Recordar é viver: “O dólar e os paradoxos do capital”

E já que a semana foi tomada pelo fogo lançado pelo Nero Laranja, vamos recordar um post do começo da década passada, em que se explica um pouco sobre como o dólar virou o dólar.

É o que você vai entender, lendo.

O dólar e os paradoxos do capital

Publicado originalmente em 1º.4-11

Uma das coisas mais curiosas em relação à economia é o conceito e o valor do dinheiro.

Marx escreveu três volumes (Das Kapital) pra tentar explicar isso. Em suma sumíssima, Marx defende a idéia de que o capital não passa de uma ilusão.

Na sociedade primitiva, não havia dinheiro. O valor das coisas era sempre tido em relação a outra. Intuitivamente, o ser humano atribuía a cada coisa particular um “preço”, que sempre estava relacionado a outra coisa. Por exemplo: 10 ovos compram um quilo de carne. Ou 1 quilo de feijão vale 2 kg de arroz. Esse é basicamente o princípio do sistema de trocas conhecido como escambo.

Obviamente, o “preço” das coisas em relação às outras dependia de fatores como: abundância ou escassez do produto; trabalho para obtê-lo; dificuldade de armazená-lo.

O problema é que, evidentemente, isso não era muito funcional. Se você criava galinhas, tinha que saber quanto uma galinha em termos de quilos de carne, em termos de feijão, e por aí vai.

Com o tempo, as pessoas passaram a utilizar coisas até então raras como um instrumento, digamos, universal para as trocas. Uma medida única que funcionasse para todos. Uma das primeiras coisas utilizadas foi o sal. Ele era raro na época, e foi usado por muito tempo para pagar os soldados romanos (daí a origem da palavra salário, do latim salarium).

Mas, como o sal podia ser usado na comida, preferiram trocar por outras coisas ainda mais raras, e que serviam somente como ornamento: ouro, prata e bronze.

Ouro e prata, principalmente, passaram a ser a referência das moedas e das transações comerciais no mundo. Até que alguém teve uma idéia brilhante: por que o governo não guarda todo esse metal em um local seguro e emite papéis que representem esse valor, garantidos (lastreados, em economês) pelo metal guardado?

E assim surgiu o papel-moeda.

O sistema adotado pela Inglaterra – e que vigorou até o final da II Guerra Mundial – era o padrão-ouro. A moeda de um país valorizava-se ou desvalorizava-se segundo a quantidade de ouro que detinha em suas reservas.

Com o fim da II Guerra, a derrocada da Inglaterra e a ascenção dos Estados Unidos como potência econômica, resolveu-se adotar o padrão dólar-ouro. Todas as moedas do mundo teriam sua base de valor lastreada em dólar, que, por sua vez, estaria lastreado em ouro. Por exemplo: 1000 cruzeiros valeriam 100 dólares, que por sua vez valeriam 28 gramas de ouro.

Numa situação hipotética, se no limite um sujeito com grana quisesse trocar todo seu patrimônio em papel-moeda por um ativo real(ouro), poderia fazê-lo, pois os Estados Unidos e os demais países garantiriam esse sistema. O ouro de todo esse sistema ficava guardado – e ainda fica – no famoso Fort Knox, uma caixa-forte com bilhões de dólares em ouro no meio de Manhattan.

A vaca começou a tomar o caminho do brejo quando os Estados Unidos meteram os pés nas selvas vietnamitas. Com um déficit fiscal cada vez maior, cada vez maior era a necessidade de se emitir moeda (dólar) para pagar os débitos do governo americano.

Como o valor do dólar era fixo em relação ao ouro, muita gente passou a se questionar se o governo americano teria ouro correspondente em suas reservas para justificar uma emissão tão exagerada de moeda.

Não tinha. Nixon sabia disso. Por isso, diante de um ataque especulativo contra o dólar, convocou uma cadeia nacional de TV e disse mais ou menos o seguinte: “Danem-se os especuladores. A partir de agora, quem tem dólar tem só um papel verde nas mãos. Não pode mais trocá-lo por ouro”.

O efeito foi imediato: o dólar se desvalorizou, mas a recessão causada pelo aumento da inflação (decorrente da desvalorização da moeda) foi compensada pelo aumento das exportações. Com o dólar mais barato, ficava mais fácil vender produtos americanos ao exterior.

