Um ano de pandemia, ou O saldo da Covid no Brasil

Há aproximadamente um ano, o receio que atormentava todo o país desde que surgira a notícia de um misterioso “vírus” na China se transformava em triste realidade. No hospital Albert Einstein, em São Paulo, um viajante que regressara da Itália seria o primeiro caso diagnosticado de Covid-19 no Brasil. Hoje, 10 milhões e 260 mil mortes depois, talvez seja uma boa hora para saber, afinal, o que deu certo (pouca coisa) e o que deu errado (muita coisa) nesses 365 dias em que os brasileiros foram forçados a conviver com essa terrível doença.

O primeiro ponto, parece claro, diz respeito à efetividade dos chamados lockdowns. As restrições de circulação, por mais penosas que fossem, eram a única alternativa disponível à mão para enfrentar um mal que desconhece remédio. Países que se fecharam e adotaram controle rígido de circulação, associados à testagem em massa, produziram resultados muito melhores do que os que não fecharam. Coréia do Sul, Austrália e Vietnã são exemplos claros do sucesso dos lockdowns.

Nenhum, porém, é superior à façanha alcançada pela Nova Zelândia. Após adotar um rígido lockdown e testar de forma maciça a sua população, o país conseguiu simplesmente erradicar o vírus, a ponto de retornar à “vida como ela era” antes de qualquer outra nação. O Brasil, ao contrário, adotou a estratégia contrária. Sem uma coordenação nacional, estados e municípios não fecharam quando deveriam. Pior. Mesmo os que fecharam adotaram uma espécie de “lockdown à brasileira”, com mais gente circulando pelas ruas do que em dia de desfile da Mangueira no Carnaval.

O segundo ponto diz respeito ao, digamos, “renascimento” de Charles Darwin. O cientista e naturalista britânico jamais poderia imaginar que, mais de um século depois de sua morte, um país quisesse testar na prática os efeitos da sua Teoria da Evolução. Porque parece que foi justamente isso que o Brasil tentou fazer.

Com a extravagante tese de “deixa todo mundo pegar” porque aí vai aparecer a tal “imunidade de rebanho”, o país conseguiu, a um só tempo, ser o segundo lugar do mundo no ranking de mortos pela pandemia e fazer surgir variantes ainda mais contagiosas e letais do famigerado coronavírus. A variante surgida no Amazonas levou Manaus ao colapso hospitalar (faltando até oxigênio para os pacientes), e está prestes a repetir o drama no Brasil inteiro. Corremos o sério risco, portanto, de sermos o único país do mundo em que todo – repetindo: TODO – o sistema nacional de saúde (público e privado) entrou em colapso por conta da Covid.

Aliás, a variante de Manaus serve também para desmontar uma das maiores asneiras já inventadas pela marquetagem política barata que grassa no país. Enquanto a imprensa noticiava dia a dia o aumento do número de mortes, algum “jênio” teve a idéia de lançar um “Placar da Vida”, onde seria lançados os números das pessoas que teriam se curado da doença.

Desde sempre, a idéia era bizarra. Fazendo a já batida analogia do combate ao vírus a uma confrontação militar, elaborar um placar no qual se listaria a quantidade de pessoas “salvas” equivaleria a montar, no meio de uma guerra, uma lista de feridos. Noves fora o fato de que muitos dos que foram “salvos” carregam sequelas da doença até, o fato é que não passaria pela cabeça de nenhum general listar a quantidade de “feridos” como forma de trombetear uma suposta “vitória” contra o inimigo.

E a desgraça não pára por aí. Se mesmo antes a lista de pessoas curadas já não fazia muito sentido, depois da confirmada a possibilidade de reinfecção e – pasmem – de “coinfecção” (quando a pessoa é contaminada por duas variantes simultaneamente), o tal do “Placar da Vida” pode ser simplesmente jogado fora. As pessoas que foram “salvas”, que antes se pensavam imunes à doença, agora “voltaram ao jogo” e estão tão sujeitas a serem infectadas quanto aquelas que ainda não contraíram a doença. Não há, portanto, nada a “comemorar” quanto a esse aspecto.

O terceiro ponto a ser destacado diz respeito à capacidade infinita do brasileiro de acreditar em curandeirismos baratos. Houve quem acreditou na cloroquina, como ainda há quem acredite na ivermectina (muito embora o laboratório que inventou a droga rejeite qualquer eficácia terapêutica do medicamento no combate à covid). Houve até quem receitasse chás milagrosos contra o coronavírus. A única coisa na qual essa gente não parece acreditar é justamente nas vacinas, o único “remédio” que a ciência conseguiu desenvolver até agora para tentar mitigar o mal que se abate sobre nós.

Passado um ano de pandemia, portanto, o saldo do Brasil no combate à Covid é amplamente negativo. Só perdemos para os Estados Unidos em número absoluto de mortes e ostentamos um desonroso 119o  lugar em número de testes por milhão de habitantes. Enquanto o mundo como um todo experimenta uma redução de 11% no número de novos casos, aqui estamos numa segunda fase de expansão descontrolada da doença, com a cruel e terrível perspectiva de vermos o colapso absoluto de todo o sistema de saúde nacional por conta da avalanche de pacientes que recai sobre nossos hospitais.

Onde estaremos daqui a um ano?

Assim como em diversos outros casos, é o tipo de pergunta que só Deus sabe…

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