Não tenho a menor pretensão de ser gênio. Já tenho problemas demais tentando ser uma pessoa comum.
By Albert Camus
Não tenho a menor pretensão de ser gênio. Já tenho problemas demais tentando ser uma pessoa comum.
By Albert Camus
Se na política nacional pouca coisa andou desde o 1º de janeiro (excetuando, é claro, o dia 8 do mesmo mês), na política internacional já é possível dizer que bastante coisa está diferente em relação ao que ocorria no desgoverno Bolsonaro. Antes reduzido “orgulhosamente” à condição de pária, o Brasil voltou ao mundo, assim como os Estados Unidos voltaram quando Trump tomou o caminho da Flórida.
Em pouco mais de quatro meses de governo, Lula já recebeu e/ou foi recebido por mais chefes de Estado do que Bolsonaro em quatro anos. Pela ordem de grandeza, Lula já tratou pessoalmente com os líderes de Estados Unidos, China e União Européia. Mais que isso, Lula retomou as relações praticamente rompidas do Brasil com a Argentina, seu maior vizinho e parceiro histórico. Não é nada, não é nada, já se pode dizer que temos pelo menos relações normalizadas com o restante do planeta, mercadoria que andou em falta no quadriênio demencial de Ernesto Aráujo, quando o país ficou quase na condição de uma “sub-Coréia do Norte”.
No entanto, como diria Bentinho em Dom Casmurro, vida diferente não quer dizer vida melhor; é outra coisa. Se é verdade que hoje o Brasil não é mais espinafrado e olhado com desprezo pela comunidade internacional, também é verdade que a maior parte da nossa agenda internacional permanece travada por interesses vários e incompetência nossa.
Lula foi aos Estados Unidos e, fora as fotos com Joe Biden, voltou de mãos abanando. Logo ele, que prometera US$ 20 bi para que o Brasil “parasse de destruir a floresta”, deu apenas mirrados US$ 50 mi para o Fundo Amazônia. Da China, Lula voltou com 13 promessas firmadas, mas, como a experiência chinesa ensina, convém colocar as barbas de molho. Dilma foi à China em seu primeiro mandato e de lá voltou com a promessa de instalação de uma fábrica de semicondutores e a produção nacional de Iphones. Mais de uma década depois, os brasileiros continuam comprando Iphones fabricados na China. Quanto ao acordo União Européia-Mercosul, bem… os europeus prometeram a assinatura para, quem sabe, o final deste ano. Isso, claro, se não chover…
Para além dos poucos resultados práticos de suas investidas internacionais, o fato é que Lula não parece ter definido um rumo claro de para onde deseja levar o país na arena internacional. Quem sabe incensado pelo bando de acólitos a puxar-lhe diuturnamente o saco, Lula parece ter enxergado numa miragem a possibilidade de ser nomeado ao Nobel da Paz. Só isso pode explicar a maneira atabalhoada com a qual pretendeu entrar de árbitro no conflito entre Rússia e Ucrânia.
Sem ter qualquer lugar de fala no conflito – pois o Brasil não é uma potência militar mundial, não é aliado e nem sequer principal parceiro comercial de qualquer das partes -, o presidente brasileiro achou por bem dizer que a “culpa” pelo conflito era dos dois, só para logo depois ser obrigado a voltar atrás e reconhecer a responsabilidade russa pela guerra. Pra piorar, Lula ainda sentiu-se à vontade para distribuir caneladas nos Estados Unidos e na União Européia, responsabilizando ambos pela continuidade do conflito. No meio dessa metralhadora verbal, sobrou até para o dólar, como se o status dominante da moeda derivasse de algum capricho norte-americano, e não de condições históricas e macroeconômicas que simplesmente impõem as verdinhas como reserva de valor mundial.
É claro que o Brasil não irá a lugar algum atiçando os brios de seus principais parceiros, muito menos repetindo raciocínios toscos, baseados em um esquerdismo infanto-juvenil que já era velho e ultrapassado no milênio passado, quanto mais na segunda década do século XXI. Para negociar com a China, o país não precisa bater nos Estados Unidos e na Europa. Pelo contrário. Quando Henry Kissinger propôs a Richard Nixon trazer a China maoísta de volta ao mundo, ele sabia muito bem qual era seu plano de vôo. A triangular diplomacy pretendia fincar uma estaca no meio da aliança comunista entre Rússia e China, de modo a obter os melhores acordos possíveis tanto de uma quanto da outra.
Se é isso que Lula pretende, beleza. Tempo ainda há, de sobra. Mas é preciso pensar mais antes de falar, arquitetar mais antes de pensar, e, antes de tudo, ter a exata noção do tamanho do é que você calça. Do contrário, toda a simpatia que o seu governo ganhou gratuitamente pelo simples fato de não ser o governo Bolsonaro está arriscado a perder-se em um mundo inútil de intrigas e vaidades.
