A importância da poupança interna, ou O que deu errado com a “nova matriz macroeconômica”?

Todo mundo está careca de saber que o país está estagnado. Já vamos pelo terceiro ano de PIB baixo e a grande dúvida é se, no final de 2015, o país terá crescimento pífio ou uma queda geral da produção (o que classicamente chama-se de recessão). E aí todo mundo se pergunta: o que aconteceu com aquele país de 2010, que crescia a taxas chinesas (7,5% a.a) e que prometia desbancar as maiores potências do mundo, mesmo diante da maior crise econômica desde a Grande Depressão?

Intuitivamente, pode-se concluir que, a partir do início do Governo Dilma, alguma coisa desandou. Negar isso é agredir os fatos. Pode parecer cruel comparar o seu desempenho econômico ao do seu antecessor, já que no Governo Lula o Brasil exibia taxas de crescimento que não eram vistas desde os anos 80. No entanto, é difícil explicar como uma governante recebe o país com um PIB chinês e termina seu mandato com um crescimento médio inferior ao medíocre governo Fernando Henrique Cardoso.

A primeira pista para entender o que deu errado passa por investigar a tal da “Nova Matriz Macroeconômica”.

Concebida por Guido Mantega e implementada por Dilma Roussef, esse novo modelo de desenvolvimento nacional passou pelo abandono dos parâmetros estabelecidos no final do Governo FHC e reforçados nos dois mandatos de Lula: superávit fiscal elevado, taxa de inflação estritamente controlada e câmbio flutuante.

A segunda pista passa por entender a importância da poupança como pressuposto para o crescimento econômico.

Do ponto de vista macroeconômico, nenhuma economia consegue crescer se não houver dinheiro disponível para investimento. É esse dinheiro que permite aumentar a base de produção e, com isso, a renda geral, sem que se produza como efeito colateral o aumento da inflação (que normalmente ocorre quando a demanda aumenta sem a respectiva contrapartida na oferta). Por isso, um crescimento econômico sustentável depende de uma sintonia fina entre consumo em expansão – movimentando a atividade produtiva – e aumento da poupança – que garante o incremento da produção para fazer frente ao aumento do consumo.

Não há cálculos exatos que permitam cravar quantos % de poupança devem ser feitos para X% de crescimento. Grosso modo, Estima-se que, para cada 5% de crescimento do PIB, são necessários 25% de poupança para financiar esse crescimento. Esse seria o montante suficiente para fazer com que o país cresça o bastante sem produzir inflação.

Só que aí surge o problema: de onde tirar esses 25% do PIB de poupança?

Historicamente, o Brasil nunca poupou dinheiro. Melhor explicando, o brasileiro comum não é um sujeito poupador. Pelo contrário. É gastador por natureza. Nossa taxa de poupança sempre foi muito baixa, em torno de 17% do PIB. Mesmo na época do Milagre Econômico, quando se crescia a dois dígitos anuais, a taxa de poupança não superava os 21% do PIB.

Uma solução para compensar o déficit de poupança seria o Governo cortar gastos para fazer ele próprio a economia necessária para financiar o restante da economia. Tomando, por exemplo, uma poupança dos agentes privados da ordem de 20% do PIB, se o Governo tivesse um superávit em suas contas de 5% do PIB, teríamos os 25% necessários para crescer, sem problemas, a 5% ao ano.

Outra alternativa seria recorrer à chamada poupança externa. Usando o mesmo exemplo anterior, se o conjunto da economia poupar 20% do PIB e o Governo não guardar nada, o país precisaria de 5% do PIB em dinheiro externo para financiar seu crescimento.

O problema é que, desde sempre, ninguém nunca quis correr o risco social de produzir poupança pública. Como governar sempre esteve associado a “investimentos do Governo”, cortar gastos sempre foi visto como suicídio político. A alternativa, portanto, era recorrer ao financiamento externo.