Com uma só canetada, Nixon derrubou todo o sistema arquitetado por Lord Keynes em Bretton Woods. Pros americanos, a coisa só melhorou. O dólar já era, à época, a coisa mais líqüida do universo. Isso significa que, em qualquer lugar do mundo, sempre você achará alguém disposto a aceitar vender alguma mercadoria recebendo dólar em troca (tente fazer a mesma coisa com o Real e você vai entender do que estou falando).

Sem alternativas, as outras nações não tiveram outra escolha senão continuar a comprar dólar como moeda de reserva. No caso do Brasil, por exemplo, o valor das nossa moeda está diretamente vinculado a, entre outras coisas, a quantidade de dólar que temos em caixa (as famosas reservas internacionais).

O problema é que o dólar, em si mesmo, não pode ser trocado por nada. Não tem nenhum valor íntriseco. Ele só vale porque o governo americano diz que vale e o mundo todo, acreditando nisso, continua comprando dólar.

Paradoxalmente, foi o mais conservador dos presidentes americanos (Nixon) que comprovou a teoria marxista de que o valor do capital é uma ilusão.

O dia em acordarmos dela, o mundo tremerá.

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Trilha sonora do momento

Entendedores entenderão.

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Pensamento do dia

O mundo precisa de atitudes, não de opiniões.

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O recuo de Trump, ou O começo do fim da Era Americana

Não foi por falta de aviso.

Apesar das alegações de que tudo aquilo era “discurso de campanha” e que ele iria “moderar” depois de assumir novamente a Casa Branca, Donald Trump está fazendo exatamente o que propunha desde o início: espalhar caos e desordem. Esse é o contexto no qual se insere a guerra tarifária aberta pelo Nero Laranja contra o mundo em geral, e contra a China, em particular. O problema, como ensina o Conselheiro Acácio, é que as consequências vêm depois.

Apresentada como uma “Declaração de independência econômica” dos EUA, a guerra tarifária não passa de um exercício de retórica e contradições que expõe mais fragilidades do que fortalezas. A começar pela própria forma com a qual foram determinadas essas tarifas. Numa proposição bizarramente simplória, pegou-se o déficit dos EUA com determinado país e dividiu-se pelo total de exportações desse país para os EUA. Foi assim que uma ilha perdida no meio do Oceano Índico (Heard and McDonald), habitada por focas e pinguins, saiu do tarifaço indiscriminado com uma taxa de 30% sobre suas exportações, mesmo tendo participação nula no déficit de US$ 1 tri exibido pelo Tio Sam.

É importante destacar que a estrutura hoje existente no mercado global foi definida e praticamente imposta pelos próprios Estados Unidos ao longo de todo o pós-II Guerra. Os Estados Unidos mantêm uma balança comercial cronicamente deficitária porque consomem muito mais do que produzem, cortesia de um mercado interno robusto e do fato de o dólar ser a moeda de reserva mundial. Ao contrário do que Trump quer fazer crer, é esse mesmo déficit que sustenta a hegemonia americana: os países que exportam para os EUA acumulam dólares, que reinvestem em títulos do Tesouro norte-americano, financiando o consumo e o endividamento do país. Em outras palavras, o mundo literalmente paga para que os EUA continuem importando — um sistema de negócios que Trump parece desconhecer em nome do slogan America First.

Por trás da retórica belicosa, havia uma estratégia arriscada. Trump apostou que o aumento de tarifas forçaria uma recessão controlada, permitindo ao Federal Reserve reduzir as taxas de juros e facilitar a rolagem de um terço da dívida pública americana, que vence agora em 2025. A estratégia, porém, desmoronou quando a China — maior detentora de títulos do Tesouro dos EUA — iniciou a venda maciça de seus ativos em dólar. O movimento elevou os juros de longo prazo, justamente o oposto do que o Laranjão esperava. Ao invés de aliviar o custo da dívida, os EUA viram os mercados financeiros entrarem em parafuso: as bolsas de valores de lá tiveram a pior semana desde o crash da Covid, em 2020.

