Para quem reclama das igrejas fechadas, a sábia simplicidade do Mestre Gilberto Gil.
#FicaaDica
Para quem reclama das igrejas fechadas, a sábia simplicidade do Mestre Gilberto Gil.
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Não trate como prioridade quem te trata como opção.
Que há uma crise nas Forças Armadas, isso só as avestruzes não vêem. Não é propósito deste espaço voltar a tratar da problemática do pessoal da caserna quando se envolve em cargos civis. Pelo contrário. A idéia é defender o exato oposto: assim como os fardados não devem se imiscuir na Administração Civil, os civis também não têm nada que se meter com as crises militares. Isso é coisa de vivandeira.
Deve-se a expressão ao Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco. Primeiro presidente da Ditadura, o cearense da capital abespinhara-se com a galera que chamava o seu governo de militarista. Em um discurso memorável, o velho Marechal perspegou:
“Eu os identifico a todos. E são muitos deles. Os mesmos que, desde 1930, como vivandeiras alvoroçadas, vêm aos bivaques bulir com os granadeiros e provocar extravagâncias do Poder Militar”.
O propósito de Castelo, parece óbvio, era expor a hipocrisia daqueles que clamaram pela “Revolução Gloriosa” pensando nos benefícios que poderiam auferir com a derrocada da democracia, para logo em seguida reclamarem do fato de que os militares haviam tomado a coisa toda. Quiseram a violência constitucional, mas não queriam as suas conseqüências. “Taí o resultado”, foi o que disse Castelo, em resumo.
Embora não se queira aqui tratar da maior crise militar que o país viveu desde pelo menos a demissão de Sylvio Frota em 1977, o episódio serve como bom pretexto para rememorar um dos episódios mais obscuros e – por que não dizer? – tragicômicos do regime de exceção instaurado naquele primeiro de abril de 1964. Trata-se da “eleição” de Emilio Garrastazu Médici para a Presidência da República.
Castelo assumira após a deposição de João Goulart em 1964. Depois de muitos embates, acabou emparedado pela linha dura e teve de aceitar como sucessor seu Ministro da Guerra (o equivalente ao “Ministro do Exército”, quando ainda não havia Ministério da Defesa), Arthur da Costa e Silva. Inepto e absolutamente incapaz, Costa e Silva desgovernou o país por ano e meio. Foi o suficiente, no entanto, para levá-lo a um estado de confrontação social que permitisse aos militares mais radicais propor o fechamento total do regime. Veio, então, em 13 de dezembro de 1968, o famigerado AI-5.
Com a tigrada liberada para descer o cacete e a tortura comendo solta nos porões, Costa e Silva fingiu que governava o país ainda por alguns meses. Em agosto, todavia, o ditador foi abatido por um derrame. Mesmo identificado a tempo, com a medicina da época, pouco se podia fazer. A incapacidade clínica total do velho Marechal era apenas uma questão de tempo.
Ao saber disso, muitas coisas passaram pela cabeça dos três ministros militares da época: o general Lyra Tavares, o almirante Augusto Rademaker e o brigadeiro Márcio de Sousa Melo. Em nenhum desses pensamentos, contudo, estava nem remotamente incluída a idéia de passar o governo ao seu sucessor constitucional, o vice-presidente da República, Pedro Aleixo (civil). O Alto Comando do Exército mandou chamar o jurista Carlos Medeiros, e da sua pena saiu o Ato Institucional n. 12. Através dele, golpeou-se novamente a Constituição. Pedro Aleixo foi declarado incapaz para o cargo e o comando da Nação foi transferido a uma junta militar composta pelos ministros do Exército, da Marinha e da Aeronáutica.
Do Palácio para fora, a idéia era de manter uma certa aparência de normalidade, como se o país continuasse a ser governado como antes, ainda que à custa de um triunvirato. Do Palácio para dentro, no entanto, o jogo era bem mais simples. À Corte de Costa e Silva – representada principalmente pelo general Jayme Portella – não interessava perder o poder que tinha. Portanto, queriam manter o velho Marechal – a essa altura já em estado semi-vegetativo – numa espécie de “afastamento temporário” permanente, de modo que nenhum pretendente ousasse defenestrá-los todos de lá.
Obviamente, esse arranjo de coisas não tinha muito tempo para durar. Não bastasse a instabilidade inata de uma tal situação, o destino imporia à junta militar um golpe ainda maior. No começo de setembro, pouco dias depois da declaração de incapacidade de Pedro Aleixo, um grupo de revolucionários do MR-8 sequestrou o embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Charles Elbrick. Na carta de reivindicações, os seqüestradores impunham duas condições: a publicação integral da carta nas principais rádios, TVs e jornais do país; e a libertação de 15 companheiros que se encontravam presos. Os revolucionários deram-se até o luxo de ironizar os “juristas da Ditadura” em sua carta:
“Os quinze companheiros devem ser libertados, estejam ou não condenados: esta é uma “situação excepcional”. Nas “situações excepcionais”, os juristas da ditadura sempre arranjam uma fórmula para resolver as coisas, como se viu recentemente, na subida da junta militar”.
