Recordar é viver: “Juninho Pernambucano, o homem”

E hoje completam-se 50 primaveras daquele que, depois de Edmundo, foi o maior ídolo contemporâneo do Vasco da Gama: Juninho Pernambucano.

Para não deixar uma data tão especial passar assim batida, vamos rememorar um post do começo da década passada, quando o Reizinho da Colina acabara de regressar ao time.

É o que você vai entender, lendo.

Juninho Pernambucano, o homem

Publicado originalmente em 8.6.12

Para quem está acostumado a ver a seleção capengando contra seleções como a Bósnia ou o Gabão, e em que os “craques” dos times não raro tornam o noticiário esportivo uma sublegenda da seção policial, saber que existe jogando no país um jogador como Juninho Pernambucano representa uma lufada da esperança.

No Brasil, a capacidade da cartolagem e do marketing esportivo em criar artificialismos é tão grande que certas vezes a constatação do real adquire feições mágicas. Houve um tempo em que se acreditava ser possível jogar futebol sem negros. Foi quando o time do Vasco acabou com essa imbecilidade, construindo um time de mulatos incapaz de ser parado pelos outros times cariocas.

Ironicamente, é novamente no Vasco em se que descobre que, dentre os jogadores de futebol, ainda é possível haver honra e dignidade. Tudo isso numa época em que o modelo de futebol dominante diz que jogar bola até ajuda, mas é menos importante do que participar de um desfile de moda ou de um comercial de TV (com tênis da Nike, de preferência).

Juninho iniciou sua carreira no Recife, jogando no Sport. No ano seguinte, foi contratado pelo Vasco. Depois de uma temporada ruim em 1996, foi peça fundamental na conquista do Brasileiro de 1997 e da Libertadores de 1998. Na final do mundial daquele ano, não custa lembrar que foi dele o gol de empate contra o Real Madrid (um golaço).

Depois de ganhar seu segundo título nacional no ano 2000 com o Vasco, Juninho decidiu que era tempo de dar um basta a um time (des)mandado por Eurico Miranda. Entrou na justiça, conseguiu o passe livre e foi para a França. Ao sair, repetiu uma promessa de 11 em cada 10 jogadores que vão para o exterior e adicionou-lhe outra, mais arriscada: “Só voltarei ao Brasil para jogar no Vasco e, ao Vasco, só voltarei quando Eurico Miranda sair”.

À primeira vista, parecia maluquice. Sair de um time que ganhara dois títulos nacionais, um da Libertadores, além do Rio-São Paulo de 1999 e da Mercosul de 2000 para chegar no Lyon, um time de quinta categoria que jamais conquistara coisa alguma. Fora isso, dizer naquela época que só voltaria ao Vasco quando Eurico saísse significava praticamente dar adeus ao Brasil. Para todo o mundo esportivo, Eurico só sairia do Vasco se fosse para ir a um único lugar: a cova.

Mas Juninho sabia o que estava fazendo. O Olympique Lyonnais, um pária do futebol francês, chegaria ao vice-campeonato no ano seguinte (2001). A partir de 2002, não teve pra ninguém. Foram sete títulos consecutivos (2002-2008). Todos com Juninho no time. Juninho conseguiu ainda levar o time várias vezes à fase de mata-mata da Champions League, alcançando até mesmo a semifinal uma vez, fazendo frente a potências européias como Bayern, Manchester e Barcelona.

Curiosamente, ao sucesso no clube não correspondeu o reconhecimento na seleção brasileira. Juninho sempre era esquecido e, mesmo quando convocado, ficava na reserva. Felipão esqueceu-o em 2002 e Parreira teve a cara de pau de deixá-lo no banco em 2006. Depois do fiasco, contrastando com as declarações pasteurizadas dos demais jogadores, disse algo assim: “Foi um fracasso. Agora é apostar nos que ainda vão ficar e nas novas caras que vêm por aí”. Ao que o repórter perguntou: “E você, Juninho, se enquadra em qual grupo?”. Sem pestanejar, ele disparou: “Nos que vão sair. E, infelizmente, vão sair marcados com essa mancha”.

Em 2009, para espanto geral, Eurico finalmente perderia uma eleição no Vasco. Já cansado da rotina de um time no qual ganhara tudo que havia a ganhar, Juninho decidiu voltar ao Vasco. Não só cumprira a promessa (coisa que quase nenhum jogador fez), como deixou atônito a todos ao acertar seu salário com o time carioca: um salário mínimo. Isso mesmo. Um mísero salário mínimo, para um dos maiores meios de campo da atualidade.

