Trilha sonora do momento

E como amanhã é Dia da Consciência Negra, nada melhor do que recordar o grande Marvin Gaye

Publicado em Trilha sonora do momento | Com a tag , , , | Deixe um comentário

Pensamento do dia

I was born to make mistakes, not to fake perfection.

Publicado em Pensamentos do dia | Com a tag , , , | Deixe um comentário

O piripaque do teto de gastos, ou A importância de uma âncora fiscal

Semana vai, semana vem, e a pauta econômica brasileira parece rodar como rosca espanada, sem sair do lugar.

Há aproximadamente quatro meses, Paulo Guedes veio a público reclamar de um “meteoro” nas contas públicas. Ao contrários dos filmes de Hollywood, a rocha espacial não era oriunda do espaço, mas do edifício defronte ao Planalto na Praça dos Três Poderes: o Supremo Tribunal Federal. Atendendo pelo nome de “precatórios”, as dívidas relativas a sentenças transitadas em julgado contra a União ocupariam R$ 89 bilhões no espaço do orçamento do ano que vem. Como a regra do teto de gastos limita a margem de manobra do Governo, Bolsonaro ficaria sem ter como pagar o seu substituto ao Bolsa-Família. Deu-se, então, o óbvio: entre a regra fiscal e o desejo de reeleição, dane-se a regra fiscal.

Tratava-se, como parece evidente, de um problema absolutamente contornável, fosse este um governo minimamente funcional.

Em primeiro lugar, comparar os precatórios a um evento interplanetário imprevisível soa, no mínimo, ridículo. Para que um precatório seja expedido, é necessário, antes, que o processo transite em julgado, ou seja, que da sentença não caiba mais recurso. E toda a gente sabe que, para que isso aconteça, tardam-se anos com os papéis transitando nos escaninhos da Justiça. Uma boa articulação com a Advocacia-Geral da União teria permitido pelo menos antecipar o volume da dívida projetada para o ano que vem, sem que a conta parecesse agora uma espécie de Poltergeist que surgiu do nada.

Em segundo lugar, o problema do Auxílio-Brasil não surgiu agora com os precatórios. Vem de muito antes. Desde pelo menos o meio do ano passado brigava-se a respeito do então chamado “Renda Brasil”, que não foi adiante justamente porque não se encontrava meios para compatibilizar o programa com o teto de gastos. Como a segunda onda da pandemia veio ainda mais forte do que a primeira, esse problema acabou sendo contornado pela prorrogação do estado de calamidade pública e do auxílio-emergencial. É dizer: o Governo teve quase um ano e meio para pensar numa solução definitiva e organizar a estratégia congressual para aprová-la. Uma vez que nada foi feito durante todo esse tempo, restou então a Paulo Guedes e Cia. fazer uma PEC às pressas para tentar encaixar o programa dentro do orçamento de 2022.

Desde que essa “solução” foi aventada, a galera do dinheiro grosso – também conhecida como “o mercado” – entrou em modo piripaque. Dólar e juros nas alturas, bolsa despencando 30 mil pontos em três meses e um salseiro sem tamanho do mundo das finanças. Afinal, querendo ou não, o que a tal “PEC dos Precatórios” faz, em suma, é abrir um buraco no teto de gastos.

E daí?

Daí que, com a quebra do teto de gastos, o país abandonou aquilo que os economistas costumam chamar de “âncora fiscal”.

Mas o que raios é “âncora fiscal”?

Em suma, podemos definir âncora fiscal como o conjunto de regras que assegura aos credores do mercado a solvência do Governo. Visto que os governos brasileiros historicamente são deficitários – isto é, gastam mais do que arrecadam -, resta basicamente dois caminhos para continuar honrando seus compromissos: ou você emite moeda (provocando inflação); ou você emite títulos (aumentando a dívida). Desde o Plano Real, a primeira opção tornou-se politicamente inviável. Restou, portanto, emitir títulos da dívida pública. Resultado: de 1994 até agora, saímos de uma dívida de aproximadamente 30% do PIB para mais de 90% hoje em dia.

