A comunhão dos divorciados

Passado pouco mais de um ano desde que Jorge Mario Bergoglio foi eleito Papa, toda a gente haverá de concordar que o balanço até o momento de seu reinado é amplamente positivo. Francisco não só abalou estruturas carcomidas da Igreja, ao mexer em vespeiros como o Instituto para as Obras da Religião (Banco do Vaticano), como também tem renovado a agenda católica.

Para quem olha de fora, pode parecer pouco, mas, por exemplo, pela primeira vez em décadas o Vaticano saiu do corner e passou à ofensiva nos casos de pedofilia praticados por padres. Trata-se de uma mudança radical para quem, até os anos 90, valia-se da imunidade extraterritorial para abrigar sacrílegos como o Monsenhor Paul Marcinkus, o famoso “Banqueiro de Deus”.

Superando as expectativas mais otimistas, Francisco não limitou sua agenda às questões administrativas da Santa Sé. Alguns pontos até então tido como intocáveis pelos conservadores cristãos estão sob revisão e, nos próximos anos, poderemos ter a chance de assistir à maior revolução da doutrina católica desde que João XXIII convocou o Concílio Vaticano II. Exemplo do que estou falando é a possibilidade de que os casais divorciados voltem a comungar.

Todo mundo sabe de cor e salteado a fórmula pronunciada pelo padre ao sacramentar o casamento dos noivos. É do Evangelho de Marcos que se extraia a seguinte passagem:

“6 No entanto, desde o começo da criação, Deus os fez homem e mulher.7 Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe e os dois serão uma só carne. 8 Assim, já não são dois, mas uma só carne. 9 Portanto, o que Deus uniu, o homem não separe!” (Mc 10, 6-9)

Por essa determinação, a união matrimonial entre homem e mulher estabelece um vínculo indissolúvel. Por ser um mandamento divino, nem mesmo o Papa poderia revogar um casamento válido, regularmente realizado sob as leis da Igreja. Só a morte tem o poder de dissolver o vínculo conjugal perante os olhos divinos. Se isso não fosse o bastante, “11 quem se divorciar de sua mulher e casar com outra, cometerá adultério contra a primeira. 12 E se a mulher se divorciar de seu marido e casar com outro, cometerá adultério” (Mc 10, 11-12).

Nesse contexto, é fácil entender a razão pela qual a Igreja não aceita celebrar um segundo casamento para divorciados. Afinal, para fins de doutrina católica, o sujeito divorciado jamais se separou de sua mulher (e vice-versa).

Admitir que o divorciado pudesse se casar novamente implicaria, portanto, dois problemas, vistos sob ângulos diametralmente opostos. No primeiro caso, obedecida a regra expressa no mandamento divino, o segundo casamento resultaria em admitir a poligamia, porque a segunda união se somaria à primeira. Na segunda hipótese, para se afastar a possibilidade de poligamia, seria necessário fazer tabula rasa do texto bíblico e admitir, por via transversa, que o casamento não é uma união indissolúvel.

Até aí, pelo menos do que se tem observado das manifestações do Papa, não deve haver alterações. O que Francisco pretende alterar é uma das penas impostas a quem se divorcia: a impossibilidade de comungar na missa.

Como se sabe, o casamento é um dos sete sacramentos católicos. Do ponto de vista da Igreja, romper com qualquer deles significa romper com o próprio Deus. Por se tratar de um pecado grave e de caráter permanente, seria uma contradição em termos receber a comunhão – que significa “estar com Deus” – ao tempo em que o sujeito renegou-o ao se divorciar.

Com a plena consciência de que o divórcio é um dado da realidade e que o casamento para toda a vida é uma exceção nos dias atuais, Francisco pretende trazer de volta à Igreja aqueles que puseram fim às suas relações conjugais. Como o Papa deve ter observado, dentre os males que o homem pode cometer, separar-se de seu cônjuge deve ser o menor deles.

A idéia, que já fora lançada por Bento XVI, seria estabelecer um procedimento através do qual o sujeito pudesse ser absolvido do pecado do divórcio. Para tanto, seria imposto ao divorciando que a separação não se desse de forma escandalosa e que, através de uma absolvição sacramental, o fiel se arrependesse do pecado cometido contra a palavra de Deus.

Para quem não é católico, pode parecer pouco. Mas, como o tempo em que opera a Igreja Católica é a eternidade, trata-se de uma mudança radical no sentido da modernização de seus ritos. Com alguma sorte, Francisco conseguirá fazer com que o catolicismo ingresse finalmente no século XX.

Vida longa ao Papa.

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