E como ontem foi aniversário da Revolução dos Cravos, vamos homenagear nossos patrícios da terrinha com o clássico de Amália Rodrigues.
Nenhuma quantidade de evidências é suficiente para persuadir a mente de um idiota.
#FicaaDica
Quem não é do Nordeste provalmente não tem idéia do que o povo pernambucano representa na região. Só quem é daqui pode entender a real dimensão desse curioso espécime da fauna brasileira no contexto nordestino. Admirado por uns, invejado por outros e odiado por todos, o pernambucano é um ser irascível e naturalmente irritadiço.
Inconformado por natureza, o pernambucano nasceu para reclamar. Sua fala direta às vezes choca quem não está acostumado a tamanha sinceridade. Não é raro um forasteiro se abismar com aquilo que parece uma discussão acalorada entre dois pernambucanos, quando, na verdade, eles estão apenas argumentando com seu jeito próprio de ser. Foi o que aconteceu com Joana.
Joana, que conhecia a terra mas jamais a visitara, foi levada por Kadu, seu namorado, um pernambucano exilado na Bahia. Chegando no fim da tarde, o estômago de ambos já roncava o suficiente para mover o restante do corpo em busca de comida, embora a fome não fosse suficientemente grande para justificar um jantar às 17h30m. Kadu, então, teve a idéia de levar Joana para comer o velho e bom “cai-duro”.
Em um determinado estabelecimento comercial, vendiam-se espetinhos, daqueles que a gente come com farofa, à moda neanderthal. Havia duas opções: bovino e suíno. Enquanto batiam um papo, o casal não via o tempo passar. Depois de uns 3 minutos de conversa, os forasteiros perceberam que a fila não andava. À sua frente, duas mulheres e uma dúvida existencial: “Será que eu escolho bovino? Ou será que escolho suíno?”
No Ceará, por exemplo, a “indignação” com a demora alheia não vai além de um pigarro forçado com a garganta, em um tom levemente acima do ordinário. Na Bahia, como a pressa não combina com o nativo do estado, nem o pigarro mais alto dá as caras. Mas, como você deve estar lembrado, nós estamos em Pernambuco. E sim, havia um pernambucano na fila.
Como prosseguisse a discussão interminável entre bovino e suíno entre as duas amigas, trinta segundos depois um membro local da comunidade – que estava posicionado atrás de Kadu e Joana – irrompeu em um brado estridente: “Oh, minha senhora, escolha logo esse negócio!!! Não tenho o dia todo pra ficar aqui esperando, não!!!”
As duas mulheres escolheram o espetinho bovino e saíram caminhando depois, como se nada tivesse acontecido.
E foi assim que Joana foi apresentada à fila pernambucana.
Eu não o consultei antes, mas tenho certeza de que o Chico aprovaria essa música para ser a trilha sonora do dia em que ele, finalmente, recebeu o Prêmio Camões.
Ser adulto é como estar constantemente tentando dobrar um lençol de elástico.
E já que hoje é feriado de Tiradentes, nada melhor do que recordar esse post de dez anos atrás.
Porque, quem sabe, um dia o Nordeste terá o espaço que merece na historiografia nacional…
Publicado originalmente em 23.4.13
No Brasil, é assim: feriado só é lembrado se cai em dia de semana. Isso porque o sujeito lembra a possibilidade de ficar um dia de papo pro ar ou, na melhor das hipóteses, caindo na sexta ou na segunda, ele pode emendar o final de semana e curtir uma pequena viagem de férias. Mas, quando ele cai no sábado ou no domingo, ele só será lembrado em forma de lamento: “Bem que poderia ter caído na terça ou na quinta…”
Exemplo evidente do que estou dizendo ocorreu no último domingo. Pra maioria das pessoas, foi apenas um domingo como outro qualquer. Pouca gente se lembrou, mas domingo foi dia 21 de abril, data de homenagem a Tiradentes, o mártir da Independência. Na imprensa, quase ninguém também deu cabimento à data, salvo para registrar que o Ministro Joaquim Barbosa fora a Minas Gerais para discursar em um evento comemorativo da data.
De minha parte, o evento com a participação de Joaquim Barbosa serve de mote para revisitar um dos temas mais mal ensinados da História do Brasil: a Inconfidência Mineira.
