A tragédia da Covid sob uma perspectiva econômica

Muito já se escreveu, inclusive neste espaço, sobre a questão da pandemia de Covid-19. Invariavelmente, as análises se dão ou pela ótica do impacto que a doença provoca nos mecanismos internos de poder – pode me chamar de “Política Nacional” -, ou então sob as respostas que os estudos técnicos sugerem para algumas das muitas dúvidas que rondam o agora famoso coronavírus – pode me chamar de “Ciência”. Curiosamente, no entanto, poucos são os escritos sobre a perspectiva econômica dessa tragédia que ora vivenciamos todos os dias.

Claro, claro, desde o início a Economia é um dos aspectos que os analistas comentam quando falam dos impactos que a pandemia provocou no mundo. Todavia, quase sempre essas análises se restringem aos efeitos mais imediatos que a Covid provoca no ambiente econômico. Por exemplo: se houver lockdown, diminuirão as vendas do varejo; logo, cairá a arrecadação de impostos, lojas fecharão e aumentará o desemprego. Aliás, é muito por causa disso que tanta gente – inclusive gente muito poderosa – insiste na tal “dicotomia saúde x economia”. Contudo, quase ninguém parou ainda pra pensar no tamanho do desastre imposto pela morte maciça de cidadãos decorrente dessa maldita doença.

Deixemos de lado, por ora, o óbvio impacto social/humano que cada morte representa em um grupo familiar individual. Todo ser humano que parte deixa para trás não só a vida que levava, mas toda uma teia de relações construídas pelo afeto, que simplesmente ficarão na memória daqueles que ficaram. Sob esse prisma, dinheiro nenhum do mundo poderá suprir a lacuna deixada por quem se foi.

Mesmo assim, o drama não pára por aí. Para além do luto familiar, cada morte significa, em si, um impacto econômico grave, impacto este que pode ser quantificado. Quando um ser humano se vai, não morre apenas a pessoa, mas também o profissional, o sujeito que passou a vida inteira estudando e/ou trabalhando para dominar um ofício, e que dele tirava o pão para colocar em sua mesa.

Há, evidentemente, os casos óbvios. A morte de um pai ou de uma mãe que sejam arrimo de família, por exemplo, traz consigo não somente o luto, mas a possibilidade imediata de lançar-se todos aqueles que dele dependiam diretamente na pobreza. Como são pouquíssimas as famílias brasileiras que dispõem de alguma reserva de emergência ou mesmo um seguro de vida contra tragédias desse tipo, não há sequer remédio para mitigar a situação a curto prazo.

Mas os casos óbvios estão longe de serem os únicos. Imagine-se, por exemplo, um cidadão solteiro, sem mulher ou filhos, cujos pais não dependem dele para seu sustento. À primeira vista, a morte desse sujeito traria uma repercussão econômica baixa, pois somente a renda que ele auferia deixaria de circular na economia.

À segunda vista, no entanto, verifica-se que a repercussão econômica é muito maior. Não só todo o tempo e dinheiro que o Estado – ou mesmo algum agente privado – investiu para formar aquele profissional desaparece junto com ele, como também vai-se para o outro plano o conhecimento que aquele cidadão juntou em vida para, dentro do seu ofício, pôr para funcionar a roda da economia.

Os mais cínicos (e desalmados) poderão alegar que, caso um borracheiro morra p. ex., o sistema econômico não sofrerá grande impacto. No entanto, transporte esse mesmo exemplo para um alto executivo de um grande conglomerado econômico e você poderá ver o tamanho da asneira que está pensando.

E esses nem são os exemplos mais gritantes. Imagine – bate na madeira! – por exemplo a morte de um grande esportista profissional, como Lionel Messi ou Roger Federer. É gente que representa não só a fortuna pessoal que amealhou em vida, mas que embute em cada evento do qual participa um potencial econômico muitas vezes difícil de ser mensurado. Ou alguém acha que a quantidade de gente que vai ao estádio ver ao vivo – ou mesmo assiste a uma partida pela TV – não é influenciada pela presença ou não desses feras em campo (ou na quadra)?

A suposta “dicotomia saúde x economia”, de resto uma falsidade desde sempre, ignora também, portanto, os danos que a Covid-19 está a causar a longo prazo no tecido econômico do país. Quanto mais gente morrer, maiores serão os danos sociais e maior ainda será a dificuldade para reerguer uma economia arrasada por essa guerra que estamos vivendo. Espera-se, apenas, que as autoridades e os agentes econômicos atentem para a necessidade de salvar o máximo de vidas o mais rapidamente possível. Do contrário, poderá ser tarde demais.

Literalmente…

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