Com uma dívida tão monstruosa, surge então o problema: como convencer os investidores a continuar comprando títulos de um devedor crônico? Se o sujeito continua gastando desmedidamente as suas fazendas, como acreditar que a dívida não continuará crescendo de forma insustentável até o ponto de tornar o devedor insolvente?

De 1999 até mais ou menos 2014, a resposta para esse problema atendeu pelo nome de “tripé macroeconômico”. Independentemente do tamanho da dívida, o Governo se comprometia com três coisas: ter metas de inflação; ter um câmbio flutuante; e, mais importante, ter metas de superávit primário (ou seja, excluindo-se os juros da dívida, o Governo prometia gastar menos do que arrecadava).

O funcionamento desse tripé era relativamente simples. As metas de inflação asseguravam o valor real da moeda e permitiam aos agentes econômicos planejar as suas finanças de acordo com a inflação projetada para o ano seguinte. Se as expectativas de inflação subissem, o Banco Central elevava os juros para trazer a inflação de volta pra meta. O câmbio flutuante absorvia os choques políticos e financeiros. Com grandes reservas em dólar, a subida do moeda americana diminuía o total da dívida líquida (que é a dívida bruta menos as reservas do Governo). Logo, mesmo com câmbio explodindo, ninguém ficava com medo de que o Governo ficasse sem condições de pagar suas dívidas. E as metas de superávit primário asseguravam que, pouco a pouco, o montante da dívida governamental seria reduzido.

Organizadas em conjunto, essas três regras permitiram a todos os governo, desde Fernando Henrique até Dilma, passando por Lula, a atravessar todas as intempéries da economia sem grandes dramas financeiros. Mesmo a grande crise de 2008, que levou o mundo financeiro à beira do desastre, provocou relativamente pouco impacto no Brasil. Tanto é que, nos dois anos seguintes, viu-se o PIB saltar a taxas chinesas de crescimento.

Todavia, com a débâcle generalizada do governo Dilma, o tripé macroeconômico foi para o buraco. A receita simples e segura de organização fiscal foi substituída pela tal “Nova Matriz Macroeconômica”. O resultado foi tudo aquilo que a gente viu.

Depois do impeachment, sem perspectiva de ver retomados os superávits primários tão cedo – o desastre provocado por Dilma Rousseff causou um buraco de quase 2,5% do PIB no orçamento – como organizar uma nova “âncora fiscal” para o país?

Michel Temer e seu ministro da Economia, Henrique Meirelles, acharam por bem desenhar a tal regra do “teto de gastos”, já explicada neste espaço inúmeras vezes. Congelaram-se as despesas do Governo em 2016 e, doravante, somente se poderia gastar aquele montante acrescido da inflação do período. Sem fazer qualquer julgamento de mérito acerca da regra, o fato é que o teto de gastos serviu ao seu propósito. O mercado acreditou na solvência do Governo, a inflação caiu e as taxas de juros despencaram à sua mínima histórica.

O piripaque do mercado financeiro com a furada do teto, portanto, tem menos a ver com a regra do teto em si e mais com o abandono puro e simples da única âncora fiscal de que o país dispõe no momento. Não se trata puramente de gastar mais R$ 50 bilhões com o aumento do Bolsa-Família (ou “Auxílio-Brasil”, como queiram). A questão é tirar a única regra constitucional que garante a solvabilidade do Governo sem colocar absolutamente nada no lugar dela. Sem um arcabouço que assegure aos credores a solvência da União, o mercado ficou literalmente sem pai nem mãe.

Se o Governo não tivesse gastado tanto tempo e energia com coisas tolas, e se Paulo Guedes fosse minimamente competente, o Brasil poderia ter discutido há mais ou menos um ano a mudança da regra do teto de gastos. Não faz sentido, por exemplo, que os precatórios sejam incluídos na regra do teto, porque não se trata propriamente de “despesa” da União, mas, sim, de pagamento de dívida judicial. Ora, se a regra do teto existe justamente para garantir o pagamento da dívida, por que razão o teto limita o pagamento de precatórios?

