Saindo um pouco do agitado panorama internacional das últimas duas semanas, vamos ver a quantas anda a política neste Brasil varonil.
Com o Congresso voltando do recesso e o Governo às voltas com a crise da Venezuela, as atenções acabam se concentrando nas eleições municipais que se avizinham. Programadas para outubro próximo, nesta semana os partidos decidiram em suas convenções os candidatos que irão lutar pelo seu voto. Se você estava achando que a eleição presidencial de 2022 tinha sido o fundo do poço político da Nação, convém colocar as barbas de molho.
Orientadas pela polarização que desgraça o país desde pelo menos 2018, as convenções obedeceram a uma lógica partidária ditada pelos padrinhos mais próximos: de um lado, o incumbente, Luiz Inácio Lula da Silva; do outro, o ex-presidente que está às voltas com a Justiça, Jair Bolsonaro. No meio disso, uma população desorientada e praticamente sem escolha, dado o restrito cardápio de opções ofertadas ao eleitorado.
Em alguns lugares, é verdade, a polarização cede passo à política tradicional. É o caso, por exemplo, do Rio de Janeiro, onde o favorito é o candidato à reeleição Eduardo Paes, do PSD. A despeito de ser apoiado por Lula e, do outro lado, ter como adversário um sujeito apoiado por Bolsonaro (Alexandre Ramagem), não se pode dizer que Paes seja lulista de carteirinha, nem que a disputa esteja envenenada pela lógica do “ou é um (Lula), ou é outro (Bolsonaro)”. Esses casos, porém, são as exceções que confirmam a regra.
Na maior cidade do país, o atual prefeito, Ricardo Nunes, contra toda a história do seu MDB, resolveu se abraçar ao Bolsonarismo. À falta de uma candidatura petista competitiva, Lula resolveu tirar Guilherme Boulos (PSOL) do bolso do colete, na esperança de conseguir colocar um aliado no comando do terceiro maior orçamento da República.
A despeito de ter se rendido aos caprichos de Bolsonaro – que indicou seu vice -, seria no mínimo exagero dizer que Nunes seja um radical da mesma estirpe do ex-presidente. Talvez por isso mesmo, o dublê de coach e influencer Pablo Marçal tenha se lançado na disputa da prefeitura de São Paulo. Correndo numa faixa mais à direita do que o próprio Ricardo Nunes, Marçal parece acreditar que conseguirá conquistar corações e mentes antipetistas, de modo a tornar-se um candidato competitivo.
Como?
Oferecendo o que gente dessa laia costuma apresentar para sair do anonimato e ganhar notoriedade nas redes inssociáveis: aplicando a estratégia do “dedo no c* e gritaria”. Tal qual o Jair dos tempos de Superpop, Marçal sai atirando bobagens para todos os lados, falando coisas cada vez mais bizarras e em nível cada vez mais raso e profano, tudo com vistas a “lacrar” e ganhar likes nas redes.
É dessa “linha” de ação política que vieram, até o momento, a sugestão de que há concorrentes “cheiradores de cocaína” na campanha e a esdrúxula cerimônia de “chá de revelação” da sua vice. Pode parecer uma estratégia suicida, mas foi essa mesma tática que catapultou Jair Bolsonaro do baixíssimo clero da Câmara dos Deputados à Presidência da República. A eleição de 2018 provou, portanto, que a esculhambação é eleitoralmente rentável.
Para quem pensa que esse tipo de bizarrice se restringe a São Paulo, sugere-se um olhar mais atento ao redor. Em Fortaleza, por exemplo, o candidato do bolsonarismo atende pelo nome de André Fernandes. Ostentando no currículo um passado de “Youtuber”, André Fernandes tornou-se famoso nas redes sociais ao ensinar, na prática, como fazer depilação anal. Obviamente, agora André Fernandes renega seu passado depilante e se diz “defensor da família e dos bons costumes”.
Quem for descrente ou prefere achar que esse texto é alarmista, vale o alerta: ainda sem campanha e sem estrutura, Marçal tem 11% das preferências nas pesquisas, enquanto André Fernandes conta com 12%.
Nesse cenário, a pergunta que não quer calar é: como é que sujeitos como esse se lançam candidatos?
Como tudo na vida, também o mercado político funciona na base do sistema oferta-demanda. Nenhum partido lança semelhante candidato se não achar que ele lhe renderá votos. Figuras como Pablo Marçal e André Fernandes buscam a sorte nas urnas porque, infelizmente, há gente suficiente (até demais) no mercado eleitoral desejando candidatos como eles. Nada sintetiza melhor a profundidade do buraco em que nos metemos do que isso.
O Brasil, pois, caminha célere em direção ao abismo.