Cristina Kirtchner e a questão das Malvinas

Era só o que me faltava. No meio da cerimônia de entronização do Papa Francisco, em meio a chefes de estado e sorrisos falsos, eis que a presidente da Argentina, Cristina Kirtchner, ao ser indagada sobre o que pedira ao Santo Padre, respondeu: “Ajuda para resolver a questão das Malvinas”.

Noves fora a cara-de-pau de pedir ajuda a quem, até outro dia, era seu inimigo figadal, o pedido é inapropriado e desrespeitoso.

O pedido é inapropriado, em primeiro lugar, porque cerimônia de entronização de papa não é casamento de filha de chefão siciliano. Segundo a liturgia mafiosa, nenhum siciliano pode recusar um pedido no dia de casamento de sua filha. A despeito de o Papa ser também Bispo de Roma, não há relato de que o Vaticano tenha incorporado às suas tradições os costumes da máfia italiana (Há indícios de que o seu banco tenha lavado dinheiro para os mafiosos, mas deixa pra lá).

O pedido é inapropriado, em segundo lugar, porque um pedido do Papa Francisco terá efeito nulo. Se mesmo em países de maioria católica é difícil imaginar alguém cedendo a um pedido contrário aos seus interesses simplesmente porque “foi o Papa que pediu”, que dirá na Inglaterra, com suas ancestrais raízes anglicanas.

O pedido é inapropriado, em terceiro lugar, porque vem justamente na hora em que a Igreja Católica se dá conta de que só readquirirá parte da velha influência geopolítica se deixar de lado as questões seculares mundanas e se dedicar às questões religiosas. Papa nenhum conseguirá se impor jogando o jogo baixo da política tradicional. Como Stalin sacou há mais de 60 anos, “quantas divisões tem o papa?” Sem dinheiro para comprar apoio e sem exército para impor sua vontade, ao Papa Francisco resta voltar-se para o conforto religioso e à defesa dos pobres para, quem sabe, readquirir um pouco da outrora conhecida supremacia moral da Santa Sé no mundo.

Finalmente, o pedido é desrespeitoso porque ignora a vontade dos próprios habitantes das Malvinas. Há dez dias, um plebiscito realizado nas Ilhas ao leste da costa Argentina apurou que 99,8% da população deseja continuar hasteando a bandeira do Reino Unido. Pouco importa que o território britânico seja “resquício da era colonial”, como argumentam os argentinos. Se a posse de um território que está a mais de 12 mil quilômetros da Inglaterra no final do século XVII poderia ser considerada à época como uma violência, obrigar os habitantes da região identificados com os ingleses há mais de três seculos implicaria violência ainda maior.

A briga pelas Malvinas já deu muita dor de cabeça aos argentinos. Sempre que o governo de plantão se vê às voltas com crises internas que corroem a sua popularidade, a velha bandeira da “soberania argentina” sobre as ilhas volta à tona. Embromação reles. O argentino não está preocupado em saber o que é que será feito daquele pedaço de terra ao sul do Equador. Está preocupado em saber se, por conta da inflação e do desabastecimento interno, terá como encher a geladeira até o final do mês.

Quanto aos habitantes das Malvinas, vão bem, obrigado.

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2 respostas para Cristina Kirtchner e a questão das Malvinas

  1. Mourão disse:

    É meu caro, sem entra no (de) mérito do pedido da presidente Argentina( parece coisa de “sem noção), o velho Stalin foi embora antes ver o estrago que um Papa sem nenhuma divisão( bélica, ressalvemos) mas com um mundo de legionários, ajudou a fazer no regime comunista.

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