Recordar é viver: “A corrupção no setor privado”

Numa semana que a PF estourou a “boca” que fazia do balanço das Lojas Americanas uma sucursal da Casa da Mãe Joana, talvez valha a pena relembrar um texto de mais de dez anos atrás, que aborda lateralmente esse assunto.

É o que você vai entender, lendo.

A corrupção no setor privado

Publicado originalmente em 6.8.13

Todo mundo deve estar acompanhando no noticiário o imbróglio envolvendo a empresa Siemens e o Estado de São Paulo. Após firmar um acordo de leniência com o Cade, a Siemens teria se comprometido a entregar um esquema de cartel pelo qual, ao lado de suas concorrentes, combinava preços e dividia obras de modo a tirar do Estado a maior quantidade de dinheiro possível.

Os detalhes do caso ainda não são inteiramente conhecidos, pois o processo corre em sigilo. Mas se há algo sobre o qual ele pode, desde logo, é desmitificar uma lenda sobre algo que muita gente boa não lembra ou se esquece de observar: a de que o setor privado é mais “puro” do que o setor público.

Do ponto de vista da natureza humana, o raciocínio nunca fez muito sentido. Afinal, se a corrupção é do homem, ela pode atingir tanto quem esteja no setor privado como quem esteja no setor público. A menos que se queira entender que os ocupantes de cargos nas carreiras privadas formam alguma espécie de casta sobre-humana, não há, em princípio, razão para acreditar que nelas haverá honestidade de conduta maior do que aquela presente nas carreiras públicas. Exemplos espalhados pelo mundo não faltam: desde o caso da quebra da Enron, passando pela pirâmide de Bernnie Maddoff até chegar na farsa das agências de classificação de risco, só para citar os casos mais recentes.

Uma das hipóteses a justificar a noção generalizada de que a corrupção no setor público é maior do que a no setor privado é o fato de que, no primeiro caso, a atração da imprensa é muito maior. O apelo natural do uso indevido “do seu, do meu, do nosso dinheiro” sempre dá uma boa manchete. Toda vez que um malandro do governo é flagrado com a boca na botija, espraia-se um sentimento generalizado de indignação, como se o cidadão houvesse acabado de ser roubado.

Curiosamente, pouca gente se dá conta de que, se há corrupção do lado do governo, há um agente corruptor por trás. Enquanto o primeiro normalmente cai em desgraça e é demitido e/ou enxovalhado, os corruptores permanecem nas sombras. É justamente isso que explica o fato de que, entra governo, sai governo, e os escândalos mais ou menos se repetem.

Na verdade, por definição a corrupção no governo tende a ser menor do que a no setor privado. Isso porque a natureza pública dos recursos impõe uma série de restrições que tornam mais difícil a tarefa de desviar dinheiro. Enquanto a ordenação de qualquer despesa no setor público tem de encontrar, por mínimo que seja, algum fundamento legal, o gasto no setor privado não obedece a qualquer critério preexistente, senão a própria vontade do dono do negócio.

Fora isso, os mecanismos de fiscalização são muitos e de vária ordem, em níveis diferentes do Estado. Por exemplo: uma verba federal destinada à construção de uma creche numa cidade do interior é fiscalizada pelo Tribunal de Contas dos Municípios, pelo Tribunal de Contas da União e pela Controladoria-Geral da União. Isso tudo e mais a Câmara de Vereadores e o Ministério Público, estadual e federal. Numa grande empresa, o máximo de fiscalização será aquela do Conselho Fiscal e alguma eventual auditoria contratada por fora.

Pra piorar, as irregularidades cometidas dentro de uma grande empresa tendem a ficar entre quatro paredes. Se um agente público superfatura uma obra, isso constitui crime e o sujeito será processado pelo Ministério Público. Se um agente privado paga a mais por uma obra, no máximo será demitido, pois, em princípio, não há qualquer bem público violado que justifique, por exemplo, uma intervenção do MP. Da mesma forma, se uma banca de concurso de professor de uma faculdade pública resolve favorecer um candidato, os prejudicados podem eventualmente anular a decisão judicialmente. Se a mesma coisa acontecer numa faculdade privada, os prejudicados poderão no máximo sentar no meio-fio e chorar. No setor privado, a cor dos olhos pode ser fator decisivo para a contratação, independentemente do mérito do candidato.

Por isso, desconfie dos ultraliberais que defendem coisas como “Estado mínimo” ou “menor intervenção do Estado na economia”. No final das contas, eles querem apenas operar livremente e aumentar o espaço de imunidade para suas tramóias. Longe dos olhos do público, tenebrosas transações se escondem por trás das cortinas. É o que o caso da Siemens está a demonstrar.