Como ele mesmo fez questão de explicar, ele saíra do time como ídolo. Já com 36 anos, sabia que seu rendimento não seria o mesmo. Não queria, portanto, tornar-se um estorvo para o time, recebendo o maior salário do elenco sem eventualmente poder corresponder em campo. Se tivesse que sair de novo, queria sair pela porta da frente, não como um ex-jogador em atividade que se aproveitou da paixão da torcida para enriquecer os bolsos.

Quando Ronaldinho saiu do Flamengo, todo mundo ficou espantado com sua rápida contratação pelo Atlético-MG. O que pouca gente sabia é que, como revelou Bruno Voloch, Ronaldinho não era a primeira opção do time mineiro. Era Juninho. Mesmo com os salários atrasados, Juninho repetiu o que já dissera mas pouca gente entendera: no Brasil, só jogaria pelo Vasco ou pelo Sport. E por mais nenhum time.

Torcer por Juninho Pernambucano tornou-se uma das poucas coisas que se pode fazer no futebol sem correr o risco de passar recibo de idiota, admitindo que passaram tal recibo aqueles que acreditaram que um ataque formado por Ronaldo e Adriano poderia levar o Brasil ao hexa em 2006, ou os que acreditaram quando Ronaldinho Gaúcho beijou a camisa na sua chegada ao Flamengo.

Juninho pode não ter sido o maior craque da história da seleção. Mas, em termos de hombridade, muita água haverá de passar até surgir outro igual. Feliz do time que o tem no elenco.

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Trilha sonora do momento

Hoje é aniversário da cantora que, possivelmente, é a mais subestimada e não reconhecida da MPB.

E ela atende simplesmente pelo nome Joyce.

Talvez porque a maior parte das composições dela acabaram fazendo mais sucesso na voz de outros.

Aqui vai talvez a mais famosa, na voz da própria Joyce, numa singela homenagem do Blog a ela.

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Pensamento do dia

O seu sistema nervoso sempre vai preferir um caos familiar a uma paz que lhe pareça estranha, a menos que você se condicione a escolher diferente.

#FicaaDica

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O surgimento do Deepseek, ou Uma nova batalha que se avizinha

Quem não entende de informática ou não acompanha mercado financeiro deve ter passado batido, mas nesta semana um verdadeiro terremoto balançou as estruturas mundiais, a ponto de indicar inclusive mudanças na Guerra Fria 2.0 travada entre os Estados Unidos e a China. O terremoto atende pelo nome de “Deepseek” (“Busca Profunda”).

Até pouco tempo atrás, o reino da Inteligência Artificial era dominado pelos EUA. A Nvidia – uma empresa originalmente especialista em fabricar placas de vídeo e desenvolver jogos de videogame – tornou-se de maneira quase supersônica a empresa mais valiosa do mundo. Tudo porque os seus chips eram a principal componente da corrida da IA.

Segundo se pensava até a semana passada, nenhum outro país poderia competir com os americanos caso eles detivessem o monopólio dos chips responsáveis pelo processamento da Inteligência Artificial. Por isso mesmo, desde o governo Biden, foi proibida a exportação de chips inferiores a 3 nanômetros para a China. A idéia, por óbvio, era impedir que os chineses tivessem acesso a esse tipo de hardware e, com sua inesgotável capacidade de mão de obra, conseguissem mimetizar o produto a ponto de fabricar um chip igual para chamar de seu.

O problema, como agora se descobriu, é que os estadunidenses estavam lutando a guerra passada. Tal qual a secular briga entre IBM e Microsoft, o que estava desenhada era uma luta entre hardware (os chips da Nvidia) e o software (o programa Deepseek). E, assim como nos anos 80, a vitória foi a do software. O que o programa chinês demonstrou foi que é possível construir um sistema de Inteligência Artificial superior com equipamentos – ao menos em tese – de capacidade inferior. Tudo depende da forma com a qual a arquitetura do modelo foi desenhada.

Apenas para se ter uma idéia da mudança de paradigma embutida na aparição do Deepseek, estima-se que ChatGPT, por exemplo, consumiu US$ 100 milhões de dólares e 16 mil chips especializados da Nvidia na sua “produção”. Já o Deepseek – que é gratuito, ao contrário do ChatGPT – consumiu menos de US$ 6 milhões e apenas 2 mil chips. Como se isso não bastasse, o desempenho apresentado pelo programa chinês tem se mostrado superior ao seu congênere norte-americano.

