Dez anos depois do 7×1, só mesmo recorrendo ao pessoal do Ultraje a Rigor.
Ainda mais depois da patética eliminação pro Uruguai no último sábado…
A gente joga bola e não consegue ganhar!
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Acabar com a corrupção é o objetivo supremo de quem ainda não chegou ao poder.
By Millôr Fernandes
Chegada mais uma efeméride do plano que resgatou a moeda brasileira, vale a pena recordar um post de dez anos atrás, sobre o momento mais dramático na trintenária existência do Real.
É o que você vai entender, lendo.
Publicado originalmente em 1º.7.14
Para quem ainda não foi avisado, hoje se completam 20 anos desde que a cacofônica URV encerrou seu curto período de existência e se transformou na moeda mais longeva dos últimos 60 anos no Brasil: o Real. Como sempre acontece em datas comemorativas, as pessoas gostam de rememorar os fatos que antecederam a mudança da moeda, o clima daquele ano iluminado de 1994 e, claro, como foi que o país saiu de uma hiperinflação de 2.500% a.a. para um patamar mais civilizado, em torno de 6% a.a.
Não me interessa, contudo, relembrar a introdução da nova moeda brasileira. Interessa-me, na verdade, recordar o episódio mais dramático dessas duas décadas, o qual, curiosamente, ficou quase esquecido entre tantas comemorações: a crise da desvalorização do Real de 1999. Para explicá-la, contudo, é preciso voltar um pouco no tempo.
Como todo mundo sabe, um dos pilares do Plano Real era a âncora cambial (quem quiser mais detalhes sobre o que isso representa, clique aqui). Manipulou-se a cotação do dólar com dois propósitos: primeiro, reduzir artificialmente o preço dos produtos importados; segundo, com a redução do preço dos importador, forçar competição com os similares nacionais, impedindo que os empresários reajustassem seus produtos.
Para efeito de controle de inflação, a idéia até que não era de todo má. O problema eram os efeitos colaterais que essa medida trazia. Em poucos meses, o Brasil passou de um superávit mensal de US$ 1 bilhão na balança comercial para um déficit de US$ 1 bilhão.
Como o Brasil historicamente sempre foi deficitário na conta de serviços (aquela que envolve empréstimos e transferências de renda), a balança de pagamentos brasileira ficou perigosamente à deriva. Para estancar a sangria de dólares, só havia duas alternativas: vender empresas estatais e aumentar os juros. Nos dois casos, os dólares que ingressariam no país compensariam o déficit das outras duas pernas da balança de pagamentos.
O problema, como todo mundo veio a descobrir depois, é que essa era uma estratégia de fôlego curto. O Brasil privatizou quase tudo que havia para sustentar a paridade cambial. Os juros lunares asfixiavam a economia e jogavam o desemprego nas alturas, numa estratégia economicamente racional, mas politicamente suicida.
Foi então que uma velha propaganda dos anos 80 resolveu dar as caras. Mal das pernas, a Rússia começou a dar sinais de que estava indo para o buraco. Antes de se precipitar no abismo, olhou para o Brasil, piscou o olho e disse: “Eu sou você amanhã”.
Não deu outra. Com a crise russa de 1998, o crédito internacional para países emergentes secou. Nem mesmo os juros estratosféricos do presidente do Banco Central, Gustavo Franco, eram mais suficientes para atrair dólares para o Brasil. Pra piorar, vivia-se ainda um ano (re)eleitoral, com o Fernando Henrique posando de grande fiador da estabilidade, associada de forma irresponsável à paridade R$ 1/ US$ 1.
Às pressas, negociou-se um acordo com o FMI. Com a galera do Fundo pode ser estúpida, mas nunca foi burra, todos lá sabiam que não havia nenhuma saída que não passasse pela desvalorização do real. Mesmo assim, aceitaram a contragosto o argumento de que, sem paridade, não haveria “clima político” para se aplicarem as medidas necessárias ao plano de ajuste no país. Traduzindo: ninguém no Governo aceitaria um acordo que pusesse em risco a reeleição de FHC.
Passada a eleição, o Brasil continuou sangrando. Na virada do ano, saía do país quase US$ 1 bilhão por dia. Na outra banda, Gustavo Franco negociava dólares no mercado futuro, o que disfarçava o total real de dólares disponíveis no Banco Central. Para o público externo, o patamar divulgado das reservas ainda era suficiente para alguns meses de respiro. Para quem entendia do métier, a explosão era apenas uma questão de dias.
