O saldo das eleições municipais, ou Para onde vai o Brasil?

Quem está com suas obrigações eleitorais em dia e não quis tomar multa pelo não comparecimento este ano, deve ter votado no último domingo nas eleições municipais ocorridas em todo o Brasil. Como de hábito, a preguiçosa imprensa brasileira já saiu afirmando as coisas mais certas sobre os cenários mais incertos, em especial quando se trata de projetar o resultado eleitoral de agora com o que virá daqui a dois anos, em 2026.

Do ponto de vista puramente estatístico, a tentativa de inferir o resultado das eleições presidenciais com base no que se passou nas municipais tem a consistência de uma gelatina mole. Neste milênio, por exemplo, em apenas um caso – no ano 2000 – foi possível extrair dos pleitos locais uma tendência mais firme, que veio posteriormente a ser confirmada na eleição presidencial seguinte. Salvo essa exceção, ou a eleição de prefeitos e vereadores não indica coisa alguma; ou contraria expressamente o resultado “projetado” pela eleição municipal. Foi o que ocorreu, por exemplo, na eleição de 2020, quando o PT foi praticamente varrido de todas as maiores cidades do país, mas acabou ganhando a presidência novamente com Lula em 2022, cortesia do desastre chamado Jair Bolsonaro.

Afastada a preguiça interpretativa, vamos ao que de fato interessa: há alguma coisa em particular nessa eleição que permita inferir alguma tendência para a eleição de 2026?

Do ponto de vista puramente prático, a resposta é não. Se há alguma coisa que essa eleição de agora pode ensinar é que direita e esquerda estão jogando a última guerra, sem atentar para os desafios que a próxima, em 2026, irá trazer.

No lado jacobino do eleitorado, tudo continua mais ou menos na mesma. Há pelo menos 30 anos, Lula – com seu inegável carisma e habilidade política – interdita as vias à esquerda. Sem ninguém que lhe faça sombra, o babalorixá petista ofusca o surgimento de novas lideranças, a ponto de ter de recorrer ao psolista Guilherme Boulos para erguer uma candidatura viável na maior cidade do país, São Paulo. Não por acaso, o PT foi mais uma vez atropelado nas grandes metrópoles, limitando sua “vitória” eleitoral ao aumento no número de prefeituras. De resto, para um partido que detém a máquina do governo federal na mão, trata-se de um fiasco incontestável.

No extremo oposto desse espectro, a direita teve seus dias de guerra civil. Com o surgimento do fenômeno Pablo Marçal, o radicalismo presente nessa parcela do eleitorado finalmente se viu “livre” da influência de Jair Bolsonaro. Ziguezagueando feito uma barata-tonta, o ex-presidente ficou literalmente em cima do muro na disputa da capital paulista. Sem querer se vincular a Ricardo Nunes (cujo vice havia indicado) e com receio de desafiar Marçal na arena das redes sociais, Bolsonaro recolheu-se e ficou mudo, tentando manter um pé em cada canoa. Como esperteza, quando é muita, come o dono, tudo que Bolsonaro conseguiu colher foi a constatação nua e crua do seu aliado Silas Malafaia: “Que porcaria de líder é esse?!?”

Como de hábito, o grande vitorioso dessas eleições foi o Centrão. Liderado pelo PSD do onipresente Ricardo Kassab, os partidos mais fisiológicos do Congresso de novo lavaram a burra nas eleições municipais. Somando apenas os quatro primeiros colocados (PSD, MDB, PP e União Brasil), chega-se ao total de 3.094 cidades, mais da metade dos municípios brasileiros. PL e PT, que em tese seriam os mais adversários da tal “polarização” política que o Brasil vive, não chegam sequer a 800 prefeituras somados.

Mas, afinal, o que é possível concluir daí?

Se forem levados em consideração os potenciais efeitos que prefeitos e vereadores têm sobre os eleitores de seus municípios, a única conclusão a que se pode chegar é que, quem conseguir trazer para junto de si mais partidos do Centrão até 2026, terá mais chances de ganhar a próxima eleição presidencial.

Até lá, grandes emoções nos aguardam.

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