Recordar é viver: “A imbecilidade dos PDVs”

Com o Governo Federal entrando na onda das demissões voluntárias, vamos relembrar o post sobre o assunto.

Porque recordar é viver…

A imbecilidade dos PDVs

Publicado originalmente em 30.4.14

 

Ontem eu estava zapeando as notícias e me deparei com uma bem curiosa. O caso em questão dizia respeito à USP, a famosa e respeitadíssima Universidade de São Paulo. Às voltas com problemas orçamentários, a direção da USP teria cogitado internamente a possibilidade de promover um Programa de Demissão Voluntária (PDV). O boato foi o suficiente para despertar ansiedade geral entre os seus funcionários.

Os hoje famosos PDVs foram criados nos anos 80, mas a moda pegou mesmo na década seguinte. Naquele tempo, chamava-se “demissão” de “reestruturação” e “desemprego”, de “reengenharia”. A tucanagem finalmente chegara ao mundo empresarial.

Como funcionam os PDVs?

As regras são relativamente simples. Em geral, oferece-se ao empregado um incentivo financeiro para que peça demissão de forma voluntária. O incentivo normalmente vem na forma do pagamento de uma quantia equivalente ao que sujeito receberia se fosse despedido sem justa causa, acrescido de X salários por ano de serviço. Os mais benevolentes ainda concedem aos empregados benefícios como a continuidade do pagamento do plano de saúde empresarial e a manutenção do vínculo com o fundo de previdência fechado.

O objetivo, como qualquer um pode observar, é diminuir o gasto com a folha de pagamentos. A determinada quantidade de demissões corresponde determinada queda no gasto mensal com os funcionários. A idéia é gastar mais agora, pagando o incentivo para a demissão, e, no futuro, recuperar a grana investida com a diminuição dos gastos correntes. Além disso, para a empresa, o PDV implica um risco menor de ações na justiça. Afinal, o sujeito que adere ao programa sai voluntariamente, não havendo o desgaste de uma despedida sem justa causa.

Desde sempre, o PDV é uma rematada tolice. Custa a acreditar que, depois de quase três décadas de uso intensivo da prática, ainda haja empresas que cogitam fazer tal asneira para se livrar do gasto imediato com salários.

A primeira coisa a considerar é que só aderem ao PDV duas classes de trabalhadores: os que estão perto de se aposentar e os ases do serviço.

No primeiro caso, a empresa pode até ter um ganho imediato com a exclusão do sujeito da folha salarial. Mas é de se perguntar se não gastaria menos esperando alguns anos para que ele se aposentasse naturalmente do que pagando uma mini-fortuna para que ele o faça imediatamente.

No segundo caso, o dano é muito pior. Em regra, os melhores empregados são os primeiros a aderir ao PDV. E a razão é muito simples: de tão bons, eles têm certeza que conseguirão algo melhor lá fora. O mau empregado, ao revés, foge do PDV como o diabo da cruz. Vai saber se um dia conseguirá alguma coisa do mesmo nível. É difícil acreditar que, nessa hipótese, não haja perda de produtividade – e, conseqüentemente, de lucros – decorrente da perda dos empregados mais eficientes.

A segunda coisa a considerar é que o PDV é uma má política de gestão de recursos humanos. Tal ocorre porque o PDV nunca é único. Ou, por assim dizer, uma vez aberta a porteira, passa a boiada. Iniciado o processo de demissão voluntária, é impossível pará-lo. O próximo PDV é apenas um prenúncio do que virá depois dele. Não é difícil imaginar o clima de terror que se instaura no quadro funcional, pois todo mundo ficará a pensar: “Quando será a minha vez?”

Pra piorar, o PDV nem sempre é bem recebido pelo mercado. Se os “executivos” adoram arrotar a medida como prova da “eficiência” de sua gestão, um analista mais ponderado pode identificar na medida uma demonstração de fraqueza da empresa, isto é, concluir que ela está mal das pernas. Daí para a queda do valor de mercado é apenas um pulo.

Salvo casos raríssimos, em que a atividade de uma empresa já alcançou tal nível de automação que a mão-de-obra pode ser reduzida ao mínimo, os Programas de Demissão Voluntária são uma contrassenso empresarial. Sob as vestes da “modernidade”, esconde-se a mais atrasada forma de gerir um negócio.

Quando se escrever a história da Administração do último quartel do século XX e das primeiras décadas do século XXI, os livros vão contar como um dos maiores pastiches de todos os tempos se transformou na regra de macro-gerência do mundo empresarial. E a grande dúvida dos leitores será:

“É pra rir ou é pra chorar?”

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