Com a situação se deteriorando cada vez mais, Fernando Henrique foi em busca de uma solução. O então Diretor de Política Monetária do Banco Central, Francisco Lopes, apresentou-lhe a curiosa tese da “banda diagonal endógena”. O problema? Só topava levar a idéia adiante se Gustavo Franco, o mais ferrenho defensor da paridade, fosse arremessado numa perpendicular exógena. Daí pra frente, no entanto, o que se assistiu foi uma lambança de proporções bíblicas.
Na primeira sexta-feira do ano, 8 de janeiro de 1999, Fernando Henrique tocou o telefone para Gustavo Franco. Como Franco argumentasse que não se opunha à tal “banda diagonal endógena”, coube a El Rey fazer o que talvez tenha sido seu último ato digno do posto: ou pede pra sair, ou será saído.
Ao invés de aproveitar o fim-de-semana para anunciar a decisão e explicar a mudança no Banco Central, Fernando Henrique e sua trupe preferiram o silêncio. Passou-se todo um fim-de-semana (dias 9 e 10) e a segunda e terça-feira seguintes (dias 11 e 12) até que a demissão de Gustavo Franco fosse anunciada na quarta-feira, dia 13 de janeiro.
Justamente nesse período, o mercado virou. Se antes todo mundo apostava na manutenção da paridade cambial, nos dias imediatamente anteriores quase todo mundo correu para apostar na desvalorização do real. Como Elio Gaspari bem observou numa coluna da época, ninguém ganhou dinheiro sabendo que o câmbio estava podre. Ganhou quem soube quando Franco ia cair. Desse vazamento derivou o escândalo Marka-Fonte Cidam, que dias depois derrubaria Chico Lopes.
Obviamente, do dia 13 em diante houve um verdadeiro pandemônio. Toda a desvalorização acumulada em quatro anos de Plano Real foi descontada de uma só vez. No dia 31 de janeiro, a cotação do dólar atingiria o pico de R$ 2,25. Parecia que o mundo iria se acabar.
O que ninguém – ou praticamente ninguém atentou – é que a sobrevivência do Real não dependia mais da âncora cambial. Conforme foi explicado aqui em outro post, a grande sacada do Plano Real tinha sido desfazer a armadilha da inflação inercial. Sem a correção automática dos preços futuros pela inflação passada, a tendência era de que o dólar se estabilizasse em algum momento, sem que o inevitável pico inflacionário resultante da desvalorização cambial transformasse a nova moeda numa canoa furada.
Quinze anos depois, o trágico episódio da desvalorização do Real ainda não foi inteiramente assimilado pela sociedade brasileira. Bilhões de dólares das reservas cambiais, o patrimônio público amealhado duramente ao longo do século XX e pelo menos 5 anos de crescimento econômico foram jogados no lixo para sustentar uma política cambial insana, que não tinha mais nenhuma razão de ser.
Por isso, ao tempo em que se comemora o maior período de estabilidade monetária do pós-guerra, o Brasil deveria revisitar esse triste momento da nossa história econômica. Do contrário, estamos arriscados a ver novamente um filme cujo final todos nós já estamos carecas de saber.
E os pecados cometidos para tê-los também…
#FicaaDica
Para conseguir produzir coisas grandes, em regra você vai precisar de duas coisas: um plano e não ter tempo suficiente para cumpri-lo.
Foi duro. Foi embaraçoso. Foi constrangedor. Mas, por pior que foi, talvez tenha sido necessário. Tal é o sentimento de quem se dignou a assistir as duas horas de debate entre o atual presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, e o ex-presidente a quem ele derrotou nas últimas eleições, Donald Trump.
Desde o ano passado, a impopularidade cavalar de Joe Biden era vista como principal motor da retomada da infame campanha Make America Great Again, do laranjão ex-apresentador de O Aprendiz. Arrostando pelo menos quatro processos criminais nas costas, a Trump não restava outra alternativa senão ir buscar na Casa Branca o refúgio para ideal para escapar da cadeia. Assim como outros líderes mundo afora (qualquer semelhança com um determinado país ao sul do equador não é mera coincidência), o que move Donald Trump a tentar voltar à sede do Executivo federal norte-americano é o desejo de escapar da cadeia.
É certo que boa parte da aversão do eleitorado a Joe Biden é injusta. Não há como se medir precisamente em que medida a inflação tem culpa nesse cartório, mas não há dúvida de que os preços elevados são o ácido que corrói a popularidade do atual inquilino da Casa Branca. Grande parte desse efeito inflacionário é resultado da maciça injeção de capital e do corte de impostos ocorrido durante o mandarinato de Trump. No entanto, como nem tudo na economia tem efeito imediato, a bomba só foi explodir agora, no colo do seu sucessor.
Ainda assim, os números econômicos apresentados por Biden são bem melhores do que os da administração anterior. A inflação está em queda, o PIB está em alta e o desemprego experimenta as taxas mais baixas da história. Como, então, explicar que Joe Biden seja tão rejeitado assim pelo eleitorado?