Quem estudou História do Brasil, certamente se lembra da trágica história de Tiradentes. É capaz de citar seu nome completo (Joaquim José da Silva Xavier) e até mesmo de dizer quem foi o X9 responsável pela delação do movimento (Joaquim Silvério dos Reis). No entanto, a mesma pessoa provavelmente será incapaz de dizer quem foram os líderes da Revolução Pernambucana de 1817 ou da Confederação do Equador, em 1824. Sabinada e Balaiada, então, devem ser apenas parentes distantes da rabada e da feijoada; algum tipo de prato exótico do Nordeste. Por que isso acontece?
Em primeiro lugar, a Inconfidência Mineira conta com a precedência histórica. A conjuração dos mineiros foi o primeiro movimento declaradamente autonomista da história brasileira. Revoltas antes dela houve muitas. Mas a maioria desses movimentos dizia respeito a brigas por interesses locais – a Guerra dos Mascates, em Pernambuco, ou a Revolta de Beckman, no Maranhão, por exemplo. Mesmo a revolta de Felipe dos Santos, que também teve lugar nas Minas Gerais, reclamava contra a exploração colonial, mas nenhuma delas se propôs a transformar o Brasil em uma nação independente. Sob esse ponto de vista, o lugar da Inconfidência na História do Brasil é exato.
No entanto, muitos outros aspectos levam a crer que a Inconfidência Mineira é, por assim dizer, overrated.
É certo que o martírio de Tiradentes confere à conjuração o toque de heroísmo que falta a alguns dos movimentos emancipacionistas brasileiros. Mesmo assim, o movimento do qual ele fez parte não era exatamente um poço de boas intenções.
Pra começo de conversa, os inconfidentes queriam substituir a monarquia, é verdade, e em seu lugar proclamar uma república. Mas não seria uma república qualquer e, sim, uma república escravagista. Na cabeça do movimento, não estavam representantes das classes mais desfavorecidas, mas a fina flor da elite mineira: proprietários de terra, clérigos e militares. A nenhum deles interessava mudar um sistema de produção que lhes garantia sombra e água fresca, à custa do suor dos escravos, o que confere ao convite a Joaquim Barbosa discursar um quê de cômica ignorância histórica.
Fora isso, depois de vencido o movimento, todo mundo atuou para tirar o seu da reta. Dos 12 líderes do movimento condenados por crime de lesa-majestade – ou seja, à morte -, nada menos do que 11 tiveram suas penas comutadas. Apenas um ficou para pagar o pato. Justamente aquele cujas costas não eram suficientemente largas para escapar da forca: Tiradentes. Não custa lembrar que Joaquim José da Silva Xavier era um reles alferes, um suboficial, soldado raso, mesmo. Ostentasse ele quatro estrelas nos ombros, possivelmente hoje não teríamos o feriado de Tiradentes.
Mas a que se deve essa superavaliação da Inconfidência Mineira?
Sem dúvida, o cruel martírio de Tiradentes tem seu peso. Nesse aspecto, pelo menos a história fez justiça ao atribuir o feriado a ele próprio, e não ao movimento inconfidente. Minha tese, no entanto, é a de que o estudo da história no Brasil padece de “sudestecentrismo”. Estudam-se os movimentos emancipacionistas e republicanos no Sul e Sudeste, mas aqueles ocorridos no Norte e Nordeste são sumariamente esquecidos. A explicação para isso é óbvia: é no Sul-Sudeste que está a maior parte da população, assim como a maior parte da economia do país. A história, portanto, segue o dinheiro.
Por exemplo: conhece-se a fundo os meandros da Inconfidência Mineira. Todavia, são poucos aqueles capazes de dizer algum detalhe sobre a Confederação do Equador, um movimento muito maior, que envolveu 4 províncias (Pernambuco, Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba) e exigiu do Império a formação de um exército de 1200 homens para debelá-la.
Da mesma forma, muita gente conhece a fundo os lances da Revolução Farroupilha, que virou até minissérie da Globo (A casa das sete mulheres). Mas quase ninguém sabe que a maior batalha campal do Brasil ocorreu no Piauí, nas margens do riacho Jenipapo (Batalha do Jenipapo).
Por fim, aprende-se na escola que o maior sanitarista do Brasil foi Oswaldo Cruz, porque erradicou a febre amarela e a varíola no Rio de Janeiro. Sem dúvida, Oswaldo Cruz foi um grande sanitarista. Mas terá sido maior do que o baiano Rodolfo Teófilo, um homem que, quase sozinho, fez a mesma coisa na Fortaleza do começo do século XX?
Quem quiser estudar um pouco mais sobre a Inconfidência Mineira – e derrubar outros mitos que a cercam – sugiro a leitura de “A Devassa da Devassa”, de Kenneth Maxwell. Leitura de primeira, com o bônus de se compreender melhor o Brasil entre meados do século XVIII e inícios do XIX.
O álcool não dá futuro, mas oferece um passado inesquecível.