Recordar é viver: “Osama is dead. And now?”

A quase inexistente capacidade da imprensa brasileira de produzir artigos decentes sobre a política internacional obrigou-me, desde sempre, a tratar do tema vez por outra aqui no Blog.

Nesta que é a seção mais nostálgica deste espaço, vamos recordar um post de quatro anos atrás, quando o Inimigo Público Internacional nº. 1 tomou o rumo do inferno.

E a pergunta-título, ontem e hoje, permanece sem resposta.

Até quando?

Osama is dead. And now?

Publicado originalmente em 2.5.11

A notícia mais bombástica da noite de ontem e do dia de hoje foi a morte de Osama bin Laden. Quase 10 anos depois dos atentados de 11 de setembro, finalmente os Estados Unidos conseguiram lavar sua honra com sangue. E agora?

Agora, muda pouca coisa. Fora os dividendos eleitorais em favor de seu quase-xará Obama, a morte de bin Laden não deve mudar nada no cenário mundial.

Primeiro, os Estados Unidos não sairão do Afeganistão. Afinal, o Taleban e cia. continuam por lá, e as suas ações pouco dependiam da Al Qaeda. Se deixarem agora, correm o risco de entregar o país a uma guerra civil de desfecho imprevisível.

Segundo, os Estados Unidos não sairão do Iraque. Continuarão por lá até ninguém-sabe-quando. Todo mundo estava careca de saber que a invasão do Iraque não tinha nada a ver com Al Qaeda e Osama bin Laden. O negócio era petróleo, e isso ainda tem muito por lá. Numa época em que Estados Unidos e China disputam o controle do fornecimento de matérias-primas no mundo, é difícil que os americanos abandonem a segunda maior reserva de petróleo do planeta.

Terceiro, o terrorismo não vai acabar, nem a “guerra ao terror”. É possível até que, no curto prazo, haja um recrudescimento das medidas de segurança paranóicas de americanos e ingleses, com medo da vingança dos seguidores de bin Laden ou de outros grupos islâmicos simpatizantes de sua causa.

A vingança virá? Sim, é muito provável que venha. Mas não aposte em nada por ora. Organizar atentados terroristas é algo um bocadinho complicado. É necessário pessoal, treinamento, definição de alvos e – o mais importante – dinheiro. Nada disso se organiza da noite pro dia. Se eu tivesse que apostar, colocaria meu dinheiro no dia 11 de setembro, aniversário de 10 anos da destruição do World Trade Center. Terroristas adoram datas simbólicas para mostrar seus “argumentos”.

A morte de bin Laden significa um duro golpe na Al Qaeda. Por mais que ele eventualmente não estivesse mais no centro das decisões, cuidando do dia-a-dia da organização, ainda assim o fato de estar vivo sendo o sujeito mais procurado do mundo não deixava de ser um estímulo aos demais terroristas. Símbolos, nesse caso, são mais importantes do que ações efetivas.

Mas não pensem que a Al Qaeda se acabou. Bin Laden foi esperto o bastante para estruturar a Al Qaeda de modo a que funcionasse de modo descentralizado. As células da organização espalhadas pelo mundo têm autonomia operacional e capacidade de autofinanciamento suficiente para se manterem sem o apoio (leia-se: $$$) de bin Laden.

Na verdade, os Estados Unidos contribuiriam mais para a segurança do mundo não matando terrorisas, mas tratando de mudar sua política em relação ao resto do globo. As pedras que se jogam nos americanos não são pedras que vêm, são pedras que voltam. O próprio bin Laden é exemplo disso. Certos de que o Afeganistão seria o Vietnã dos soviéticos, patrocinaram a resistência dos mujahideen. Dentre eles, estava Osama bin Laden. (Por essas e outras é que os americanos põem o pé atrás quando o assunto é dar armas à resistência líbia).

Agora, os Estados Unidos olham ao redor em busca do próximo bin Laden. Mas é no espelho que está a maior fábrica de terroristas do mundo.

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