A importância dos códigos de linguagem, ou O grande problema das fake news

Fake news é o termo da moda. Desde pelo menos 2018, não há um só dia em que não ouçamos pelo menos umas três vezes essa expressão. Ela pode ser citada por algum político vigarista, por algum jornalista reportando alguém mentindo na cara dura ou mesmo na nossa velha e boa corrente do Zap do dia-a-dia. Seja como for, a questão está absolutamente inserida do cotidiano e é difícil simplesmente ignorar o assunto, como se o problema não existisse.

Nesta semana mesmo, o Tribunal Superior Eleitoral viu-se às voltas com essa problemática. Julgando o caso de um deputado federal, eleito pelo Paraná, que propagara mais uma daquelas fake news bizarras sobre as urnas eletrônicas, os ministros do TSE não tiveram dúvida: passaram o mandato do sujeito na lâmina. Pela primeira vez na história, alguém eleito pela população perdeu o mandato recebido pelo sufrágio por conta da difusão de inverdades conhecidas.

Entretanto, não é exatamente pelos aspectos jurídicos da questão que se quer tratar neste post, muito menos de suas repercussões políticas. A despeito de, hoje, as fake news estarem indelevelmente associadas à extrema direita, o fenômeno não conhece fronteiras ideológicas. Muito pelo contrário. Só quem é muito novo ou muito desmemoriado pode olvidar o que o PT fez, por exemplo, com Marina Silva em 2014. Acusada de maneira esdrúxula de querer “tirar a comida do prato do povo”, a ex-líder seringueira definhou nas pesquisas até ser ultrapassada por Aécio Neves, que viria a perder de Dilma Rousseff no segundo turno daquela eleição. Vítimas da famigerada “mamadeira de piroca” no pleito seguinte, os petistas nada mais fizeram do que experimentar do seu próprio veneno.

Embora as repercussões políticas sejam indiscutivelmente o tema do momento quando se fala de fake news, o fato é que o dano causado pela propagação dessa espécie de desinformação é muito pior e mais profundo do que a grande mídia consegue analisar. Numa abordagem até mais simples do ponto de vista formal, o grande problema das fake news é que ela atinge o âmago de uma das coisas mais fundamentais em qualquer sociedade: os códigos de linguagem.

Imagine, por exemplo, que você quer pintar o portão da sua casa. Sua mulher prefere o verde escuro, para combinar com as plantas que ornam o jardim. Você, por sua vez, prefere o velho e tradicional preto, porque a tinta é mais barata e “preto vai com tudo”. Independentemente das preferências pessoais de vocês dois, para que um acordo seja alcançado, é necessário antes estabelecer um parâmetro fundamental: concordar com a designação das próprias cores. Se sua mulher diz que o preto é laranja e você diz que o verde é amarelo, toda a discussão perde o sentido e não vai se chegar a lugar nenhum, pelo simples fato de que não houve acordo quanto a uma pré-condição essencial da escolha: o que se entende por “verde” e “preto”.

O exemplo pode parecer banal e até certo ponto idiota, mas é exatamente isso que as fake news produzem no dia-a-dia sem que percebamos. Elas desmontam as estruturas de linguagem de tal maneira que tornam absolutamente impossível o diálogo. Pode-se debater por horas a fio se é ou não perda de tempo (e de dinheiro) bilionários gastando os tubos para mandarem gente comum ao espaço, mas se de um lado tem-se um sujeito a defender que a Terra é plana, de que adianta seguir com a discussão?

E olha que esse nem é um exemplo extremo. Os terraplanistas podem defender até o fim dos tempos a quadratura do círculo, mas dificilmente causarão mal a alguém fazendo isso (salvo quem queira se aventurar em algum cruzeiro destinado a visitar a borda da Terra plana). Mas o que dizer de gente que defende que há “vachinas” que vêm com chip para implantar em seu corpo? Ou mesmo quem sai por aí espalhando que vacina contra Covid causa AIDS? Cada pessoa que deixa de tomar vacina por conta desse tipo de piada de mau gosto arrisca não somente a sua vida, mas potencialmente a de todos os vacinados, dado o risco de surgimento de alguma variante que escape à proteção vacinal.

Obviamente, a única solução definitiva para esse tipo de caso seria educação. E não qualquer educação, como aquelas de decorar fórmulas matemáticas ou entender a função de uma oração coordenada sindética adversativa. Muito pelo contrário. A educação apta a enfrentar com sucesso um mundo infestado de fake news é somente aquela capaz de desenvolver o raciocínio crítico do sujeito, de maneira que o cidadão se torne capaz de pensar por si mesmo, sem depender de ninguém que lhe diga o que determinado fato é ou representa.

Todavia, como ainda estamos muito distantes desse cenário, resta-nos apenas tentar mitigar as consequências indesejadas dessa verdadeira onda de desinformação que vivemos.

Como?

Bem, se você chegou até este espaço e leu este texto até o fim, você já sabe muito bem qual é o caminho…

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