Atordoados e sem governo, os militares aceitaram de pronto as reivindicações. O baque dentro da caserna foi grande. Para piorar, um dos generais mais articulados do Exército, Affonso de Albuquerque Lima, iniciara uma campanha interna para assumir no lugar do prostrado Marechal. A legitimidade interna da junta militar havia ido para as cucuias. Seria necessário eleger eleger um sucessor definitivo para Costa e Silva.
Mas quem?
A idéia, claro, seria a de que o sucessor fosse um dos generais de quatro estrelas integrantes do Alto Comando. Obviamente, não poderia ser alguém tão próximo a Costa e Silva que significasse uma continuidade do governo, nem poderia ser tão afastado que parecesse alguém da oposição. Até porque, de oposição já havia um candidato às claras, e esse candidato era Albuquerque Lima (que só tinha três estrelas nos ombros). Depois de alguma discussão, surgiu a proposta de fazer-se uma espécie de eleição com os 239 oficiais-generais do Exército, da Marinha e da Aeronáutica.
Deu chabu.
Quatro anos antes, os militares haviam cassado o direito de os brasileiros escolherem o Presidente da República. Ora se dizia que o povo não tinha o discernimento suficiente para uma escolha tão relevante, ora se dizia que a disputa acabava ficando restrita a dois demagogos. No fundo, a questão era bem mais simples: o povo não votava nos candidatos apoiados pelos generais. Autoinvestido na função de Colégio Eleitoral, o Alto Comando fizera uma grande descoberta: pelos seus critérios, os generais também não sabiam votar. Se uma proposta como essa fosse levada adiante, Albuquerque Lima muito provavelmente seria eleito. O Alto Comando, então, formou uma comissão com três generais (Antônio Carlos Muricy, Emilio Médici e Bizarria Mamede) destinada a resolver a questão.
Pouco se sabe do que essa comissão discutiu entre si. De toda a documentação que foi produzida, sobreviveram apenas uma dezenas de páginas rascunhadas pelo General Muricy, dos quais não se consegue entender coisa alguma. No Exército, por exemplo, determinou-se um sistema bizarro de distritos, através do qual o Comando da Amazônia (que apoiava Albuquerque Lima) foi colocado na mesma urna que o gabinete do Ministro (que apoiava Médici). O Departamento de Provisão Geral (que apoiava Médici) teve mais votos do que qualquer um dos quatro exércitos (SP, RJ, RS e PE), com muito mais generais.
Nas outras Armas a confusão não foi menor. Na Aeronáutica, ouviram-se todos os brigadeiros, com Médici ganhando por estreita margem. Na Marinha, produziu-se algo semelhante. Mas, na primeira votação, deu Albuquerque Lima. Diante do resultado, o comandante dos fuzileiros navais, Almirante Azambuja (que apoiava Médici), ameaçou metralhar o Alto Comando da Marinha. Fez-se, então, uma nova votação. Convencidos pelo “argumento” de Azambuja, os oficiais-generais da Marinha resolveram dar seus votos a Médici. Estava eleito, portanto, o sucessor de Arthur da Costa e Silva.
Quando os militares foram às ruas para derrubar Jango, muita gente saudou o ocorrido como uma espécie de retorno do país à “ordem”. Mal sabiam eles que as maiores desordens ocorrem justamente em governos de vocação ditatorial. A anarquia que se seguiu ao derrame de Costa e Silva demonstra bem o tamanho da confusão gerada quando os fardados resolvem que os civis já não podem mais brincar no parquinho e querem desempenhar o papel de “adulto na sala”. Que episódios como esse sirvam ao menos para relembrar uma das melhores máximas do insuperável Winston Churchill:
“A democracia é o pior dos regimes, com exceção de todos os outros”.
É a esperança que nos resta…
E que fique muito mal explicado
Não faço força para ser entendido
Quem faz sentido é soldado.
By Mário Quintana
Muito já se escreveu, inclusive neste espaço, sobre a questão da pandemia de Covid-19. Invariavelmente, as análises se dão ou pela ótica do impacto que a doença provoca nos mecanismos internos de poder – pode me chamar de “Política Nacional” -, ou então sob as respostas que os estudos técnicos sugerem para algumas das muitas dúvidas que rondam o agora famoso coronavírus – pode me chamar de “Ciência”. Curiosamente, no entanto, poucos são os escritos sobre a perspectiva econômica dessa tragédia que ora vivenciamos todos os dias.
