As confusões do Acordo Ortográfico, Parte II

Uma das coisas que mais atrapalha um blogueiro é a imposição da pauta pelo noticiário. Muitas vezes, a idéia é chegar aqui e escrever sobre determinado assunto, mas, quando o sujeito senta a bunda na cadeira pra escrever, eis que aparece uma notícia que o obriga a abordar algo que não pensara inicialmente. E, em tempos de impeachment na República, esse atordoamento tem sido cada vez mais frequente.

Hoje, no entanto, com o arrefecimento temporário do caldeirão político no qual se transformou a capital da República – em que pese a votação de ontem contra Eduardo Cunha -, abordarei um tema que já ficou um pouco velho, mas não deixa de guardar algum sentido: os problemas decorrentes da adoção do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

Há pouco mais de um mês, o recém-eleito presidente da República da Portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa, causou furor na imprensa ao criticar o Acordo Ortográfico, firmado pelos países lusófonos em 1990. Disse Marcelo Rebelo de Sousa que “o Presidente da República, nos documentos oficiais, tem de seguir o Acordo Ortográfico. Mas o cidadão Marcelo Rebelo de Sousa escrevia tal como escrevem os moçambicanos, que não é de acordo com o Acordo Ortográfico”. Com isso, o Presidente de Portugal acabou associando-se a este que vos escreve e a milhares de outras pessoas que rejeitam a imposição artificial de um Acordo sem pé nem cabeça, que veio mais para confundir do que para resolver os problemas da língua de Camões.

A grande questão é: por que se propõe um acordo ortográfico?

A primeira resposta é a mais óbvia: para resolver os problemas da língua. Tais problemas tornam-se ainda mais inquietantes quando há multiplicidade de países – e, portanto, de populações – a utilizar o mesmo vernáculo. Os regionalismos, antes restritos e potencialmente marginais para a compreensão recíproca, avultam a proporções dantescas, tornando difícil e penosa a comunicação. Se isso representa um acontecimento vulgar quando se trata de línguas diferentes, adquire feições quase cômicas quando se trata do mesmo idioma.

No caso do Acordo Ortográfico de 1990, os principais problemas existentes na língua portuguesa, com destaque para a balbúrdia das regras de hifenização, não foram sequer arranhados. Como se isso fosse pouco, adicionou-lhes muitos mais. É o caso das consoantes mudas de valor diacrítico.

Desde há muito, utilizava-se na escrita portuguesa consoantes que, embora presentes na escrita, desapareciam na língua falada. As “consoantes mudas” destinavam-se a “abrir” as vogais que seriam naturalmente pronunciadas de maneira fechada. Era o que ocorria, por exemplo, com actividade, actual, actriz, exactidão, etc. No Brasil, as consoantes mudas desapareceram há tempos, sendo largamente ignoradas pela maioria maciça da população.

Vem o Acordo e faz o quê?

Ao invés de determinar a adoção integral ou a supressão total das consoantes mudas, determina uma “girafa”: as consoantes mudas permanecem, caso sejam pronunciadas pelo falante. Disso resultou algo formidável, ao menos em Portugal: na dúvida, suprime-se a consoante, mesmo nos casos em que o Acordo Ortográfico não previa a supressão. E aí ficamos com aberrações do gênero: “intato”, onde deveria estar escrito “intacto”; “reto”, onde deveria estar escrito “repto”; “pato”, onde deveria estar escrito “pacto”; e por aí vai.

Para além do problema da consoante muda, tampouco houve mudança na questão da acentuação. Em muitos casos, brasileiros e portugueses discordam quanto ao tipo de tônica que se quer emprestar a determinada sílaba, daí decorrendo a utilização inversa dos acentos agudo e circunflexo. Enquanto no Brasil dizemos, por exemplo, “Econômico”, em Portugal fala-se “económico”. A regra vale inclusive para nomes próprios. É o caso de “Antônio” (português brasileiro) e “António” (português lusitano). Para isso, o Acordo Ortográfico não nos responde nada. Fica solenemente em cima do muro, aceitando uma ou outra construção como correta.

Do ponto de vista prático, o Acordo Ortográfico já produziu vítimas irrecuperáveis. O trema, por exemplo, encontra-se virtualmente abolido. Eu, por exemplo, continuo a adotá-lo nas comunicações escritas, mas o computador em que digito, comprado em Portugal, já não traz mais o diacrítico. Nem mesmo o recurso de outras máquinas mais antigas, nas quais o trema era empregado através da conjugação da tecla das aspas (“) com a tecla U, resulta mais. Ficamos, assim, condenados às construções eloquentes (“elokentes”), de caráter quase equestre (“ekestre”).

E aí voltamos à pergunta inicial: por que se propôs um acordo ortográfico?

A segunda resposta, menos óbvia, é provavelmente a mais correta: por puros interesses financeiros. Editoras e empresas de mídia em geral atropelaram os costumes e as tradições linguísticas (com trema, por favor) de povos que possuem há pelo menos três séculos um modo muito próprio de se expressar. Por isso mesmo, a discussão trazida à tona pelo atual presidente português vem em tão boa hora.

Como Marcelo Rebelo bem apontou, Angola e Moçambique ainda não ratificaram o tratado. No Brasil, aparentemente o principal intere$$ado no Acordo, terminou-se por impô-lo à população, em que pese dois adiamentos sucessivos. Em Portugal, o acordo encontra-se oficialmente em vigor, mas a maior parte da população simplesmente o ignora e segue utilizando a escrita antiga, como confessou o presidente português. Se Angola e Moçambique pularem do barco a tempo, é possível que se venha a repensar essa canoa furada na qual embarcamos.

Enquanto isso não acontece, seguirei o exemplo do meu amigo Rui Duarte: ficarei em desacordo com o AO90.

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