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Trilha sonora do momento

Parece cocaína

Mas é só tristeza…

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Pensamento do dia

Eu continuo sendo apenas um palhaço, o que já me coloca em nível bem mais alto do que o de qualquer político.

By Charles Chaplin

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“A vida como ela é”, ou O golpe das Americanas

A piada velha, mas a ocasião exige que se a reconte.

O sujeito chega para três profissionais e pergunta:

“Quanto é 2+2?”

O matemático responde sem pestanejar: “4”. O economista titubeia: “Bem, ceteris paribus, levando em conta o sofisma da composição, você pode teoricamente aceitar que o resultado do somatório de 2+2 seria igual a 4″. Já o contador manda na lata: “Depende. Quanto você quer que dê?”

Tal é a conclusão de quem assistiu ao noticiário hoje, com a deflagração da operação Disclosure, da Polícia Federal. Valendo-se da delação de ex-diretores, a PF revelou detalhes chocantes do esquema de fraudes que levou as seculares Lojas Americanas, um dos gigantes do varejo do país, à beira da falência, naquele que já é o maior escândalo corporativo da história do Brasil.

Segundo as investigações, diretores e executivos da empresa fraudavam descaradamente o balanço. Quando chegava a hora de divulgar ao mercado os resultados trimestrais das Americanas, os empresários trocavam emails e mensagens por WhatsApp sobre a conta de chegada que teriam que produzir para divulgar lucro no lugar de prejuízo. Nas planilhas, elaboravam-se duas colunas. Na primeira, estavam os valores da “vida como ela é” (reais). Na segunda, os valores da vida como ela deveria ser (com os números fraudados).

Não que isso seja novidade. Muito pelo contrário. Desde que o antigo CEO da empresa, Sérgio Rial, veio a público informar que existiam “inconsistências contábeis” – tucanaram a fraude – no balanço das Americanas, sabia-se que havia caroço nesse angu. A fraude começou há vinte anos e, numa conta de padaria (que provavelmente fazem contas muito melhores do que o pessoal das Americanas), diretores e executivos embolsaram ao redor de R$ 700 milhões em luvas e bônus por lucros que jamais foram alcançados. Tudo isso sob as barbas do trio formado por Jorge Paulo Lehman, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira, bajulados e paparicados como “lendas” do tal “mercado”.

Em um país que fez do absurdo seu amigo íntimo, pode parecer que a fraude das Americanas é apenas mais um daqueles casos menores, que podem ser resolvidos com um pedido de desculpas geral e alguma multa pecuniária aos envolvidos. Não é. Trata-se do maior crime já cometido contra o mercado de capitais na história do Brasil. Tratando-se de um mundo que gira basicamente em torno de um negócio chamado “confiança”, a pior coisa que poderia acontecer seria deixar tudo por isso mesmo e ver os (ir) responsáveis por esses delitos livres, leves e soltos.

Pode parecer trivial, mas é profundamente curioso observar como uma fraude desse tamanho gera tão pouca repercussão na sociedade. São mais de R$ 20 bilhões. Para efeito de comparação, estima-se que o Mensalão tenha feito girar cerca de R$ 200 milhões em propina (1% do rombo das Americanas). O Petrolão, por sua vez, teria desviado cerca de R$ 2 bi em propinas (10% da fraude de agora). E não há ninguém que esteja pensando em sair às ruas para protestar pela prisão desses crimonosos.

Sempre se poderá argumentar que, no caso do Mensalão e do Petrolão, desviou-se dinheiro público, enquanto, no caso das Americanas, o dinheiro é todo privado. O argumento, contudo, é profundamente torto. Primeiro, porque crime é crime, independentemente de quem seja a vítima do desvio. Segundo porque, embora não se trate imediatamente de prejuízo ao cidadão que não tem ações da empresa, a crise provocada pela débâcle das Americanas afetou todo o mercado de crédito brasileiro. Acredite: se você hoje paga juros altos no seu cartão de crédito, pelo menos parte disso se dá por conta do baque que os bancos sentiram ao fazer empréstimos de olhos fechados a uma empresa que estava podre em suas contas.

Quando aconteceu algo do gênero nos Estados Unidos, a Enron não somente foi à falência, como a empresa responsável por auditar seu balanço (Arthur Andersen) foi liquidada para cobrir os prejuízos dos acionistas minoritários. O dono da companhia, Kenneth Lay, pegou 185 anos de cadeia. Seu gerente de operações financeiras, Jeff Skilling, levou 45 anos de cana nas costas. Na esteira do escândalo, o Congresso norte-americano aprovou a Lei Sarbanes-Oxley, estabelecendo normas rígidas para transparência dos balanços de companhias abertas e determinando a responsabilização criminal dos administradores em casos de fraudes.

Que a Operação Disclosure seja o primeiro passo na transformação do mercado de capitais brasileiro, fazendo com que casos como o da Enron passem a ser o “modelo de tratamento” de bandidos que embolsam milhões, enquanto menoscabam a boa-fé dos acionistas minoritários.