Ameaçado pela perspectiva de uma espiral recessiva que lembrava a Grande Depressão de 1929, Trump recuou. Obcecado pela própria imagem, o Laranjão e seus acólitos tentaram vender o recuo como algo planejado e esperado. Houve diversas referências inclusive ao livro supostamente escrito por Trump – The art of the deal (A arte da negociação) – um monumento à autopromoção de um ego marcado profundamente pelo narcisismo. Mas que ninguém se engane. O Nero Laranja não recuou por pragmatismo, mas por puro desespero.

O recuo, porém, não foi completo. Apesar de suspender as tarifas contra o restante do mundo, Trump elevou as tarifas sobre produtos chineses a 125%. Por quê? Porque a China, hoje, é o único país a desafiar a supremacia tecnológica e comercial dos EUA. A resposta chinesa foi cirúrgica: tarifas retaliatórias direcionadas a setores sensíveis para a base eleitoral de Trump, como a agricultura, e uma campanha diplomática para fortalecer alianças com países como o Brasil, que, mesmo taxado em 10%, vê na China uma alternativa para escoar commodities como soja e carne.

As implicações geopolíticas desse desastre autoinfligido são profundas. A União Europeia, outrora aliada próxima, agora acelera o acordo comercial com o Mercosul para reduzir dependência dos EUA. O Canadá, cujo primeiro-ministro declarou o fim da “integração econômica” com os EUA, retaliou com tarifas sobre produtos como uísque do Tennessee e carros da Tesla. Enquanto isso, o Brics surge como contraponto, com o Brasil buscando diversificar parceiros e a Rússia — curiosamente poupada das tarifas de Trump — reforçando laços energéticos com a Ásia. O mundo, em suma, não está se rendendo ao protecionismo americano; está se reorganizando para contorná-lo.

O comportamento errático do Nero dos nossos tempos transformar a instabilidade em seu maior “legado”. O espetáculo grotesco de Trump chantagear o planeta com tarifas e depois recuar com o rabo entre as pernas diante do colapso que ele mesmo provocou, seria cômico se não fosse trágico. Esse vai-e-vem de decisões — celebrado por ele como “gentileza” — mina a credibilidade internacional dos EUA. Se um país pode alterar as regras do jogo comercial de forma unilateral e imprevisível, por que confiar em sua moeda?

É sempre bom lembrar que o dólar, como base do sistema financeiro global, depende da percepção de estabilidade institucional americana. Quando o próprio presidente desdenha acordos multilaterais e trata a política econômica como um reality show, com reviravoltas diárias, investidores começam a questionar se os títulos do Tesouro ainda são o safe haven de outros tempos. O Laranjão, é claro, culpa os democratas, os “globalistas” e até os illuminatti pela turbulência financeira. Mas a crise tem nome e sobrenome: Donald Trump.

Trump, em sua cruzada para “tornar a América grande de novo”, conseguiu o improvável: transformou o dólar em um ativo tão volátil quanto seus tuítes. Seu legado? Um mundo em que America First soa menos como slogan patriótico e mais como manual de como alienar aliados e fortalecer rivais. A ironia é que, ao tentar ressuscitar a glória dos anos 1950, o Nero Laranja acaba por pavimentar o caminho para que a China venha a brilhar nos anos 2050.

Quem diria que a arte da negociação incluiria vender a própria credibilidade em liquidação?

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Trilha sonora do momento

E o Trump dizendo que acredita que o Xi Jiping vai ligar pra ele.

Vai vendo…

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Pensamento do dia

Escolhi aprender tudo sobre mim para nunca mais aceitar que alguém queira me ensinar quem eu sou.

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Trilha sonora do momento

E tem quem ainda caia nessa esparrela de valentão do Nero Laranja… :-/

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Pensamento do dia

A arrogância nada mais é senão um tipo sofisticado de burrice.

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Anamnese do amor

Médica gastrologista, 35 anos nas costas, Clara tinha uma teoria: encontrar um homem decente após os 30 era como tentar diagnosticar uma doença rara sem fazer exames complementares. Possível? Sim. Mas muito, muito improvável. Fernanda, sua colega de turma, pediatra, fazia pouco caso do pessimismo da amiga. Insistente, conseguiu arranjar um date entre ela e um outro médico que trabalhava no mesmo hospital que ela. Marcos, cirurgião vascular, era – nos dizeres de Fernanda – “um amor de pessoa”. Fazer o papel de cupido nesse caso seria quase como fazer uma boa ação dupla. Reticente por temperamento, cautelosa por opção, Clara deixou de lado seus instintos naturais e topou o encontro. Afinal, quão ruim poderia ser o encontro?

