O bêbado e o político

O amor é uma faca de dois legumes, como diz o matuto. Se por um lado é capaz de arrebatar e transformar o mais insensível dos corações numa alma apaixonada, por outro é capaz de devastar a dignidade e lançar mesmo os espíritos mais elevados numa sarjeta de dar só. Pior que uma negativa amorosa é o sentimento que vem com o chifre, diria o grande filósofo cearense Falcão.

Essa é uma história de um sujeito assim.

Criado em berço de ouro, o cara demonstra brilhantismo desde a mais tenra idade. Curioso na infância, afiado na maturidade, ao cidadão nunca faltou inteligência. Logo de primeira passou em um dos vestibulares mais concorridos: o de Direito numa universidade federal. Uma carreira profissional de sucesso estava apenas à distância de uma porta escancarada à sua frente.

O trato com as mulheres, contudo, deixava um pouco a desejar. Descobrindo-se apaixonado, declarou-se imediatamente à amada que, constrangida pelo assédio inesperado, acabou aquiescendo com o romance. Mal sabia ele o que estava por vir.

Dois meses depois de engatar o namoro, a mulher já não sabe mais o que fazer. O ciúme travestido de excesso de atenção já não deixava margem a dúvidas: aquele não era um sujeito emocionalmente bem resolvido. O que fazer numa situação dessas? O que 99% das mulheres fazem quando o parceiro as sufoca: vão atrás de outro para afogar as mágoas. E o que o homem faz numa situação dessas? O que 99% dos homens imaturos e emocionalmente instáveis fazem: cair na bebedeira. O futuro advogado e/ou juiz e/ou promotor perdia-se no fundo de uma garrafa de cachaça.

Desde o chifre, o sujeito abandonara os estudos, mas não a faculdade. Como uma espécie de assombração, vivia a vaguear pelos corredores da faculdade, sempre pronto a responder com impropérios contra quem reclamasse de seus maus modos higiênicos. Vez por outra, ingressava no meio das aulas ou palestras e sentava-se no fundo da sala como se aluno ainda fosse. Havia até oportunidades em que perguntava aos professores ou palestrantes, quem sabe com saudades dos tempos de escola.

Foi nessa faculdade que um político vaidoso foi convidado a palestrar. Ex-aluno da casa, o sujeito regressara à casa que lhe projetou como César ao entrar em Roma. Em plena campanha para Presidente da República, o político não andava pelos corredores; desfilava, como se seu ar esbelto fosse capaz de cortejas cada tijolo das paredes do prédio.

Ao entrar no auditório, começou a despejar a velha oratória de todos conhecida. No meio de um palavreado pomposo, um vazio de conteúdo que se escondia por trás de uma verborragia que poucos se davam ao trabalho de discernir. O bêbado, contudo, era um desses poucos.

Entre uma e outra besteira que o político falava, o bêbado levantava a mão e perguntava. Como não houvesse resposta, o palestrante limitava-se a ignorar a pergunta e seguia em frente com seu script preordenado. Depois da quinta pergunta, o político – tão conhecido pelo seu pavio curto quanto pela sua capacidade retórica – perdeu a paciência:

“Oh, cidadão! Tá querendo aparecer, é ?!? Pendura então uma melancia no pescoço!!”, disse exaltado o político.

“Por que não pendura o senhor no seu pescoço, que é maior e mais apropriado?!?”, devolveu o bêbado.

E o político nunca mais voltou a palestrar naquela faculdade enquanto o bêbado esteve por lá.

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