A exclusão dos precatórios da regra do teto teria liberado os mesmos R$ 89 bilhões prometidos com a PEC dos Precatórios, que, além da sua duvidosa constitucionalidade, contrata uma verdadeira bola de neve para os anos seguintes. Isso porque, aos precatórios que não serão pagos no ano que vem, somar-se-ão aqueles que não serão pagos em 2023, e assim sucessivamente, até que tenhamos uma dívida verdadeiramente impagável de títulos judiciais.

Um debate aberto e honesto sobre esse imbróglio teria poupado o mercado e o Brasil desse salseiro dos últimos meses, com regras sacadas da cartola em cima da hora, para atender simplesmente a interesses eleitorais do momento. O problema é que, para que isso tivesse acontecido, seria necessário que o governo como um todo trabalhasse. E trabalho, convenhamos, não é exatamente o forte desse governo…

Publicado em Economia | Com a tag , , , | Deixe um comentário

Trilha sonora do momento

E já que estamos em novembro…

Publicado em Trilha sonora do momento | Com a tag , , , | Deixe um comentário

Pensamento do dia

Fale com todos, divirta-se com muitos, confie em poucos e não dependa de ninguém.

#FicaaDica

Publicado em Pensamentos do dia | Com a tag , , , | Deixe um comentário

Xadrez 4-D, ou Os movimentos para 2022

Com atraso injustificável em relação à semana anterior, voltamos excepcionalmente nesta segunda-feira para apresentar o post da semana passada, de modo que os assuntos do nosso problemático quotidiano não fiquem perdidos no tempo e acabem por se tornar desinteressantes para o meu amigo leitor.

Há uma piada recorrente nestes tempos de TikTok segundo a qual alguns políticos jogariam o que os memes convencionaram chamar de “Xadrez 4-D”. Como nós só enxergamos e nos movimentamos em três dimensões – a quarta dimensão (tempo) somente seria observável por alguém que estivesse numa hipotética quinta dimensão -, a piada é a de que há pessoas que movimentam as peças do tabuleiro político de uma forma tão bizarra que os movimentos só fariam lógica se o xadrez estivesse sendo jogado em quatro dimensões. A intenção embutida no movimento aparentemente desconexo só seria revelada muitos lances à frente, em um grau de calculismo matemático de fazer inveja aos supercomputadores mais modernos. A “genialidade” do movimento, portanto, não poderia ser observada por nós, pobres mortais, que só vemos o basicão em três dimensões (largura, comprimento e profundidade).

Que é demasiado irônica para uma tese política, não resta a menor dúvida. Parece claro que os jogadores do tal Xadrez 4-D não estão a realizar nenhum movimento genial, mas tão-somente movendo as peças aleatoriamente com base no instinto, com pouco ou nenhum cálculo para os próximos movimentos. Antes de serem enxadristas, os sujeitos estariam mais para os pombos: quando disputam xadrez, derrubam as peças, defecam no tabuleiro e ainda saem por aí voando, gabando-se de ter ganhado o jogo.

No caso brasileiro, contudo, os pretendentes ao Xadrez 4-D parecem ser a moda do momento. Pelo menos quatro movimentos da semana passada indicam que ou toda a gente que analisa a política é absolutamente míope, ou então o pessoal anda movimentando as peças do tabuleiro político sem qualquer compromisso quanto ao resultado da partida. Vamos a eles:

1 – Bolsonaro e o PL:

Deputado de sete mandatos, com 28 anos de Câmara dos Deputados nas costas, Jair Bolsonaro elegeu-se abraçado à bandeira da “Nova Política”. Muitos erros e desvios de caminho depois, a história da carochinha que iludiu tanta gente parece ter definitivamente naufragado. O, digamos, “flerte” com o Centrão já havia evoluído para namoro e agora caminha para se tornar casamento de papel passado. Dois anos após ter se desfiliado do PSL, Bolsonaro declarou que vai se filiar ao PL, do notório Valdemar da Costa Neto. Mensaleiro condenado pelo Supremo Tribunal Federal, Valdemar ofereceu legenda ao presidente com vistas a incrementar a bancada de deputados nas eleições do ano que vem. O cálculo é simples: com mais deputados, vem mais fundo eleitoral. Com mais fundo eleitoral, vem mais dinheiro e mais influência no Parlamento, seja lá quem for o mandatário em 2023.

