O saldo do 1º turno, ou Para onde vai o Brasil?

Pois é, meus amigos.

Enquanto muita gente seguia a crendice dos oráculos públicos e outros cultivavam em segredo o desejo de uma reviravolta sem precedentes no cenário eleitoral, aconteceu o que o Blog previra ainda no primeiro semestre: Bolsonaro e Haddad irão se confrontar numa batalha final pela cadeira de presidente da República.

Obviamente, a coisa não foi tão simples assim, e será menos ainda daqui pra frente. E, além das eleições presidenciais, teríamos material para escrever pelo menos umas cinco teses só sobre o que se passou nas eleições para a Câmera e para o Senado, sem contar as estaduais. Com tanta coisa pra escrever e tão pouco tempo para fazê-lo, talvez o melhor (e mais possível) seja realizar um breve resumo telegráfico dos ganhadores e dos perdedores do sufrágio de domingo último.

Vamos a eles:

Ganhadores:

1 – Jair Bolsonaro: Óbvio ululante. De personagem exótico do baixíssimo clero congressual, com seu pendor quase folclórico pela ditadura de 64 e pelos torturadores que dela fizeram parte, Bolsonaro ficou a poucos pontos de ganhar a eleição presidencial no 1º turno. Sem dúvida, ele foi o grande vencedor da eleição de domingo. Não somente porque alcançou uma quantidade incrível de votos, mas também porque, com seu apoio, elegeu a segunda maior bancada da Câmara e catapultou mais uma penca de candidatos seus ao segundo turno. Se só isso já seria motivo de assombro,  constatar que o ex-capitão do Exército conseguiu essa façanha de dentro de um hospital, sem ter qualquer estrutura partidária e com metade do tempo que Enéas teve em 1989 para fazer campanha na TV, transforma seu feito em um fenômeno a ser estudado pela posteridade.

2 – Lava-Jato: A segunda grande vencedora do pleito de 2018 não deveria estar na arena política. Mas, para o bem e para o mal, a Operação Lava-Jato foi consagrada com uma votação avassaladora nas urnas. Se nenhum de seus integrantes foi candidato, todos aqueles que a ela se opunham foram praticamente dizimados do Legislativo por um eleitor já de saco cheio da velha guarda política. Eunício Oliveira, Edison Lobão e o grande articulador do pacto “Com Supremo, com tudo”, Romero Jucá, por exemplo, foram limados de seus mandatos como senadores. Dos 54 postos em disputa, apenas 8 conseguiram a reeleição, sem contar a renovação da Câmara. Trata-se do maior expurgo já efetuado no Congresso brasileiro desde pelo menos a histórica vitória do MDB sobre a Arena em 1974.

3 – Redes sociais: A medalha de bronze dos vencedores das eleições vai, certamente, para as redes sociais. Facebook, Twitter e, principalmente, o WhatsApp (o popular Zap-Zap), destronaram a mídia convencional e até mesmo a internet tradicional como principais meios de propagação de notícias. Obviamente, isso veio ao custo de uma infinidade grotesca de fake news, que fariam corar até o mais ordinário dos canalhas. Mesmo assim, seria no mínimo ingênuo deixar de reconhecer o seu poder como instrumento de convencimento eleitoral.

4 – Lula: Menção honrosa na galeria dos ganhadores a Luiz Inácio Lula da Silva. Depois de toda as acusações que sofreu, arrostando uma condenação criminal nas costas, preso e impedido de fazer campanha, o torneiro bissílabo de São Bernardo ainda teve força suficiente para colocar um candidato no segundo turno com 30% dos votos. Bastou um dedazo de Lula para fazer com que um então desconhecido “Andrade”, em apenas 20 dias, sobrepujasse concorrentes muito mais conhecidos e com maior experiência, como Ciro Gomes e Geraldo Alckmin. Goste-se ou não do ex-presidente, o fato é que ele continua sendo o maior cabo eleitoral do país.

Perdedores:

1 – Velha ordem: Há pelo menos 30 anos, PMDB, PSDB e PT – e os clãs políticos que transitavam entre esses três grupos – davam as cartas na política brasileira. O PT ainda conseguiu fazer a maior bancada da Câmara, mas sofreu duras derrotas no Senado (vide o caso de Dilma em MG) e em vários Estados pelo país. Já PMDB e PSDB foram reduzidos à metade do que eram, enquanto vêem minguar a imensa capilaridade que ainda tinham pelo interior do país. Quanto aos clãs políticos, nenhum exemplo é mais emblemático do que o do Maranhão: numa só tacada, Roseana Sarney, Sarney Filho e Edison Lobão ficaram sem mandato. Um assombro para um lugar do qual os Sarney se assenhoraram quase como capitania hereditária há mais meio de século.

