O mito do horário eleitoral gratuito

Virou lugar-comum dizer-se no começo do período eleitoral que “a campanha só começa quando se iniciar o horário eleitoral gratuito na TV”. Candidatos, marqueteiros e até mesmo eleitores repetem o mote como se fosse um dogma de fé. E, no final das contas, pode ser que seja isso mesmo.

Desde a redemocratização, esta será, salvo engano, a 15ª eleição livre no país. De lá pra cá, muita coisa aconteceu, muitas eleições foram ganhadas e perdidas após o início da propaganda eleitoral no rádio e na TV. Mas o que aparentemente ninguém está se perguntando é: será que o efeito do horário eleitoral gratuito naquela época é o mesmo hoje em dia?

A meu ver, a resposta é negativa.

Em primeiro lugar, a própria experiência democrática acaba por mitigar alguns fenômenos tidos como paradigmas da campanha eleitoral. Por exemplo: atualmente, ninguém apostaria um tostão furado na eleição de um Salvador da Pátria à la Collor para qualquer cargo. A venda de promessas fáceis, a renegação da política através da apresentação de “alguém de fora”, supostamente o único apto a mudar “tudo o que está aí” simplesmente não convence mais. É no mínimo inocente acreditar que o eleitorado não aprenda com os próprios erros. Imaginar que episódios assim possam se repetir redundará em um rotundo fracasso.

Em segundo lugar, marqueteiros e candidatos já aprenderam com seus próprios erros e com os erros dos outros no passado. Fala-se muito, por exemplo, do desastre da campanha de Ciro Gomes em 2002, quando liderava as pesquisas e, depois de falar impropérios a um ouvinte de uma rádio, viu sua candidatura murchar como um balão furado. Hoje, ninguém mais fala coisas desse tipo (salvo o próprio Ciro Gomes, que aparentemente não consegue aprender com os próprios erros).  Além disso, “episódios-escândalo” – como o do aborto da ex-mulher de Lula na campanha de 89  – tendem (graças ao Bom Senhor) a desaparecer do cenário, pois acabam se tornando uma propaganda negativa contra o autor da “denúncia”.

Em suma: as campanhas ficaram “pasteurizadas”. Assim como a água, são cada vez mais insípidas, incolores e inodoras. Faz-se uma pesquisa de marketing, colhe-se do eleitor médio o que ele mais ou menos deseja ouvir e monta-se uma campanha em cima disso. Como um produto, os candidatos são vendidos na TV para serem comprados pelo eleitor. Mas a embalagem na qual são embrulhados tornam-nos tão idênticos que o eleitor tem que se coçar para identificar as diferenças entre eles.

Em terceiro lugar, pouca gente se deu conta, mas hoje é cada vez menor a parcela do eleitorado que assiste ao horário eleitoral. A quantidade de casas com TV a cabo é infinitamente maior do que há 20 anos. Quem não tem TV a cabo, tem Internet. Logo, só assiste horário eleitoral quem quer, e a quantidade dos que querem é estatisticamente desprezível.

Fora isso, essa mentalidade ignora a mudança de hábitos dos brasileiros. Antigamente, o horário eleitoral era quase propaganda obrigatória porque se situava entre o Jornal Nacional e a Novela das 8. O sujeito terminava de assistir ao Jornal e tinha que ficar esperando terminar o horário eleitoral para não perder o próximo capítulo da Novela. Hoje, a audiência do maior telejornal da Vênus Platinada é menos da metade do que foi na década de 90. O mesmo se dá com as novelas da Globo, salvo um ou outro sucesso esporádico. Não dá pra contar, portanto, com a audiência “herdada” dos programas da grade televisiva.

A verdade é que o efeito do horário eleitoral será cada vez mais diminuto com o passar dos anos. No futuro, é bem possível que o grosso da campanha dê-se na Internet, por meio das redes sociais. De certo modo, as soluções mágicas ou as surpresas de última hora devem ficar apenas como um retrato na parede. Com o tempo, os eleitores a passarão a estudar seus candidatos antes de iniciado o período eleitoral. Acompanharão suas atividades públicas e verão como o sujeito se comportou no período pré-eleitoral. Com isso, quando chegar o horário eleitoral, os votos já estarão definidos.

Ruim?

Pelo contrário. Sinal de amadurecimento político da nação. Isso exigirá dos políticos mais compromisso com o mandato e mais fidelidade ao programa ideológico. Só assim o Brasil começará a andar pra frente em termos de qualidade de representação política.

É esperar pra ver.

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