Se o cálculo para Valdemar da Costa Neto é evidente, para Bolsonaro a coisa não parece muito clara. Se o atual inquilino do Planalto pretende de fato ressuscitar a polarização contra o PT, vai ser difícil vender o discurso de que luta contra um “ex-presidiário” estando filiado a um partido presidido por um ex-condenado em definitivo por corrupção (coisa que Lula nunca foi). Somando-se a isso as rachadinhas de Fabrício Queiroz e os rolos envolvendo gente graúda do seu governo (vide o caso Covaxin), vai ser difícil querer disputar corações e mentes usando a temática da corrupção como mote.

Na melhor das hipóteses, a disputa vai ficar restrita a um campeonato de sujeira, pra saber quem consegue jogar mais lama no outro. Nesse caso, o mais provável é que o eleitor dê ambos por “sujos” e resolva o voto numa seara mais pragmática, como o desempenho econômico. Ponto, portanto, para o torneiro bissílabo de São Bernardo, que tem muito mais a apresentar nesse quesito do que Bolsonaro.

2 – Ciro x PDT:

Tudo na vida é pendular, menos o temperamento de Ciro Ferreira Gomes. Ele continua o mesmo desde sempre: irascível e inconstante. Ao saber que os deputados do seu PDT haviam votado a favor da emenda dos precatórios, Ciro rodou a baiana e colocou a sua candidatura em “suspensão”, seja lá o que isso signifique. Para o público externo, ficou a impressão de que ou os deputados do seu partido recuam e votam contra a PEC no segundo turno de votação, ou então Ciro abandona sua candidatura.

É bem provável que o movimento de Ciro tenha apenas sido um arroubo de retórica, típico de quem costuma bancar o valentão da boca pra fora, mas adora um arreglo conveniente por detrás das cortinas. O problema é que, da forma como a questão foi colocada, não há espaço para meio-termo: ou dá (os deputados rejeitam a PEC), ou desce (Ciro renuncia à candidatura). Se por acaso os deputados do PDT mantiverem o voto favorável à emenda governista, isso representará uma desmoralização completa de Ciro Gomes. Seguir adiante com uma candidatura nesses termos será, além de humilhante, inútil. Ou alguém aí acredita que Ciro poderia ser eleito depois de ver-se desmoralizado pela própria bancada e, pior, contradizendo a própria ameaça, mantendo a candidatura?

Por isso mesmo, muita gente boa enxergou nesse movimento uma forma nada elegante de Ciro encontrar uma desculpa para sair de campo e abandonar a disputa do ano que vem. Se for essa mesma a intenção, beleza; jogo jogado. Agora, se a idéia era emparedar a bancada federal do partido para pagar de bonito perante o grande público, a jogada pode muito bem se revelar desastrosa. Seja como for, Ciro parece ter comprado uma briga estúpida, com motivos nada claros, arriscando a coesão interna de seu próprio partido. Na melhor das hipóteses, ele perde: a bancada recua, mas as fissuras da briga cobrarão a fatura no ano que vem. Na pior das hipóteses, ele não só perde como ainda se vê obrigado a renunciar ao sonho presidencial.

Uma típica jogada, portanto, de Xadrez 4-D.

3 – A candidatura de Moro e o “Partido da Lava-Jato”:

“Quando morrer, vou colocar na minha lápide: ‘Não foi candidato'”.

