Xadrez 4-D, ou Os movimentos para 2022

Com atraso injustificável em relação à semana anterior, voltamos excepcionalmente nesta segunda-feira para apresentar o post da semana passada, de modo que os assuntos do nosso problemático quotidiano não fiquem perdidos no tempo e acabem por se tornar desinteressantes para o meu amigo leitor.

Há uma piada recorrente nestes tempos de TikTok segundo a qual alguns políticos jogariam o que os memes convencionaram chamar de “Xadrez 4-D”. Como nós só enxergamos e nos movimentamos em três dimensões – a quarta dimensão (tempo) somente seria observável por alguém que estivesse numa hipotética quinta dimensão -, a piada é a de que há pessoas que movimentam as peças do tabuleiro político de uma forma tão bizarra que os movimentos só fariam lógica se o xadrez estivesse sendo jogado em quatro dimensões. A intenção embutida no movimento aparentemente desconexo só seria revelada muitos lances à frente, em um grau de calculismo matemático de fazer inveja aos supercomputadores mais modernos. A “genialidade” do movimento, portanto, não poderia ser observada por nós, pobres mortais, que só vemos o basicão em três dimensões (largura, comprimento e profundidade).

Que é demasiado irônica para uma tese política, não resta a menor dúvida. Parece claro que os jogadores do tal Xadrez 4-D não estão a realizar nenhum movimento genial, mas tão-somente movendo as peças aleatoriamente com base no instinto, com pouco ou nenhum cálculo para os próximos movimentos. Antes de serem enxadristas, os sujeitos estariam mais para os pombos: quando disputam xadrez, derrubam as peças, defecam no tabuleiro e ainda saem por aí voando, gabando-se de ter ganhado o jogo.

No caso brasileiro, contudo, os pretendentes ao Xadrez 4-D parecem ser a moda do momento. Pelo menos quatro movimentos da semana passada indicam que ou toda a gente que analisa a política é absolutamente míope, ou então o pessoal anda movimentando as peças do tabuleiro político sem qualquer compromisso quanto ao resultado da partida. Vamos a eles:

1 – Bolsonaro e o PL:

Deputado de sete mandatos, com 28 anos de Câmara dos Deputados nas costas, Jair Bolsonaro elegeu-se abraçado à bandeira da “Nova Política”. Muitos erros e desvios de caminho depois, a história da carochinha que iludiu tanta gente parece ter definitivamente naufragado. O, digamos, “flerte” com o Centrão já havia evoluído para namoro e agora caminha para se tornar casamento de papel passado. Dois anos após ter se desfiliado do PSL, Bolsonaro declarou que vai se filiar ao PL, do notório Valdemar da Costa Neto. Mensaleiro condenado pelo Supremo Tribunal Federal, Valdemar ofereceu legenda ao presidente com vistas a incrementar a bancada de deputados nas eleições do ano que vem. O cálculo é simples: com mais deputados, vem mais fundo eleitoral. Com mais fundo eleitoral, vem mais dinheiro e mais influência no Parlamento, seja lá quem for o mandatário em 2023.

Se o cálculo para Valdemar da Costa Neto é evidente, para Bolsonaro a coisa não parece muito clara. Se o atual inquilino do Planalto pretende de fato ressuscitar a polarização contra o PT, vai ser difícil vender o discurso de que luta contra um “ex-presidiário” estando filiado a um partido presidido por um ex-condenado em definitivo por corrupção (coisa que Lula nunca foi). Somando-se a isso as rachadinhas de Fabrício Queiroz e os rolos envolvendo gente graúda do seu governo (vide o caso Covaxin), vai ser difícil querer disputar corações e mentes usando a temática da corrupção como mote.

Na melhor das hipóteses, a disputa vai ficar restrita a um campeonato de sujeira, pra saber quem consegue jogar mais lama no outro. Nesse caso, o mais provável é que o eleitor dê ambos por “sujos” e resolva o voto numa seara mais pragmática, como o desempenho econômico. Ponto, portanto, para o torneiro bissílabo de São Bernardo, que tem muito mais a apresentar nesse quesito do que Bolsonaro.

