Hamlet, o Príncipe da Dinamarca

Quase todo mundo que já sonhou um dia em ser escritor tem algum livro de sua preferência. E, quando o leu, deve ter pensado algo do gênero: “Puxa, eu queria ter escrito esse livro”.

Pois é. Na minha lista, as obras são várias, desde romances como Dom Casmurro até livros de história, como As ilusões armadas, do Elio Gaspari. Mas, se tivesse de fazer uma lista, ela sem dúvida seria encabeçada pela obra-prima de Shakespeare: Hamlet, o Príncipe da Dinamarca.

Já disse aqui que a maior parte das citações de Shakespeare – pelo menos as mais usuais no domínio popular – deriva dela. Ser ou não ser? Eis a questão, Há algo de podre no reino da Dinamarca, Há mais coisas no céu e na terra do que foram sonhadas por sua filosofia… o rol é bem grande. Não por nada, mas porque a peça, em si, é um primor, do começo ao fim.

Um autor chamado Harold Bloom escreveu um livro chamado “Shakespeare: a invenção do humano”. Nessa obra, o autor explica como todo o gênero teatral foi modificado por Shakespeare. Desde os gregos, as representações humanas eram exageradas: tragédia ou comédia; 8 ou 80. Com Shakespeare, os personagens tornam-se mais humanos. Deixam os extremos de lado e põe-se a retratar a vida, digamos, “como ela é”. Nenhuma outra obra reúne, de modo tão completo, uma míriade tão vasta de emoções humanas, dissecadas de tal modo que é impossível não se identificar com os personagens da trama, ou neles reconhecer algum parente próximo.

Hamlet conta a história do herdeiro do trono da Dinamarca. Em termos, digamos, “cinéfilos”, Hamlet seria um thriller psicológico.

Estudando em uma universidade, Hamlet recebe por carta a notícia de que seu pai (também chamado Hamlet) morrera. Ao voltar para Elsinore, sede da residência real, tudo lhe parece estranho. Tendo vindo para o funeral de seu pai, encontra, em seu lugar, as bodas da mãe. Pouco mais de um mês após a morte do rei, a Rainha Gertrudes se casa com o irmão do falecido, Cláudio.

Ao mesmo tempo, aparições semelhantes ao rei morto começam a assombrar a ronda noturna. Horácio, amigo de fé, irmão camarada de Hamlet, presencia uma dessas aparições, e identifica-as como sendo o pai de Hamlet. Ao relatar isso, Hamlet decide acompanhá-los na ronda noturna. Seu pai lhe aparece e conta que não morreu de causas naturais; seu irmão o matara. O fantasma, então, exige que Hamlet vingue sua morte. A idéia de vingar a morte do pai praticando um homicídio atormenta-lhe a mente. Boa parte da trama gira em torno do conflito de Hamlet com sua própria alma: vingar ou não a morte do pai? (abaixo, a cena)

Em torno desse conflito, Shakespeare expõe pela boca de Hamlet diversas questões existenciais, filosóficas, mesmo. Ser ou não ser, por exemplo, tem lugar num desse monólogos.

Ao contrário do que muita gente pensa, não é nessa cena em que Hamlet segura o crânio. Isso só acontece mais à frente, quando Hamlet conclui que o morto, por não ter língua, fica sujeito ao julgamento posterior da história sem direito a defender-se.

E essa conclusão afinal se provará muito importante. No final, como toda boa tragédia shakespeareana, todo mundo morre, à exceção de Horácio. Horácio pretende matar-se também, e seguir com seu amigo para o além. Hamlet implora que não faça isso; pede que “se prive momentaneamente da felicidade” para contar a sua história. Em outras palavras: viva e seja minha língua (cf. cena abaixo).

No meio termo entre a morte de Hamlet pai e de Hamlet filho, várias outras tramas paralelas se desenvolvem. Mas todas estão, de certo modo, conectadas a Hamlet. Aliás, vem di uma das principais críticas dos teatrólogos à peça. Diz-se que Shakespeare exagerou ao pintar o protagonista, de tal modo que o personagem acabou ficando maior que a obra. Algo como um “complexo de Cristo”; Hamlet é desproporcionalmente importante para a história toda.

Eu prefiro me alinhar com os que encontram em Hamlet a prova definitiva do gênio de Shakespeare.

Pra quem não estiver disposto a ler o livro, sugiro que alugue o Hamlet de Kenneth Branagh. Trata-se da única versão cinematográfica integral da obra; todas as outras cortam uma ou outra cena. São dessa versão os excertos postados acima. Com um elenco de primeira, trata-se também da melhor e mais fiel reprodução da peça. São 4 horas do que há de melhor em termos de cinema. Também, com um roteirista como Shakespeare, seria o mínimo a se esperar.

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