Assim disse Sérgio Moro em outubro de 2019. Um ano antes, ele trocara a carreira de magistrado pela cadeira de Ministro da Justiça de Jair Bolsonaro. Seis meses depois, sairia dali atirando contra seu ex-chefe, acusando-o de querer interferir na Polícia Federal. Desde então, parecia escrito que a saga do juiz que fez aura como justiceiro da maior operação de combate à corrupção da história do país acabaria por desaguar na política. Não se sabe se o ex-magistrado já mandou encomendar o jazigo, mas parece já ter aprendido a primeira lição do bom político: nenhuma declaração anterior é suficientemente constrangedora se o sujeito tiver cara-de-pau.

Ao abandonar a magistratura e abraçar a carreira política, Sérgio Moro praticou o maior desserviço já “prestado” ao Judiciário nacional. Quem vai acreditar, daqui pra frente, que juízes à frente de grandes ações de combate à corrupção estão movidos pelo genuíno desejo de fazer Justiça, e não em busca de alguma vantagem posterior no mundo da política?

O que já havia se insinuado com Joaquim Barbosa, o relator do Mensalão, adquiriu ares de indiscutível desfaçatez pelas mãos de Sérgio Moro. Na época em que deixou o Supremo, muito se cogitou de uma possível candidatura do ex-ministro à presidência. Em favor do ex-ministro, registre-se que ele jamais se candidatou (pelo menos até o momento). Já Sérgio Moro não só foi ator decisivo no pleito de 2018 (mandando prender Lula esoltando a delação de Palocci às vésperas do primeiro turno), como ainda aceitou assumir o cargo de Ministro da Justiça do sujeito diretamente beneficiado pelas suas ações. Fez isso com a naturalidade de quem troca o pijama pela roupa de trabalho.

Mais engraçado ainda foi ver seu “parceiro” de Lava-Jato, Deltan Dallagnol, abandonar a carreira de Procurador da República, para também ele abraçar a carreira política. Lembrando os bons tempos da tabelinha que faziam às escondidas por meio de mensagens no Telegram, o ex-juiz e o ex-procurador parecem ter combinado perfeitamente o timing das suas candidaturas, pois até o partido pelo qual concorrerão será o mesmo (Podemos). Com suas ações combinadas, primeiro no Judiciário, agora na seara política, Moro e Dallagnol destruíram por completo a reputação da operação que comandaram. Levará décadas até que a credibilidade das investigações contra a corrupção possa ser restabelecida depois de terem sido tão abertamente manipuladas em favor dos seus próprios agentes, como ocorreu no caso da Lava-Jato.

4 – A chapa Lula-Alckmin:

Laranja com maçã. Elefante com girafa. A lista de cruzamentos bizarros é bem vasta na língua portuguesa, embora a natureza sabiamente não tenha se aventurado a tentar nenhuma delas. Mas mesmo os que cultuam o vernáculo jamais poderiam imaginar que a rica fauna das comparações esdrúxulas poderia ser enriquecida pela mistura de um Molusco (Lula) com um Picolé de Chuchu (Geraldo Alckmin).

Brincadeiras à parte, nada está certo quanto à reunião dos dois. Rivais em 2006, Lula e Alckmin são tão diferentes no estilo, na trajetória e no projeto político que pouca gente seria capaz de imaginar uma chapa que reunisse ambos para disputar a presidência. O fato, porém, é que as conversas têm corrido. E, se a coisa já vazou pra imprensa, é sinal de que tem gente botando fé nela, a ponto de testar a resposta da opinião pública soltando esse balão de ensaio através de jornalistas amigos.

Embora ninguém tenha falado ainda abertamente nessa possibilidade, subentende-se que o arranjo implicaria a reserva da cabeça de chapa a Lula, com Alckmin correndo como luxuoso coadjuvante na vice. Se isso de fato acontecer, o cenário de resolução da disputa de 2022 no primeiro turno, que hoje é apenas possível, passa a ser o mais provável. Juntando aos votos do PT o eleitorado conservador e limpinho que costuma acompanhar Alckmin, a possibilidade de que não houvesse segunda ronda no ano que vem seria disparado a maior possibilidade.

