitação, ele consegue produzir seis mesas de mogno por dia. Como os gastos com maquinaria, eletricidade e o próprio salário do marceneiro são, em princípio, os mesmos nos dois exemplos, o custo unitário de cada mesa sai por, digamos, R$ 8.000,00. É dizer: sem aumentar em nada os gastos com os fatores de produção, o sujeito conseguiu rebaixar em 20% o custo total do produto vendido.

E daí?

Daí que, se a produtividade do trabalhador aumenta, a tendência é de que os preços se mantenham estáveis ou até caiam. Logo, diminui o risco de aumento e, por conseguinte, diminui a necessidade de aumentar os juros para combater a inflação. De outra banda, o trabalhador que produz mais tende a receber mais pelo trabalho produzido, o que implica aumento de seu nível de renda. Com mais dinheiro no bolso, o trabalhador pode consumir mais e, assim, mover mais rápido a roda da economia.

 Quando a produtividade é baixa ou diminui, acontece o efeito inverso. Os preços tendem a aumentar e, para combater esse aumento, via de regra recorre-se aos juros. Pra piorar, o trabalhador fica sem espaço para pedir e o empregador, sem margem para conceder aumentos reais de renda. Resultado: todos perdem.

O que aconteceu no Brasil nos últimos anos foi uma conjunção de fatores que acabou por elevar maciçamente o nível de emprego e um aumento substancial no nível de renda. No entanto, a essas duas ocorrências benfazejas não correspondeu o necessário aumento de produtividade. Eis a razão pela qual a inflação tem se mantido no topo da meta do Banco Central nos últimos quatro anos e, justamente por isso, os juros voltaram ao nível em que se encontravam em 2010.

 Ou o Brasil resolve a questão da produtividade, melhorando a educação do trabalhador e incentivando o investimento maciço em tecnologia, ou ficaremos para sempre girando como rosca espanada, condenados eternamente a vôos de galinha.

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Trilha sonora do momento

Sexta-feira 13. Again.

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Pensamento do dia

Sábio é aquele que finge ser tolo enquanto observa o tolo tentando ser sábio.

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Guerra civil na extrema direita, ou O desfazimento de um mito

Não foi por falta de aviso.

Antes mesmo do primeiro debate para prefeitura de São Paulo, alertou-se aqui que estavam enganados aqueles que pensavam ser Pablo Marçal apenas mais uma daquelas personagens caricatas que costumam aparecer de quando em vez nas eleições. Utilizando a mesma estratégia do dedo no c* e gritaria popularizada pela extrema direita, Marçal disparou nas pesquisas e, em pelo menos duas delas, já assumiu a liderança da corrida para o Edifício Matarazzo, sede da municipalidade paulistana. Avançando pela trilha aberta por Jair Bolsonaro, Marçal atende à demanda de pelo menos 1/3 da população, que quer mais é ver o circo pegar fogo. A esculhambação, pois, revela-se mais uma vez eleitoralmente rentável.

A questão aqui, contudo, não é exatamente analisar a ascensão dessa triste figura chamada Pablo Marçal no cenário nacional, mas, sim, observar como o surgimento de um sujeito ainda mais bizarro na extrema direita detona um dos mitos mais ridículos jamais incensados pela preguiçosa imprensa nacional: a de que nenhuma candidatura à direita será viável sem as bençãos de Jair Bolsonaro. Isso não só é possível, como é viável até mesmo bater de frente com ele, sem que isso cause grandes danos ao patrimônio eleitoral do sujeito.

Desde que surgiu no panorama político com seus “cortes” e com a declarada estratégia de se passar por idiota para atrair o eleitorado idiota, Marçal mostrou ser possível abrir picadas na selva eleitoral sem depender, para isso, do “patrocínio” dos Bolsonaro. Trafegando pelo lado destro do espectro, o dublê de coach conseguiu demonstrar que aquele terço da população radicalmente anti-petista não tem “dono”. Eles abraçarão qualquer um que demonstre capacidade de derrotar nas urnas candidatos identificados com o “sistema”, o “comunismo” ou coisa que o valha. Basta, para tanto, propagandear os mesmos “valores” que essa gente defende, ainda que isso seja uma rematada hipocrisia. Afinal, ninguém pode levar a sério um sujeito que diz não votar no Lula porque ele é “ladrão”, mas, ao mesmo tempo, vota numa figura condenada por formação de quadrilha e fraude bancária, ainda que a pena tenha prescrito antes do final do processo.

Obviamente, não há nada a comemorar aí. Quando se defendeu aqui a hipótese de que Bolsonaro não era o “Lula da direita”, mas somente o “anti-Lula de ocasião”, a idéia era que aparecesse alguma coisa melhor do que esse espetáculo farsesco patrocinado pela extrema direita tupiniquim. O ressurgimento de uma direita moderada, liberal, nos moldes do que foi o PSDB na virada do milênio, traria de volta alguma ordem ao caos e deixaria o ar mais respirável nesse insuportável ambiente de polarização. No mínimo, seria afastado o risco à democracia representado por essa galera, a partir do confinamento da direita golpista ao cantinho do qual ela nunca deveria ter saído.

A aparente apatia dessa direita tradicional, provavelmente movida pelo mesmo fatalismo que contaminou o nosso mainstream midiático, segundo o qual nada brotaria do lado direito do jardim senão com as bençãos de Bolsonaro, fez com que uma alternativa ainda mais radical aparecesse. Enquanto esse pessoal não cair na real e passar a produzir candidatos mais moderados, a lógica será sempre essa: “fugir” do centro e caminhar cada vez mais para a direita, até o dia – quem sabe – em que ela se encontrará com o PCO de Rui Costa Pimenta.

Embora a artilharia aberta por Guilherme Boulos e Ricardo Nunes tenha afastado, pelo menos por ora, o risco de a parada ser encerrada ainda no primeiro turno, cometerá novo equívoco quem pensar que não existe a possibilidade de Marçal vir a ser eleito prefeito de São Paulo. Em 2018, muita gente boa da esquerda pensava o mesmo quando torcia para Bolsonaro tirar Geraldo Alckmin do segundo turno da corrida presidencial. Para essa galera, seria muito mais fácil Fernando Haddad derrotar o ex-capitão indisciplinado do Exército do que o tetra-governador paulista.

Deu no que deu.

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Trilha sonora do momento

Pois é, já estamos em setembro…

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Pensamento do dia

Amadurecer é ficar triste e não sentir necessidade de anunciar isso no Instagram.

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Trilha sonora do momento

Foi ontem, mas vale o registro…

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