Claro, claro, desde o início a Economia é um dos aspectos que os analistas comentam quando falam dos impactos que a pandemia provocou no mundo. Todavia, quase sempre essas análises se restringem aos efeitos mais imediatos que a Covid provoca no ambiente econômico. Por exemplo: se houver lockdown, diminuirão as vendas do varejo; logo, cairá a arrecadação de impostos, lojas fecharão e aumentará o desemprego. Aliás, é muito por causa disso que tanta gente – inclusive gente muito poderosa – insiste na tal “dicotomia saúde x economia”. Contudo, quase ninguém parou ainda pra pensar no tamanho do desastre imposto pela morte maciça de cidadãos decorrente dessa maldita doença.
Deixemos de lado, por ora, o óbvio impacto social/humano que cada morte representa em um grupo familiar individual. Todo ser humano que parte deixa para trás não só a vida que levava, mas toda uma teia de relações construídas pelo afeto, que simplesmente ficarão na memória daqueles que ficaram. Sob esse prisma, dinheiro nenhum do mundo poderá suprir a lacuna deixada por quem se foi.
Mesmo assim, o drama não pára por aí. Para além do luto familiar, cada morte significa, em si, um impacto econômico grave, impacto este que pode ser quantificado. Quando um ser humano se vai, não morre apenas a pessoa, mas também o profissional, o sujeito que passou a vida inteira estudando e/ou trabalhando para dominar um ofício, e que dele tirava o pão para colocar em sua mesa.
Há, evidentemente, os casos óbvios. A morte de um pai ou de uma mãe que sejam arrimo de família, por exemplo, traz consigo não somente o luto, mas a possibilidade imediata de lançar-se todos aqueles que dele dependiam diretamente na pobreza. Como são pouquíssimas as famílias brasileiras que dispõem de alguma reserva de emergência ou mesmo um seguro de vida contra tragédias desse tipo, não há sequer remédio para mitigar a situação a curto prazo.
Mas os casos óbvios estão longe de serem os únicos. Imagine-se, por exemplo, um cidadão solteiro, sem mulher ou filhos, cujos pais não dependem dele para seu sustento. À primeira vista, a morte desse sujeito traria uma repercussão econômica baixa, pois somente a renda que ele auferia deixaria de circular na economia.
À segunda vista, no entanto, verifica-se que a repercussão econômica é muito maior. Não só todo o tempo e dinheiro que o Estado – ou mesmo algum agente privado – investiu para formar aquele profissional desaparece junto com ele, como também vai-se para o outro plano o conhecimento que aquele cidadão juntou em vida para, dentro do seu ofício, pôr para funcionar a roda da economia.
Os mais cínicos (e desalmados) poderão alegar que, caso um borracheiro morra p. ex., o sistema econômico não sofrerá grande impacto. No entanto, transporte esse mesmo exemplo para um alto executivo de um grande conglomerado econômico e você poderá ver o tamanho da asneira que está pensando.
E esses nem são os exemplos mais gritantes. Imagine – bate na madeira! – por exemplo a morte de um grande esportista profissional, como Lionel Messi ou Roger Federer. É gente que representa não só a fortuna pessoal que amealhou em vida, mas que embute em cada evento do qual participa um potencial econômico muitas vezes difícil de ser mensurado. Ou alguém acha que a quantidade de gente que vai ao estádio ver ao vivo – ou mesmo assiste a uma partida pela TV – não é influenciada pela presença ou não desses feras em campo (ou na quadra)?
A suposta “dicotomia saúde x economia”, de resto uma falsidade desde sempre, ignora também, portanto, os danos que a Covid-19 está a causar a longo prazo no tecido econômico do país. Quanto mais gente morrer, maiores serão os danos sociais e maior ainda será a dificuldade para reerguer uma economia arrasada por essa guerra que estamos vivendo. Espera-se, apenas, que as autoridades e os agentes econômicos atentem para a necessidade de salvar o máximo de vidas o mais rapidamente possível. Do contrário, poderá ser tarde demais.
Literalmente…
Entendedores entenderão.
To be old and wise, you must first have to be young and stupid.
Há pouco mais de duas semana, foi escrito aqui no Blog um post para recordar o “aniversário” de um ano da pandemia de Covid-19. No entanto, o post de então apenas observou a questão sob uma ótica vulgar, isto é, de qual era a percepção do Brasil (e do mundo) sobre os 365 dias que se passaram desde que houve o primeiro diagnóstico de coronavírus no país.