Haveria, claro, uma grande dificuldade: como passar ao distinto público a mensagem de que dois rivais tão figadais pudessem se reunir numa única chapa para concorrer à presidência? Para quem está familiarizado à marquetagem política brasileira, essa barreira está longe de representar um empecilho de monta. Para além disso, Lula e Alckmin poderiam muito bem se vender como a tão sonhada “frente ampla” contra Bolsonaro, frente ampla que a tal terceira via tem em vão tentado construir há pelo menos um ano. A dupla poderia dizer que estava colocando as suas vaidades políticas de lado para concorrer contra o que seria, no seu entender, o “mal maior”. Numa só tacada, fulminariam Bolsonaro e qualquer outro concorrente da terceira via, seja ele quem for.

O problema desse eventual arranjo não seriam propriamente as eleições, mas o day after do pleito. Assim como as equipes de Fórmula 1, as chapas presidenciais costumam ter um “primeiro piloto” (o cabeça da chapa) e um “segundo piloto”(o vice). Reunir Lula e Alckmin numa mesma chapa seria o mesmo que reunir dois “primeiros pilotos” numa mesma equipe. Com dois “titulares” eleitos, não é preciso ser nenhum gênio para imaginar brigas e confusões a partir de 2023. É possível até imaginar rasteiras de ambos os lados, com um querendo derrubar o outro, numa briga fratricida que pode acabar em renúncia ou impeachment, a depender do tamanho da confusão.

Seja como for, o xadrez das eleições do ano que vem já começou a ser jogado. Haverá muita bateção de cabeça e gente querendo vender genialidade onde só há besteira. Mas, no cenário em que estamos, se ninguém se aventurar a derrubar as peças e acabar com o jogo, já poderemos nos considerar no lucro.

Entendedores entenderão…

Publicado em Política nacional | Com a tag , , , | 2 Comentários

Trilha sonora do momento

Êêê, Vasco da Gama….

Publicado em Trilha sonora do momento | Com a tag , , , | Deixe um comentário

Pensamento do dia

Eu não sei muito bem o que quero ser, mas sei exatamente no que não quero me tornar.

By Friedrich Nietzsche

Publicado em Pensamentos do dia | Com a tag , , , | Deixe um comentário

A importância dos códigos de linguagem, ou O grande problema das fake news

Fake news é o termo da moda. Desde pelo menos 2018, não há um só dia em que não ouçamos pelo menos umas três vezes essa expressão. Ela pode ser citada por algum político vigarista, por algum jornalista reportando alguém mentindo na cara dura ou mesmo na nossa velha e boa corrente do Zap do dia-a-dia. Seja como for, a questão está absolutamente inserida do cotidiano e é difícil simplesmente ignorar o assunto, como se o problema não existisse.

Nesta semana mesmo, o Tribunal Superior Eleitoral viu-se às voltas com essa problemática. Julgando o caso de um deputado federal, eleito pelo Paraná, que propagara mais uma daquelas fake news bizarras sobre as urnas eletrônicas, os ministros do TSE não tiveram dúvida: passaram o mandato do sujeito na lâmina. Pela primeira vez na história, alguém eleito pela população perdeu o mandato recebido pelo sufrágio por conta da difusão de inverdades conhecidas.

Entretanto, não é exatamente pelos aspectos jurídicos da questão que se quer tratar neste post, muito menos de suas repercussões políticas. A despeito de, hoje, as fake news estarem indelevelmente associadas à extrema direita, o fenômeno não conhece fronteiras ideológicas. Muito pelo contrário. Só quem é muito novo ou muito desmemoriado pode olvidar o que o PT fez, por exemplo, com Marina Silva em 2014. Acusada de maneira esdrúxula de querer “tirar a comida do prato do povo”, a ex-líder seringueira definhou nas pesquisas até ser ultrapassada por Aécio Neves, que viria a perder de Dilma Rousseff no segundo turno daquela eleição. Vítimas da famigerada “mamadeira de piroca” no pleito seguinte, os petistas nada mais fizeram do que experimentar do seu próprio veneno.

