A tragédia do governo JK

Não é segredo para ninguém que este que vos escreve considera o governo Fernando Henrique Cardoso o pior da história do país. Haverá quem reserve o posto aos militares, mas eles não foram eleitos, logo não podem ser considerados na estatística. Haverá quem destine a honraria a Fernando Collor de Mello, mas ele passou pouco mais de dois anos no cargo, pouco quando comparados aos oito anos de mandarinato tucano. Quanto a isso, portanto, considero o caso relativamente bem resolvido.

O problema, no entanto, vem em determinar quem ocuparia o segundo lugar. A meu ver, a medalha de prata em matéria de “piores governos da história” está reservada – para espanto de muitos – ao mais idolatrado e venerado ocupante da Presidência da República: Juscelino Kubitschek.

JK foi talvez o primeiro presidente verdadeiramente midiático na história política do país. Desde o começo como prefeito em Belo Horizonte e, depois, como governador das Minas Gerais, JK sempre foi chegado a ações bombásticas. Com uma fúria construtiva inaudita, ganhou o apelido de “Prefeito Furacão” quando foi prefeito de BH. Criou, ampliou e asfaltou avenidas, construiu novos bairros e, como cereja do bolo, erigiu o Complexo da Pampulha, valendo-se da capacidade de um então promissor arquiteto: Oscar Niemeyer.

Quando esteve no Governo do Estado, construiu cinco hidrelétricas e atraiu várias indústrias, na tentativa de transformar a economia de Minas Gerais de primária para industrializada. Juntando-se a isso a construção de várias estradas, JK habilitara-se à candidatura presidencial.

Seu lema de campanha era um primor de marquetagem: 50 anos em 5. Em um único mandato, Juscelino prometia catapultar o país rural e agrário que o Brasil dos anos 50 era no maior dínamo econômico e industrial do planeta. Como mote, funcionou uma beleza. No governo é que seriam elas…

Com a ajuda de gênios do pensamento nacional como Roberto Campos e Celso Furtado, Juscelino elaborou o Plano de Metas, 31 metas distribuídas em 5 grupos destinados a resolver os problemas de infraestrutura do país. Fora isso, resolveu cumprir uma promessa maluca de campanha e levar – como previa a Constituição de 1946 – a capital do Brasil do Rio de Janeiro para o Planalto Central. Nascia, assim, Brasília, um verdadeiro El Dorado no centro do território brasileiro.

Em termos de industrialização, JK trouxe para o país montadoras estrangeiras para fabricar automóveis. Realizava-se, assim, o “sonho americano” no Brasil: cada brasileiro poderia comprar seu carro.

Tudo muito bom, tudo muito bem, certo?

Errado.

Apesar do aparente sucesso retratado na maior parte das enciclopédias, olhando-se a fundo o governo de JK foi um desastre.

Em primeiro lugar, o país não tinha dinheiro para fazer as duas coisas – Plano de Metas e a construção de Brasília – ao mesmo tempo.Ou se fazia um ou se construía a outra.

Mas Juscelino queria os dois.

Para poder fazer frente à falta de caixa, começou-se, em primeiro lugar, a meter a mão no dinheiro na Previdência Social, àquela época absurdamente superavitária. Portanto, se hoje vira e mexe o governo fala em “reforma da Previdência”, agradeça em sua maior parte a JK.

Quando o dinheiro da Previdência acabou, JK foi buscar dinheiro no exterior. A dívida externa, já então uma dor de cabeça, haveria de se tornar uma bola de ferro amarrada ao tornozelo do país. Pra piorar, em um rompante tipicamente populista, Juscelino rompeu com o FMI em , deixando o Brasil fora do mercado internacional de crédito até meados dos anos 60.

Sem acesso a dinheiro externo e com Brasília ainda por terminar, Juscelino mandou rodar a máquina de emitir títulos públicos. Como resultado, a dívida interna explodiu e a inflação deu um salto violento, causando descontentamento popular. Começava aí a espiral inflacionária que só viria a ser quebrada no governo Itamar Franco, com o Plano Real.

Em relação à tão propalada industrialização do Brasil, pode-se até concordar com os benefícios trazidos ao país pelas montadoras de automóveis. Mas o custo para o futuro foi imenso. Como era necessário convencer os brasileiros a comprar carros, privilegiou-se de forma escancarada o automóvel como meio de transporte preferencial no país. Com isso, a malha ferroviária foi abandonada. Ela, que praticamente quadruplicara desde 1890 até o começo do governo JK (10.000km para 37.000km), experimentaria pela primeira vez uma estagnação na sua expansão, terminando o governo com somente 500km acrescentados. A inversão de prioridades deu-se de forma tão profunda que hoje o Brasil tem uma malha ferroviária igual à que tinha em 1920.

De mais a mais, o privilégio pelo carro resultou também, de forma transversa, no abandono do transporte público como meio de transporte prioritário no país. Se hoje você perde paciência e cabelos no trânsito, agradeça a Juscelino.

Se tudo isso não fosse o bastante, a corrupção correu de forma tão desenfreada no governo que Jânio Quadros – a “UDN de porre”, segundo um político da época – elegeu-se tendo como tema de campanha uma vassoura, com a qual varreria a ladroagem instalada na capital federal. Seis meses depois de assumir, Jânio renunciaria, lançando o país em um clima de incertezas políticas que redundaria no golpe militar de 1964.

O problema de JK, portanto, não são os verbetes de enciclopédia. São as notas de rodapé da história. Por mais que queiram escondê-las com grandes fotos e manchetes, a enciclopédia insiste em colocá-las lá.

Quem sabe, na esperança de que alguém um dia as leia…

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4 respostas para A tragédia do governo JK

  1. walter hazime disse:

    Parabens, belissima exposiçao de fatos que esclarecem bem nossa absurda situaçao economica atual, tanto sofrimento e morte de brasileiros a troco de obras faraonicas que de nada nos servem ate hoje

  2. LUIZ CARLOS disse:

    Li e reli o texto acima “A tragédia do governo JK” e até agora não sei quem é o autor e o que ele faz da vida.

  3. Osmar Brito disse:

    Também tentei descobrir o autor e não consegui!

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