A âncora cambial

Quem é tem um pouco mais de idade, deve se lembrar dos tempos pré-1994, quando você tinha que levar a cada dia uma soma de dinheiro maior para comprar o lanche da escola. Desde o Real, essa realidade acabou. Bem, acabar, não acabou. Mas pelo menos os aumentos nos preços das mercadorias ficou mais espaçado.

Já escrevi aqui sobre a grande sacada do Plano Real, que conseguiu resgatar a moeda como referência de valor para uma população acostumada a cortar zeros à direita de dois em dois anos. A ressurreição do dinheiro como unidade de troca foi o primeiro passo para estabilizar a economia do país. Falta explicar, no entanto, por que o Real não se tornou mais uma entre tantas moedas fracassadas no Brasil. A principal responsável pela façanha foi a chamada âncora cambial.

O termo âncora cambial encerra a utilização de uma variável econômica – o câmbio – como mecanismo de controle de preços (inflação). Em uma economia, digamos, “normal”, a taxa de câmbio, isto é, o preço da moeda local frente a outras moedas, reflete o valor do dinheiro do país, considerados, principalmente, a taxa de inflação doméstica, a produtividade da economia e também a credibilidade do governo quanto à garantia do poder de compra da moeda.

No entanto, a taxa de câmbio pode ser manipulada pelo governo. Basta, para isso, que ele intervenha no mercado. Se ele compra moeda estrangeira, força, por conseqüência, a desvalorização da moeda nacional. Isso porque a moeda estrangeira (normalmente o dólar) passa a ser um produto mais escasso. E, segundo a lei da oferta e da procura, quanto menos produto (moeda) no mercado, maior o seu preço. Por outro, quando o Governo vende moeda estrangeira, o efeito é justamente o inverso. O preço do dólar cai, pelo aumento da oferta, e o preço da moeda local sobe em relação a ela. Nos dois casos, a taxa de câmbio deixa de ser reflexo das condições macroeconômicas do país para ser uma variável controlada pelo Governo.

Quando o Plano Real foi instituído, temia-se que a cultura de reajustes quase semanais de preço pusesse tudo a perder. Que fez o Governo? Interveio de forma maciça no câmbio, levando, no limite, o dólar a valer menos de R$ 1 no início do plano (chegou a até R$ 0,82). Isso teve dois efeitos imediatos. Primeiro, tornou os preços de produtos importados mais baratos, de forma a inibir o aumento de seus similares nacionais. Segundo, mitigou o aumento dos preços vinculados a alguns índices de preço sensíveis à variação do dólar, como o IGP-M. Isso diminuiria os aumentos dos aluguéis e de alguns preços públicos, como a tarifa de energia.

Justamente pelo efeito de “segurar”, ainda que de forma indireta, os preços da economia, dá-se ao uso do câmbio para esse fim o nome de “âncora cambial”.

O problema, como todo mundo veio a descobrir mais tarde, é que a âncora cambial traz efeitos colaterais nefastos para a economia em geral. Primeiro, destrói o parque industrial do país em duas frentes: nas vendas internas e nas exportações, pelo aumento relativo dos preços praticados. Segundo, pelo aumento exponencial das importações, a balança comercial se desequilibra, abrindo um rombo nas contas externas. Com isso, o país começa a ficar cada vez mais dependente de entrada de dólares para manter equilibrado o balanço de pagamentos. E aí vale tudo: chamar capital volátil para investir em bolsa, zerar impostos para estrangeiro que investe em títulos do governo, e por aí vai.

Assim como o roteiro inicial, o final da história é bem conhecido: mais cedo ou mais tarde, o país fica sem dólares para fazer frente ao escoadouro de moeda estrangeira que sai do país. O resultado é uma maxidesvalorização da moeda, o que desarruma a economia e, depois, aumenta a inflação, precisamente aquilo que a âncora cambial queria controlar.

Esse filme o país já viu. Espera-se, apenas, que ninguém esteja pensando a sério em reprisá-lo.

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