Bem, como tudo na vida, não há uma única explicação para esse fenômeno tão peculiar. Mesmo assim, pode-se especular que dois fatores pesam decisivamente nessa balança. O primeiro é o fato de que, por melhor que fossem as suas intenções, Biden jamais conseguiria cumprir a agenda de todo mundo – à esquerda e à direita – que queria se livrar do laranjão piromaníaco. O segundo, por óbvio, é a idade avançada do presidente norte-americano.
Mas não é exatamente a idade que faz de Biden um candidato fraco. Trump, por exemplo, é apenas três anos mais novo que ele. O problema é que, ao contrário do ex-apresentador de O Aprendiz, Biden dá seguidas mostras de que sua idade começa a afetar suas funções cognitivas. E isso é realmente preocupante.
Quem acompanha a política americana há algum tempo sabe que não são raros os episódios de “apagão geral” de Biden em eventos públicos. Não se trata somente de uma dicção atravessada, da qual pouco se pode entender às vezes, mas de casos verdadeiramente inexplicáveis, como o de Biden dando a mão ao vazio – quem sabe para apertar a mão de algum amigo imaginário -, ou de ele deixar que seus olhos se percam no horizonte, mirando o infinito, enquanto todos à sua volta dançam ou conversam entre si.
O que o debate da última quinta-feira fez, em última análise, foi “equilibrar” o jogo entre quem não acompanhava e quem seguia de perto os passos do atual presidente. É claro que, para quem não tinha idéia do que se passava, ver Biden balbuciando e travando em frente às câmeras foi algo como um choque. Mas, para quem acompanhou o último ano e meio da política norte-americana, o debate não passou de um compilado de “piores momentos” do octagenário candidato.
Não que o desempenho de Donald Trump tenha sido nenhuma maravilha, pelo contrário. Ele enfileirou mentiras e números aleatórios como está acostumado a fazer, esquivando-se a todo tempo de responder as perguntas incômodas que lhe eram formuladas. O problema era que, do outro lado do palco, não estava um debatedor propriamente dito, mas um velhinho de 81 anos, rouco e com dificuldades de concatenar raciocínio. Se Obama ou qualquer outro candidato minimamente em forma estivesse como oponente, Trump teria sido facilmente trucidado naquela noite.
Imediatamente após o debate, instalou-se um clima de barata-voa nas hostes democratas. Se em condições normais de temperatura e pressão já seria difícil para Biden bater Trump, depois do debate as chances de isso acontecer foram reduzidas a pó. Doadores, apoiadores, editoriais de jornais e até mesmo deputados eleitos já começaram a pedir que Biden, em um gesto de grandeza, abrisse mão da nomeação para deixar o caminho livre a alguém com mais chance de derrotar Trump.
A manobra radical, contudo, é difícil e arriscada. Primeiro, porque depende da boa vontade do próprio Biden. Com a maioria dos delegados já eleitos na convenção, ele é virtualmente o candidato escolhido do Partido Democrata, a menos que voluntariamente abra a mão do posto. Segundo, porque seria necessário escolher desde logo um substituto. Afinal, não faria sentido tirar o principal concorrente de Trump do páreo e deixá-lo flanando por dois meses na corrida presidencial, enquanto os democratas se engalfinham numa disputa fratricida pela indicação à presidência. Terceiro (e mais importante), porque ninguém sabe se, mesmo com outro candidato, seria possível bater Trump na disputa em novembro.
Obviamente, o melhor cenário seria Biden comprovar, de forma cabal, que o debate de quinta passada foi só um mau momento e que ele está plenamente apto, física e mentalmente, a disputar um novo mandato como presidente. Esse cenário, no entanto, parece ser o mais difícil de se concretizar. Dada a situação, os democratas fatalmente serão forçados a escolher um substituto para o atual presidente. Se mudar o candidato a essa altura seria um long shot, manter Biden como candidato seria um no shot.
Seja lá o que acontecer, todas as pessoas que possuem o mínimo compromisso com a democracia permanecerão os próximos meses numa longa e silenciosa agonia, com a respiração presa e o terço na mão. Afinal, não é somente o destino dos Estados Unidos que está em jogo.
É o destino do mundo inteiro.
E já que a idade avançada tornou-se uma questão política, vamos de Cassiano para desopilar um pouco…
Todo mundo fala que a idade traz sabedoria, mas a mim só traz cabelos brancos.
E já que hoje se completam 30 anos do Real, nada melhor do que recorrer ao clássico do Pink Floyd…
Precisando de dinheiro, fale comigo. Eu também não tenho, mas pelo menos a gente desabafa.