Todavia, em momento algum foi analisada a questão sob a ótica científica. É dizer: sabemos que o Brasil – para usar uma linguagem bem cara ao mercado financeiro – “performou” muito mal neste ano que passou. Mas, do ponto de vista da Ciência, como estamos e o que esperar desses próximos 365 dias que se avizinham?
Que estamos mal, toda a gente sabe. Acabamos de bater mais um recorde de mortos diários, com a média móvel dos últimos 7 dias já tendo batido a casa dos dois mil óbitos. E, até o final de março, não será surpresa pra ninguém se as mortes diárias ultrapassarem a casa do terceiro milhar. Traduzindo os números em eventos concretos, isso significa mais ou menos um ataque terrorista equivalente ao 11 de setembro ocorrendo por dia no Brasil. Todos os dias.
Em que pese todas as evidências em sentido contrário, ainda há gente por aí a defender que “é isso mesmo”. Por essa ótica míope e deturpada, não importam as mortes aos milhares de pacientes em filas de UTIs, porque os hospitais não comportam mais a quantidade de doentes que se avoluma em seus leitos. A “idéia” é fazer todo mundo pegar a doença, porque, assim, atingiríamos a tal “imunidade de rebanho”, sem precisar adotar medidas drásticas, como o lockdown. Sem meias palavras, trata-se de rematada tolice.
Para além da falta de evidências científicas que amparem minimamente essa “tese”, o fato é que já estamos há mais ou menos um ano empregando algo muito parecido com isso. Manaus é o exemplo mais bem acabado dessa tragédia. Tendo sofrido o pior pandemônio do país na primeira onda ano passado, repetiu o drama neste ano de forma muito pior. Não só o sistema de saúde colapsou por completo, como, em determinado ponto, nem sequer oxigênio houve para fazer frente às necessidades dos internados. Houve, portanto, pessoas que morreram não por covid, mas literalmente sufocadas pela falta de ar nos respiradores.
Manaus também é o exemplo mais emblemático do quão estúpida é essa idéia de que “ah, deixa todo mundo pegar, que uma hora todo mundo fica imune”. Errado. Como se viu com a variante amazônica, o descontrole desenfreado da pandemia permite que um vírus altamente volátil circule livremente, aumento exponencialmente os riscos de mutação. Resultado: uma variante (P.1) que escapa aos anticorpos de quem já desenvolveu a doença anteriormente, permitindo uma nova infecção mais contagiosa e letal.
Exatamente por conta disso, nosso drama é muito pior do que a maioria das pessoas imagina. Muita gente boa está se fiando no fato de que, por mais vagaroso que seja nosso ritmo de vacinação, uma hora a vacina vai chegar e nós vamos conseguir sair dessa. Ocorre, no entanto, que, se nós não começarmos a controlar a pandemia desde já, é possível que surjam novas variantes que escapem não somente às defesas que o organismo já desenvolveu naqueles que foram infectados, mas até mesmo às defesas que as vacinas estimulam.
Loucura?
Muito pelo contrário. O que se está falando aqui já acontece na prática. Basta saber que a vacina da Johnson & Johnson demonstrou uma eficácia superior a 85% contra o coronavírus “original”, por assim dizer. A mesma vacina usada contra a variante sul-africana, no entanto, demonstrou uma eficácia de somente 55%. Isso não foi suficiente para invalidar a vacina como um todo, mas é o bastante para demonstrar o quão perigoso é deixar o vírus correr solto livremente e arriscar novas variantes que simplesmente inutilizem as vacinas que hoje existem no mundo.
E o problema não pára por aí. Mesmo vacinas reconhecidamente eficazes, como as da Pfizer ou as da Moderna, comprovaram todo o seu poder de ação com a aplicação em massa nas populações de alguns países, tais como Israel e Estados Unidos. Ocorre, no entanto, que ninguém sabe ainda por quanto tempo essas vacinas garantem imunidade. Uma vez que não transcorreu tempo suficiente para análises, essa é uma pergunta ainda sem resposta.
A vacina da gripe, por exemplo, tem que ser renovada anualmente. Se o mesmo ocorrer com as vacinas contra a Covid, isso pode significar que, quando estivermos terminando de vacinar a população em 2022, as primeiras pessoas que estão sendo vacinadas agora terão de tomar uma nova dose de vacina já no ano que vem. E isso, destaque-se, se o ritmo de vacinação tão lento não permitir que pessoas ainda não vacinadas entrem em contato com pessoas já vacinadas e, por alguma infelicidade do destino, dêem origem a uma nova cepa que escape completamente ao controle vacinal.
Nossa corrida pela vida, portanto, é também uma corrida contra o tempo.
Em resumo…