A obsolescência programada, ou Por que as coisas não duram mais como antes

Todo mundo já se pegou dizendo isso pelo menos uma vez na vida: “No meu tempo, as coisas duravam mais”. Derivação mitigada do ancestral “Naquele tempo, as coisas eram feitas para durar”, a frase enunciada em tom de frustração é reflexo de um fenômeno muito conhecido no mundo empresarial, mas virtualmente ignorado pelos consumidores: a obsolescência programada.

Desde que o homem aprendeu a manipular o fogo e desenvolveu a habilidade de utilizar instrumentos manuais, a economia de mera subsistência passou a dar lugar a empreendimentos mais sofisticados, como a criação de produtos destinados à venda. Embora tenha havido o desenvolvimento da manufatura e da indústria, o esquema de circulação de mercadorias é o mesmo desde sempre: inventa-se alguma coisa, fabrica-se o invento numa quantidade seriada e depois se vende o produto no mercado.

Até aí, tudo bem. O problema começa a se manifestar quando entram em cena os chamados “bens de consumo duráveis”. Ao contrário dos não duráveis, os bens dessa natureza tendem a se perpetuar no tempo. “Perpetuar” talvez seja um termo muito forte. O mais correto seria dizer que eles duram mais, bem mais do que qualquer outra coisa.

“E daí?”

Daí que, se o mercado consumidor é finito e o bem que você fabrica não tende a se acabar em um curto espaço de tempo, é apenas uma questão de poucos anos até que todos os potenciais compradores tenham adquirido o seu produto. Trocando em miúdos: por melhor que seja o seu produto, é apenas uma questão de tempo até que você fique sem mercado.

O sucesso, nesse caso, funcionaria a um só tempo como remédio e veneno. Quanto melhor o produto, mais rapidamente você o venderia. E, quanto mais o vendesse, menor seria a quantidade de gente disposta até comprá-lo. Em poucos anos, haveria uma “exaustão de mercado”. As pessoas parariam de comprar simplesmente porque todo mundo já teria o seu.

É aí que entra o conceito de “obsolescência programada”. Pela proposta da obsolescência programada, a indústria de bens duráveis desenvolve produtos com o propósito confesso de que eles tenham duração limitada no tempo. É dizer: a coisa, pela sua natureza, poderia durar para sempre, mas a indústria desenvolve mecanismos que a tornam obsoleta ou não funcional antes que ocorra o fenômeno da “exaustão do mercado”.

Imagine, por exemplo, o sujeito que inventou a lâmina de barbear. Ficou rico ao criar uma solução inventiva para um problema do cotidiano (barbear-se). Até certo ponto, a riqueza é infinita, pois, ainda que dure algumas semanas, a lâmina vai ficar cega. E você terá que ir ao supermercado comprar outra para substituí-la.

Imagine, agora, o sujeito que inventou o automóvel. Ele pode ter ficado rico ao solucionar o problema de cobrir grandes distâncias em menos tempo e com menor dispêndio de energia. No entanto, se muita gente comprar seu invento, daqui a pouco todo mundo terá seu carro, e ninguém mais se interessará em comprá-lo.

O que fazer, então, para evitar a exaustão do mercado automotivo? Simples. Desenvolvem-se a cada ano novos “modelos” de carro, destinados unicamente a transformar o seu antigo automóvel – que continua a rodar sem problemas -, em algo “velho”, “ultrapassado”, com o único propósito de induzi-lo a comprar o modelo “mais novo”.

A coisa fica pior quando a obsolescência sai do campo da “novidade” para a mais escancarada cara-de-pau. Bill Gates, por exemplo, pegou o exemplo da indústria automotiva e levou-o às raias do paroxismo. A maior parte das pessoas que hoje utiliza computadores resolveria 99% dos seus problemas com 10gb de HD, 512mb de RAM, um monitor de 14″ e um Windows XP rodando tudo. Mas, a cada ano, desenvolve-se um novo sistema operacional, mais complexo, mais pesado, destinado a resolver um monte de problemas que as pessoas jamais vão ter. Como esse novo sistema demanda mais do hardware, tome HDs maiores, mais gigabytes de memória RAM e monitores de LED com Full HD.

Repare que a obsolescência não é sinônimo de desgaste. Com o passar do tempo, mesmo os produtos mais bem produzidos tendem a se acabar pelo simples uso. Mas não é disso que se trata. Trata-se, na verdade, de encurtar artificialmente a vida útil de bens duráveis unicamente para garantir lucros permanentes à indústria manufatureira. E aí vale tudo: lançar “moda”, criar um novo “modelo”, inventar um videogame “mais avançado”, e por aí vai.

A obsolescência programada vem, pois, para resolver um problema econômico a partir da criação de outro: o desenvolvimento de produtos feitos para não durar. Daí decorrem, por exemplo, a massificação do consumo, o círculo vicioso do crédito e a utilização excessiva de recursos naturais que poderiam ou ser preservados ou ser utilizados para outro fim mais útil.

O desenvolvimento do consumo consciente, portanto, passa pela descoberta desses pequenos grandes segredos do mundo corporativo. Só assim as pessoas vão entender melhor o mundo à sua volta.

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