Quem salvará a Venezuela? por Nabupolasar Alves Feitosa

De tempos em tempos, o blog abre espaço para a opinião alheia.

Além do exercício da saudável arte do contraditório, a publicação de pensamentos de outras pessoas acaba vos beneficiando pelo fato de que é possível comparar as minhas opiniões com as dos demais, de modo que podeis eleger aquela que lhes parece mais correta.

Hoje, estréia o insuspeito Nabupolasar, pai de Nabucodonossor, com um tratado sobre a Venezuela pós-Chávez.

Quem quiser, pode também acessar o blog dele clicando aqui.

Leiam e aproveitem.

O Autor

Quem salvará a Venezuela?

No próximo dia 14 de abril a Venezuela passará por mais uma eleição para presidente da república, mantendo assim os mais de 50 anos em que as pessoas têm o direito de escolher diretamente quem será o mandatário nacional. Contudo, o 14-A (como os venezuelanos se referem à data da eleição) será o dia de decidir a quem caberá a tarefa de salvar a Venezuela de uma encruzilhada econômica e social em que o país se encontra.

No campo econômico, o próximo presidente, seja ele Nicolás Maduro Moro ou Henrique Capriles Radonsky, terá imensos e urgentíssimos problemas a resolver. Longe de uma discussão sobre capitalismo ou socialismo, o próximo governo terá que tomar atitudes para sanar problemas que afetam o cotidiano do cidadão. O primeiro problema é a inflação, que fechou 2012 com a cifra oficial de 20,1%, embora o PIB tenha crescido 5,6% impulsionado pelos gastos do governo durante a campanha presidencial que levaram à vitória de Chávez na eleição de 07 de outubro. Entre dezembro de 2012 e fevereiro de 2013, a inflação já atingiu 12%, com forte e contínuo crescimento. Um cidadão de Caracas me contou, no dia 25 de março, que ele comprava um quilo de frango a BsF 18,00 (dezoito bolívares) até o dia em que o governo anunciou, em 09 de fevereiro, a desvalorização de 46% da moeda nacional frente ao dólar, que passou de BsF 4,3 para BsF 6,3. De acordo com esse cidadão, se alguém quiser comer frango na capital venezuelana terá de desembolsar BsF 50,00, se tiver a sorte de encontrar o produto, já que o país tem uma taxa de desabastecimento de 20%. Uma caminhonete nova, que custava BsF 500 mil em novembro de 2012, agora não se compra por menos de BsF 1,2 milhão. Para além de ser socialismo ou capitalismo, o que o cidadão quer é poder comer e não ver corroído o seu rendimento mensal. O salário mínimo na Venezuela é de R$ 2.047,00, insuficiente para comprar a cesta básica alimentar, que custa um pouco mais de BsF 4 mil.

O controle do câmbio e o medo da inflação tornam a moeda estadunidense um produto de alta rentabilidade. Enquanto o governo só paga BsF 6,3 bolívares por cada dólar, qualquer taxista do aeroporto internacional Simón Bolívar oferece a quem chega um câmbio de dez a quinze bolívares por dólar. Se o turista esperar mais um pouco, ele poderá encontrar quem pague até 25 bolívares por cada dólar. Para o problema autoridades fazem vista grossa e ganham muito dinheiro.

Encontrar todos os produtos para suprir suas necessidades básicas não é tarefa fácil. O governo mantém forte controle dos preços com tabelamento e fiscalizações, o que tem provocado, juntamente com a escassez de dólar para pagar importações, um dos maiores desabastecimentos de toda a história do país. Como a produção agrícola na Venezuela está bem distante de atender as necessidades de consumo da população e não é fácil importar, vários produtos estão ausentes das prateleiras. E quando se encontram, os preços são muito acima do que a população pode pagar.

Para convencer o povo venezuelano de que está tudo bem e de que os produtos só não chegam às prateleiras por desonestidade dos empresários, o governo faz pontos de vendas em locais públicos oferecendo certos produtos a preço abaixo do valor de mercado. No dia 22 de março, eu vi uma Kombi do governo na Avenida México, ao lado da Praça Carabobo, em frente ao Liceo Andrés Bello, um grupo de funcionários com camisetas vermelhas com inscrições “Maduro Yo Juro” vendendo alimentos que estavam numa banquinha armada na calçada oferecendo produtos alimentícios a uma longa fila que rapidamente se formou no local. É a missão Mercal tentando dar a impressão de que não existe desabastecimento no país.

É verdade que a Venezuela está vivendo a maior bonança petroleira de todos os tempos, contudo, por falta de investimento na PDVSA, o governo não consegue aumentar a produção, que era esperada para extrair 4 milhões de barris de petróleo diários, mas não ultrapassa os 2,6 milhões. Além disso, pelo menos metade do rendimento da empresa é entregue ao governo para que utilize com os mais diversos fins, entre os quais os programas sociais e as chamadas comunas populares, fonte da mais descarada corrupção.

Corrupção profundamente enraizada na Venezuela e que deveria ter sido um dos principais alvos de combate do governo Chávez posto ter sido isso uma das suas principais bandeiras da campanha de 1998. Corrupção que tem afetado a economia e a vida social dos venezuelanos, hoje expostos aos mais altos índices de violência do mundo.

Apesar de o governo não admitir oficialmente, a Venezuela tem altíssimos índices de violência. De acordo com o Observatório de Venezuelano da Violência (OVV), foram vítimas da violência no país no mínimo 21.692 pessoas, a uma taxa de 73 homicídios para cada 100 mil habitantes. Só no Distrito Capital, Caracas, essa proporção chegou a 122 homicídios para cada 100 mil habitantes. Em alguns finais de semana, o necrotério de Caracas chega a receber 40 corpos. De acordo com dados oficiais, morrem 44 pessoas por dia na Venezuela. Os seqüestros chegaram a 583, além do roubo à pessoa, que é permanente, freqüente e generalizado.

Como resolver tudo isso?  Como dar uma resposta rápida para necessidades tão urgentes? Quem terá coragem de enfrentar o dragão da inflação e o monstro da violência? Se Nicolás Maduro, que tem 58% das intenções de voto segundo pesquisa divulgada no dia 23 de março, ganhar as eleições, ele terá que enfrentar a violência, perpetrada muitas vezes por grupo chavistas de apoio irrestrito ao governo, além de ter de modificar rapidamente a política econômica, pois se a inflação continuar, as conseqüências podem ser um novo Caracaço. Se Capriles ganhar, não poderá deixar de manter os programas sociais, que levam uma importante fatia do orçamento do Estado, tendo que procurar outras alternativas, que podem ser impopulares, mas muitas vezes inevitáveis diante do  quadro nervoso e explosivo do país. Quem quer que ganhe, terá dificuldades de administrar a Venezuela pelos próximos seis anos, mas só conseguirá terminar seu mandato se enfrentar, e vencer, a inflação e a violência. Será se estão preparados para fazer isso? Quem salvará a Venezuela?

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Uma resposta para Quem salvará a Venezuela? por Nabupolasar Alves Feitosa

  1. Mourão disse:

    Meu caro amigo Nabu, conhecendo, e muito bem, seu pensamento político e sua admiração pelo camarada Chavez, só posso, mais uma vez, afirmar que além de um conhecedor profundo da Venezuela, atual e histórica, você é estritamente honesto e não arreda milímetro que seja de suas convicções, plenamente compatíveis com a verdade por você observada.

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