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Trilha sonora do momento

E agora essa?

Será que não basta de tanto gorila golpista na América Latina?

#ProntoFalei

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Pensamento do dia

Se você é a favor de uma ditadura militar, por que não se comporta como se estivéssemos em uma e pára de emitir opiniões?

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Trilha sonora do momento

E já que estamos no Dia de São João…

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Pensamento do dia

Na vida, seja igual a um pinguim: mantenha a compostura, deslize elegantemente pela vida e evite dar de cara com paredes de vidro.

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Recordar é viver: “Talento x censura”

E como nesta semana completaram-se oito décadas da feliz data em que veio ao mundo Chico Buarque de Hollanda, nada melhor do que recordar a efeméride de dez anos atrás.

É o que você vai entender, lendo.

Talento x censura

Publicado originalmente em 18.6.14

Já que hoje é aniversário do Chico Buarque, me veio à cabeça uma das grandes polêmicas acerca da carreira desse grande artista.

Como todo mundo sabe, Chico foi um dos grandes contestadores do regime militar. Submetido a uma censura atroz, o compositor carioca teve 9 em cada 10 músicas censuradas pelo regime antes mesmo de serem lançadas. As demais eram censuradas uma semana depois, quando o povo deixava entrever para os imbecis da censura a crítica política escondida nas entrelinhas de suas composições elegantes e de sua fina ironia.

Desde sempre, o embate entre o talento dos artistas e a perseguição da censura estava destinada à vitória dos primeiros. Afinal, não havia como comparar a inteligência de gênios da arte como o próprio Chico, Gil e Caetano à incapacidade cavalar da burocracia responsável por “fiscalizar” as composições por eles produzidas. Uma vez na boca do povo, as letras se espalhavam, e a tarefa de proibir a execução pública das músicas tinha resultado nulo, pois não havia como fiscalizar o que se passava dentro de todas as casas. Foi o que aconteceu, por exemplo, com Cálice, uma referência nem um pouco suave discreta à própria censura (Cale-se).

O embate entre músicos e censura foi permanente enquanto durou a ditadura militar. Depois dela, os censores ainda conseguiram uma ou outra vitória esporádica no Governo Sarney – como a censura ao filme Stallone Cobra -, pois ela só veio a ser definitivamente abolida com a promulgação da Constituição de 1988.

Depois que os militares voltaram para as casernas, muita gente ficou a se perguntar se a perseguição não aguçara a criatividade dos artistas. Ou, por outro lado, se eles não tinham sido tão brilhantes no que compunham justamente porque era perseguidos. A essa dúvida acabou correspondendo o declínio criativo da maioria dos totens da MPB, Chico incluso, o que conduziu mesmo gente que não viveu aquele período a endossar a tese de que “música boa era quando tinha ditadura”.

Que a obra dos gênios contestadores da MPB daquela época não se compara à que veio depois de 1988, ninguém discute. A questão é: até que ponto a queda na produção pode ser atribuída ao fim da perseguição e ao da censura?

Chico Buarque é um dos que sempre rejeitou a associação. Para ele, uma coisa nada a tinha a ver com a outra. No limite, seria até mesmo um acinte imaginar que as composições produzidas naquele período devem sua existência à sanha perseguidora irracional de uma ditadura que via fantasmas em toda esquina. Pensando bem sobre o assunto, é difícil negar-lhe razão.

De fato, depois de 1985 Chico Buarque não compôs nada parecido a Vai passar, Apesar de você Jorge Maravilha. No entanto, o declínio de sua capacidade criativa deve ter uma razão muito menos conspiratória e mais prosaica do que imagina a maioria: a idade. Quando a ditadura tomou o caminho da roça, Chico Buarque já tinha quase 50 anos. Nem mesmo os gênios da música clássica, como Wagner e Beethoven, compuseram suas melhores obras depois de meio século de vida.

Na verdade, como o filho de Sérgio Buarque bem aponta, todo mundo deveria lamentar que o gênio desses artistas tenha sido limitado de forma tão feroz como aconteceu. Se Chico, Gil e Caetano tivessem vivido em um tempo de plena liberdade, não teriam que ter queimado tanta pestana pensando em como driblar a censura.

O raciocínio, na verdade, deve ser o inverso do que pensa a maioria: imagina só o que Chico Buarque e outros compositores não poderiam ter escrito se não houvesse a censura a lhes atazanar o juízo?

Não há, portanto, razão para querer atribuir  censura qualquer efeito colateral benéfico. Assim como a ditadura que a originou, a censura é um mal; um mal a ser combatido todo dia por quem gosta de boa música.

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Trilha sonora do momento

Entendedores entenderão.

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