Recordar é viver: “Por uma política esportiva nacional”

Em tempos de Olimpíadas, talvez seja bom recordar a razão pela qual não somos uma potência esportiva, a despeito das ocasionais e muito bem-vindas vitórias nos Jogos do Rio.

 

Por uma política esportiva nacional

Publicado originalmente em 2.8.12

 

Hoje, para alegria geral da nação, ganhamos mais uma medalhinha de bronze no judô. Depois de um atípico primeiro dia, em que ganhamos três medalhas de ouro, parecia que o Brasil Grande finalmente atingira o nível de potência olímpica. A partir de agora, seria só acompanhar o quadro de medalhas para ir contabilizando, uma a uma, os metais brilhantes que cairiam na sacola.

Ledo engano.

O Brasil não é uma potência olímpica. Não é nem sequer uma “média” potência olímpica. Está mais, na verdade, para “Coleção Primeiros Passos: As Olimpíadas”. Basta dizer que nos últimos Jogos Olímpicos, em Pequim, ficamos atrás de países como Quênia e a Etiópia, que nem governo constituído tem. Isso para não falar nas históricas surras que levamos de Cuba no quadro geral de medalhas. A ilhota de Fidel Castro, com uma população menor do que a cidade de São Paulo, tem mais de 3 vezes mais medalhas de ouro do que nós.

Por que as coisas são como são?

A resposta é uma só: porque, no fundo, o esporte nunca foi prioridade no Brasil.

Uma potência olimpíca não se desenvolve apenas com investimento maciço em esporte de alto rendimento. Isto é: não se faz uma nação com projeção nas Olimpíadas se todo o dinheiro for direcionado unicamente para as estrelas do esporte.

Não que se deva abandoná-las. Longe disso. Essas estrelas se transformam em ídolos, e nada melhor para a propaganda do esporte junto aos candidatos a atleta do que a existência deles. Sem ídolos como modelos, como espelhos, como objetivo a ser alcançado, é mais difícil reunir jovens dispostos a se dedicar a algum esporte.

Entretanto, o investimento tem de se concentrar na base. E não apenas em escolinhas montadas às pressas em algum bairro pobre para tirar foto de campanha. O investimento tem de ser feito, em primeiro lugar, nas escolas, porque é nas escolas que o esporte tem mais chance de passar a fazer parte da vida do jovem. Fora isso, tem de se investir pesado na formação de professores de educação física, porque, sem eles, não se consegue fazer com que o jovem se interesse pelo esporte. Ademais, é o professor bem qualificado o sujeito mais apto a identificar algum talento específico que um jovem possa desenvolver. Por exemplo: o menino tenta jogar bola, mas, pela altura e pela qualidade com que toca na bola, pode ser direcionado para o basquete ou para o vôlei.

Depois de conquistado o coração, deve-se conquistar a mente (leia-se: bolso). Ao crescer, a criança tem de enxergar no esporte não somente um hobby ou uma atividade física, mas também um meio de vida. Sem isso, não adianta nada identificar talentos na juventude, pois o pequeno adulto irá procurar uma profissão que lhe garanta o feijão-com-arroz no prato. E o talento no esporte, antes cultivado, acabará perdendo-se em peladas de final de semana.

Portanto, é necessário garantir bolsas integrais nas universidades para os estudantes-atletas, garantindo, a um só tempo, educação e desenvolvimento do talento esportivo.  Para os esportes menos estruturados, subsídios pesados do governo devem ser gastos para formar campeonatos. São esses campeonatos que garantirão: 1 – renda para o jovem esportista; 2 – atração de público, que, no futuro, garantirá alguma forma de autosustentabilidade da modalidade.

Para ver um exemplo, basta olhar o vôlei.

Até os anos 80, o vôlei era o quarto, talvez o quinto esporte em preferência nacional. Com a prata em 1984 e um pesado investimento na base, o vôlei foi crescendo e conquistando a adesão de cada vez mais jovens. Com campeonatos mais competitivos, era mais fácil peneirar grandes jogadores para formar uma seleção forte. Resultado: ouro em Barcelona em 1992 e, depois disso, um boom que resultaria numa década quase perfeita no começo deste milênio.

O grande problema é que, na época das Olimpíadas, a maior parte da população – induzida pela imprensa – tende a concentrar suas atenções no desempenho individual de um atleta ou de uma equipe em particular. “Amarelou”, “não era o dia dele”, “o sorteio da chave não ajudou”, e outras questões menores. Como se todos os erros na estrutura do esporte não contassem, apenas as idiossincrasias dos atletas envolvidos na competição.

O esporte é uma forma de transformação social. Enquanto isso não for percebido pela população, continuaremos condenados à mediocridade no esporte olímpico.

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