As eleições para a Câmara e para o Senado, ou Interlúdio eleitoral

Aconteceu o esperado.

Embora muita gente boa ainda cravasse uma suposta “indefinição” do tabuleiro eleitoral, quem conhecia as entranhas de Brasília sabia que o jogo já estava jogado há muito tempo. Com apoio pesado do governo, ao custo da liberação de R$ 3 bi em emendas e outros agrados, Arthur Lira e Rodrigo Pacheco elegeram-se, respectivamente, presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado Federal.

E agora?

Bem, a leitura imediata e preguiçosa dos analistas tatibitate da nossa mídia mainstream é de que “Bolsonaro não ganhou; quem ganhou foi o Centrão”. Arthur Lira seria um “novo Eduardo Cunha” e Rodrigo Pacheco, um líder independente que quer se afirmar no cenário político com vistas a se eleger governador das Minas Gerais em 2022. O Presidente, portanto, estaria “refém” do grupo que alçou à liderança do Congresso.

Nada mais equivocado, porém.

Noves fora o fato de que o presidente, ele próprio, é um egresso do baixíssimo clero desse ajuntamento disforme que tem marcado nossa atividade parlamentar desde, pelo menos, a Constituição de 1988, essa análise pueril encerra em si uma série de pré-conceitos (no seu sentido técnico) que têm pouca ou nenhuma aplicabilidade ao caso concreto. Melhor explicando, nossos çábios da grande imprensa estão a ler o tabuleiro político como se uma suposta reprise do movimento das peças mexidas na época de Dilma Rousseff levasse ao mesmo desfecho a que levaram em 2016. Agora, no entanto, o jogo é bem outro.

Em 2015, quando Eduardo Cunha foi eleito presidente da Câmara, o candidato do Planalto era o petista Arlindo Chinaglia. Logo, desde o começo, Cunha foi eleito em oposição ao governo, muito embora o seu PMDB integrasse oficialmente a chapa presidencial com Michel Temer. Agora, ao contrário, Arthur Lira foi eleito com apoio explícito do Planalto, que empenhou mundos e fundos para garantir a derrota do candidato apoiado por Rodrigo Maia, desafeto declarado de Bolsonaro. Só isso, portanto, bastaria para tornar absurdas as comparações simplistas entre um e outro cenário.

Mas há mais.

Com seu passado duvidoso, Cunha ainda era uma condenação esperando para acontecer. Seu histórico de negociatas, que vinha desde os tempos de Telerj no Rio de Janeiro, era bastante conhecido do mundo político, mas ainda não se transformara em prontuário de vitrine a ser exposto em um processo judicial. Lira, ao revés, já foi tornado réu em duas ações no Supremo Tribunal Federal e ainda carrega consigo uma penca de acusações não ainda não esclarecidas na justiça alagoana, que vão desde rachadinhas até a violência doméstica.

Se à primeira vista a conclusão seria de que a situação de Lira seria pior do que a de Eduardo Cunha, à segunda vista a conclusão é bem outra. Como a situação do atual presidente da Câmara já é por todos conhecida, seus danos podem muito bem ser medidos e controlados pelo sistema de compadrio e de conchavos que reina na capital federal, em especial nas cortes superiores. E, convém recordar, Augusto Aras não é Rodrigo “enquanto houver bambu lá vai flecha” Janot.

Cunha, ao contrário, foi vendo o novelo se desenrolar aos poucos, obrigando-o a trabalhar uma estratégia à medida que as coisas iam acontecendo. Nessas horas, a premência imposta pela urgência dos fatos acaba deixando um fio desencapado pelo caminho. Foi justamente o que aconteceu com Cunha. No final das contas, o ex-todo-poderoso presidente da Câmara caiu não por conta de suas maracutaias, mas, sim, pela mais singela das acusações que pesava sobre ele: ter mentido sobre uma conta no exterior.

Não há, portanto, qualquer base de comparação que permita traçar um paralelo entre Eduardo Cunha e Arthur Lira, no sentido de que ambos seriam “homens-bomba” prestes a explodir o governo de ocasião. Muito pelo contrário. Enquanto Cunha foi eleito contra a vontade do Planalto e dispunha de uma agenda própria de sabotagem ao governo, Lira teve o apoio do Presidente e comunga em quase todas as áreas com a agenda de Bolsonaro.

É bom lembrar, também, que Cunha detonou o impeachment quando o PT se negou a dar-lhe os votos necessários para barrar o seu processo de cassação no Conselho de Ética da Câmara dos Deputados. Seria no mínimo ingênuo acreditar que, numa hipotética situação semelhante, Bolsonaro se comportasse da mesma forma. É infinitamente mais fácil acreditar que o governo preferiria vender a mãe ao Capeta a negar ajuda ao Presidente da Câmara e arrostar para si um pedido de impeachment na sequência.

As eleições da Câmara e do Senado, portanto, pavimentam com cimento bem firme a campanha reeleitoral de Jair Bolsonaro. Ao amarrar o Centrão ao seu governo, o Presidente não só enfim dispõe de uma base para chamar de sua, como ainda por cima, de bônus, implode as articulações que se insinuavam na centro-direita para firmar uma candidatura que lhe fizesse sombra. Com Rodrigo Maia humilhado e o DEM implodido e cooptado, restaram poucas vias a serem transitadas por quem quiser se opor a Bolsonaro fugindo da esquerda do espectro político.

Claro, tudo pode acontecer daqui até 2022. Mas, a preço de hoje, tirar Bolsonaro da cadeira presidencial se tornou muito mais difícil do que era até a semana passada. Mesmo com a popularidade em declínio e com a economia estagnada, o Presidente sabe muito bem que a agenda de costumes pode reagrupar a sua base e renovar a polarização política que ele promove desde antes da eleição de 2018. Com dois aliados presidindo as duas casas do Congresso, essa tarefa ficou muito mais fácil.

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