O Dia de Reis

Voltando ao batente aqui no Blog, vamos começar o ano por um assunto sempre lembrado, porém nunca explicado, aqui neste espaço: o Dia de Reis.

Toda criança que aprendeu a montar um presépio conhece a história dos Três Reis Magos. Vindos do Oriente, Melquior, Baltazar e Gaspar foram guiados pela Estrela de Belém em direção à Manjedoura onde, segundo anunciado nas escrituras, teria nascido o futuro Reis dos Judeus. Cada um dos três reis encarregou-se de presentar o Menino Deus com um presente: ouro, incenso e mirra.

Como tudo que diz respeito à história de Jesus Cristo, a história dos Três Reis Magos despertou a curiosidade de historiadores e arqueólogos mundo afora. Até mesmo astrônomos buscam no céu algum evento intergaláctico que possa explicar a origem da Estrela de Belém. Uma vez que nenhum dos cometas conhecidos entrelaçou sua trajetória com a data provável do nascimento de Cristo (por volta de 6 a.C), alguns arriscam a possibilidade de que o brilho de uma supernova tenha sido confundido com o brilho de uma estrela, guiando a trinca pelo deserto até Belém.

Para quem professa a fé cristã, nenhuma dessas pesquisas têm importância. Afinal, crê quem quer, e “bem-aventurados os que crêem sem terem visto” (Jo 20:29). No entanto, neste caso a Bíblia pode não representar aqui uma reprodução fiel dos acontecimentos.

Deixemos de lado, por ora, a fé cristã. É difícil imaginar três reis – é dizer: os representantes máximos de um povo – viajando desde o Oriente para onde quer que fosse. Pior ainda é imaginar que eles possam ter viajados sozinhos, sem cortejo ou cortesãos que lhes prestassem a mínima assistência para tão longa viagem. O mais provável, portanto, é que, assim como em outras passagens bíblicas, a alusão aos Reis Magos seja mais uma alegoria do que retrato histórico.

Do ponto de vista teológico, a referência à vinda de três reis do Oriente distante prestar tributo ao recém nascido Rei dos Judeus é uma forma de representar o reconhecimento dos povos do mundo inteiro de que ali nascera o Filho de Deus. Da mesma forma, cada um dos presentes entregues ao Menino Jesus seria a representação do simbolismo de seu nascimento: o ouro, a realeza do descendente de David; o incenso, a fé da oração que sobe ao céu em forma de fumaça; e a mirra, profetizando o futuro martírio do Nosso Senhor (resina antiséptica, a mirra era muito usada em embalsamamentos).

A grande questão por trás do Dia de Reis, portanto, diz menos respeito a tentar reproduzir ou provar a ocorrência de fatos que podem muito bem jamais terem acontecido do que tentar entender a mensagem que a Bíblia pretende passar através dele. Jesus nasceu no Natal. Mas foi somente no Dia de Reis que o mundo tomou conhecimento do fato. É no Dia de Reis, pois, que a Igreja comemora o anúncio de que o Salvador chegou.

Repetindo a tradição bíblica, os famosos presentes natalinos foram, por muito tempo, trocados não no Dia de Natal, mas no Dia de Reis (o que, cá pra nós, faz muito mais sentido). Todavia, provavelmente por conta das conveniências capitalistas do consumismo desenfreado, a troca de presentes passou a dar-se no Natal, mesmo.

Seja como for, o importante é tentar compreender a Bíblia em toda a sua profundidade, sem leituras rasas, sem fundamentalismos, mas também sem menosprezo à mensagem que ela pretende passar. No final das contas, o ensinamento que os evangelhos pretendem transmitir resumem-se, como o disse o próprio Jesus Cristo, a um só: “amai-vos uns aos outros, como eu vos amei” (Jo 13:34).

Quem poderá discordar disso?

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