2 – Ciro x PDT:

Tudo na vida é pendular, menos o temperamento de Ciro Ferreira Gomes. Ele continua o mesmo desde sempre: irascível e inconstante. Ao saber que os deputados do seu PDT haviam votado a favor da emenda dos precatórios, Ciro rodou a baiana e colocou a sua candidatura em “suspensão”, seja lá o que isso signifique. Para o público externo, ficou a impressão de que ou os deputados do seu partido recuam e votam contra a PEC no segundo turno de votação, ou então Ciro abandona sua candidatura.

É bem provável que o movimento de Ciro tenha apenas sido um arroubo de retórica, típico de quem costuma bancar o valentão da boca pra fora, mas adora um arreglo conveniente por detrás das cortinas. O problema é que, da forma como a questão foi colocada, não há espaço para meio-termo: ou dá (os deputados rejeitam a PEC), ou desce (Ciro renuncia à candidatura). Se por acaso os deputados do PDT mantiverem o voto favorável à emenda governista, isso representará uma desmoralização completa de Ciro Gomes. Seguir adiante com uma candidatura nesses termos será, além de humilhante, inútil. Ou alguém aí acredita que Ciro poderia ser eleito depois de ver-se desmoralizado pela própria bancada e, pior, contradizendo a própria ameaça, mantendo a candidatura?

Por isso mesmo, muita gente boa enxergou nesse movimento uma forma nada elegante de Ciro encontrar uma desculpa para sair de campo e abandonar a disputa do ano que vem. Se for essa mesma a intenção, beleza; jogo jogado. Agora, se a idéia era emparedar a bancada federal do partido para pagar de bonito perante o grande público, a jogada pode muito bem se revelar desastrosa. Seja como for, Ciro parece ter comprado uma briga estúpida, com motivos nada claros, arriscando a coesão interna de seu próprio partido. Na melhor das hipóteses, ele perde: a bancada recua, mas as fissuras da briga cobrarão a fatura no ano que vem. Na pior das hipóteses, ele não só perde como ainda se vê obrigado a renunciar ao sonho presidencial.

Uma típica jogada, portanto, de Xadrez 4-D.

3 – A candidatura de Moro e o “Partido da Lava-Jato”:

“Quando morrer, vou colocar na minha lápide: ‘Não foi candidato'”.

Assim disse Sérgio Moro em outubro de 2019. Um ano antes, ele trocara a carreira de magistrado pela cadeira de Ministro da Justiça de Jair Bolsonaro. Seis meses depois, sairia dali atirando contra seu ex-chefe, acusando-o de querer interferir na Polícia Federal. Desde então, parecia escrito que a saga do juiz que fez aura como justiceiro da maior operação de combate à corrupção da história do país acabaria por desaguar na política. Não se sabe se o ex-magistrado já mandou encomendar o jazigo, mas parece já ter aprendido a primeira lição do bom político: nenhuma declaração anterior é suficientemente constrangedora se o sujeito tiver cara-de-pau.

Ao abandonar a magistratura e abraçar a carreira política, Sérgio Moro praticou o maior desserviço já “prestado” ao Judiciário nacional. Quem vai acreditar, daqui pra frente, que juízes à frente de grandes ações de combate à corrupção estão movidos pelo genuíno desejo de fazer Justiça, e não em busca de alguma vantagem posterior no mundo da política?

O que já havia se insinuado com Joaquim Barbosa, o relator do Mensalão, adquiriu ares de indiscutível desfaçatez pelas mãos de Sérgio Moro. Na época em que deixou o Supremo, muito se cogitou de uma possível candidatura do ex-ministro à presidência. Em favor do ex-ministro, registre-se que ele jamais se candidatou (pelo menos até o momento). Já Sérgio Moro não só foi ator decisivo no pleito de 2018 (mandando prender Lula esoltando a delação de Palocci às vésperas do primeiro turno), como ainda aceitou assumir o cargo de Ministro da Justiça do sujeito diretamente beneficiado pelas suas ações. Fez isso com a naturalidade de quem troca o pijama pela roupa de trabalho.