Não foi por acaso, portanto, que as ações da Nvidia despencaram na segunda-feira, fazendo desaparecer meio trilhão de dólares de investidores em apenas um pregão de bolsa de valores, naquela que é, até agora, a maior destruição de riqueza da história do capitalismo em um único dia. O “Sputnik moment” de segunda-feira abalou o mercado não apenas por demonstrar que modelos de alta performance podem ser desenvolvidos com recursos limitados, mas também por sugerir que a inovação nessa seara pode vir de regiões e empresas consideradas menos competitivas no cenário global.

Engana-se, porém, quem pensa que a coisa pára por aí. O principal objetivo da corrida pela IA não é econômico. É militar. Drones guiados por humanos “lutando” na Guerra da Ucrânia são apenas o começo. Os caças da próxima geração não serão pilotados por seres humanos, mas por máquinas. A guerra do futuro não será muito diferente daquela retratada em filmes como Exterminador do futuro. Serão máquinas contra máquinas. E, como de hábito, quem detiver mais base industrial vai ser a potência militar dominante. A China deu o primeiro tiro e saiu na frente.

Como reagirão os americanos?

Aguardemos as cenas dos próximos capítulos.

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Trilha sonora do momento

E nessa semana sopra velinhas o grande menestrel das Alagoas, o mestre Djavan.

Para homenageá-lo, uma das minhas preferidas dele (e são muitas), também porque ladeado por outro mestre da arte, Stevie Maravilha.

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Pensamento do dia

Se você fizer as escolhas mais fáceis agora, sua vida no futuro será bem mais difícil.

#FicaaDica

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Respeitando o estagiário

Hoje em dia isso não existe mais, mas houve um tempo em que boa parte das receitas dos escritórios de advocacia provinha da representação de outros escritórios, bem maiores, localizados nos grandes centros do país (Rio e São Paulo). Numa época em que nem se pensava em digitalização dos processos, o exercício da advocacia era quase artesanal: o sujeito fazia as petições por email, imprimia e ia protocolizar na vara onde o processo corria. Nesse meio tempo, conversava com o assessor, o diretor de secretaria e, às vezes, até com o responsável pela unidade jurisdicional. Nos “pequenos grandes” centros – como as capitais do Nordeste, por exemplo -, não era raro encontrar um advogado que conhecesse até a família da maioria dos juízes e desembargadores do estado.

Por isso mesmo, era muito comum um advogado em início de carreira abrir uma quitanda na sua freguesia, ir ao Rio ou a São Paulo para cursar alguma pós-graduação por lá e, com os contatos que fazia, regressava a sua terra natal para prestar serviços de representação advocatícia. Para as empresas que contratavam os escritórios dos grandes figurões do país para representá-las, o negócio também era vantajoso. Afinal, saía muito mais barato pagar um trocado mensal a um advogado no Nordeste do que pagar o deslocamento de um advogado paulista a alguma capital litorânea. Além dos próprios custos da viagem (passagem e hospedagem), essa galera costuma cobrar por hora trabalhada. E, como você pode imaginar, cada hora de uma figura dessas custa uma baba de dinheiro.

O esquema de representação era simples. Imagine, por exemplo, uma grande empresa de telefonia, cujo escritório principal funcionava no Rio de Janeiro. Acionada por um consumidor no Recife, o grande escritório contratava algum advogado pernambucano para representá-lo. A este advogado competia apenas receber as petições por email e, na medida do possível, ir “despachar” o processo com o juiz responsável pela causa. Qualquer novidade no caso, ele imediatamente reportava ao escritório representado.

Foi esse o caso de Florêncio. Advogado de muito talento, muito novo foi a São Paulo, cursar mestrado e doutoramento na USP. Durante os anos de pós-graduação, construiu uma invejável rede de relacionamentos com algumas das maiores figuras da advocacia no Brasil. Quando regressou ao Ceará, Florêncio – com os amigos que fez nos grandes escritórios paulistas – era praticamente o único advogado representante das grandes empresas nacionais no estado.

Para ajudá-lo a lidar com tanta demanda, Florêncio foi buscar nos bancos da UFC um estagiário para chamar de seu. Raul era um sujeito de trato fácil, mas temperamento um pouco arisco. Rápido no raciocínio, costumava ser cáustico nas respostas, especialmente se alguém vinha tirar onda com ele. Não tardaria para o caráter irritadiço da figura não tardaria a ser testado no novo estágio.