Embora as repercussões políticas sejam indiscutivelmente o tema do momento quando se fala de fake news, o fato é que o dano causado pela propagação dessa espécie de desinformação é muito pior e mais profundo do que a grande mídia consegue analisar. Numa abordagem até mais simples do ponto de vista formal, o grande problema das fake news é que ela atinge o âmago de uma das coisas mais fundamentais em qualquer sociedade: os códigos de linguagem.

Imagine, por exemplo, que você quer pintar o portão da sua casa. Sua mulher prefere o verde escuro, para combinar com as plantas que ornam o jardim. Você, por sua vez, prefere o velho e tradicional preto, porque a tinta é mais barata e “preto vai com tudo”. Independentemente das preferências pessoais de vocês dois, para que um acordo seja alcançado, é necessário antes estabelecer um parâmetro fundamental: concordar com a designação das próprias cores. Se sua mulher diz que o preto é laranja e você diz que o verde é amarelo, toda a discussão perde o sentido e não vai se chegar a lugar nenhum, pelo simples fato de que não houve acordo quanto a uma pré-condição essencial da escolha: o que se entende por “verde” e “preto”.

O exemplo pode parecer banal e até certo ponto idiota, mas é exatamente isso que as fake news produzem no dia-a-dia sem que percebamos. Elas desmontam as estruturas de linguagem de tal maneira que tornam absolutamente impossível o diálogo. Pode-se debater por horas a fio se é ou não perda de tempo (e de dinheiro) bilionários gastando os tubos para mandarem gente comum ao espaço, mas se de um lado tem-se um sujeito a defender que a Terra é plana, de que adianta seguir com a discussão?

E olha que esse nem é um exemplo extremo. Os terraplanistas podem defender até o fim dos tempos a quadratura do círculo, mas dificilmente causarão mal a alguém fazendo isso (salvo quem queira se aventurar em algum cruzeiro destinado a visitar a borda da Terra plana). Mas o que dizer de gente que defende que há “vachinas” que vêm com chip para implantar em seu corpo? Ou mesmo quem sai por aí espalhando que vacina contra Covid causa AIDS? Cada pessoa que deixa de tomar vacina por conta desse tipo de piada de mau gosto arrisca não somente a sua vida, mas potencialmente a de todos os vacinados, dado o risco de surgimento de alguma variante que escape à proteção vacinal.

Obviamente, a única solução definitiva para esse tipo de caso seria educação. E não qualquer educação, como aquelas de decorar fórmulas matemáticas ou entender a função de uma oração coordenada sindética adversativa. Muito pelo contrário. A educação apta a enfrentar com sucesso um mundo infestado de fake news é somente aquela capaz de desenvolver o raciocínio crítico do sujeito, de maneira que o cidadão se torne capaz de pensar por si mesmo, sem depender de ninguém que lhe diga o que determinado fato é ou representa.

Todavia, como ainda estamos muito distantes desse cenário, resta-nos apenas tentar mitigar as consequências indesejadas dessa verdadeira onda de desinformação que vivemos.

Como?

Bem, se você chegou até este espaço e leu este texto até o fim, você já sabe muito bem qual é o caminho…

Publicado em Variedades | Com a tag , , , | Deixe um comentário

Trilha sonora do momento

Com a partida do grande Gilberto Braga, o Brasil ficou um pouco mais pobre, cultural e intelectualmente.

Como pequena homenagem a esse grande autor, aí vai uma montagem da canção de abertura de uma de suas melhores novelas, com Gal Costa cantando o imortal Cazuza, um retrato perfeito e acabado – música e novela – destes tristes trópicos…

Publicado em Trilha sonora do momento | Com a tag , , , | Deixe um comentário