Mais engraçado ainda foi ver seu “parceiro” de Lava-Jato, Deltan Dallagnol, abandonar a carreira de Procurador da República, para também ele abraçar a carreira política. Lembrando os bons tempos da tabelinha que faziam às escondidas por meio de mensagens no Telegram, o ex-juiz e o ex-procurador parecem ter combinado perfeitamente o timing das suas candidaturas, pois até o partido pelo qual concorrerão será o mesmo (Podemos). Com suas ações combinadas, primeiro no Judiciário, agora na seara política, Moro e Dallagnol destruíram por completo a reputação da operação que comandaram. Levará décadas até que a credibilidade das investigações contra a corrupção possa ser restabelecida depois de terem sido tão abertamente manipuladas em favor dos seus próprios agentes, como ocorreu no caso da Lava-Jato.

4 – A chapa Lula-Alckmin:

Laranja com maçã. Elefante com girafa. A lista de cruzamentos bizarros é bem vasta na língua portuguesa, embora a natureza sabiamente não tenha se aventurado a tentar nenhuma delas. Mas mesmo os que cultuam o vernáculo jamais poderiam imaginar que a rica fauna das comparações esdrúxulas poderia ser enriquecida pela mistura de um Molusco (Lula) com um Picolé de Chuchu (Geraldo Alckmin).

Brincadeiras à parte, nada está certo quanto à reunião dos dois. Rivais em 2006, Lula e Alckmin são tão diferentes no estilo, na trajetória e no projeto político que pouca gente seria capaz de imaginar uma chapa que reunisse ambos para disputar a presidência. O fato, porém, é que as conversas têm corrido. E, se a coisa já vazou pra imprensa, é sinal de que tem gente botando fé nela, a ponto de testar a resposta da opinião pública soltando esse balão de ensaio através de jornalistas amigos.

Embora ninguém tenha falado ainda abertamente nessa possibilidade, subentende-se que o arranjo implicaria a reserva da cabeça de chapa a Lula, com Alckmin correndo como luxuoso coadjuvante na vice. Se isso de fato acontecer, o cenário de resolução da disputa de 2022 no primeiro turno, que hoje é apenas possível, passa a ser o mais provável. Juntando aos votos do PT o eleitorado conservador e limpinho que costuma acompanhar Alckmin, a possibilidade de que não houvesse segunda ronda no ano que vem seria disparado a maior possibilidade.

Haveria, claro, uma grande dificuldade: como passar ao distinto público a mensagem de que dois rivais tão figadais pudessem se reunir numa única chapa para concorrer à presidência? Para quem está familiarizado à marquetagem política brasileira, essa barreira está longe de representar um empecilho de monta. Para além disso, Lula e Alckmin poderiam muito bem se vender como a tão sonhada “frente ampla” contra Bolsonaro, frente ampla que a tal terceira via tem em vão tentado construir há pelo menos um ano. A dupla poderia dizer que estava colocando as suas vaidades políticas de lado para concorrer contra o que seria, no seu entender, o “mal maior”. Numa só tacada, fulminariam Bolsonaro e qualquer outro concorrente da terceira via, seja ele quem for.

O problema desse eventual arranjo não seriam propriamente as eleições, mas o day after do pleito. Assim como as equipes de Fórmula 1, as chapas presidenciais costumam ter um “primeiro piloto” (o cabeça da chapa) e um “segundo piloto”(o vice). Reunir Lula e Alckmin numa mesma chapa seria o mesmo que reunir dois “primeiros pilotos” numa mesma equipe. Com dois “titulares” eleitos, não é preciso ser nenhum gênio para imaginar brigas e confusões a partir de 2023. É possível até imaginar rasteiras de ambos os lados, com um querendo derrubar o outro, numa briga fratricida que pode acabar em renúncia ou impeachment, a depender do tamanho da confusão.

Seja como for, o xadrez das eleições do ano que vem já começou a ser jogado. Haverá muita bateção de cabeça e gente querendo vender genialidade onde só há besteira. Mas, no cenário em que estamos, se ninguém se aventurar a derrubar as peças e acabar com o jogo, já poderemos nos considerar no lucro.

Entendedores entenderão…

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