Certa feita, o escritório de Florêncio foi designado para representar os interesses de uma grande empresa de telefonia. A causa já estava em curso, mas o escritório paulista queria porque queria fazer com que o processo fosse encerrado logo. Não que o valor em jogo fosse muito grande, mas era o tipo do erro bizarro que, caso se tornasse conhecido, atrairia toda espécie de mídia negativa que você possa imaginar.

Para tentar encerrar logo o caso, o escritório mandou uma petição a ser protocolizada, na qual propunha a designação de uma audiência de conciliação entre as partes. A idéia era dar logo um “cala-boca” pro autor e, assim, evitar alguma “propaganda” vexatória para a empresa. Sem pestanejar, Florêncio assinou a peça e despachou Raul para o fórum, com a missão de protocolizar a petição. No dia seguinte, Florêncio iria lá para despachar o pedido com o juiz.

Ulysses era o advogado paulista responsável pelo caso e tinha pressa. Pegou o telefone e discou para o escritório de Florêncio. O dono do escritório estava em reunião, e coube a Raul atender o telefonema:

“Boa tarde, quem fala?”, perguntou Ulysses.

“Boa tarde. Aqui quem fala é Raul”, respondeu.

“Boa tarde, Raul. Eu gostaria de falar com o Dr. Florêncio, por favor?”

“O Dr. Florêncio está em reunião. O senhor gostaria de deixar recado?”

“Não, eu preciso muito falar com ele sobre um processo, da empresa tal”, insistiu Ulysses.

“Eu sei qual é esse processo, Dr…”, tentou explicar Raul. Mas, antes que ele terminasse, Ulysses perguntou:

“Você é o quê?”

“Eu sou estagiário do Dr. Florêncio”, respondeu modestamente Raul.

Como humildade é coisa desconhecida para advogado de grande escritório, paulista ainda por cima, Ulysses passou a tratar Raul com a ignorância que pressupunha que ele tinha:

“Olha, não sei se você está sabendo, mas eu enviei uma petição que era urgente para ele protocolizar pra mim. Aliás, você sabe o que é uma petição?”, indagou Ulysses, com a empáfia típica dos idiotas que se sentem superiores.

O sangue de Raul ferveu na hora, mas sua resposta irônica conseguiu chegar à boca antes do xingamento:

“Olha, petição eu não sei, mas o vocábulo petição vem do latim petitio, geralmente utilizado em sua forma complexa – petitionis. É comum ele ser usado no caso nominativo, embora não seja raro vê-lo também no acusativo”, ensinou Raul.

E foi assim que Ulysses passou a respeitar os estagiários dos escritórios do Nordeste…

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Trilha sonora do momento

Essa vai pra quem acreditava ingenuamente que o Nero Laranja iria “moderar” após assumir de novo a Casa Branca…

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Pensamento do dia

Viva como se você fosse morrer amanhã. Aprenda como se você fosse viver para sempre.

By Mahatma Gandhi

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Recordar é viver: “Um mundo difícil”

Oito anos depois, é triste constatar que nada mudou em relação à análise então feita.

Aliás, se nós formos olhar bem, é possível até concluir que a situação piorou de lá pra cá.

É o que você vai entender, lendo.

Um mundo difícil

Publicado originalmente em 22.12.16

Trump presidente dos Estados Unidos. Putin tentando ressuscitar a Grande Mãe Rússia. A Europa infestada de partidos de extrema-direita pregando abertamente a xenofobia. Um caos econômico que parece não ter mais fim. E a pergunta que toda a gente deve estar se fazendo no final deste ano é: o que há de errado com o mundo?

É verdade que o mundo sempre viveu fases cíclicas: uma hora estava bem, outra estava mal, outra hora, ainda, estava pior. Altos e baixos, subidas e descidas não são exatamente novidade no cenário global. Para quem já passou por II Guerras Mundiais, duas crises do petróleo, pestes de toda a sorte, o panorama atual nem chega a ser dos mais apavorantes, é verdade. Mesmo assim, há algo de particularmente inquietante nos dois lados do Equador.