O encontro foi comme il faut. Requintado, Marcos reservou uma mesa em um dos melhores restaurantes franceses da cidade. Tudo bem que a escolha tinha sido feita através da quantidade de estrelas que o estabelecimento tinha no Google. Mas, nos tempos de hoje, quem haveria de recriminá-lo? Marcos chegou um pouco atrasado, encontrando a mesa já ocupada por uma impaciente Clara.

“Desculpa, é porque apareceu uma emergência de última hora e eu ainda tive de passar em casa pra me arrumar”, explicou Marcos.

Ressabiada, Clara deu-lhe o benefício da dúvida. Pra galera do “30+”, a paciência costuma ser uma virtude meio impositiva (o desespero aumenta à medida que os anos passam). Além disso, apesar de não ser a última Coca-Cola do deserto, o sujeito era bem apessoado e aparentava saber usar os talheres à mesa.

Como ambos eram médicos, encontrar um assunto em comum não foi lá muito difícil. Entre causos de pacientes estranhos e críticas escancaradas ao SUS, Marcos e Clara riam e trocavam sorrisos. Melhor. Cumprindo o protocolo, Marcos elogiara o vestido de Clara e não mencionara sequer uma das suas namoradas anteriores. O beijo para selar o sucesso do encontro parecia apenas uma questão de tempo.

Parecia.

Com cada um deles já tendo sorvido duas taças de vinho, Marcos decidiu que era hora de partir para o ataque. Aproveitou o copo vazio de Clara e prontificou-se a enchê-lo novamente. Quando Clara aproximou a taça na mesa, Marcos – com a mão esquerda segurando a garrafa de vinho – deixou pousar a mão esquerda por sobre a mão com a qual Clara segurava a taça. Os dois se entreolharam. Tímida, Clara baixou os olhos e sorriu discretamente. Foi quando Marcos resolveu falar:

“Acho que nunca mais vou soltar essa mão”, disse ele com um olhar que pretendia ser charmoso, mas que na verdade parecia meloso demais.

O gelo correu pela espinha de Clara. Não pela declaração em si, mas pelo timing da declaração. Como assim o sujeito se agarra dessa forma a uma mulher que acabara de conhecer? Já ferida de outros carnavais, Clara sabia que declarações prematuras eram como apendicite: se não tratadas rapidamente, terminavam mal. Para contrabalançar um Marcos “emocionado”, Clara pensou numa tirada rápida para quebrar a tensão.

“Vamos então marcar uma terapia”, disse ela sorrindo.

Pra quê?

Foi como despertar um vulcão em erupção. Os olhos de Marcos, até então brilhantes pelas lágrimas ainda não vertidas, tomaram subitamente a aparência de um inferno em chamas, vermelhos de tanto sangue. O ódio que eles transmitiam era tão concreto que seria possível cortá-lo com uma faca.

“Brincadeira de mau gosto”, respondeu rispidamente Marcos, enquanto cerrava a língua entre os dentes.

O que parecia ser um encontro promissor terminou com um “a gente vai se falando” tão seco que o garçom pensou até em oferecer água por conta da casa.

No dia seguinte, enquanto Clara tentava esquecer o episódio, seu WhatsApp vibrou. Era Marcos. Não era um “bom dia”. Não era um emoji de coração partido, Não era sequer uma figurinha daquelas pra favoritar. Era um textão. Mas um textão mesmo, daqueles que remoem as tristezas da vida e as injustiças do Universo. Sem conter o riso, Clara parou de ler quando chegou numa citação dela. Sim, dela mesma: Clarice Lispector. O que era pra ser um date casual se transformara em novelão do SBT. Clara limitou-se a responder:

“Obrigado pelo retorno. Vou repassar à minha terapeuta.” Depois, bloqueou o sujeito.

E foi assim que Clara descobriu que, na sua busca por um grande amor, duas qualidades essenciais eram indispensáveis: senso de humor e um terapeuta melhor que o dela…

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Trilha sonora do momento

Agora é com a China, Donaldo.

E aí?

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