Recorrer à poupança externa, todavia, não é exatamente uma solução. Isso porque ela não é uma fonte segura de financiamento. Como o país se endivida em moeda estrangeira, o credor quer ter a garantia de que vai receber depois o que emprestou. Se a conta subir muito, a fonte tende a secar. Quando isso acontece, o resultado é um déficit gigantesco no balanço de pagamentos, queda da atividade econômica e elevação da inflação.

Somando 2 com 2, conclui-se que o que deu errado com a “Nova Matriz Macroeconômica” brasileira foi o fato de ela ignorar aspectos essenciais do comportamento dos agentes econômicos do Brasil. Como bem observou o ex-ministro Luís Carlos Mendonça de Barros, visto que o brasileiro não poupa como um chinês, ou o Governo “mudava de povo”, ou cortava na própria carne, para criar a taxa de poupança necessária ao sustento das taxas de crescimento da Era Lula.

Uma vez que isso não foi feito, estamos agora revivendo – embora em condições muito menos dramáticas – a mesma crise pela qual passou o Brasil no meio da década de 80. O déficit externo aproxima-se perigosamente do limite prudencial de 5% do PIB, a economia está estagnada e a inflação, próxima ao teto da meta.

A guinada de 180 graus de Dilma Roussef na economia, com a nomeação de um Chicago Boy como Joaquim Levy, tem a ver, portanto, com a caída na real resultante do fracasso indisfarçável desse novo modelo macroeconômico. Resta, então, conferir se a mudança realmente veio pra valer.

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5 respostas para A importância da poupança interna, ou O que deu errado com a “nova matriz macroeconômica”?

  1. Mourão disse:

    No regime capitalista, se toda vez que houve ou que houver mudança de rumo significar fracasso, o próprio regime teria fracassado centenas e centenas de vezes ao longo dos sáculos. É comum no capitalismo ocorrerem crises cíclicas, na Europa e nos EUA, desde 2008 a tônica, a tônica vem sendo a estagnação, em alguns países de forma dramática com alto índice de desemprego e crescimento negativo do PIB. Não digo que o modelo brasileiro fracassou, bem pelo contrário, temos conseguido passar pela crise sem grandes danos, porém se esgotou e precisa revisto, com vigor e realismo, mas sem o pessimismo que só interessa aos derrotistas e especuladores. Não me refiro, no caso, ao blog, apenas estou nele me inspirando para fazer as observações.

    • arthurmaximus disse:

      Que o regime capitalista exibe fracassos retumbantes, ninguém discute, Comandante. O caso que o senhor citou, por exemplo, representa uma das quedas mais espetaculares de uma política econômica fracassada (nesse caso, por conta da irresponsabilidade na concessão de créditos e na excessiva desregulamentação financeira. Do meu ponto de vista, o caso da “Nova Matriz Econômica” não é uma queda tão espetacular – até porque o Brasil não é um país tão importante assim. No entanto, isso não invalida a conclusão de que ela fracassou. Do contrário, não teria a presidente demitido Guido Mantega ainda durante a campanha eleitoral e nomeado um sujeito que representa o exato oposto do que ela e seu antigo ministro da Fazenda pensavam. Acho que é isso. Um abraço.

  2. Elton disse:

    A exuberância dos resultados econômicos do governo Lula, fez com que o PT imaginasse que tinha um modelo vitorioso de condução da economia. Isso fez com que o governo Dilma negligenciasse fundamentos básicos da economia. Perdeu-se muito tempo negando o problema, culpando a imprensa em detrimento de mapear os erros e buscar soluções.

    • arthurmaximus disse:

      Exatamente, Elton. Seu diagnóstico está corretíssimo. Perdemos pelo menos meia década em função das irresponsabilidades fiscais patrocinadas por um governo míope do ponto de vista macroeconômico. É uma pena… Um abraço.

  3. Pingback: O piripaque do teto de gastos, ou A importância de uma âncora fiscal | Dando a cara a tapa

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