Em primeiro lugar, há um inverno econômico que promete rivalizar com as maiores crises que o capitalismo já experimentou. É certo que se evitou o desastre de uma nova depressão à la 1929 depois da quebra do Lehman Brothers, mas as perspectivas para a Economia estão longe de ser animadoras, aqui e alhures. Bancos Centrais do mundo inteiro pisam no acelerador por meio de políticas expansionistas que fariam corar o mais esquerdista dos socialistas contemporâneos. Ou alguém por aí vai dizer que imprimir dinheiro a rodo e praticar taxas de juros negativas representa alguma coisa da doutrina liberal?

Em segundo lugar, há uma tendência generalizada de repúdio à política. Somente isso pode explicar como ambientes tão distintos quanto São Paulo e Estados Unidos tenham produzido fenômenos tão semelhantes: Donald Trump e João Dória. Não se pode sequer chamar esse movimento de “direitização” do mundo, porque não há como sustentar que um sujeito “de direita” possa ser contra o livre comércio e a favor de barreiras alfandegárias (Trump). Tampouco pode-se dizer que as jornadas de junho de 2013 ou mesmo o Occupy Wall Street possam, mesmo que vagamente, serem identificados com a “direita”. O que há, na verdade, é algo muito mais profundo. Não há somente um repúdio à política. Há um repúdio ao próprio establishment, do qual Hillary Clinton era talvez o exemplo mais emblemático.

É aqui provavelmente que os dois fenômenos encontram seu ponto de intercessão. De certo modo, a crença de um mundo sem fronteiras, com ampla liberdade de movimentação de pessoas, parece ter se perdido e sua recuperação não está à vista. Quando se vê os britânicos votando pela saída da União Européia e os americanos elegendo um sujeito que promete fazer tudo ao contrário do que os liberais clássicos defendem, é porque alguma coisa de errado se passou com a tal da “globalização”. Na verdade, a débâcle econômica é que está conduzindo à descrença geral com o “sistema” (ou establishment, como queiram).

Nada que não pudesse ser antecipado. A rigor, talvez fosse até de se esperar que algo assim acontecesse. A integração econômica e a ampla liberdade de movimentação de pessoas dependem de um equilíbrio virtualmente impossível entre fluxo de capitais e aumento de produtividade. Na medida em que se transferem indústrias de países mais desenvolvidos para países em desenvolvimento, seria necessário que os trabalhadores desempregados (já devidamente qualificados) fossem realocados em atividades de menor exigência e nas quais suas habilidades pudessem render ($$$) mais e que os empregados nos países em desenvolvimento recebessem a qualificação necessária para poderem trabalhar menos ganhando mais (a tal da “produtividade”).

Pois não aconteceu nem uma coisa nem outra. Os trabalhadores dos países desenvolvidos ficaram simplesmente desempregados, ao passo que os empregados dos países em desenvolvimento continuaram a ser explorados em seus trabalhos braçais a um custo vil. Enquanto isso, quem aplicava na ciranda financeira continua a sorver quantidades boçais de dinheiro sem empurrar um prego numa barra de sabão. Não por acaso, o número de milionários e até de bilionários só aumenta, mesmo em tempos de crise, e é recorde em toda a história da humanidade.

Tudo considerado, não chega a ser nenhuma surpresa a eleição de figuras como Donald Trump ou o voto pelo Brexit no Reino Unido. O povo em geral está fulo da vida com o “sistema”. E a melhor forma expressar essa raiva é fazendo tudo ao contrário do que o pessoal do establishment quer. Não é demais recordar que, nesses dois casos, a mídia jogou claramente para um dos lados (Hillary Clinton, nos EUA, e a favor da permanência da Grã-Bretanha na UE), mas o povo em sua maioria foi para o outro.

Não há como profetizar com razoável grau de segurança um grande cataclismo no sistema econômico mundial que conduza a rupturas políticas de toda ordem terminando em guerras, se for o caso. A única certeza é de que, diferentemente do mundo pós-II Guerra (equilibrado entre duas superpotências) e do mundo pós-Guerra Fria (estruturado ao redor de uma única superpotência), o mundo de agora parece um amontoado de cacos absolutamente dispersos entre si. É como se estivéssemos diante de um enorme quebra-cabeças cujas peças pertencem a paisagens diferentes; não haverá força no mundo capaz de uni-las.

A verdade – é triste dizer – é que aquele mundo de 1945 ou de 1991, com todas as dificuldades que lhe eram intrínsecas, representa apenas um retrato amarelado na parede. O mundo de hoje, com todas as cores vivas que o 4k full HD permite, é um mundo muito mais difícil.

Como vamos conviver com ele?

Só Deus sabe.

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