2 – Propaganda na TV: A influência do horário eleitoral, que já fora posta em xeque há algum tempo, ficou perigosamente à deriva no pleito deste ano. Geraldo Alckmin vendeu a alma ao Centrão em busca do maior latifúndio televisivo de 2018. Mesmo assim, não conseguiu passar de um dígito nas pesquisas e terminou a corrida com ridículos 5% dos votos. Se alguém ainda tinha dúvida de que brasileiro não assiste ao horário eleitoral, pode-se dizer que as eleições deste ano encerraram qualquer discussão a esse respeito.

3 – Pesquisas eleitorais: Verdade seja dita: ao menos neste espaço, as pesquisas eleitorais jamais gozaram de muita credibilidade. Historicamente, os erros são tantos e tão absurdos que custa a acreditar que ainda haja gente disposta a guiar o voto pelo que elas dizem. Para além das distorções fora da margem de erro da própria eleição presidencial, houve casos verdadeiramente bizarros, como um candidato disparar de quarto pra primeiro em dois dias (governador no RJ), assim como de uma candidata despencar de primeiro pra quarto também em pouco mais de dois dias (senador em MG). Se isso não for o bastante para desqualificá-las, nada mais será.

4 – Marina Silva: Parece fora de questão que Marina Silva foi a grande decepção desta eleição presidencial. De candidata competitiva em 2010, passando por quase favorita em 2014, Marina Silva foi reduzida à condição de sub-Daciolo em 2018. Obviamente, tal efeito não se fez do dia pra noite. Depois de ser “desconstruída” pelo PT através de uma propaganda eleitoral infame na eleição passada, esperava-se que Marina assumisse a condição de uma das líderes da oposição ao Governo. E o que ela fez? Exilou-se novamente por quatro anos, contando exclusivamente com o recall das outras eleições para alavancar votos. Na política, paga-se um preço alto pelas ações, mas um preço mais alto ainda pelas omissões. Marina descobriu isso da pior maneira possível.

Feito o balanço geral das eleições, o que será do segundo turno entre Bolsonaro e Haddad?

Um dos mitos mais difundidos pelos “analistas” de plantão é que “segundo turno é outra eleição”. Falso. Segundo turno é a mesma eleição, só que com os dois candidatos mais votados. Mais do que uma obviedade, esse raciocínio embute a conclusão evidente de que o patrimônio eleitoral do primeiro turno tende a acompanhar o candidato no segundo. Portanto, Bolsonaro de cara sai de um patamar de 46% dos votos, enquanto Haddad gira em torno de 30%.

Isto posto, para que Bolsonaro chegue à maioria absoluta, basta somar ao seu eleitorado aproximadamente meio Alckmin mais um Daciolo. E isso sem contar Álvaro Dias e Eymael, por exemplo. Considerando-se o perfil dos candidatos, trata-se de uma hipótese perfeitamente plausível.

Do outro lado, ainda que Haddad somasse 100% dos votos de Ciro, Marina e Boulos, ficaria uns 7% atrás da metade mais um do eleitorado. Além de ser improvável que ele consiga arregimentar eleitores de outros candidatos com tamanha fidelidade, o candidato petista ainda teria que pescar votos no campo adverso (Meirelles, Amôedo e Cia. Ltda.). Isso tudo, registre-se, sem ter Lula ao seu lado nos palanques, como Dilma teve em 2014. Convenhamos, a hipótese de uma virada a essa altura do campeonato, nessas condições, dependeria de uma conjunção astral incrivelmente favorável ao ex-prefeito paulistano.

Somando-se uma coisa à outra, pode-se concluir que Bolsonaro não saiu somente como franco favorito do primeiro turno. Ele saiu como virtual presidente eleito de 2018.

Engana-se, porém, quem acredita que esta será a primeira vez em que se elege alguém com experiência administrativa zero para o cargo de presidente. O brasileiro já colocou na Presidência um sujeito com feitio autoritário, montado numa legenda desconhecida, trajando figuro liberal e carregando um discurso moralista de ocasião.

Seu nome?

Fernando Collor de Mello.

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