Malba Tahan e as mil e uma histórias do homem que calculava

Muita gente já deve pelo menos ter ouvido falar num livro chamado “O homem que calculava”, escrito por um sujeito chamado Ali Iezid Izz-Edim SAlim Hank Malba Tahan, ou simplesmente Malba Tahan.

No livro, Malba Tahan narra suas aventuras pelo deserto, e nelas sempre há a explicação de algum problema matemático com o qual o beduíno se depara.

O que muita gente não sabe é que, na verdade, Malba Tahan nunca existiu. Na verdade, era o heterônimo de um professor de matemática brasileiro – isso mesmo, tupiniquim – chamado Júlio César de Melo e Sousa.

Carioca, nascido no final do século XIX, Júlio César sempre foi fascinado pela matemática. Não tardou a desenvolver suas habilidades e a se destacar como professor da matéria. Se atualmente matemática ainda é considerada um porre por boa parte dos alunos, imagine no final de 1800.

Pois bem. Destinado a popularizar o ensino da matemática, Júlio César resolveu escrever um livro. Pelo que lembro, ele primeiramente publicou em seu próprio nome. Foi um verdadeiro fracasso. Daí ele teve um estalo: por que não criar um personagem de modo a atrair a atenção e o interesse das crianças?

E assim nasceu Malba Tahan, o homem que calculava.

Abaixo, um pequeno excerto do livro: o famoso conto dos camelos. Se você tiver um filho e ele não se interessar muito por matemática, compre “O homem que calculava”. Garanto que você não vai se arrepender.

O caso dos camelos (Capítulo III de O homem que calculava)

Poucas horas havia que viajávamos sem interrupção, quando nos ocorreu uma aventura digna de registro, na qual meu companheiro Beremiz, com grande talento, pôs em prática as suas habilidades de exímio algebrista.
Encontramos perto de um antigo refugio meio abandonado, três homens que discutiam acaloradamente ao pé de um lote de camelos. Por entre pragas e impropérios gritavam possessos, furiosos:
– Não pode ser!
– Isto é um roubo!
– Não aceito!
O inteligente Beremiz procurou informar-se do que se tratava.
– Somos irmãos – esclareceu o mais velho – e recebemos como herança esses 35 camelos. Segundo a vontade expressa de meu pai, devo receber a metade, o meu irmão Hamed Namir uma terça parte, e, ao Harim, o mais moço, deve tocar apenas a nona parte. Não sabemos, porém, como dividir dessa forma 35 camelos, e, a cada partilha proposta segue-se a recusa dos outros dois, pois a metade de 35 é 17 e meio. Como fazer a partilha se a terça e a nona parte de 35 também não são exatas?
– É muito simples – atalhou o Homem que Calculava. – Encarrego-me de fazer com justiça essa divisão, se permitirem que eu junte aos 35 camelos da herança este belo animal que em boa hora aqui nos trouxe!
Neste ponto, procurei intervir na questão:
– Não posso consentir em semelhante loucura! Como poderíamos concluir a viajem se ficássemos sem o camelo?
– Não te preocupes com o resultado, ó Bagdali! – replicou-me em voz baixa Beremiz – Sei muito bem o que estou fazendo. Cede-me o teu camelo e verás no fim a que conclusão quero chegar.
Tal foi o tom de segurança com que ele falou, que não tive dúvida em entregar-lhe o meu belo camelo que imediatamente foi reunido aos 35 ali presentes, para serem repartidos pelos três herdeiros.
– Vou, meus amigos – disse ele, dirigindo-se aos três irmãos -, fazer a divisão justa e exata dos camelos que são agora, como vêem em número de 36.
E, voltando-se para o mais velho dos irmãos, assim falou:
– Deverias receber meu amigo, a metade de 35, isto é, 17 e meio. Receberás a metade de 36, portanto, 18. Nada tens a reclamar, pois é claro que saíste lucrando com esta divisão.
E, dirigindo-se ao segundo herdeiro, continuou:
– E tu, Hamed Namir, deverias receber um terço de 35, isto é 11 e pouco. Vais receber um terço de 36, isto é 12. Não poderás protestar, pois tu também saíste com visível lucro na transação.
E disse por fim ao mais moço:
– E tu jovem Harim Namir, segundo a vontade de teu pai, deverias receber uma nona parte de 35, isto é 3 e tanto. Vais receber uma nona parte de 36, isto é, o teu lucro foi igualmente notável. Só tens a agradecer-me pelo resultado!
E concluiu com a maior segurança e serenidade:
– Pela vantajosa divisão feita entre os irmãos Namir – partilha em que todos três saíram lucrando – couberam 18 camelos ao primeiro, 12 ao segundo e 4 ao terceiro, o que dá um resultado (18 + 12 + 4) de 34 camelos. Dos 36 camelos, sobram, portanto, dois.
Um pertence como sabem ao bagdáli, meu amigo e companheiro, outro toca por direito a mim, por ter resolvido a contento de todos o complicado problema da herança!
– Sois inteligente, ó Estrangeiro! – exclamou o mais velho dos três irmãos.
– Aceitamos a vossa partilha na certeza de que foi feita com justiça e equidade! E o astucioso Beremiz – o Homem que Calculava – tomou logo posse de um dos mais belos “jamales” do grupo e disse-me, entregando-me pela rédea o animal que me pertencia:
– Poderás agora, meu amigo, continuar a viajem no teu camelo manso e seguro! Tenho outro, especialmente para mim!
E continuamos nossa jornada para Bagdá.

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2 respostas para Malba Tahan e as mil e uma histórias do homem que calculava

  1. Kellyne disse:

    Ah, se me tivessem dado esse livro para ler há uns quinze anos… rs Muito legal! Bjos

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