“Há, a, à”, ou A morte do verbo haver

Faz um bom tempo desde a última vez em que aqui se escreveu sobre nossa tão amada e maltratada língua portuguesa. Para reparar a falta e resgatar do limbo a seção preferida da minha amiga Icsa, vamos oferecer aqui novamente Dicas de Português. Neste caso, para tratar de um dos maiores males das redes sociais em geral, e da comunicação através do WhatsApp, em particular: a virtual morte do verbo haver.

Utilizado em regra na sua modalidade transitiva direta, o verbo haver pode assumir múltiplas acepções em um discurso qualquer. Por exemplo, ele pode ser utilizado na forma reflexiva, com o sentido de “entender-se” ou de “ajustar contas”(Se algo der errado, ele vai se haver comigo). Ele também pode ser empregado no sentido de “dignar-se” ou “resolver”(Eu hei por bem não xingar pessoas na rua).

Outro uso bastante difundido do verbo haver ocorre quando ele é utilizado em tempos compostos, com o sentido de “ter”. Os exemplos são vários: “Havíamos comprado todos os doces que existiam na loja” ou “havíamos feito de tudo para impedir a derrota”. Em ambos os casos, o verbo haver, na condição de verbo auxiliar é flexionado normalmente, enquanto o verbo a indicar a ação principal obrigatoriamente coloca-se no particípio.

Até aí, tudo bem; todo mundo mais ou menos compreende e erra pouco. O problema começa a aparecer quando o verbo haver assume o mesmo sentido do verbo “existir”, “ocorrer” ou “acontecer”. É aí que a porca entorta o rabo.

Quase todo mundo aprende no primário que o verbo haver, quando possui o sentido de “existir”, é impessoal. Isso significa, em resumo, que o verbo não será conjugado conforme a pessoa, como ocorre em regra com os verbos “normais”. Poucas pessoas são capazes de errar, por exemplo, conjugações simples, como “o jogador participou da jogada”, mas “os jogadores participaram da jogada”. Mas quando o verbo haver entrada na parada, a coisa fica mais complicada.

Quando o verbo haver é empregado com o sentido de existir ou indicar passagem de tempo, ele deixa de respeitar as regras básicas de concordância e somente se conjuga na 3a. pessoa do singular. Por exemplo: “Houve muitas faltas naquela partida” ou “Eu fiz isso há dois anos” (e, por favor, deixe de lado a forma redundante “atrás”, uma vez que a idéia de passado é intrínseca ao próprio verbo). Em outras palavras, faça chuva ou faça sol, você sempre utilizará o verbo haver conjugado na terceira pessoa do singular, independentemente do sujeito empregado na frase.

Entretanto, sabe-se lá Deus por quê, o fato é que o verbo haver foi praticamente assassinado nas comunicações instantâneas nossas de cada dia. Por alguma razão que foge à nossa compreensão, a conjugação básica do verbo haver para indicar a passagem de tempo passou a ser “substituída” de forma bizarra pelo artigo definido “a”. Quando o interlocutor é, digamos, mais “refinado”, o velho e bom “há” curiosamente cede passo ao “à”(como se de alguma forma o emprego da crase fosse admitido nesse caso).

No final das contas, não há grandes dificuldades na utilização do verbo haver tributando o devido respeito ao bom uso da norma culta. Basta um pouquinho de atenção para saber quando empregar “há”, “a” ou “à”. No caso de indicar-se transcurso de tempo, sempre você vai utilizar “há”(O Brasil foi pentacampeão HÁ vinte anos). Quando a idéia for individualizar de forma precisa alguma coisa do gênero feminino, será o caso de recorrer o artigo definido “a” (Ganhamos a partida mais importante das nossas vidas). Se, no entanto, houver uma preposição “a” antecedendo o artigo definido “a”, aí, sim, será o caso de empregar o acento grave (ou o famoso “a craseado” – Vamos à farmácia) (para saber mais sobre o uso da crase, clique aqui).

A despeito de seu virtual assassinato nas redes insociáveis, é nosso dever como amantes da língua ressuscitar o correto emprego do verbo haver nas nossas comunicações instantâneas. Não é difícil, o esforço é mínimo e, com o tempo, o uso correto acaba por se impor a essas estranhas modalidades utilizadas no nosso dia a dia.

Do contrário, sabe-se lá aonde vai parar a nossa derradeira flor do Lácio…

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